27.11.15

EVOLUÇÃO E LUTA – Paul Brunton


Quando, no curso da evolução natural, o ser consciente chega a distinguir-se dos outros (isto é, quando vindo do reino animal ascende ao reino humano e se torna um centro separado, um indivíduo), seu livre arbítrio desperta e apresenta-se a possibilidade de discórdias com os outros. É o ponto de retorno de sua existência.
 
Seu karma, na qualidade de indivíduo, começa a produzir. Cada ser finito deve possuir uma certa liberdade no grande jogo do mundo. O Eu Superior (a Divindade no homem) deixa-nos livres na via do mal, em vez de obrigar-nos a seguir os trilhos da virtude. No primeiro caso, o sofrimento pode produzir o bem permanente e profundo, enquanto no segundo, não teríamos senão uma vida de robô, indigna de ser vivida, em que a bondade seria superficial e efêmera.
 
Um universo cheio de criaturas ativas, emotivas, livres, capazes de lutar e desenvolver-se, e não um universo de entidades autômatas ou subservientes, deve inevitavelmente tornar-se um vasto campo de luta e de competição.
 
No começo de sua evolução, o ego é incapaz de ver além de seus interesses egoísticos e imediatos. Procura cegamente sua felicidade à custa dos outros, introduzindo assim o sofrimento em suas vidas e também, posteriormente, em sua própria vida, em vista do karma.
 
Sua vida é rasgada pelo conflito entre o que é e o que sente que deveria ser. Tal tensão é conseqüência de sua natureza dupla: pessoal e finita de um lado, universal e infinita de outro.
 
A estada do ego no mundo acabará, no curso da evolução, por liberar todas as possibilidades que traz ocultas, em si mesmo. O que é externo o tornará capaz de descobrir o que é interior. E quando o ego chega ao conhecimento de si mesmo, reconhecendo sua unidade original com os outros, a luta tem fim.
 
Enquanto o sofrimento provier das más ações do homem, a evolução cósmica purificará e enobrecerá toda a humanidade através de renascimentos contínuos e da força kármica, embora isso dure milhões de anos.
 
O coração humano age corretamente obedecendo ao instinto que o impele à busca da felicidade. Mas esta não consiste apenas na satisfação exterior. As limitações e as insuficiências da satisfação exterior levam o homem a empreender sucessivamente a procura religiosa, a mística e depois a filosófica.
 
Se é verdade que o mal começa desde o momento em que o homem se dissocia do Eu Superior, o único meio de fazer o mal desaparecer é reconstituir a associação.
 
Em cada uma de suas encarnações, o homem corre atrás da riqueza, deseja o amor, tenta escalar os cumes da reputação, mas na verdade está apenas procurando sem conhecer o Real. Ao alcançar este, adquire uma riqueza que não poderá mais perder, alcança um amor que nunca se esvanecerá.
 
Em certos momentos do amor terrestre, particularmente no começo, este se liberta da carne e toca em algo muito mais alto. Durante alguns raros instantes é uma atividade do Espírito, a procura sagrada de dois seres pesquisando o Eu Superior um no outro, um abraço de Deus sob uma aparência inferior.
 
Mas esta noção do amor é tristemente limitada. O amor não pode parar aí. A própria vida o conduz além. Ele o consegue, primeiro, indo além do engano da carne lastimável e efêmera, e em seguida se transformando em coisa mais nobre e mais rara, que é a compaixão. É no abandono divino a esta qualidade maravilhosa e na sua extensão à humanidade inteira que o amor se realiza afinal.
 
O ego faz uma evolução que toma a forma de tríplice corrente: física, intelectual e espiritual.
 
Na primeira, dirige-se para o exterior e alcança os abismos da ignorância e do mal, perdendo-se durante certo tempo na ilusão da matéria. Os desejos multiplicam-se poderosamente na primeira corrente e perdem intensidade na terceira.
 
Na segunda, a intelectual, a evolução é mais lenta e carregada de lutas. O ego se faz curioso e interrogador. Não mais deseja somente conseguir a vida, mas compreendê-la. O ego atinge assim o ponto de sua longa evolução em que, recorrendo à inteligência, começa a olhar para trás, empreendendo a viagem que o conduzirá ao porto.
 
Na evolução espiritual, o ego se dirige para o interior e atinge finalmente a unidade procurada e volta em plena consciência ao Eu Superior.
 
Começamos a perceber, então, a inteligência infinita que faz de nosso universo o que é, isto é, um cosmo, um sistema organizado. Todo o mal, toda a luta, todo o egoísmo, toda a ignorância tem nascimento no decurso desse movimento do espírito para o exterior.
 
Podemos, pois, estar seguros de que o Espírito Universal impôs limites a esses dois pesadelos: o mal e o sofrimento. O mal é efêmero; acaba por vencer-se; não tem senão um caráter negativo. O mal é não agir em harmonia, não compreender a verdade. O mal é presente, mas não por toda a eternidade; não há dúvida de que ele acaba por transformar-se. Se a dor e o mal desempenham um papel considerável no nosso planeta, outros planetas há em que são desconhecidos.
 
Seres pertencentes a todos os graus de evolução aparecem simultaneamente sobre a terra; e os que se entregam ao mal, mas dele se libertam posteriormente, são substituídos por outros espíritos mais jovens na evolução que estão passando por uma fase que os mais antigos já abandonaram.
 
Entretanto, isso é verdadeiro apenas para um período limitado, porque soará a hora em que os tipos inferiores cessarão de aparecer neste planeta e onde a evolução dos outros se precipitará desde então. A partir desse momento, o mal começará a atenuar-se, e por fim se esvanecerá completamente.


A Busca Espiritual – A. Verdegraal


Num certo momento de nossas vidas, começamos a busca espiritual. A vida mudará à medida que a pessoa evolui espiritualmente. Os desejos da infância que ainda existem em nós desaparecerão. A alimentação mudará. Nossa profissão poderá mudar. Mesmo aqueles com quem partilhamos nossas vidas poderão mudar.

Não há como determinar de antemão quais transformações ocorrerão. Nem existe uma maneira de determinar como serão as transformações. O segredo é aprender a fluir com as mudanças, aceitar as mudanças como parte de um crescimento espiritual.

Aquilo que lhe é tirado, é devolvido num nível superior. O que quer que aconteça, embora pareça doloroso naquele momento, é parte de seu crescimento espiritual. Alguns sentirão prazer com as mudanças, conscientemente tomarão controle e direção da situação.

A prática do pranayama vai acelerar as mudanças da vida rapidamente. Apesar do que possa acontecer, é importante continuar com a prática, mesmo que seja esporádica (uma vez por dia, uma vez a cada dois dias ou uma vez por semana). Pratique sempre que sentir vontade de praticar.

Se possível, estabeleça um período para a prática, e continue a fazê-la, mesmo que o mundo pareça desabar ao seu redor. Acredite que a prática do pranayama é a mais importante ação em sua vida. Todas as outras atividades são secundárias. O crescimento espiritual vai demonstrar a impermanência de suas outras atividades.

Você pode perder o emprego, divorciar-se de sua esposa, ter problemas de saúde. O que quer que aconteça, você é um ser espiritual que está crescendo e florescendo. O pranayama é seu segredo interior, as práticas lhe ensinarão como levar seu veículo através da vida.

Se você experimentar mudanças desconfortáveis, as recompensas aparecerão mais adiante no caminho, substituindo aquilo que você pensou que perdeu. Você pode se tornar mais saudável, obter um emprego melhor, ou encontrar um maravilhoso parceiro(a). Experimentará relacionamentos corretos em todos os aspectos de sua vida.

A busca espiritual

Paramahansa Yogananda apresentou uma interessante equação no livro Autobiografia de Um Yogue. Se a pessoa pratica Kriya Yoga (um tipo de pranayama) oito horas por dia por três anos, ela evolui o equivalente a um milhão de anos. Pense nisso. Um milhão de anos é mais que dez mil vidas em três anos.

Mas quem tem oito horas por dia para sentar-se em meditação? (*Ou força nervosa para suportar a prática intensiva de pranayama?) Felizmente a prática de Kriya é cumulativa. Quando você a faz, nunca mais perde o que ganhou.

Assim, vamos dividir: 8 horas todo dia por três anos; ou 4 horas todo dia por seis anos; ou 2 horas todo dia por doze anos; ou uma hora todo dia por 24 anos; ou meia hora todo dia por 48 anos. Agora isso se torna mais manejável e possível.

Cada um de nós pode evoluir um milhão de anos em apenas uma vida. Mesmo que não pratiquemos Kriya, chegaremos lá após dez mil vidas jogando os mesmos velhos jogos da vida. Depende de nós escolher o quão rápido queremos evoluir.

Cada minuto de Kriya nos faz evoluir dois anos. Tome a responsabilidade de seu crescimento espiritual em suas mãos e dirija sua vida.

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(*) Nota: Paramahansa Yogananda recomendou que o iniciante em Kriya Yoga, para não adoecer devido a uma prática excessiva, realize de 14 a 28 Kriyas por dia apenas. Ou ainda menos, se isso lhe parecer mais adequado. A moderação vale também para qualquer outro tipo de pranayama, tendo em vista que a prática esquenta o sistema nervoso, e é necessário sempre esperar um período de tempo, mais ou menos longo dependendo de cada um, para que os nervos voltem a ficar frescos e fortes novamente.


25.11.15

A ORIGEM DO UNIVERSO – Paul Brunton


Os antigos sábios ensinavam que o universo estava em perpétuo movimento e que este movimento tinha uma forma rotatória. Iam mais longe, declarando que, do mesmo modo como é impossível dizer onde começa ou acaba um círculo, não se pode indicar onde começa o cosmo, nem onde acaba.
 
Eis porque, a fim de representar ao mesmo tempo a construção do mundo, o incessante escoamento das coisas, sem começo nem fim, eles empregavam o símbolo da suástica, que é uma forma de roda. Seus raios em cruz representam o eixo polar atravessado pelo equador, e sua rotação traduz o fato de que a terra é dinâmica, não matéria inerte.
 
A ciência escrutou a matéria sólida e constatou que ela é, praticamente, cava. O vazio da substância material é fantasticamente imenso quando o comparamos às dimensões dos elétrons que se movem perpetuamente no interior. O que vale dizer que o solo que pisamos é quase inteiramente espaço vazio.
 
Ao nosso sentido do tato, ele é entretanto firme, compacto, imóvel e impenetrável. É uma ilusão devida, evidentemente, às limitações extremamente estreitas deste sentido.
 
A nova ciência declara que os átomos não constituem a última palavra, nem a matéria a substância última. Os átomos foram penetrados, descobriu-se que eram ondas. Mas ondas de quê? Certamente não de matéria, mas de energia. Um conjunto de processos dinâmicos substitui o bloco antigo de matéria inerte.
 
A cosmologia do ensino oculto diz que o universo é algo sem começo nem fim. Nunca houve momento em que não existisse, de modo latente ou manifestado. O mundo não resulta de um ato de criação repentina, mas de um processo de manifestação gradual.
 
Sendo o Universo um grande pensamento, e não uma grande coisa, é posto em existência pela Mente Universal, que o tira de si mesma, de sua própria substância mental e não de uma substância estranha como é a matéria, conforme supõem os materialistas, sejam científicos, religiosos ou metafísicos.
 
A crença de que Deus num repente criou o mundo – o que daria aos corpos celestes uma mesma idade – não é, pois, aceitável. Seria mais razoável crer, de acordo com o ensino oculto, que o universo nunca teve começo nem terá fim. É o corpo de Deus, se desejarmos usar este termo do qual tanto se tem abusado; um corpo que se basta a si mesmo e contém todas suas criaturas em evolução perpétua.
 
Nada existe por si mesmo; tudo que existe hoje é conseqüência indireta de numerosas causas que se estendem como cadeia sem fim, através do passado sem começo.
 
O Universo é, pois, tão velho e tão eterno como a própria Mente Universal. É uma idéia, e é apesar disso, sem começo e sem fim. A criação não começa e não acaba em parte alguma. Não existe lugar nem momento em que se possa situar a causa primeira ou o efeito final.
 
Quão caprichosa é a concepção do Universo que pretende marcar uma data à criação! Tal data variará unicamente em função do capricho de seu autor que construirá a teoria da criação que mais lhe agradar.
 
Considerado pelo exterior, o Universo sai do nada e volta ao nada. Mas considerado pelo interior, sempre teve, no plano de fundo, uma realidade eterna e oculta. Essa realidade é o Espírito Universal. O mundo nada mais é que sua manifestação, ele projeto o mundo como sua idéia. O mundo é sua projeção.
 
O Espírito Universal é imanente em todo o Universo. Este brotou de sua meditação construtiva, mas de modo ordenado, sob forma moldada por suas próprias impressões mentais, conservadas na memória, por antigo estado de existência ativa.
 
A incessante procissão de imagens, representando sóis, estrelas, terras, mares, todas as coisas visíveis, emana do Espírito Universal conforme uma lei kármica, misteriosa e imutável, como a água que se escoa de uma fonte ininterrupta.
 
O cosmo é contínuo e seu passado é sem começo. Porém, intervalos de não existência interrompem periodicamente sua história. Esses intervalos, no entanto, são temporários. Não há rupturas reais de existência, mas rupturas aparentes quando esta existência se torna latente.
 
Cada aparecimento sucessivo do Universo, que se manifesta de novo, resulta inevitavelmente daquele que anteriormente se conservou em estado latente.
 
Quando todos os karmas coletivos de todos os centros individuais e planetários se cansam e se esgotam, um ciclo da história do Universo se fecha. O Universo manifestado se retira então e o Espírito Universal repousa. Mas a aurora cósmica tem uma nova imaginação de todas as coisas.
 
Quando os karmas anteriores se põem a germinar e a reproduzir-se, novo ciclo começa, o mundo visível volta à existência, herdando tudo o que se achava no mundo precedente. O Universo atual não é o primeiro que se manifestou e não será o último. Somente nesse sentido o Universo é indestrutível.
 
O Universo sofre uma evolução que se efetua estritamente segundo a lei kármica e não por mero acaso, como pensam os materialistas, nem sob as ordens arbitrárias de um criador pessoal, como crêem os religiosos.
 
Se uma nebulosa cósmica se desenvolve em sistemas solares, estes se dissolvem de novo em nebulosa. O Universo das formas volta sem cessar ao ponto de partida; é sem começo, sem fim. Eis porque ele está sujeito ao nascimento e à morte, à degeneração e à refloração, isto é, a mudar constantemente.
 
É semelhante a uma roda virando eternamente e passando séculos de atividade e de repouso alternativos. Aí está porque os antigos o representavam sob a imagem de uma suástica em movimento.