Onde está o Eu Superior? Observe-se a
ação espontânea e automática de um homem quando deseja dizer
“eu”. Ele irá erguer sua mão e apontar o dedo para o próprio
peito, para aquela parte onde está o coração. Examine-se a posição
do coração em relação ao resto do corpo: ele se localiza a meio
do caminho entre o alto da cabeça e o final do tronco; vale dizer,
se traçássemos um círculo em torno dos limites externos do tronco,
o centro da circunferência seria o coração.
É sabido que a posição mais
importante em qualquer estrutura ou organismo é o centro. É o miolo
vital em torno do qual as demais partes são construídas. Homem
nenhum pode funcionar como ser vivo neste mundo se não tiver um
coração.
A primeira batida do coração
significa a vida; sua última batida significa a morte. O meio por
ele usado para atuar sobre o corpo é o sangue; fisiologicamente
constata-se que o coração é o mais exigido dos órgãos do corpo.
Ele pulsa mais de cem mil vezes por dia; conduz de sete a oito
toneladas de sangue através das artérias, da cabeça até os
calcanhares. Esta posição é análoga à de um rei residindo numa
capital e se comunicando, comandando e controlando todo o reino por
meio de oficiais. O coração é a capital, os oficiais representam o
sangue e o reino é o corpo.
O rei representa o eu real e essencial
– o Eu Superior! Se o Eu Superior é de fato a consciência pura, o
agente vital anterior a toda atividade mental, então o verdadeiro
lugar da consciência humana não é o cérebro, mas o coração! Os
pensamentos não poderiam nascer e o raciocínio não poderia
perdurar sem a existência da luz da consciência para iluminar a
ambos.
Há portanto um movimento sutil e
secreto sempre em marcha entre o coração e a cabeça, entre o Eu
Superior e o intelecto. Sem o Eu Superior para alimentá-los, o ego e
o intelecto pereceriam e desapareceriam. No entanto, o ego pessoal
acredita erroneamente ser uma criatura autossuficiente, independente
e completa. O coração, fonte da vida, foi desdenhado, a cabeça
glorificada, a alma esquecida.
O cérebro não é senão o lugar da
consciência refletida, uma reflexão proveniente do verdadeiro
centro: o coração. A luz intelectual não passa de luz emprestada,
como a luz da lua. A consciência do coração é o sol que fornece
sua própria luz ao intelecto.
Devemos, porém, estar atentos ao erro
comum de que por consciência do coração entende-se a simples
emoção. Nada poderia estar mais longe da verdade.
Se o pensamento do eu (pessoal) reside
no cérebro, não está ali totalmente isolado. Existe uma linha de
comunicação com o coração, linha através da qual o Eu Superior
envia sua vida e sua luz para a alimentação do ego. Este último,
por si só, não pode fazer nada, pois depende desse auxílio. O ego
surgiu do intemporal Eu Superior e segue sendo seu involuntário
pensionista.
Por isso existe ainda um caminho de
volta, um vínculo com seu local de nascimento. Se o ego puder ser
despertado de sua exteriorização e levado a voltar-se para dentro e
para trás, ele se deslocará no sentido do Eu Superior. Encontrado
este último, bastará ao ego manter-se em comunicação constante
com essa fonte sagrada, beber o néctar com os deuses e ser feliz.
O objetivo de todos os exercícios
espirituais (meditação, concentração, pranayamas, oração...) é
persuadir a mente pessoal a se afastar do universo material e
reconstruir lentamente seu caminho de volta ao coração. Esse é o
objetivo apresentado ao homem pela vida – e na realidade não
existe nenhum outro!
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