13.12.19

PARA QUE SERVE O YOGA – A Mãe, do Sri Aurobindo Ashram


Pergunta: Para que serve o yoga?
Para que você quer o yoga? Para ter poder? Para ter paz e calma? Para servir a humanidade? Nenhum desses motivos é suficiente para mostrar que você está pronto para o Caminho. A pergunta que você tem de responder é esta: Você quer o yoga para o bem do Divino? É o Divino o fato supremo de sua vida, de tal modo que é impossível viver sem ele? Você sente que sua razão de ser é o Divino e que não há sentido em sua existência sem ele? Se for assim, então pode-se dizer que você tem um chamado para o Caminho.

Esta é a primeira coisa necessária – aspiração pelo Divino. A coisa seguinte que você deve fazer é cuidar dessa aspiração, mantê-la sempre alerta e desperta e viva. E para isso requer-se concentração – concentração no Divino com o objetivo de uma absoluta consagração a sua Vontade e Propósito.

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Concentre-se no coração. Entre nele, cada vez mais profundo, o mais que puder. Junte todos os fios de sua consciência que estão espalhados e mergulhe. Ali queima um fogo, na profunda quietude do coração. É a divindade em você – seu verdadeiro ser. Ouça sua voz, siga o que ela diz.

Existem outros centros de concentração, por exemplo, um sobre a cabeça e outro entre as sobrancelhas. Cada um tem sua propria eficácia e lhe dá um resultado particular. Mas o ser central está no coração e do coração provêm todos os movimentos e todo o dinamismo, a urgência da transformação e poder de realização.     

Pergunta: O que fazer para se preparar para o Yoga?  

Seja consciente, em primeiro lugar. Somos conscientes de apenas uma porção insignificante de nosso ser; somos inconscientes da maior parte. É a inconsciência que mantém nossa velha natureza e evita a mudança e a transformação nela. É através da inconsciência que forças não divinas entram em nós e nos fazem seus escravos. Você deve estar consciente de si mesmo, deve estar desperto para sua natureza e seus movimentos, deve saber por que e como faz as coisas, ou as sente ou pensa nelas. Você deve entender seus impulsos e motivos, as forças escondidas e aparentes que o movem.

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Estando consciente, pode ver as forças que o puxam para baixo ou as que o ajudam. E quando souber o certo e o errado, o verdadeiro e o falso, o divino e o não divino, deverá agir de acordo com esse conhecimento, isto é, rejeitar um e aceitar o outro. A dualidade se apresentará a cada passo e a cada passo você terá que fazer sua escolha. Terá que ser paciente, persistente e vigilante; deverá sempre recusar-se a dar qualquer oportunidade para o não divino contra o divino.

Pergunta: Quais são os perigos do Yoga?

Tudo depende do espírito com que você o aborda. O Yoga se torna perigoso se você quiser praticá-lo com um objetivo egoísta, para servir a uma finalidade pessoal. Não é perigoso se você abordá-lo com um sentido de ser sagrado, sempre lembrando que o objetivo é encontrar o Divino.

Perigos e dificuldades vêm quando as pessoas praticam o Yoga, não pelo Divino, mas porque querem adquirir poder e sob o disfarce do Divino buscam satisfazer alguma ambição. Se você não puder se libertar da ambição, não toque a coisa. Ela é fogo que queima.

Existem dois caminhos de Yoga, um de disciplina e o outro de entrega. O caminho da disciplina é árduo. Aqui você confia apenas em si mesmo, prossegue com sua própria força. Você sobe e conquista de acordo com a medida de sua força. Há sempre o perigo de queda. E uma vez caído, fica em pedaços no abismo e dificilmente consegue recuperar-se.

O outro caminho, o da entrega, é seguro e certo. É aqui que os ocidentais encontram sua dificuldade. Eles foram ensinados a temer e evitar tudo que ameaça sua independência pessoal. Beberam com o leite de suas mães o sentido da individualidade. E entrega significa abandonar tudo isso.

Em outras palavras, você pode seguir, como diz Ramakrishna, o caminho do macaquinho ou o caminho do gatinho. O macaquinho se segura em sua mãe para ser levado, e deve segurar firme, do contrário cairá. Por outro lado, o gatinho não segura sua mãe, mas é segurado por ela e não tem medo ou responsabilidade; ele nada tem a fazer senão deixar a mãe leva-lo e chorar:  ma ma.

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Se você tomar o caminho da entrega de maneira total e sincera, não há mais perigo ou dificuldade séria. A questão é ser sincero. Se você não for sincero, não comece o Yoga. Se você lida com assuntos humanos, pode recorrer à fraude; mas ao lidar com o Divino, não há qualquer possibilidade de fraude. Você pode seguir com segurança no Caminho quando for cândido e totalmente sincero e quando seu único objetivo é realizar o Divino e ser movido pelo Divino.

Existe um outro perigo; está na conexão com os impulsos sexuais. O Yoga em seu processo de purificação vai expor à luz e jogar para cima todos os impulsos e desejos escondidos em você. E você deve aprender a não esconder as coisas nem deixá-las de lado, tem de encará-las e conquistá-las.

Entretanto, o primeiro efeito do Yoga é retirar o controle mental, de modo que os desejos latentes são de repente liberados, sobem e invadem o ser. Enquanto esse controle mental não for substituído pelo controle Divino, há um período de transição no qual sua sinceridade e entrega serão testadas.

A força de tais impulsos, como os do sexo, está no fato de as pessoas se preocuparem demais com eles; elas protestam e procuram controlá-los à força, os prendem no interior e sentam-se sobre eles. Mas quanto mais você pensa em algo e diz, “Não quero, não quero”, mais você se liga a isso. O que você deve fazer é manter a coisa longe de si, dissociar-se dela, permanecer indiferente e sem preocupar-se com ela.

Os impulsos e desejos que sobem pela pressão do Yoga devem ser encarados com um espírito de desapego e serenidade, como algo estranho a si mesmo ou pertencendo ao mundo exterior. Devem ser oferecidos ao Divino, para que o Divino possa tomá-los e transmutá-los.
    
Se alguma vez você se abriu ao Divino, se o poder do Divino alguma vez desceu em você, e mesmo assim você tenta manter as velhas forças, prepara problemas, dificuldades e perigos para si. Deve estar vigilante e cuidar para que não use o Divino como um disfarce para a satisfação de seus desejos.

Existem muitos Mestres auto-designados que não fazem outra coisa. E quando você sai do caminho correto e tem um pouco de conhecimento e não muito poder, é agarrado por seres ou entidades de um certo tipo, torna-se um instrumento cego nas mãos desses seres e é devorado por eles no fim.

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Onde houver fingimento, há perigo; você não pode enganar a Deus. Você vem a Deus dizendo, “Quero união contigo” e em seu coração pensa “Quero poderes e prazeres”? Cuidado! Está se dirigindo direto para a beira do precipício. Mas é tão fácil evitar toda catástrofe. Torne-se como uma criança, entregue-se à Mãe Divina, deixe-A carregá-lo, e não há mais perigo para você.

Isso não significa que você não tem de enfrentar outros tipos de dificuldades ou que não tem de lutar e conquistar outros obstáculos. A entrega não assegura um progresso contínuo e suave. A razão é que seu ser ainda não é integral, nem sua entrega é absoluta e completa. Apenas uma parte sua se entrega; e hoje é uma parte e no dia seguinte é outra.

Todo o propósito do Yoga é juntar todas as partes divergentes e transformá-las numa unidade. Até então você não pode esperar estar sem dificuldades, tais como a dúvida, a depressão ou a hesitação.

O mundo todo está cheio de veneno. Você o ingere a cada respiração. Se trocar algumas palavras com uma pessoa indesejável ou mesmo se ela meramente passar por você, pode ser contagiado. É o suficiente se você ficar perto de um lugar onde existe uma praga para ser infectado com seu veneno. Você pode perder em poucos minutos o que levou meses para ganhar.

Enquanto você pertencer à humanidade e levar uma vida comum, não importa muito se se mistura às outras pessoas; mas se quer a vida divina, terá de ser muito cuidadoso com sua companhia e seu meio ambiente.

PENSAMENTOS SÃO ENTIDADES VIVAS - A Mãe



As antigas tradições, como a caldéia ou hindu, já ensinavam que os pensamentos são formações: através de seu pensamento um ser humano tem o poder de criar entidades vivas, reais e ativas.

E não se deve pensar que isso só pode ser feito através de alguma prática diferente ou perigosa conhecida como magia. Nada disso. Qualquer pensamento que seja forte e persistente, qualquer desejo que seja muito intenso – o que é também uma forma de pensamento – determina uma formação cuja duração e poder de ação dependerão da força e intensidade do pensamento ou desejo que lhe deu nascimento. 


Unindo nossos pensamentos em torno de uma ideia pura e elevada, criamos uma atmosfera mental luminosa e forte.

Pensar em alguém é estar perto dessa pessoa. Onde quer que duas pessoas estejam, mesmo se separadas por milhares de quilômetros, se pensam uma na outra, estarão  juntas de modo muito real. Portanto, a separação não existe, é uma aparência ilusória. Estamos sempre perto da pessoa que amamos e em quem pensamos. Experimente esta comunhão mental e verá que não há razão para tristeza.   

A cada manhã, quando se levantar, saúde os salvadores da humanidade que sempre têm vindo, e continuarão a vir até o fim dos tempos, como guias e instrutores, como servidores humildes e maravilhosos de seus irmãos, a fim de ajudá-los a alcançar a perfeição. Assim, quando acordar, concentre neles seu pensamento de confiança e gratidão e logo experimentará os efeitos benéficos desta concentração. Você sentirá a presença deles respondendo a seu chamado,  ficará cheio de sua luz e amor.

A INFLUÊNCIA DOS PENSAMENTOS - A Mãe, do Sri Aurobindo Ashram

Se você refletir sobre o incalculável número de pensamentos emitidos a cada dia no mundo, verá surgindo perante sua imaginação uma cena terrível, agitada e complexa na qual todas essas formações se entrecruzam e colidem, batalham entre si, sucumbem e triunfam num movimento vibratório que é tão rápido que dificilmente podemos imaginá-lo.

Agora você pode perceber como pode ser a atmosfera mental de uma cidade como Paris, onde milhões de indivíduos estão pensando – e que pensamentos! Você pode imaginar essa fervilhante e instável massa, esse emaranhamento inextricável. Apesar de todas as tendências, vontades e opiniões contraditórias, um tipo de unidade existe entre estas vibrações, pois todas elas, com poucas exceções, expressam desejo, desejo em todas as suas formas, todos os seus aspectos, em todos os planos.

Todos os pensamentos de pessoas de mente mundana, cujo único objetivo é o gozo e diversão do corpo, expressam desejo. Todos os pensamentos de criadores intelectuais ou artistas sedentos por fama, consideração e honra, expressam desejo.

Todos os pensamentos de milhares de empregados e trabalhadores, de todos os oprimidos, os desafortunados, que lutam por alguma melhora em sua existência, expressam desejo.

Todos, ricos e pobres, poderosos e fracos, privilegiados e oprimidos, intelectuais e obtusos, todos querem riqueza, sempre mais riqueza para satisfazer todos os seus desejos.

Se em algum lugar ocasionalmente brilha um pensamento puro e desinteressado, da vontade de fazer o bem, de uma busca sincera pela verdade, ele é rapidamente engolido por essa inundação que rola como um mar de lodo.

No futuro os pensamentos luminosos iluminarão a noite desse planeta, mas no momento estamos vivendo nessa escuridão, pois tanto no domínio físico quanto no mental, nos encontramos num estado de contínuas trocas com o meio ambiente. Isso é para mostrar a você como somos contaminados a cada dia, a cada minuto.



Existem duas vitórias possíveis para serem alcançadas, uma coletiva e outra individual. A primeiro é, digamos, positiva e ativa, e a segunda negativa e passiva. Para se ganhar a vitória positiva é necessário declarar uma guerra aberta de ideia contra ideia, para que os pensamentos que são desinteressados, elevados e nobres batalhem contra aqueles que são egoístas, básicos e vulgares.

Essa é uma luta corpo a corpo, uma batalha de cada minuto que demanda considerável poder e clareza mentais. Para lutar contra pensamentos é necessário, em primeiro lugar, recebê-los, admiti-los dentro de si mesmo, deliberadamente permitir-se ser contaminado, absorver a doença contida neles para melhor destruir o germe mortífero ao curar a si mesmo.

É uma verdadeira guerra na qual a pessoa corre o perigo de perder seu equilíbrio mental a cada minuto – e uma guerra exige guerreiros. Não recomendo essa prática a ninguém. Ela pertence por direito aos iniciados que se prepararam para ela durante longa e rigorosa disciplina, e assim devemos deixar essa luta para eles.

De nossa parte, devemos nos contentar em nos purificar para estarmos livres de toda infecção. Devemos aspirar a uma vitória individual, e se vencermos descobriremos que fizemos mais pela coletividade do que suspeitamos no início. Acendamos dentro de nós mesmos o fogo das antigas vestais, o fogo que simboliza a inteligência divina, que é nosso dever manifestar. É um trabalho que não pode ser conseguido num dia, num mês ou num ano, é um trabalho que exige perseverança.