As escrituras dizem
que yama e niyama (limpeza
física e mental, controle do comportamento e do caráter) são a base do edifício
do yoga. Decidi começar com ahimsa (não-violência), satya (falar a verdade) e
brahmacharya (continência sexual).
Meu amado guru, Sri Swami Sivananda, escreveu
em seus livros que sirshâsana e siddhâsana (posturas da hatha yoga) são as
melhores para o brahmacharya; e que se alguém pode fazer sirshâsana por três
horas, ele desperta sua kundalini shakti, uma vez que seu vírya (sêmen)
é convertido em ojas (força
espiritual).
Comecei imediatamente a praticar. Dia e noite
eu sonhava apenas em converter vírya em ojas e despertar a kundalini. Minha
conversa e minha leitura eram apenas como converter vírya em ojas, como
despertar a kundalini, como ser indiferente ao calor e frio, ao bom e mau, à
dor e prazer. Eu vivia numa estranha mundo meu, totalmente convencido de que
tais práticas poderiam me tornar um yogue e jivanmukta (livre ainda no corpo).
Imaginei que atendo-me meramente ao lado
físico, poderiam ser produzidos resultados espirituais. O desejo de controlar
os sentidos era tão forte que pratiquei continuamente. Senti que nada havia nos
três mundos que pudesse me desviar de minha prática. A mera sugestão de que
algo ajudava ou prejudicava o sádhana (prática espiritual) era o bastante para
que eu adotasse ou renunciasse àquilo.
Eu não tinha hábitos ruins, mas ao ouvir que
eram obstáculos ao sádhana, abandonei o chá preto, o café, açúcar, sal,
pimenta, sem hesitar. Digo isto apenas para mostrar como era forte minha
determinação. Pratiquei rigorosas austeridades, mas os resultados foram poucos,
uma vez que eram de natureza psíquica, e não espiritual.
Nesse estágio, escrevi a meu guru e lhe
perguntei por que minha kundalini não tinha despertado, embora eu fizesse três
horas de sirshâsana por dia. Meu guru respondeu chamando-me de tolo e me
aconselhando a não fazer sirshâsana mais de cinco minutos e a mudar meu sádhana
para a introspecção. Fiquei muito desapontado, e me perguntei: se
isso era yoga, por que as pessoas escreviam diferentemente em livros a
respeito.
Quanto a siddhâsana, eu tinha aprendido que devia praticá-la por seis
horas continuamente, mas ela não me concedeu controle mental e nem o poder de
suportar calor e frio. Apesar disso, todas essas práticas desenvolveram meu
poder da vontade e meu desapego, preparando-me assim para encarar o verdadeiro
sádhana espiritual, que é o esforço para eliminar todos os desejos e tornar-me
humilde e livre do ego.
Obviamente, o estado livre de ego significa
identificar-se com o Eu Universal ou ver todo o universo dentro de si mesmo.
Agora eu buscava a verdadeira espiritualidade, não meramente poderes psíquicos.
Um sádhaka (praticante) pode avançar espiritualmente apenas se seu desapego e
equanimidade mental crescerem e ele se tornar mais humilde. Para isso, todos os
desejos devem ser destruídos, até o próprio ego.
Voltei-me para esse tipo de sádhana por meio
de vichara (auto-indagação). Permaneci em Gangotri (uma região às margens do
rio Ganges) por três anos fazendo sádhana. Além de vichara, eu costumava
meditar nas várias virtudes e tentava adquiri-las. Outra disciplina minha era
tentar ver Deus em tudo.
Um outro obstáculo era o desejo de comer
alimentos saborosos. A fim de controlar esse desejo, decidi nunca comer sozinho;
eu preparava comida para outros sadhus (renunciantes) que viviam também por ali
e partilhava o alimento com eles.
As escrituras dizem que a coragem é um sinal
de ausência de ego, então para testar a mim mesmo fui viver num lugar chamado
Chidvasa, que é totalmente desabitado. Chega-se ali por um caminho através das
montanhas; a vila mais próxima fica a 30 km de distância, e durante o inverno o
local é inacessível devido à neve.
As primeiras semanas foram terríveis. A mente
tentava me convencer a partir e todo tipo de ideia e temores se apresentava em
minha mente. Mas resisti. No lar você pode ver muitas coisas diferentes se sair
de casa, mas ali no inverno não havia nada de novo para ver, apenas a mesma
neve deserta. É por isso que, nos tempos antigos, muitos aspirantes espirituais
se retiravam a lugares desertos. Chega uma hora em que você não tem mais desejo
de ver, nem esperança de que aconteça algo novo; e assim sua atenção é voltada
para dentro em busca de algo novo para se ver. E isso acontece também com os
sentidos.
A pessoa tem de estar bem preparada e
treinada, antes de enfrentar a solidão. Alguém que não pode aguentar a tensão
pode muito bem ficar louco ou cometer suicídio. Todas as vâsanas (tendências e
inclinações da mente) despertam e se agitam terrivelmente, mas se você não lhes
der espaço, elas se aquietam e você sente um amor universal por todos os seres.
Certa tarde, eu estava fora de minha cabana,
quando de repente vi uma enorme pantera negra caminhando vagarosamente em minha
direção, a uns oito metros de distância. Eu a vi antes que ela me visse. Então
encaramos um ao outro durante um minuto, e depois disso a pantera se voltou
calmamente e foi embora pelo caminho que veio. Não senti qualquer
medo. Na verdade senti um
impulso de pegar algum alimento da cabana e oferecer a ela, mas ela já tinha
ido embora.

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