15.10.14

EM BUSCA DO YOGA – Swami Sharadananda


As escrituras dizem que yama e niyama (limpeza física e mental, controle do comportamento e do caráter) são a base do edifício do yoga. Decidi começar com ahimsa (não-violência), satya (falar a verdade) e brahmacharya (continência sexual).

Meu amado guru, Sri Swami Sivananda, escreveu em seus livros que sirshâsana e siddhâsana (posturas da hatha yoga) são as melhores para o brahmacharya; e que se alguém pode fazer sirshâsana por três horas, ele desperta sua kundalini shakti, uma vez que seu vírya (sêmen) é convertido em  ojas (força espiritual).

Comecei imediatamente a praticar. Dia e noite eu sonhava apenas em converter vírya em ojas e despertar a kundalini. Minha conversa e minha leitura eram apenas como converter vírya em ojas, como despertar a kundalini, como ser indiferente ao calor e frio, ao bom e mau, à dor e prazer. Eu vivia numa estranha mundo meu, totalmente convencido de que tais práticas poderiam me tornar um yogue e jivanmukta (livre ainda no corpo).

Imaginei que atendo-me meramente ao lado físico, poderiam ser produzidos resultados espirituais. O desejo de controlar os sentidos era tão forte que pratiquei continuamente. Senti que nada havia nos três mundos que pudesse me desviar de minha prática. A mera sugestão de que algo ajudava ou prejudicava o sádhana (prática espiritual) era o bastante para que eu adotasse ou renunciasse àquilo.

Eu não tinha hábitos ruins, mas ao ouvir que eram obstáculos ao sádhana, abandonei o chá preto, o café, açúcar, sal, pimenta, sem hesitar. Digo isto apenas para mostrar como era forte minha determinação. Pratiquei rigorosas austeridades, mas os resultados foram poucos, uma vez que eram de natureza psíquica, e não espiritual.

Nesse estágio, escrevi a meu guru e lhe perguntei por que minha kundalini não tinha despertado, embora eu fizesse três horas de sirshâsana por dia. Meu guru respondeu chamando-me de tolo e me aconselhando a não fazer sirshâsana mais de cinco minutos e a mudar meu sádhana para a introspecção. Fiquei muito desapontado, e me perguntei: se isso era yoga, por que as pessoas escreviam diferentemente em livros a respeito.

Quanto a siddhâsana, eu tinha aprendido que devia praticá-la por seis horas continuamente, mas ela não me concedeu controle mental e nem o poder de suportar calor e frio. Apesar disso, todas essas práticas desenvolveram meu poder da vontade e meu desapego, preparando-me assim para encarar o verdadeiro sádhana espiritual, que é o esforço para eliminar todos os desejos e tornar-me humilde e livre do ego.

Obviamente, o estado livre de ego significa identificar-se com o Eu Universal ou ver todo o universo dentro de si mesmo. Agora eu buscava a verdadeira espiritualidade, não meramente poderes psíquicos. Um sádhaka (praticante) pode avançar espiritualmente apenas se seu desapego e equanimidade mental crescerem e ele se tornar mais humilde. Para isso, todos os desejos devem ser destruídos, até o próprio ego.

Voltei-me para esse tipo de sádhana por meio de vichara (auto-indagação). Permaneci em Gangotri (uma região às margens do rio Ganges) por três anos fazendo sádhana. Além de vichara, eu costumava meditar nas várias virtudes e tentava adquiri-las. Outra disciplina minha era tentar ver Deus em tudo.

Um outro obstáculo era o desejo de comer alimentos saborosos. A fim de controlar esse desejo, decidi nunca comer sozinho; eu preparava comida para outros sadhus (renunciantes) que viviam também por ali e partilhava o alimento com eles.

As escrituras dizem que a coragem é um sinal de ausência de ego, então para testar a mim mesmo fui viver num lugar chamado Chidvasa, que é totalmente desabitado. Chega-se ali por um caminho através das montanhas; a vila mais próxima fica a 30 km de distância, e durante o inverno o local é inacessível devido à neve.

As primeiras semanas foram terríveis. A mente tentava me convencer a partir e todo tipo de ideia e temores se apresentava em minha mente. Mas resisti. No lar você pode ver muitas coisas diferentes se sair de casa, mas ali no inverno não havia nada de novo para ver, apenas a mesma neve deserta. É por isso que, nos tempos antigos, muitos aspirantes espirituais se retiravam a lugares desertos. Chega uma hora em que você não tem mais desejo de ver, nem esperança de que aconteça algo novo; e assim sua atenção é voltada para dentro em busca de algo novo para se ver. E isso acontece também com os sentidos.

A pessoa tem de estar bem preparada e treinada, antes de enfrentar a solidão. Alguém que não pode aguentar a tensão pode muito bem ficar louco ou cometer suicídio. Todas as vâsanas (tendências e inclinações da mente) despertam e se agitam terrivelmente, mas se você não lhes der espaço, elas se aquietam e você sente um amor universal por todos os seres.

Certa tarde, eu estava fora de minha cabana, quando de repente vi uma enorme pantera negra caminhando vagarosamente em minha direção, a uns oito metros de distância. Eu a vi antes que ela me visse. Então encaramos um ao outro durante um minuto, e depois disso a pantera se voltou calmamente e foi embora pelo caminho que veio. Não senti qualquer medo. Na verdade senti um impulso de pegar algum alimento da cabana e oferecer a ela, mas ela já tinha ido embora.

Este foi um ótimo teste para minha coragem. Para quem pode suportar a tensão, a solidão é um treino excelente para ver o que é Deus e o que é o ego, quais desejos escondidos existem em sua mente e como identificar-se com o Eu Universal.

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