27.6.15

O Amor é unilateral – Divaldo Franco


Em um seminário que ministrei certa vez, perguntaram-me se o amor sempre vale a pena, mesmo que seja unilateral. O verdadeiro amor é sempre unilateral! Quando é um amor praticado esperando reciprocidade, que se torna condição para este amor se expressar, estamos diante de um sentimento que não representa o amor legítimo, mas significa um depósito no banco na tentativa de que ele possa render juros.

O amor é bom para quem ama, independentemente de uma resposta imediata que este amor produza. Digo resposta imediata, porque indubitavelmente, em algum momento, o nosso ato de amar nos fará receber da vida uma resposta gratificante. E quando será isso? Não importa!

Quando amamos, nos sentimos bem. Mas quando percebemos que a pessoa também nos ama, temos a tendência a nos tornar caprichosos e exigentes. Neste momento o amor perde um pouco o seu sabor, porque está permeado pelo condimento da cobrança. É quando dizemos ao ser amado: “Você não nota quanto eu o amo!” Este é o tipo de cobrança que deprecia o amor.

Ame, simplesmente! E se não for oportuno dizer que ama, não explicite. No entanto, se sentir que há espaço e necessidade para relembrar, declare o seu amor com naturalidade, mas não como quem pede resposta ou cobra um pagamento, à semelhança de um capricho infantil.

A vida nos ama! E como nos comportaremos em relação à vida e ao amor unilateral que ela nos oferece? O nosso procedimento terá que ser do mesmo teor. Desta forma, o que fazer quanto aos medos que nos assaltam de perdermos a pessoa que amamos e de sermos abandonados? Só ficamos privados daquilo que realmente nunca foi nosso! Quando nós temos de fato, não perdemos.

Quando amamos, mesmo que o ser amado se vá, isso não deve interromper o nosso sentimento. Poderemos ficar tristes pela perda da companhia física ou até magoados, como fruto do nosso egoísmo, mas o amor verdadeiro é tão grande e tão nobre que a pessoa que um dia recebeu esse amor jamais se afastará em definitivo de nós. O reencontro poderá não ser na presente encarnação, mas ele se dará um dia, mesmo que seja num futuro longínquo.

Por isso, não nos deixemos tragar pela dor ou pelo desespero! Consideremos que aquele afastamento temporário é um acidente de percurso. Nem tudo em nossa vida será conforme desejamos. Podem acontecer vários fenômenos, incluindo alguns que nos farão sofrer, razão pela qual é necessário ter serenidade ante os imprevistos da vida.

Se a pessoa não pretende ficar conosco, libertemos! Quanto mais nós libertarmos, mais teremos. Eu costumo dizer, em tom de humor: você ama uma pessoa e ela não sente o mesmo por você; essa pessoa, por sua vez, ama alguém que não a ama; este alguém também ama uma pessoa que não corresponde ao seu afeto; mas esta, que não corresponde ao afeto de ninguém, ama aquela outra, que não lhe dá importância; e esta última também ama alguém que não aceita o seu amor.

E o círculo dos amores não correspondidos se processa até que um dia o amor volta, e alguém lhe diz: “Eu amo você!” Você então olha e pensa: “Meu Deus! Não era exatamente isso que eu tinha em mente! Mas na solidão em que estou, eu vou aceitar...” Então você aceita esta pessoa, que não era a ideal, e descobre que esse é o grande amor da sua vida. Um amor realmente plenificador. É uma alma que chegou suavemente, de mansinho, tocou o nosso ombro, segurou a nossa mão e se dispôs a nos amar sem exigências.

Ao contrário disso, aquele amor que chega de forma ciclópica e ardente, deixe passar, porque ele vai embora. Labareda que muito arde é como incêndio em campo de trigo: o fogo queima com intensidade, mas se apaga depressa... O amor é como um bumerangue: jogue-o, sem exigência alguma, que um dia ele retorna a você.

E quando ele voltar, estará em suas mãos. Segure, mas não retenha, porque todo amor retido é amor que se vai perder. Quando nós queremos ser amados, ainda somos crianças psicológicas. Quando nós amamos, atingimos a plenitude. Quando alguém nos persegue, está doente. Quando nós perseguimos, estamos mal. Se nos fazem mal, esse mal não nos alcança, porque o mal só tem vigência naquele que o cultiva.

Seja você quem ama! Quando nós amamos, uma estrela de paz brilha em nosso coração e a felicidade irradia-se como perfume. Quando queremos ser amados, ainda temos caprichos, temos impositivos, temos perturbações.

Notemos que a primeira manifestação de quem ama é dar alguma coisa ao ser amado. É uma forma de dizer: “Eu te amo!”. O amor, diz Joanna de Angelis, é a Alma de Deus, porque Deus é a Alma do amor.


ANANDA, O DISCÍPULO DILETO DE BUDDHA - Divaldo Franco


Nas velhas tradições do pensamento budista há uma bela narração a respeito de um jovem portador de beleza incomparável. Chamava-se Ananda. Discípulo de Buda, ele amava o mestre e entregara-se à sua nobre filosofia em caráter de totalidade.

Ananda era para Buda o que o jovem João representava para Jesus. Sendo um discípulo abnegado, muitas vezes viajava pelo Sul da Índia levando a mensagem do samadhi: a libertação e a vitória sobre a ilusão. Em um dos seus retornos de viagem, sob o sol ardente, percorrendo uma estrada poeirenta para ir ao monastério onde estava o mestre, Ananda viu, à sombra generosa de uma árvore, uma jovem que retirava água de um poço.

Muito cansado e transpirando em abundância, ele acercou-se da fonte e solicitou jovialmente à moça, causando-lhe grande espanto:
Dá-me de beber!

A jovem identificou nele as características de um brâmane: o porte, a roupa específica, a forma de apresentar os cabelos e o sinal colocado no centro da testa. Muito surpresa com aquela situação, ela respondeu:
Como tu me pedes água? Eu sou pária (alguém que não pertencia a nenhuma das quatro castas)! Não sabes que os párias são a sombra da fatalidade e possuem as marcas do abandono da Divindade?

O discípulo sereno redarguiu:
Não me importa se a tua é uma condição social marginalizada. Vejo-te como uma mulher. E as mulheres são anjos que a Divindade coloca na Terra para tornar menos ásperos os caminhos e menos solitárias as jornadas. Dá-me de beber!

A jovem não dispunha de um vasilhame adequado para atender ao pedido:
Mas eu não tenho como dar-te a água!
Dá-me na concha das tuas mãos! — respondeu o jovem brâmane.

A mulher, trêmula e desconcertada, mergulhou as mãos no poço e encheu-as com água, distendendo-as àquele jovem de beleza seráfica, que se dobrou e sorveu suavemente o líquido, deixando que os seus lábios tocassem várias vezes as mãos da jovem. Ele agradeceu sorrindo e completou, com uma voz repassada de ternura:
Nunca me esquecerei de ti! Eu sou Ananda.

Ao dizer isso ele partiu, enquanto a jovem ficou atormentada pelo fogo do desejo. Tomada por essa angústia, ela recorreu à sua mãe, que praticava as artes mágicas, na tradicional conceituação da bruxaria.
Mamãe, eu tenho que me casar com esse homem! Ele foi a primeira luz na noite dos meus desencantos! Tu, que podes dialogar com as sombras, pede-lhes para que me ofereçam de presente, nesta vida amarga, o suave canto daquela voz.

A genitora afirmou, em tom grave:
Como tu podes pensar em tê-lo como marido? Ele é discípulo de Buda. Naturalmente fez votos de abnegação e de castidade, o que inviabiliza completamente qualquer tentativa de convencê-lo a te desposar. Ao mesmo tempo, os anjos do Paraíso o assessoram. E não posso interceder junto aos espíritos para que o desviem da sua trajetória espiritual.
Mamãe, se eu não encontrar novamente esse homem, eu me matarei! Tu és minha mãe! Acalma meu desespero! Intercede junto às sombras para que elas o atormentem e o despertem!

Com a negativa materna, a mulher pária mergulhou em profunda melancolia. Os dias se passaram e ela estava com o corpo abalado, morrendo aos poucos, vitimada por um desejo não vivenciado. Foi então que a mãe resolveu consultar as sombras para satisfazer o pedido pungente de sua filha. Durante o transe profundo ela percebeu que poderia deslocar-se em Espírito na direção de Ananda, acompanhada de seres perversos que a conduziram na tentativa de manipular os pensamentos e as emoções do discípulo de Buda.

Neste ínterim, o jovem havia chegado ao monastério. Buda o recebeu com o seu enigmático sorriso, a sua jovialidade e a sua ternura, abençoando aquele que se lhe transformara em um verdadeiro filho espiritual. Por sua vez, Ananda procurou os seus aposentos, atirou-se no leito, mas não conseguiu dormir. Pela primeira vez ele sentiu que estranhos personagens que haviam sido sepultados nas águas do Rio Ganges retornavam de além da cortina da morte para perturbá-lo.

O discípulo mergulhou na esfera dos sonhos... Sonhou que a jovem pária apresentava-se vestida de princesa, adornada de joias e exalando odor de perfumes raros. Ante o som de uma música mística ela dançava com movimentos sensuais, exibindo uma postura de sedução quase irresistível.

Lentamente, à medida que os movimentos faziam-se mais perturbadores e provocantes, ela se desnudava e se apresentava a seus olhos como a oferta máxima do prazer. Debateu-se, angustiou-se naquele pesadelo, enquanto forças estranhas dominavam-lhe o corpo e provocavam-lhe a emoção.

Buda, que nesse momento entregava-se à meditação, irradiou a sua aura e percebeu que seu discípulo estava sob a ameaça das forças telúricas do invisível, que conseguiam mobilizar no jovem a tentação da carne, utilizando os vigorosos impulsos da animalidade que existem em todos nós.

O mestre deslocou o seu pensamento até o quarto de Ananda e expulsou as forças negativas, fazendo que se diluíssem sob o sopro da ternura e da compaixão. O jovem despertou banhado por suor, tremendo e assustado, detectando as energias protetoras do mestre nos seus aposentos. A partir desse dia, Ananda penetrou ainda mais no labirinto das meditações, que poderiam proporcionar-lhe maior soma de forças para permanecer em paz.

A jovem, que não havia alcançado os seus objetivos através das artes mágicas, recorreu novamente à mãe pedindo-lhe uma solução para o seu drama, já que sua vida perdera o sentido. O seu único sentimento era o de posse, o desejo irrefreável de ter Ananda ao seu lado.

Com sabedoria a mãe ofereceu-lhe uma sugestão:
Vai a Buda e ele te dirá alguma coisa sobre como irás obter a tua felicidade.

A jovem partiu... Quando chegou ao mosteiro em que o príncipe meditava, prosternou-se e demorou-se em atitude de reverência, procurando não interromper a concentração do mestre. No instante em que ele recobrou a lucidez, ela lhe suplicou:
Príncipe Buda, eu amo Ananda! E somente vós possuis o condão de me brindar com a companhia dele, a joia mais rara que existe na Índia!
Tu amas Ananda? — perguntou o mestre.
Amo, senhor! Mais do que a mim mesma!

Buda olhou-a demoradamente e respondeu-lhe com um sorriso:
Se tu desejas ter Ananda, deverás pagar o preço do amor. Terás que ascender até o ponto em que ele se encontra. Porque se tu queres possuí-lo, é necessário conquistá-lo. Ananda é um homem dedicado a preocupações transcendentais. E para atingir o patamar em que ele transita, terás que elevar-te através da meditação.

Ele fez uma pausa para que a proposta fosse bem assimilada e concluiu:
Terás que meditar por duas razões: primeiro, para acalmar o fogo da paixão; depois, para ser realmente a companheira que ele merece.
E por quanto tempo deverei meditar?
Por dez anos.

A jovem ergueu a cabeça e respondeu:
Por amor a Ananda, estou disposta!

O mestre concluiu:
Então vai e medita! Busca a Presença Divina, e eu te darei Ananda.

Decidida a conquistar o amor de Ananda, ela abandonou tudo, despiu-se das marcas de pária e começou a meditar. Após dez anos de meditação, ela procurou o iluminado e lhe disse que já havia encontrado um pouco de paz, mas Ananda não lhe saía da cabeça. Aos seus olhos, a cada dia o brâmane se apresentava mais viril, mais belo e encantador.
Senhor, creio que estou preparada!

Ao ouvir o relato, o mestre a contemplou, penetrou-lhe a alma e aconselhou-a:
É verdade que estás caminhando de maneira muito proveitosa. Mas falta-te um pouco mais. Necessitas aprender a renúncia para que te libertes da ilusão e da ambição. Medita mais e encontrarás a plenitude que te falta!
Por quanto tempo?
Mais cinco anos.

A jovem mergulhou por mais esse período no abismo do insondável... Penetrou ainda mais no Atman (Alma Universal). E quando emergiu, procurou novamente o mestre, curvou-se aos seus pés e relatou:
Agora estou preparada!

Buda mandou chamar Ananda e lhe comunicou que aquela era a mulher que a vida havia preparado para servir-lhe de companheira. A ex-pária levantou-se, olhou o mestre e seu discípulo com tranquilidade e declarou para surpresa de todos:
Eu já não necessito do corpo de Ananda! Ao encontrar a mim mesma e ao perceber a presença da Alma Universal, meus planos se modificaram por completo. Ao haver superado o fogo da ilusão, a paixão tentadora da posse, atingindo o patamar em que o brâmane se encontra, eu já não desejo o homem, a materialização de sua presença física para me preencher, pois eu já o tenho na intimidade do meu coração!

E depois de beijar suavemente a mão de Ananda, a jovem saiu na direção do infinito...

Buda observou atentamente aquela cena e concluiu:

A grande conquista somente é possível por fora quando a alma conquista a si mesma por dentro.