4.5.15

A GRAÇA COMO MANIFESTAÇÃO DO EU SUPERIOR – Paul Brunton


A Graça é a manifestação do Eu Superior. A atuação do poder da Graça é misteriosa. Nosso dever é preparar as condições adequadas, a atmosfera conveniente dentro da qual o Eu Superior pode conceder sua revelação.

A Graça é sempre experimentada como uma manifestação interior à região do coração. Ela surge do interior do aspirante com tal força e se apossa de tal forma de seus sentimentos e pensamentos, que ele não apenas percebe ser inútil qualquer resistência, como também não sente nenhuma inclinação a resistir, pois sua consciência está como que sob o efeito de um encantamento.

Tudo começa com a sensação de que algo se está derretendo dentro do coração. A seguir, acontece uma revolução de todos os primitivos pontos de vista acerca da vida, durante a qual o orgulho, o preconceito, as ideias arraigadas, os desejos e as aversões são todos atirados a um canto e desaparecem por algum tempo.

Esta experiência poderá repetir-se constantemente ou não voltar a acontecer por muito tempo. Se se der a primeira hipótese, então o aspirante é um homem de sorte e o progresso de sua iluminação será rápido. A Graça poderá baixar tão apenas por cinco minutos, como poderá também persistir por cinco horas.

Há indícios que pressagiam a vinda da Graça. O principal dentre eles é um forte desejo de luz espiritual que mais e mais toma conta do coração, que atormenta o homem com frequência e que faz o resto parecer insatisfatório. A vida comum parece tornar-se insípida, estúpida, oca, mecânica e opressiva.

Outro indício é o ato de chorar, seja em virtude da ausência dessa luz espiritual, seja em virtude de alguma palavra, acontecimento, pessoa ou retrato que recorde a existência do Eu Superior. Tal pranto nem sempre será visível e exterior; poderá ocorrer silenciosamente no fundo do coração.

Quando, porém, as lágrimas fizerem sua aparição, não deveremos resistir-lhes, mas ceder à sua pungente emoção. Essas lágrimas trazem consigo uma misteriosa influência que tende a dissolver as duras incrustações construídas pelo ego que barram a entrada da Graça. Somente aquele que sabe como chorar pelo Mais Alto e como abster-se de chorar pelos desenganos mundanos está apto a conhecer a Verdade.

Outros sintomas poderão manifestar-se; o aspirante poderá ter um sonho profético, o qual será capaz de traduzir intuitivamente como uma mensagem de seu Eu Superior. Tal sonho será extraordinariamente vívido e inesquecível. Além disso, poderá ocorrer alguma modificação nas circunstâncias de sua vida, ou uma crise nos negócios, indicando que é chegada a hora de mudar-se para novas vizinhanças, portadoras de novas influências.



O MISTÉRIO DO CORAÇÃO E O OBJETIVO DA VIDA – Paul Brunton


Onde está o Eu Superior? Observe-se a ação espontânea e automática de um homem quando deseja dizer “eu”. Ele irá erguer sua mão e apontar o dedo para o próprio peito, para aquela parte onde está o coração. Examine-se a posição do coração em relação ao resto do corpo: ele se localiza a meio do caminho entre o alto da cabeça e o final do tronco; vale dizer, se traçássemos um círculo em torno dos limites externos do tronco, o centro da circunferência seria o coração.

É sabido que a posição mais importante em qualquer estrutura ou organismo é o centro. É o miolo vital em torno do qual as demais partes são construídas. Homem nenhum pode funcionar como ser vivo neste mundo se não tiver um coração.

A primeira batida do coração significa a vida; sua última batida significa a morte. O meio por ele usado para atuar sobre o corpo é o sangue; fisiologicamente constata-se que o coração é o mais exigido dos órgãos do corpo. Ele pulsa mais de cem mil vezes por dia; conduz de sete a oito toneladas de sangue através das artérias, da cabeça até os calcanhares. Esta posição é análoga à de um rei residindo numa capital e se comunicando, comandando e controlando todo o reino por meio de oficiais. O coração é a capital, os oficiais representam o sangue e o reino é o corpo.

O rei representa o eu real e essencial – o Eu Superior! Se o Eu Superior é de fato a consciência pura, o agente vital anterior a toda atividade mental, então o verdadeiro lugar da consciência humana não é o cérebro, mas o coração! Os pensamentos não poderiam nascer e o raciocínio não poderia perdurar sem a existência da luz da consciência para iluminar a ambos.


Há portanto um movimento sutil e secreto sempre em marcha entre o coração e a cabeça, entre o Eu Superior e o intelecto. Sem o Eu Superior para alimentá-los, o ego e o intelecto pereceriam e desapareceriam. No entanto, o ego pessoal acredita erroneamente ser uma criatura autossuficiente, independente e completa. O coração, fonte da vida, foi desdenhado, a cabeça glorificada, a alma esquecida.

O cérebro não é senão o lugar da consciência refletida, uma reflexão proveniente do verdadeiro centro: o coração. A luz intelectual não passa de luz emprestada, como a luz da lua. A consciência do coração é o sol que fornece sua própria luz ao intelecto.

Devemos, porém, estar atentos ao erro comum de que por consciência do coração entende-se a simples emoção. Nada poderia estar mais longe da verdade.

Se o pensamento do eu (pessoal) reside no cérebro, não está ali totalmente isolado. Existe uma linha de comunicação com o coração, linha através da qual o Eu Superior envia sua vida e sua luz para a alimentação do ego. Este último, por si só, não pode fazer nada, pois depende desse auxílio. O ego surgiu do intemporal Eu Superior e segue sendo seu involuntário pensionista.

Por isso existe ainda um caminho de volta, um vínculo com seu local de nascimento. Se o ego puder ser despertado de sua exteriorização e levado a voltar-se para dentro e para trás, ele se deslocará no sentido do Eu Superior. Encontrado este último, bastará ao ego manter-se em comunicação constante com essa fonte sagrada, beber o néctar com os deuses e ser feliz.

O objetivo de todos os exercícios espirituais (meditação, concentração, pranayamas, oração...) é persuadir a mente pessoal a se afastar do universo material e reconstruir lentamente seu caminho de volta ao coração. Esse é o objetivo apresentado ao homem pela vida – e na realidade não existe nenhum outro!