3.9.14

A HISTÓRIA DE DABHRA, O DEVOTO DE SHIVA


Certa vez em Kailasa (morada de Shiva), Párvati (a Mãe Divina, consorte de Shiva) curiosamente perguntou ao Senhor Paramesvara (outro nome de Shiva) enquanto este descansava com Sua cabeça no colo dela: Senhor! Diga-me, por favor, quem é teu devoto favorito: Nandi, Bhringi ou Chandi.

Pasupáti, o Senhor dos seres, passando os dedos nos cachos de cabelos de Párvati, replicou: Mais que qualquer outro, inclusive você, Dabhra Bhakta é o que mais me agrada. Nem posso abençoá-lo o tanto que ele merece.

Chocada com tal revelação, Uma (outro nome da Mãe Divina) pediu uma explicação. Shiva levantou-se, besuntou Seu corpo com cinzas, prendeu seus cabelos e disse, Siga-me e veja por si mesma.E dirigiu-se para o mundo dos homens.

Enquanto isso, em sua cidade Dabhra se preparava para alimentar os devotos de Shiva, uma vez que era o dia auspicioso da estrela Bharani no mês de Chaitra. Uma vez que nenhum devoto se aproximava, ele saiu para encontrá-los.

Neste momento, Shiva apareceu como um Bhairava (um tipo assustador de devoto de Shiva) em sua casa e gritou, Dabhra está em casa? Posso conseguir alguma comida aqui?”

Chandana, a empregada da família, saiu e replicou reverentemente: Por favor, entre. O dono da casa logo estará aqui.A resposta foi: Nós bhairavas não entramos numa casa quando o dono não se encontra. Vou-me embora.”

Então, Sveta, a esposa de Dabhra Bhakta, correu até a porta e suplicou-lhe que ficasse. Repetindo as mesmas palavras de antes, ele acrescentou: Vou descansar no templo de Ganapáti (Ganesha).

Momentos depois, Dabhra retornou desapontado por não encontrar nenhum devoto para alimentar. Sua esposa narrou a ele o que tinha acontecido em sua ausência e pediu-lhe para buscar o devoto, que brilhava como Shiva, e se encontrava no templo próximo.

Ouvindo estas palavras, que eram como néctar, Dabhra correu ao templo e encontrou o Bhairava sentado em Virásana (uma pose da hatha yoga) sob uma figueira. Seu cotovelo se apoiava num yoga danda, o bastão do yogue. Brahma kapala, o crânio que lhe servia de tigela de esmolar alimentos, estava ao lado de sua mão direita, e esta estava ocupada deslizando sobre as contas sagradas do rosário (repetindo mantras). Seu brilho era semelhante ao do próprio sol.

O grande yogue parecia velho, enrugado e um pouco cansado. Dabhra caiu a seus pés e os segurou com devoção. O Bhairava, com um olhar, perguntou: Quem está aí?Encantado com a pergunta, Dabhra replicou: “Embora eu me considere um escravo dos devotos, as pessoas me chamam de Dabhra Bhakta. Tomo refúgio em vós. Abençoe meu lar com o pó de vossos pés e partilhe a comida que servimos.

O Bhairava replicou, Sua fama já alcançou lugares distantes. Você é um símbolo do ditado ‘A caridade começa em casa’. Hoje é Chaitra Bharani, um dia auspicioso. Que grande sorte é ser servido por um verdadeiro devoto! Entretanto, preciso avisá-lo sobre uma coisa um pouco desagradável. Bem, não quero causar problemas a sua família. É melhor me dirigir a outra casa. E assim dizendo levantou-se para partir.

Quando o Bhairava se levantou, Dabhra segurou rapidamente seus pés, e tentando detê-lo suplicou, “Faça prova de mim, meu senhor! Por sua graça serei capaz de satisfazer suas exigências.” O Senhor o interrompeu dizendo, “Espere, espere, eu não como alimentos como leite, manteira, arroz, verduras etc. Nem mesmo frutas apanhadas da árvore celestial Kalpa me agradam. Agora ouça sobre meus hábitos alimentares. Como apenas uma vez a cada seis meses – e como carne! Por certo isto está além do que você pretende arranjar para mim.”

Dabhra rapidamente replicou, “Temos animais jovens em casa. Diga-me qual deles você quer.” O Bhairava pausou um momento e disse, “Bem, o que eu consumo é carne humana – aquela de um garoto de cinco ou seis anos, filho único de seus pais, sem pecados e perfeito fisicamente. Enquanto a mãe o segura em seu colo, o pai deve cortá-lo em pedaços, e ambos não devem sentir a menor tristeza no coração. Após o pai lavar e limpar a carne, a mãe deve cozinhá-la usando pimenta e outros temperos. Apenas gosto deste tipo de comida. Agora, corra para sua esposa e obtenha dela sua aprovação sincera.”

Dabhra correu para sua casa e, aproximando-se dela, colocou o braço a seu redor e explicou-lhe as regras de conduta do Shaiva Dharma (deveres dos devotos de Shiva para com os yogues desta tradição).

Ela logo lhe disse: “Diga logo o que vai pela sua mente.” Então Dabhra narrou as exigências do Bhairava. Sveta fechou seus olhos contemplando o Senhor (Shiva) e replicou, “Se esta é a vontade do Senhor, vá e traga nosso amado filho cuja vida consagraremos ao próprio Senhor.”

Dabhra foi até a escola do guru (na antiguidade as crianças estudavam com um guru versado nas escrituras), onde o menino Sripáti estava meditando. Com a chegada de seu pai, o guru do menino pediu-lhe que recitasse um hino que dizia: “Apenas Shiva é digno de adoração. Os devotos de Shiva são sempre dignos de ser servidos.”

Imensamente satisfeito com a recitação, o guru o abençoou com vida longa e prosperidade. Dabhra, com a permissão do guru, levou o menino e o entregou a sua mãe. Sveta banhou e perfumou o garoto, secou-o com uma toalha e segurando-o em seu colo, chamou seu marido. Dabhra trouxe consigo uma afiada faca e avisou sua esposa: “Não se deixe dominar pela piedade, para não estragar esta oferenda.”

Ele observou o garoto pela última vez e cortou sua cabeça com um só golpe. A cabeça do menino rolou do colo da mãe. Sem perda de tempo, o sangue foi recolhido num vaso, o tronco foi cortado em pedaços e as partes comestíveis foram cuidadosamente removidas e lavadas.

Dabhra entregou a carne para sua esposa, que a temperou e cozinhou. Como a cabeça não se prestava para cozinhar, foi preservada pela empregada Chandana. Então Sveta informou a seu marido que a comida estava pronta e que ele deveria buscar o Bhairava sem demora.

Dabhra correu novamente ao templo e informou ao Bhairava que estava sentado em meditação no mesmo lugar. Então o Bhairava se levantou majestosamente em sua grandeza que inspirava medo. Tomou sua tigela feita de crânio numa mão e com a outra tocou seu damaru (pequeno tamborete que nos retratos de Shiva simboliza o som criador do Universo – OM), que ecoou terrivelmente pela região.

O Bhairava tinha um cinto feito de crânios que se tocavam uns contra os outros à medida que ele andava. As grossas tranças de seus cabelos estavam amarradas no alto da cabeça e fixadas por pequenos crânios. Sua testa, pintada com as marcas de Shiva, parecia mostrar um feroz terceiro olho, enquanto seus dois olhos espalhavam terror e compaixão ao mesmo tempo. À medida que ele andava apoiado em Dabhra, as grandes presilhas de seus tornozelos tilintavam manifestando o primitivo nada — som e vibração cósmicos.

Quando chegaram à casa, Dabhra fez sentar o velho Bhairava e lavou seus pés numa bacia de ouro e prestou-lhe uma adoração ceremonial. Mais tarde, colocando duas grandes bananas ante o Bhairava, Sveta serviu a carne cozida com arroz e verduras.

O Bhairava examinou os alimentos dos pratos e observou, “Vejo que esqueceram de cozinhar a cabeça.” Enquanto o casal se olhava com ansiedade, a empregada Chandana apareceu ali com uma panela e disse, “Esperando isso, cozinhei a cabeça separadamente.”

Sentindo-se grandemente aliviado, o casal disse ao convidado, “Reverendo Senhor, o que vós pedistes foi servido. Comei até estar satisfeito.” Então o Bhairava replicou, “Não me apresse. Nunca como sem companhia.” Ouvindo isso, Dabhra saiu para procurar um segundo convidado e retornou sem encontrar nenhum. Quando o Bhairava sugeriu que o próprio Dabhra poderia acompanhá-lo, ele replicou, “Prefiro esperar que o convidado coma, para servi-lo.”

Ao ser pressionado novamente, Dabhra sentou-se ao lado do convidado. Quando estavam para começar, o convidado observou, “Normalmente os pais alimentam seus filhos primeiro, e até ficam satisfeitos em sacrificar sua própria comida aos filhos. Agora chame seu filho imediatamente e deixe-o comer conosco.”

Em resposta a estas angustiantes palavras, Dabhra disse, “Ele não se encontra mais aqui, por isso por favor continue antes que a comida esfrie.” Entretanto, o Bhairava ordenou-lhe que chamasse seu filho pelo nome. Dabhra, ainda calmo, pediu a sua esposa que o chamasse. Então, Sveta, controlando sua emoção, saiu e gritou: “Sripáti, meu amado filho. Venha imediatamente.”

Esse chamado operou um milagre! Como que aparecendo do nada, Sripáti chegou cambaleando em direção a sua mãe e jogou-se em seus braços. Ela não podia acreditar no que via. Seria este menino outra pessoa? Ela  o beijou. O garoto cheirava aquelas pimentas com que fora temperado. A mãe parou para pensar no que acontecera, mas decidiu esvaziar sua mente em gratidão ao Senhor cujos caminhos são impenetráveis.

O menino lhe perguntou inocentemente, “Mãe, onde fui depois que estive no seu colo?” A mãe o apertou no coração e replicou, “Nenhum lugar, querido!”

Para descobrir a causa da demora, Dabhra saiu e ficou mudo pelo choque que recebeu ao ver a cena. Ele correu para abraçar também seu filho. Quando entraram na casa, não mais viram o Bhairava ou a comida. Então o Senhor Shiva lhes apareceu, enquanto seres celestiais derramavam pétalas perfumadas, e eram ouvidos sons de seus instrumentos divinos.

A família abençoada louvou o Senhor. O compassivo Senhor Paramesvara (Shiva) os abençoou com a libertação do ciclo de nascimentos e mortes (mukti), bem como abençoou sua servidora Chandana também.




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