Certa manhã durante dezembro de 1937, sentei-me
de pernas cruzadas num pequeno cômodo de uma casa onde eu morava em Jamnu, Índia.
Estava meditando com minha face virada para o leste e o dia estava amanhecendo.
Pela prática de muitos anos, tinha-me acostumado a
ficar sentado durante horas sem o menor desconforto. Sentava-me ali respirando devagar
e ritmicamente, minha atenção voltada para o topo de minha cabeça, contemplando
um lótus imaginário totalmente aberto, irradiando luz.
Sentava-me firme e ereto, meus pensamentos
concentrados no lótus cheio de luz, tentando manter minha concentração e
trazendo-a de volta quando se afastava em outra direção.
A intensidade da concentração interrompia minha respiração;
gradualmente ela diminuía até ficar quase imperceptível. Todo meu ser se
concentrava na contemplação do lótus, de tal modo que me esquecia do corpo e de
onde estava. Durante estes momentos sentia-me como se estivesse suspenso no ar,
sem a sensação do corpo. O único objeto do qual ficava consciente era um lótus
de cor brilhante, emitindo raios de luz.
Essa experiência tem acontecido a muitas pessoas
que praticam meditação por um tempo suficiente, mas o que aconteceu naquela
manhã para mim mudou todo o curso de minha vida e poucos já experimentaram.
Durante aquela concentração, de repente senti uma
estranha sensação sob a base de minha espinha, tão extraordinária e agradável
que minha atenção foi arrastada para ela. Mas no momento em que minha atenção
foi dirigida àquela experiência, a sensação cessou.
Achando que estava imaginando coisas, deixei de
pensar naquilo e levei a atenção de volta ao ponto no topo da cabeça. Novamente
me concentrei sobre o lótus e a imagem apareceu clara e distinta. Então a
sensação da base da espinha reapareceu.
Dessa vez tentei me concentrar na base da espinha e
consegui por alguns segundos, e então a
sensação subiu tão intensa pela minha espinha e era tão extraordinária que não
se assemelhava a nada que já havia experimentado antes, e novamente se
extinguiu.
Eu estava agora convencido que algo incomum havia
acontecido, pela qual minha prática diária de concentração era responsável.
Eu já havia lido relatos de grandes yogues sobre os
grandes benefícios que resultam da concentração e sobre os poderes miraculosos
que eles adquirem desse modo. Meu coração começou a bater descontroladamente, e
ficou difícil novamente fixar minha atenção na meditação.
Após um momento me acalmei e novamente entrei em
meditação. Quando estava completamente imerso nela, novamente veio aquela
sensação, mas dessa vez, em vez de deixar minha mente se distrair da concentração
no ponto onde a tinha fixado, mantive-a onde estava.
A sensação novamente se dirigiu para cima, em
crescente intensidade, e me senti flutuando, mas com grande esforço mantive
minha concentração fixa no lótus. De repente, com um grande rugido como de uma
cachoeira, senti uma corrente de luz líquida entrando em meu cérebro através da
espinha.
Totalmente despreparado para a experiência, fiquei
sem saber o que fazer, mas retomando rápido meu autocontrole, continuei sentado
na mesma posição, mantendo a mente concentrada em seu objeto. A iluminação
ficou mais e mais brilhante, o rugido aumentou ainda mais, e experimentei uma
sensação de estar saindo do corpo, inteiramente envolvido num halo de luz.
É impossível descrever a experiência corretamente. Senti
o ponto de consciência que eu era expandindo-se mais e mais enquanto o corpo
parecia se distanciar, até eu ficar inteiramente inconsciente dele. Eu era
agora todo consciência, sem forma, sem corpo, sem qualquer sentimento ou
sensação vinda dos sentidos, imerso num mar de luz, simultaneamente desperto e
consciente em cada ponto dele, expandindo em todas as direções sem qualquer
barreira ou obstrução material.
Não era mais eu mesmo, ou para ser mais preciso,
não mais me reconhecia como sendo um pequeno ponto de consciência confinado num
corpo, mas em vez disso um vasto círculo de consciência no qual o corpo era
apenas um ponto, banhado em luz e num estado de exaltação e felicidade
impossível de descrever.
Após algum tempo, cuja duração não posso precisar,
o círculo começou a se estreitar; senti que estava contraindo, me tornando cada
vez menor, até que novamente me senti consciente do corpo e voltei à minha
velha condição. Tornei-me consciente dos barulhos da rua, novamente senti meus
braços e pernas e mais uma vez me tornei meu estreito eu, em contato com o
corpo e seu meio.
Quando abri os olhos e olhei ao redor, me senti um
pouco atordoado e confuso, como se tivesse voltado de um país estranho e
completamente desconhecido para mim. O sol tinha nascido e já brilhava forte. Tentei
levantar minhas mãos mas não consegui. Com esforço levantei e estiquei os
braços, tentando restabelecer a circulação livre do sangue. Em seguida tentei
retirar minhas pernas da posição de meditação na qual eu estava, mas não pude;
estavam pesadas e rígidas. Com a ajuda das mãos, puxei as pernas e as estiquei,
em seguida me encostei na parede para ficar mais confortável.
O que tinha me acontecido? Teria sido vítima de uma
alucinação? Ou teria experimentado o estado transcendental? Teria tido sucesso
onde milhões tinham falhado? Haveria, então, realmente alguma verdade nas
declarações dos sábios e ascetas da Índia, feitas durante milhares de anos, de
que era possível apreender a Realidade nesta vida, se a pessoa seguisse certas
regras de conduta e praticasse a meditação corretamente?
Eu estava estupefato. Dificilmente podia acreditar
que tive aquela experiência divina. Tinha experimentado uma expansão de meu ser,
de minha consciência, e a transformação que a corrente vital trouxera tinha
começado da base da espinha e encontrado seu caminho para o cérebro através da
espinha.
Lembrei que tinha lido há muito tempo em livros de
yoga sobre um certo mecanismo vital chamado Kundalini, conectado com o final da
espinha, que se torna ativo através de certos exercícios, e uma vez desperto
leva a limitada consciência humana para as alturas transcendentais, capacitando
o indivíduo com incríveis poderes psíquicos e mentais.
Teria sido sortudo o suficiente para encontrar a
chave desse maravilhoso mecanismo, sobre o qual as pessoas falavam sem tê-lo
visto em ação em si mesmas? Tentei novamente repetir a experiência, mas estava
tão fraco e estupefato que não pude concentrar meus pensamentos o suficiente
para conseguir a concentração.
Olhei para o sol. Será que em minha condição de extrema
concentração eu teria confundido a luz solar com o brilhante halo que me rodeou
no estado superconsciente?
Fechei meus olhos novamente, permitindo que os raios
solares pousassem sobre minha face. Não, o brilho que percebi vindo do sol era
completamente diferente. A luz que eu experimentara foi interior, uma parte
integral de uma consciência expandida, uma parte de meu ser.
Sensacional experiência, apenas gostaria da saber meditar. !!!
ResponderExcluirEntre as mais de 1.200 postagens deste blog, há muitas ensinando a meditar, de autoria de grandes yogues. Mas a questão é: como meditar bem, recebendo todos os benefícios da meditação prometidos no yoga indiano. Para aqueles que são principiantes no yoga, entre os quais me incluo, é uma luta diária, de anos ou décadas de prática, e mesmo assim só se recebe alguns estímulos, como bem-estar, bom humor e um pouco mais de paz mental e disposição para o trabalho. Por sua vez, a meditação profunda não é uma coisa fácil, creio que é o resultado de muitas vidas de dedicação à prática. No meu ponto de vista, mesmo assim vale a pena dedicar-se à meditação dando os primeiros passos. Se uma jornada de mil quilômetros começa com o primeiro passo, devemos dar esse passo. O esforço deve ser persistente e ao mesmo tempo paciente. Muitas lutas, muitos erros, muitas quedas, mas quem está decidido a seguir esse caminho não se importa com o tempo, o tempo vai passar de qualquer modo, quer você se esforce ou não. Se cair ou errar mil vezes, você se levanta mil vezes e continua sua jornada. A meta, conforme os iogues, vale a pena por todo esforço.
ExcluirSim, entendi perfeitamente sua mensagem. estou usando o blog para aprender,... e praticando as técnicas para cada vez melhorar. muito agradecido, muito obrigado!
Excluir