1.11.17

OS CENTO E DOZE CAMINHOS DE SHIVA (Vijnana Bhairava, texto do Shaivismo Tântrico)

(Sadhguru diz que todos os sistemas religiosos e filosóficos do mundo derivam e estão contidos nestes 112 caminhos, que foram revelados por Shiva a Párvati há mais de 30 mil anos, e que este texto é a ciência original da autorrealização, enquanto os demais sistemas são tecnologias derivadas dela)

Devi (a Deusa) diz:
Ó Shiva, qual é tua realidade?
O que é este universo cheio de maravilhas?
O que é a semente?
Quem põe no centro a roda universal?
O que é esta vida além das formas?
Como podemos ir além do espaço e tempo, nome e forma?
Esclarece minhas dúvidas!
Shiva responde:
1. Radiante mulher, esta experiência pode despontar entre duas respirações. Após o ar entrar e antes do ar sair – a beneficência.
2. Quando a respiração entra, até sair; e novamente quando a respiração entra – através desses giros, perceba.
3. Ou, sempre que a respiração que entra e a que sai se fundirem, neste instante toque o centro cheio de energia sem energia.
4. Ou, quando a respiração sai e para por si mesma, ou quando entra e para – nesta pausa universal o pequeno eu desaparece. Isso é difícil apenas para o impuro.
5. Considera tua essência como raios de luz subindo de chakra em chakra na coluna vertebral, assim desperta a vida em você.
6. Ou nos espaços entre eles, sente isso como relâmpago.
7. Devi, imagina as letras sânscritas nesses focos de consciência cheios de mel, primeiro como letras, depois mais sutilmente como sons, e então como os mais sutis sentimentos. Então colocando-os de lado seja livre.
8. Com a atenção entre as sobrancelhas, deixa a mente existir antes do pensamento. Deixa a forma enchê-la com a essência da respiração até o topo da cabeça e dali despeje como luz.
9. Ou imagina os círculos de cinco cores da pena do pavão como seus cinco sentidos num espaço ilimitado. Agora deixa sua beleza fundir-se dentro. Do mesmo modo, em qualquer ponto do espaço ou de uma parede, até que o ponto se dissolva. Então teu desejo de outro se realiza.
10. Com os olhos fechados, vê teu ser interior em detalhe. Vê assim tua verdadeira natureza.
11. Coloca toda tua atenção no nervo, delicado como um fio de lótus, no centro de tua coluna vertebral. Ali sê transformada.
12. Fechando as sete aberturas da cabeça com suas mãos, há um espaço entre teus olhos que inclui tudo.
 13. Tocando as bolas dos olhos levemente, a luz entre eles se abre e se transforma no coração e ali permeia o cosmo.
14. Banha-te no centro do som, como num som contínuo de uma cachoeira. Ou colocando os dedos nos ouvidos, ouve o som dos sons.
15. Entoa um som, como a-u-m, vagarosamente. Assim como o som entra na sensação, faz o mesmo.
16. No começo e com o gradual refinamento do som de qualquer letra, desperta.
17. Enquanto ouve instrumentos de corda, ouça seu som central; assim a onipresença.
18. Entoa um som de modo audível, em seguida menos e menos audível à medida que o sentimento se aprofunda nesta harmonia silenciosa.
19. Imagina o espírito simultaneamente dentro e em volta de ti, até que todo o universo se espiritualize.
20. Gentil Deusa, entra na presença etérica impregnando o que está acima e abaixo de tua forma.
21. Coloca tua mente em tal excelência inexpressível acima, abaixo e dentro de teu coração.
22. Considera qualquer área de tua forma presente como espaço ilimitado.
23. Sente tua substância, ossos, carne, sangue, saturados com essência cósmica.
24. Supõe que tua forma passiva seja um espaço vazio com paredes de pele - vazio.
25. Abençoada Deusa, assim como os sentidos são absorvidos no coração, alcança o chakra do lótus.
26. Desconsiderando a mente, mantém-te no meio - até.
27. Quando estiver em atividade mundana, mantém-te atenta entre duas respirações, e assim praticando, em poucos dias nasça novamente.
28. Concentra-te no fogo que sobe através de tua forma, vindo dos dedos do pé, até que teu corpo seja queimado até as cinzas, mas não tu.
29. Medita no mundo ilusório como se estivesse sendo queimado até as cinzas, e torna-te um ser além de humano.
30. Sente as excelentes qualidades criativas penetrando teu peito e assumindo delicadas configurações.
31. Com respiração sutil no ajna chakra, quando esta alcança o coração no momento do sono, tem controle sobre os sonhos e sobre a própria morte.
32. À medida que, subjetivamente, as letras se transformam em palavras e as palavras em sentenças, e à medida que, objetivamente, os círculos se transformam em mundos e mundos em princípios, descobre finalmente estes convergindo em nosso ser.
33. Graciosa mulher, o universo é uma concha vazia onde tua mente se diverte infinitamente.
34. Olha uma tigela sem ver os lados ou o material. Em poucos instantes torna-te consciente.
35. Permanece em algum espaço sem fim, livre de árvores, colinas, habitações. Daí vem o fim das pressões da mente.
36. Amada, medita no conhecimento e no não-conhecimento, no existir e no não-existir. Então deixa ambos de lado para que tu possas ser.
 37. Olha com amor algum objeto. Não olhes para outro objeto. Aqui, no meio deste objeto – a bênção.
38. Sente o cosmo como a brilhante presença sempre viva.
39. Com máxima devoção, concentra-te nas duas junções da respiração e conhece aquele que conhece.
40. Considera a totalidade como teu próprio corpo de bem-aventurança.
41. Enquanto és acariciada, doce princesa, entra na carícia como vida eterna.
42. Cerra as portas dos sentidos ao sentir como que formigas caminhando sobre o corpo. Então.
43. No começo da união sexual, mantém a atenção sobre o fogo no começo, e assim continuando, evita as brasas no fim.

44. Quando em tal abraço teus sentidos forem agitados como folhas, penetra esta agitação.
45. Mesmo recordando a união, sem o abraço, a transformação.
46. Ao ver com alegria um amigo ausente por longo tempo, penetra esta alegria.
47. Ao comer ou beber, torna-te o gosto da comida ou da bebida, e sê preenchida.
48. Ó mulher de olhos de lótus, de toque doce, ao cantar, ver, provar, sê consciente de quem tu és e descobre o sempre-vivente.
49. Onde quer que encontres satisfação, seja qual for o ato, realiza isto.
50. Ao dormir, quando o sono ainda não te dominou e a consciência externa desaparece, neste ponto o ser é revelado.
51. No verão, quando tu vires o céu infinitamente claro, entra nesta claridade.
52. Deita-te como morta. Envolvida pela ira, permaneça assim. Ou olha fixamente sem mover uma pestana. Ou sugue algo e torna-te a sucção.
 53. Sem apoios para os pés ou as mãos, senta-te apenas sobre as nádegas. De repente, a centralização.
54. Numa posição confortável gradualmente impregne uma área entre as axilas em grande paz.
55. Vê como se fosse pela primeira vez uma pessoa bela ou um objeto comum.
56. Com a boca levemente aberta, mantém a mente no meio da língua. Ou à medida que a respiração entra silenciosamente, sente o som HH (aspirado).
57. Sobre uma cama ou um assento, deixa-te tornar sem peso, além da mente.
58. Num veículo em movimento, oscilando ritmicamente, experimenta. Ou num veículo parado, deixa-te balançar em vagarosos círculos invisíveis.
 59. Simplesmente olhando o céu azul além das nuvens, a serenidade.
60. Shakti, vê todo o espaço como se já absorvido em tua própria cabeça no esplendor.
61. Despertar, dormir, sonhar, conhecer a ti mesma como luz.
62. Na chuva durante uma noite escura entra nesta escuridão como a forma das formas.
63. Quando não houver uma noite chuvosa e sem lua, fecha os olhos e encontra a escuridão ante ti. Abrindo os olhos, vê a escuridão. Assim os enganos desaparecem para sempre.
64. Assim como tens o impulso de fazer algo, para.
65. Concentra-te no som a-u-m sem nenhum a ou m.
66. Silenciosamente pronuncia uma palavra terminando em AH. Depois o  HH sem esforço, a espontaneidade.
67. Sente-te como penetrando todas as direções, longe, perto.
68. Fura uma parte de tua forma cheia de néctar com um alfinete, e gentilmente entra no furo.
69. Sente: meu pensamento, pensamento-eu, órgãos internos – eu.
70. Ilusões enganam. Cores limitam. Mesmo as coisas divisíveis são indivisíveis.
71. Quando algum desejo vier, pensa nele. Então subitamente, abandona-o.
72. Ante o desejo e ante o conhecimento, como posso dizer eu sou? Pensa nisso. Dissolve na beleza.
73. Com toda tua consciência já no começo do desejo, do conhecimento, conhece.
74. Ó Shakti, cada percepção particular é limitada, desaparecendo em onipotência.
75. Na verdade as formas são unas. Uno é o ser onipresente e tua própria forma. Realiza cada forma como feita desta consciência.
76. Em estados mentais de extremo desejo, fica indiferente.
77. Este assim chamado universo aparece como um espetáculo ilusório. Para ser feliz olha-o desta maneira.
78. Oh Amada, não coloques a atenção no prazer ou na dor, mas entre estes.
79. Lança de lado o apego ao corpo, realizando “Eu estou em toda parte”. Quem está em toda parte é feliz.
80. Objetos e desejos existem em mim assim como em outros. Aceitando isso, deixa-os ser transformados.
81. A apreciação do objetivo e do subjetivo é a mesma para o iluminado e para o não iluminado. O primeiro tem uma grandeza: ele permanece no estado subjetivo, não se perde nas coisas.
82. Sente a consciência de cada pessoa como tua própria consciência. Assim, deixando de lado a autopreocupação, torna-te cada ser.
83. Pensando em nada tornarás ilimitado o ser limitado.
84. Acredita onisciente, onipotente, onipresente.
85. Assim como ondas vêm com a água e flamas com o fogo, assim as ondas universais conosco.
86. Perambula por aí até exausta, e então, caindo no chão, neste cair sê a totalidade.
87. Supõe que tu estás gradualmente sendo privada de força ou de conhecimento. No instante da privação, transcende.
88. Ouve enquanto o ensinamento místico final é ensinado: olhos imóveis, sem piscar, imediatamente torna-te absolutamente livre.
89. Fecha os ouvidos pressionando-os e o reto contraindo-o, entra no som do som.
90. No fim de um poço profundo, olha firmemente em suas profundidades até que – a maravilha.
91. Quando tua mente vagar, internamente ou externamente, neste mesmo lugar - isto.
92. Quando vividamente consciente através de algum sentido em particular, mantém-te na consciência.
93. No começo de um espirro, durante o susto, na ansiedade, sobre um abismo, fugindo na batalha, na extrema curiosidade, no começo da fome, no fim da fome, esteja ininterruptamente consciente.
94. Deixa a atenção se fixar num lugar onde tu vês um acontecimento passado, e até mesmo tua forma, tendo perdido suas características presentes, é transformada.
95. Olha algum objeto, e então vagarosamente tira dele tua visão, então vagarosamente tira dele teu pensamento. Então.
96. A devoção liberta.
97. Sente um objeto à tua frente. Sente a ausência de todos os outros objetos, menos este. Então deixa de lado o sentimento do objeto e o sentimento da ausência, realiza.
98. A pureza de outros ensinamentos é uma impureza para nós. Na verdade, não conheças nada como puro ou impuro.
99. Esta consciência existe como cada ser, e nada mais existe.
100. Sê a mesma e indiferente para um amigo e para um estranho, na honra e na desonra.
101. Quando um pensamento contra alguém ou a favor de alguém aparecer, não o coloques sobre a pessoa em questão, mas permanece centrada.
102. Supõe que tu contemplas algo além da percepção, além da compreensão, além do não-ser, tu.
103. Entra no espaço, sem apoio, eterno, calmo.
104. Sempre que tua atenção acende, neste mesmo ponto, experiência.
105. Entra no som de teu nome, e através deste som, todos os sons.
106. Eu existo. Isto é meu. Isto é isto. Ó Amada, mesmo assim conhece ilimitadamente.
107. Esta consciência é o espírito que guia em cada um. Sê isto.
108. Aqui é uma esfera de mudança, mudança, mudança. Através da mudança, destrói a mudança.
109. Assim como uma galinha dá nascimento a seus pintinhos, dá nascimento a conhecimentos particulares, realizações particulares, na realidade.
110. Desde que, na verdade, cativeiro e liberdade são relativos, estas palavras são apenas para aqueles assustados com o universo. Este universo é um reflexo das mentes. Assim como tu vês muitos sóis na água refletidos de um sol, assim vê o cativeiro e a liberação.
111. Cada coisa é percebida através da cognição. O eu brilha no espaço através da cognição. Percebe o ser único como conhecedor e conhecido.
112. Amada, neste momento deixa a mente, a cognição, a respiração, a forma, serem incluídos.

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