Fui visitar, ao sul da Índia, Tiruvannamalai um templo sagrado muito antigo no sopé da famosa montanha de Arunachala, tornada conhecida no ocidente por Paul Brunton, em seu livro A Índia Secreta, onde ele fala sobre ela e sobre seus contatos com Shri Ramana Maharishi, a respeito de quem eu falarei um pouco.
A montanha é tida como uma das cadeias de montanhas mais velhas da Índia, e tem sido considerada como uma montanha muito sagrada há bastante tempo. A palavra “Arunachala” significa “visão de luz” ou “farol de luz”, e é considerada como sendo um centro de poder do Terceiro Aspecto da Trimurti, que simplesmente quer dizer “três poderes”, e é a palavra indiana ou sânscrita para “Trindade”.
Aos pés do monte existe um templo muito antigo, sendo uma das entradas, ou gopurams, muito mais velha do que o resto. Do outro lado da montanha ainda se encontra o ashram de Shri Ramana Maharishi, cuja história é muito esclarecedora... Ele costumava ensinar numa grande sala onde ficava deitado num divã com as pessoas no chão rodeando-o por todos os lados. De todas as partes do mundo pessoas como Brunton vinham procurá-lo para se sentar a seus pés e fazer perguntas a ele, ouvindo suas alocuções sábias sobre a vida espiritual.
Ramana Maharshi
Ouvi muitos que o conheceram testemunhar sobre uma peculiaridade do sábio. Você não precisava fazer suas perguntas, mas meramente sentar-se com ele e a resposta apropriada, mais cedo ou mais tarde, iria aparecer em sua mente sem nenhuma pergunta ou resposta verbal. Ele era profundamente venerado por um grande número de pessoas, e veio a ser chamado de “Maharishi”, que significa “grande Rishi”.
Foi-me concedido o privilégio de ir ao quarto em que Shri Ramana Maharishi vivia. O pequeno quarto era considerado como particularmente santificado, e eu sentei-me ali onde todas suas coisas estavam: sua bengala, umas poucas tigelas e um incensário para pujas. Tudo parecia ter sido mantido como estava quando o corpo foi retirado do quarto. Achei então que deveria aproveitar a oportunidade para ver se sua influência ainda estava ali, como senti que estava, e iria fazer uma pergunta mentalmente.
Então, meditei por algum tempo até que senti definitivamente em contato com ele em mundos mais elevados. Mantive em minha mente o pedido para que ele enunciasse um princípio sobre o desenvolvimento espiritual. Depois de algum tempo as seguintes palavras se formaram, sem esforço, em minha mente: “Voluntariamente aprisionado em seu interior, como luz, encontra-se um poder onipotente. Liberte-o. Deixe que a luz brilhe.”
Essas palavras podem não parecer grande coisa para algumas pessoas, mas elas produziram um efeito muito profundo e esclarecedor em mim. Usei-as como uma sentença introdutória para meu pequeno livro sobre meditação, Um Ioga da Luz, que foi escrito pouco depois daquela experiência.
Arunachala
Enquanto eu estava sendo levado de um lado para outro em Arunachala, depois de ter visitado o ashram do Maharishi, dirigi-me aos meus amigos indianos, um dos quais era um advogado vivendo em Tiruvannamalai, e perguntei se aquela montanha não abrigava outros homens santos. Ele respondeu que ela abrigava até mesmo maiores do que o Maharishi. Quando perguntei ansiosamente onde eles ficavam, ele me disse que eles não se revelavam, mas era sabido que eles viviam nas alturas da montanha. Alguns pastores e aldeões de vez em quando os avistavam, e mesmo levavam comida para eles. Insisti, então, por informação se havia algum que poderia estar disponível para uma entrevista. Meus amigos se entreolharam por alguns instantes e responderam que havia um, chamado Shiva, que eles estavam certos que iria me receber. Decidimos partir imediatamente.
Contornando a montanha, saímos da estrada principal e tomamos um caminho estreito entre as árvores, mais perto da montanha de Arunachala. Finalmente, chegamos a uma linda clareira na floresta, onde havia um tanque, um reservatório calçado com pedras ou concreto. Ao descermos de nosso carro, um de nossos amigos exclamou que lá estava Shiva, à direita, e eu vi um homem quase nu que se levantou quando nos aproximamos. Ele era idoso, ereto, em bom estado de saúde, sua pele parecia brilhar com vitalidade. Ele era esbelto, com cabelos brancos longos bem penteados até seus ombros, com um bigode longo e uma barba, também branca. Mas seus olhos estavam acesos com humor e afeição, e quero enfatizar a luz interior da qual falei, na verdade, mais do que isso. Toda a postura do homem demonstrava que ele havia conquistado todas as fraquezas humanas e tinha seu autodomínio, era um rei dos reis. Até sua forma de andar mostrava a mais perfeita liberdade de qualquer fraqueza, limitação, ou medo de qualquer coisa.
Ele nos recebeu perto de sua choupana com um telhado de palha aberto nos lados. Sentamo-nos no piso de concreto e ele num assento de concreto curvado. Ele havia feito a choupana e o revestimento do tanque com suas próprias mãos. Sorriu para nós e meus amigos me apresentaram e perguntaram se eu podia conversar com ele. Ele sorriu de forma radiante, consentindo. Com isso começamos a falar sobre assuntos espirituais, ioga, filosofia e as coisas sobre as quais adoro discutir.
Ele mostrou-se muito amigável e quando eu voltei em outra ocasião, ele pareceu mostrar uma empatia calorosa por mim. Finalmente eu me aventurei com a pergunta mais importante para mim. Se uma pessoa tinha aprendido a meditar e podia manter sua consciência por um tempo razoável num senso de unidade com o Supremo Espírito, a essência do universo, o Atma, qual era o próximo passo? Como perder a consciência do corpo, como ele e outros eram capazes de fazer, e tornar-se absorvido no Paramatma?
Ele riu em voz alta para mim e disse que não podia me dizer aquilo. Eu tinha que aprender aquilo; era preciso que isso me fosse mostrado e não meramente dito. Obviamente, ele estava falando por meio de intérpretes, pois só falava a língua local, tâmil. De repente, olhou para mim e perguntou-me quanto tempo eu poderia dedicar a ele. Pensei por um momento e conclui que eu poderia viajar as cento e cinquenta milhas de Madras de carro, para passar um fim de semana, se alguns amigos estivessem disponíveis para dirigir de ida e de volta.
Respondi, então, que poderia vir somente por vinte e quatro horas. Ele disse que não era tempo suficiente, mas para vir mesmo assim. Para resumir, eu vim. Um discípulo seu, fluente em inglês, estava com ele na visita seguinte, um homem que tinha sido um servidor público e que tinha tido anseios semelhantes. Ele tinha abandonado aquela vida para tornar-se um asceta. Era um homem bonito. Chamava-se Asangha Maya (que não é preso por maya). Tornamo-nos amigos muito próximos naquelas vinte e quatro horas.
O Shiva, como ele era chamado, admitiu-me em seu próprio santuário, que era simplesmente essa cabana de concreto na qual ele dormia. Ali ele deu-me algumas instruções. Elas não eram a respeito de entrar em samadhi, devo admitir, caso contrário eu não as entendi. Mas, era um certo conhecimento e combinação de ações, que não tenho autorização para descrever, para mergulhar em meditação mais profunda e para despertar a kundalini. Como eu já havia realizado parte daquilo, o efeito em mim foi muito forte. A kundalini quase que disparou para cima e todo meu corpo ficou eletrificado por ela na presença dele. O discípulo sentou-se ao meu lado e, quando nossas mãos ou braços tocavam exclamava que eu estava eletrificado, pois ele sentia o poder elétrico ardejando de meu corpo.
Bem, Shiva foi para a cama para dormir em sua cabana, enquanto Asangha Maya e eu passamos a noite fora. Eu tinha trazido uma cama com mosquiteiro. Ele deitou-se no assento de concreto, tendo adquirido a capacidade para dormir em qualquer lugar, ele disse. Mas, nós não dormimos. Eu continuei a praticar sob sua orientação o procedimento que me tinha sido mostrado, até que eu me senti razoavelmente seguro dele, apesar de não ser nada difícil.
Fiquei fazendo perguntas a ele e conversamos sobre a vida espiritual até de madrugada naquela noite quente de verão da Índia. Foi uma experiência maravilhosa e inesquecível, tudo ocorrendo dentro da aura de Shiva, que senti ser um grande ser. Desenvolvi grande afeição por ele e ele por mim, como podia ser visto na sua expressão. Ele escreveu para mim, por meio de um intérprete, e eu para ele. Quando meus amigos vão visitá-lo, ele pergunta por mim. Seus outros seguidores em diferentes partes do mundo também tiveram esses privilégios. Mantenho contatos espirituais-mentais com ele quase todo o tempo. Ele era uma pessoa que realmente havia realizado as coisas sobre as quais lemos, e era maravilhoso estar em sua grandiosa presença.
G. Hodson
Em outra ocasião, tendo ouvido falar que outro homem santo estava visitando Conjeeveram, mandei um pedido por meio de um teósofo local, para saber se ele poderia receber os estudantes da Escola de Sabedoria. A pessoa em questão era nada menos do que o atual Shri Shankaracharya, o chefe espiritual e administrativo de todo o centro monástico, ou mutt como é chamado, do antigo templo do centro de Conjeeveram. O cargo tem sido mantido numa linhagem sem interrupção desde os dias do próprio Shri Shankaracharya, cerca de vinte e três ou vinte e quatro séculos atrás, de acordo com Subba Row, um dos primeiros teósofos e ocultistas ligados à nossa Sociedade. O Senhor Shri Shankaracharya é considerado ocultamente como uma encarnação voluntária de um dos Senhores da Chama.
Nosso pedido de audiência foi concedido. Chegamos num domingo de manhã e no seu devido tempo fomos conduzidos à sua presença. Ele escolheu um jardim fechado, cerca de uma milha fora da cidade de Conjeeveram. Era um lugar sagrado, porque por muitos anos um santo havia vivido e morrido ali. Entramos pelo portão do jardim. Inicialmente, ninguém parecia estar lá, até que, num lado, na outra ponta do jardim, vimos uma figura sentada numa esteira, debaixo de uma árvore. Ele estava vestido com um manto amarelo e com uma grinalda de folhas ao redor de sua cabeça. À sua frente tinham sido colocadas esteiras japonesas para as quais fomos levados. Os europeus o saudaram da forma usual e os indianos se prostraram diante dele.
Sentamos-nos e, como líder, expressei nossa gratidão a ele por nos conceder essa audiência, dirigindo-me a ele como “Sua Santidade”, que é o seu título entre seu povo, e disse a ele quem éramos. Ele falava muito bem o inglês, mas um intérprete ajudava, e ele começou a fazer perguntas a todos os estudantes em sequência. O interessante é que essas perguntas eram a respeito de suas Lojas e de quantos membros, o que faziam e o que ensinavam...
Todos nós testemunhamos depois, que nos sentimos banhados numa atmosfera de paz na presença dessa figura delicada. Ao olhar para ele você não iria imaginar que ele ocupava uma das mais elevadas posições eclesiásticas na Índia, tão humilde que era. Perto do final da entrevista perguntei a ele se não poderia dar uma mensagem para nós levarmos de volta para o mundo. Ele tinha o hábito peculiar de fechar os olhos e ficar em silêncio por algum tempo depois de cada pergunta, claramente permitindo que sua consciência retornasse para onde ela parecia viver normalmente, num mundo mais elevado.
Aquilo era muito marcante com ele, assim me pareceu. As pálpebras estavam semicerradas a maior parte do tempo até que sua atenção fosse detida. Então, os olhos ficavam abertos e cheios de vida. Ele disse, “Fixem sua mente em Deus. Mantenham-na ali o tempo todo e, sempre que ela tender a deixar o pensamento de Deus, traga-a de volta instantaneamente, até que se torne um hábito manter sempre uma parte de sua mente contemplando a Deus.”
Ele também falou sobre verdades universais que outros santos haviam enfatizado. Por exemplo, que você não pode fazer nada na vida espiritual até possuir pureza de coração. Shiva disse a mesma coisa várias vezes. Pureza de coração é da maior importância, no sentido de que não deve haver absolutamente nenhum pensamento de ganho pessoal ou recompensa de qualquer realização espiritual que possa ser alcançada.
Finalmente, esse sucessor do cargo do grande Shri Shankaracharya original levantou sua mão direita e disse, “Esta é a bênção.” E com certeza, alguns dos membros da Escola, na manhã seguinte, quando fizemos uma revisão de tudo o que aconteceu, testemunharam que naquele momento sentiram a descida de uma bênção.
Ao nos retirarmos daquela experiência inesquecível, um dos atendentes veio a mim, antes de deixarmos o jardim, e disse que Sua Santidade falaria comigo em particular, por alguns minutos, se eu desejasse. Senti-me altamente honrado, obviamente, e voltei, sabendo que isso se devia ao fato de eu ser o Diretor de Estudos da Escola de Sabedoria. Ele perguntou se havia algumas perguntas que eu, pessoalmente, gostaria de fazer. Ele me deixou inteiramente à vontade, sem me sentir em momento algum encabulado, mas gostaria de ter me preparado melhor para essa oportunidade. A pessoa sentia que não tinha nenhuma pergunta em sua presença. Um dos resultados dos estudos teosóficos é que a nossa mente não fica cheia de perguntas.
Perguntei então se o Rishi Agastya ainda estava na Índia, guardando-a, em cumprimento de Seu Cargo, e se podia ser contatado pelas pessoas e visto. Ele ficou em silêncio, e então perguntou se eu queria dizer em corpo físico. Eu respondi que aquela era a crença. Ele se retraiu outra vez por algum tempo antes de responder. Então disse que o Rishi Agastya ainda estava em Seu corpo físico, mas que não estava aqui; que Ele vivia nos Himalaias. Então ele outra vez estendeu sua mão e disse, “Esta é a bênção.” Mais uma vez agradeci a ele de parte de todos nós e me retirei.
Perguntaram-me se eu
olhei a sua aura. Eu não fiz isso. Não me permiti tentar olhar para ele em nenhuma
forma de método de pesquisa, porque senti que seria inapropriado e talvez uma impertinência.
Somente fiquei ciente que a figura delicada estava rodeada de uma grande luz e
que ele era uma pessoa muito avançada...
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