Em um
seminário que ministrei certa vez, perguntaram-me se o amor sempre
vale a pena, mesmo que seja unilateral. O verdadeiro amor é sempre
unilateral! Quando é um amor praticado esperando reciprocidade, que
se torna condição para este amor se expressar, estamos diante de um
sentimento que não representa o amor legítimo, mas significa um
depósito no banco na tentativa de que ele
possa render juros.
O amor é
bom para quem ama, independentemente de uma resposta imediata que
este amor produza. Digo resposta imediata, porque indubitavelmente,
em algum momento, o nosso ato de amar nos fará receber da vida uma
resposta gratificante. E quando será isso? Não importa!
Quando
amamos, nos sentimos bem. Mas quando percebemos que a pessoa também
nos ama, temos a tendência a nos tornar caprichosos e exigentes.
Neste momento o amor perde um pouco o seu sabor, porque está
permeado pelo condimento da cobrança. É quando dizemos ao ser
amado: “Você
não nota quanto eu o amo!” Este
é o tipo de cobrança que deprecia o amor.
Ame,
simplesmente! E se não for oportuno dizer que ama, não explicite.
No entanto, se sentir que há espaço e necessidade para relembrar,
declare o seu amor com naturalidade, mas não como quem pede resposta
ou cobra um pagamento, à semelhança de um capricho infantil.
A vida
nos ama! E como nos comportaremos em relação à vida e ao amor
unilateral que ela nos oferece? O nosso procedimento terá que ser do
mesmo teor. Desta forma, o que fazer quanto aos medos que nos
assaltam de perdermos a pessoa que amamos e de sermos abandonados? Só
ficamos privados daquilo que realmente nunca foi nosso! Quando nós
temos de fato, não perdemos.
Quando
amamos, mesmo que o ser amado se vá, isso não deve interromper o
nosso sentimento. Poderemos ficar tristes pela perda da companhia
física ou até magoados, como fruto do nosso egoísmo, mas o amor
verdadeiro é tão grande e tão nobre que a pessoa que um dia
recebeu esse amor jamais se afastará em definitivo de nós. O
reencontro poderá não ser na presente encarnação, mas ele se dará
um dia, mesmo que seja num futuro longínquo.
Por
isso, não nos deixemos tragar pela dor ou pelo desespero!
Consideremos que aquele afastamento temporário é um acidente de
percurso. Nem tudo em nossa vida será conforme desejamos. Podem
acontecer vários fenômenos, incluindo alguns que nos farão sofrer,
razão pela qual é necessário ter serenidade ante os imprevistos da
vida.
Se a
pessoa não pretende ficar conosco, libertemos! Quanto mais nós
libertarmos, mais teremos. Eu costumo dizer, em tom de humor: você
ama uma pessoa e ela não sente o mesmo por você; essa pessoa, por
sua vez, ama alguém que não a ama; este alguém também ama uma
pessoa que não corresponde ao seu afeto; mas esta, que não
corresponde ao afeto de ninguém, ama aquela outra, que não lhe dá
importância; e esta última também ama alguém que não aceita o
seu amor.
E o
círculo dos amores não correspondidos se processa até que um dia o
amor volta, e alguém lhe diz: “Eu amo você!” Você então olha
e pensa: “Meu Deus! Não era exatamente isso que eu tinha em mente!
Mas na solidão em que estou, eu vou aceitar...” Então você
aceita esta pessoa, que não era a ideal, e descobre que esse é o
grande amor da sua vida. Um amor realmente plenificador. É uma alma
que chegou suavemente, de mansinho, tocou o nosso ombro, segurou a
nossa mão e se dispôs a nos amar sem exigências.
Ao
contrário disso, aquele amor que chega de forma ciclópica e
ardente, deixe passar, porque ele vai embora. Labareda que muito arde
é como incêndio em campo de trigo: o fogo queima com intensidade,
mas se apaga depressa... O amor é como um bumerangue: jogue-o, sem
exigência alguma, que um dia ele retorna a você.
E quando
ele voltar, estará em suas mãos. Segure, mas não retenha, porque
todo amor retido é amor que se vai perder. Quando nós queremos ser
amados, ainda somos crianças psicológicas. Quando nós amamos,
atingimos a plenitude. Quando alguém nos persegue, está doente.
Quando nós perseguimos, estamos mal. Se nos fazem mal, esse mal não
nos alcança, porque o mal só tem vigência naquele que o cultiva.
Seja
você quem ama! Quando nós amamos, uma estrela de paz brilha em
nosso coração e a felicidade irradia-se como perfume. Quando
queremos ser amados, ainda temos caprichos, temos impositivos, temos
perturbações.
Notemos
que a primeira manifestação de quem ama é dar alguma coisa ao ser
amado. É uma forma de dizer: “Eu
te amo!”. O
amor, diz Joanna de Angelis, é a Alma de Deus, porque Deus é a Alma
do amor.
