Há no homem algo mais do que revelam as impressões comuns. Que é esse “algo mais” no homem, que o faz defender esplêndidos ideais e conceber nobres pensamentos? Que presença espiritual dentro de seu coração o instiga a afastar-se da existência banal, puramente terrena, e travar uma luta constante entre o anjo e a fera que habitam em seu corpo?
Quando dizem a nós, homens deste século, que Deus não é apenas uma simples palavra sobre a qual se argumente e discuta, mas um ESTADO DE CONSCIÊNCIA que podemos realizar agora, no corpo, levantamos os olhos, surpresos.
Quando se nos asseguram que temos o Divino dentro de nós e que a Divindade é nosso verdadeiro Ser, sorrimos, indulgentes mas desdenhosos, tomando ares de superioridade.
No entanto, isso não é nem teoria, nem sentimentos: é uma certeza inegável, evidente e absoluta para aqueles que se adiantaram um pouco no caminho da percepção espiritual.
Diante da serena Esfinge, símbolo do verdadeiro ensinamento espiritual, o ocidental arregala os olhos, perplexo. Ele pode construir navios de dimensões descomunais, inventar mais surpreendentes máquinas, transformar nossos lares em mil maravilhas, dotando-os de aparelhos que facilitam e alegram a existência; entretanto é incapaz de fazer uma coisa tão simples: compreender o significado da vida.
Com requinte de detalhes e de provas, demonstramos essa triste linhagem que temos com o símio, porém somos incapazes de nos lembrar de nosso parentesco com o anjo.
Por que não podemos nos aproximar do Cristo, ser semelhantes a Buddha ou conquistar a sabedoria de Platão? É evidente que o podemos! Mas se não cremos nisso apaixonadamente, correremos o risco de permanecer no estado semelhante ao dos animais.
Temo-nos esquecido de nosso Eu espiritual, que entretanto nunca nos esquece em sua eterna vigília. O gênero humano tem a idade que desafia a imaginação; inúmeros seres, homens, mulheres e crianças que surgiram no decorrer dos eons em nosso planeta, depois de haverem desempenhado seu papel, desapareceram sumindo-se no sono eterno.
Os maiores cérebros, intelectos mais brilhantes de nosso tempo, pesquisam afanosamente, em documentos deixados pelas raças de outrora, vestígios de civilizações desaparecidas e segredos de um passado fértil em cataclismos.
Se seguirmos os videntes pelos eons agora penetrando nas mais sombrias regiões da antiguidade pré-histórica, atingiremos um período em que o homem eliminava inteiramente seu corpo de carne e habitava uma forma eletromagnética, um corpo radiante de éter.
Recuando ainda mais, notaremos uma mudança produzir-se em sua natureza interna, em que as paixões, emoções pessoais, sentimentos, desejos, medo, repulsa, ódio, cobiça, luxúria e inveja desapareceram totalmente. Mas em sua consciência ainda atuavam pensamentos, que levantavam ondas na superfície de sua mente e se ligavam à sua vida pessoal.
E assim o fazemos recuar a uma época em que predominam os pensamentos serenos e desaparece a necessidade de pensar numa sequência lógica para adquirir compreensão. Não apenas ele não tinha necessidade da faculdade raciocinadora, mas esta se lhe tornara até um obstáculo. O homem havia alcançado a condição nua do puro Espírito.
Talvez tudo isso seja mais fácil de compreender se dissermos que a raça humana, no decorrer de sua tão extensa história, superpôs um segundo “eu” à natureza individual com que todos os homens principiaram sua peregrinação.
Esse segundo “eu”, geralmente chamado pessoa, veio à existência através da união do Espírito e matéria, através da mistura de partículas da consciência do Eu real, sempre consciente, com as partículas de matéria inconsciente, extraídas do corpo.
Este segundo e último “eu” é aquele que todos conhecemos, o eu pessoal; mas o primeiro e real Eu, que existia antes que o pensar e o sentir aparecessem dentro do ser humano, é aquele que poucos conhecem, que é sutil e não tão evidente, porque nos torna a todos partícipes da natureza da Divindade. Ele vive sobre nossas cabeças, é um ser angelical de inimaginável grandeza e misteriosa sublimidade, e por isso o chamo Super-Eu.
Esta doutrina do verdadeiro “eu” no homem foi admiravelmente definida por um dos antigos videntes da Índia: “Invisível, mas vendo; não ouvido, mas ouvindo; não percebido, mas percebendo; desconhecido, mas conhecendo... Esse é teu Eu, o governante interno, o imortal”.
O materialista jamais se cansa de nos repetir quão tolo é o visionário que tenta agarrar as nuvens, e o Super-Eu sentado no coração do zombeteiro sorri tolerantemente de toda sua tagarelice lógica.
Nas profundezas mais íntimas de nosso Ser é que vivemos a vida real, e não na máscara superficial da personalidade que mostramos. É mais importante o ser vivente do que sua casa de pedra e cal.
O céu nos rodeia não apenas nos inocentes dias da infância, mas em cada instante de nossa vida, ainda que não o notemos. Alguns estão tão perto dessa verdade, que inconscientemente esperam pelo momento milagroso em que lhes será plenamente revelada; basta falar-lhes com o tom apropriado, logo a esperança ilumina suas almas. Essa esperança é a Voz silenciosa do Super-Eu.
Devemos pois procurar humildemente esse Super-Eu através de todos nossos movimentos íntimos, remontando tão longe quanto possível. Somente então veremos que o corpo e o intelecto são apenas os instrumentos que nos possibilitam a percepção de algo maior – testemunha silenciosa, fonte da paz indizível, sabedoria absoluta e vida eterna – o Super-Eu do homem.

