17.11.17

OS CENTROS INTERNOS DO HOMEM – G. de Purucker


O ser espiritual que é o homem verdadeiro toca o corpo físico assim como o músico toca um alaúde ou harpa. As cordas deste instrumento, esta forma física maravilhosamente construída, vão das mais grosseiras tripas de animais, que podem produzir sons pesados e sensuais, às cordas de prata e ouro, até as intangíveis cordas do espírito; e o músico toca estas cordas divinamente quando o permitimos.

Na maior parte, nós seres humanos evitamos tocar cordas mais nobres e elevadas, e tocamos apenas grosseiras tripas.

Nosso corpo é uma das maravilhas do universo. No presente não percebemos o que ele contém, seus poderes a serem desenvolvidos no futuro que o tempo revelará, cujo desenvolvimento podemos apressar agora.

Estes poderes do ser humano funcionam através dos sete principais centros de energias no corpo: sete órgãos ou glândulas, às vezes chamados chakras. Os chakras são órgãos astrais e suas funções específicas estão rodeadas de mistério.

Tudo sobre Chakras | Personare

Através de nossa vontade, pelo estudo, podemos tornar os chakras superiores bem mais ativos do que são atualmente, e assim nos tornar deuses entre os homens. Mas a maioria de nós não faz isso. Vivemos no mundo abaixo do diafragma humano, por assim dizer.

Ainda assim, apesar de nossos piores esforços para matar o deus dentro de nós, para destruir sua obra sagrada, as glândulas pineal e pituitária, bem como o coração, continuam funcionando da mesma forma. Somos protegidos contra nossa própria tolice.

O mais inferior destes chakras pode ser transformado num dos mais nobres mudando sua direção funcional para a espiritualidade criativa. Outros chakras no corpo humano podem ser utilizados para a produção dos mais poderosos e nobres trabalhos de um gênio. Mas quantos se lembram da santidade da criação espiritual?

No chakra do coração (aqui o autor se refere a hridaya, o coração espiritual do lado direito do peito, e não a anáhata, que é o chakra do coração) habita o deus interior; seus raios tocam o coração e o preenchem com sua luz áurica. Este lugar é o santo dos santos.  Ali mora a consciência, assim como o amor, a paz, a autoconfiança, a esperança e a sabedoria divina. A morada dessas qualidades é o coração místico, do qual o coração físico é o instrumento material.

O cérebro é o órgão da mente, o campo de atividade do raciocínio comum através do qual temos pensamentos ordinários e elevados. Conectadas ao cérebro estão a pineal e a pituitária. A glândula pineal é como uma janela que se abre ao mar infinito e aos horizontes de luz. É o órgão da inspiração, da intuição, da visão divina.

O coração (hridaya) é superior à mente, porque é o órgão da natureza espiritual do indivíduo. Quando o coração inflama a pineal e a põe a vibrar rapidamente, há um forte fluxo de força espiritual que o homem experimenta, a tal ponto que seu corpo fica como que revestido de uma aureola de glória. Sua cabeça fica envolvida por um halo, pois à medida que a pineal vibra rapidamente o olho interno se abre e vê o infinito; e o halo é o fluxo energético desta atividade da pineal.

A pituitária é o capitão que executa as ordens do rei pineal. É o órgão da vontade e do impulso. E quando a pineal põe a pituitária vibrando em sincronia com sua própria vibração, temos um homem divino, já que ali o intelecto encara o infinito.

Então a divindade no coração fala e vibra em sincronia com a pineal, e a pituitária assim inspirada trabalha através dos outros chakras e torna o homem uma harmonia de energias superiores!

Todos os grandes mestres espirituais do mundo todo, os grandes homens divinos da raça humana, nos disseram como aumentar a vibração da glândula pineal. A primeira regra é viver como um verdadeiro ser humano. Simples assim. A próxima regra é cultivar as qualidades superiores que o tornarão um homem superior. Seja justo, seja gentil, perdoe, seja compassivo. Aprenda a expressar a beleza do auto-sacrifício pelos outros; há algo de muito heroico nisso.

Mantenha essas ideias em seu coração; acredite que você tem intuição; viva em seu ser superior. Quando puder viver continuamente assim, então aproxima-se o tempo em que você se tornará um glorioso Buddha.

Quando uma pessoa tem um pressentimento, a pineal está começando a vibrar suavemente. Quando ela tem uma intuição ou uma inspiração, ou um súbito clarão de entendimento, a pineal está começando a vibrar mais fortemente, embora com suavidade. A pineal pode ser cultivada a fim de funcionar mais, se acreditarmos em nós mesmos e em nosso poder espiritual inato.



1.11.17

OS CENTO E DOZE CAMINHOS DE SHIVA (Vijnana Bhairava, texto do Shaivismo Tântrico)

(Sadhguru diz que todos os sistemas religiosos e filosóficos do mundo derivam e estão contidos nestes 112 caminhos, que foram revelados por Shiva a Párvati há mais de 30 mil anos, e que este texto é a ciência original da autorrealização, enquanto os demais sistemas são tecnologias derivadas dela)

Devi (a Deusa) diz:
Ó Shiva, qual é tua realidade?
O que é este universo cheio de maravilhas?
O que é a semente?
Quem põe no centro a roda universal?
O que é esta vida além das formas?
Como podemos ir além do espaço e tempo, nome e forma?
Esclarece minhas dúvidas!
Shiva responde:
1. Radiante mulher, esta experiência pode despontar entre duas respirações. Após o ar entrar e antes do ar sair – a beneficência.
2. Quando a respiração entra, até sair; e novamente quando a respiração entra – através desses giros, perceba.
3. Ou, sempre que a respiração que entra e a que sai se fundirem, neste instante toque o centro cheio de energia sem energia.
4. Ou, quando a respiração sai e para por si mesma, ou quando entra e para – nesta pausa universal o pequeno eu desaparece. Isso é difícil apenas para o impuro.
5. Considera tua essência como raios de luz subindo de chakra em chakra na coluna vertebral, assim desperta a vida em você.
6. Ou nos espaços entre eles, sente isso como relâmpago.
7. Devi, imagina as letras sânscritas nesses focos de consciência cheios de mel, primeiro como letras, depois mais sutilmente como sons, e então como os mais sutis sentimentos. Então colocando-os de lado seja livre.
8. Com a atenção entre as sobrancelhas, deixa a mente existir antes do pensamento. Deixa a forma enchê-la com a essência da respiração até o topo da cabeça e dali despeje como luz.
9. Ou imagina os círculos de cinco cores da pena do pavão como seus cinco sentidos num espaço ilimitado. Agora deixa sua beleza fundir-se dentro. Do mesmo modo, em qualquer ponto do espaço ou de uma parede, até que o ponto se dissolva. Então teu desejo de outro se realiza.
10. Com os olhos fechados, vê teu ser interior em detalhe. Vê assim tua verdadeira natureza.
11. Coloca toda tua atenção no nervo, delicado como um fio de lótus, no centro de tua coluna vertebral. Ali sê transformada.
12. Fechando as sete aberturas da cabeça com suas mãos, há um espaço entre teus olhos que inclui tudo.
 13. Tocando as bolas dos olhos levemente, a luz entre eles se abre e se transforma no coração e ali permeia o cosmo.
14. Banha-te no centro do som, como num som contínuo de uma cachoeira. Ou colocando os dedos nos ouvidos, ouve o som dos sons.
15. Entoa um som, como a-u-m, vagarosamente. Assim como o som entra na sensação, faz o mesmo.
16. No começo e com o gradual refinamento do som de qualquer letra, desperta.
17. Enquanto ouve instrumentos de corda, ouça seu som central; assim a onipresença.
18. Entoa um som de modo audível, em seguida menos e menos audível à medida que o sentimento se aprofunda nesta harmonia silenciosa.
19. Imagina o espírito simultaneamente dentro e em volta de ti, até que todo o universo se espiritualize.
20. Gentil Deusa, entra na presença etérica impregnando o que está acima e abaixo de tua forma.
21. Coloca tua mente em tal excelência inexpressível acima, abaixo e dentro de teu coração.
22. Considera qualquer área de tua forma presente como espaço ilimitado.
23. Sente tua substância, ossos, carne, sangue, saturados com essência cósmica.
24. Supõe que tua forma passiva seja um espaço vazio com paredes de pele - vazio.
25. Abençoada Deusa, assim como os sentidos são absorvidos no coração, alcança o chakra do lótus.
26. Desconsiderando a mente, mantém-te no meio - até.
27. Quando estiver em atividade mundana, mantém-te atenta entre duas respirações, e assim praticando, em poucos dias nasça novamente.
28. Concentra-te no fogo que sobe através de tua forma, vindo dos dedos do pé, até que teu corpo seja queimado até as cinzas, mas não tu.
29. Medita no mundo ilusório como se estivesse sendo queimado até as cinzas, e torna-te um ser além de humano.
30. Sente as excelentes qualidades criativas penetrando teu peito e assumindo delicadas configurações.
31. Com respiração sutil no ajna chakra, quando esta alcança o coração no momento do sono, tem controle sobre os sonhos e sobre a própria morte.
32. À medida que, subjetivamente, as letras se transformam em palavras e as palavras em sentenças, e à medida que, objetivamente, os círculos se transformam em mundos e mundos em princípios, descobre finalmente estes convergindo em nosso ser.
33. Graciosa mulher, o universo é uma concha vazia onde tua mente se diverte infinitamente.
34. Olha uma tigela sem ver os lados ou o material. Em poucos instantes torna-te consciente.
35. Permanece em algum espaço sem fim, livre de árvores, colinas, habitações. Daí vem o fim das pressões da mente.
36. Amada, medita no conhecimento e no não-conhecimento, no existir e no não-existir. Então deixa ambos de lado para que tu possas ser.
 37. Olha com amor algum objeto. Não olhes para outro objeto. Aqui, no meio deste objeto – a bênção.
38. Sente o cosmo como a brilhante presença sempre viva.
39. Com máxima devoção, concentra-te nas duas junções da respiração e conhece aquele que conhece.
40. Considera a totalidade como teu próprio corpo de bem-aventurança.
41. Enquanto és acariciada, doce princesa, entra na carícia como vida eterna.
42. Cerra as portas dos sentidos ao sentir como que formigas caminhando sobre o corpo. Então.
43. No começo da união sexual, mantém a atenção sobre o fogo no começo, e assim continuando, evita as brasas no fim.

44. Quando em tal abraço teus sentidos forem agitados como folhas, penetra esta agitação.
45. Mesmo recordando a união, sem o abraço, a transformação.
46. Ao ver com alegria um amigo ausente por longo tempo, penetra esta alegria.
47. Ao comer ou beber, torna-te o gosto da comida ou da bebida, e sê preenchida.
48. Ó mulher de olhos de lótus, de toque doce, ao cantar, ver, provar, sê consciente de quem tu és e descobre o sempre-vivente.
49. Onde quer que encontres satisfação, seja qual for o ato, realiza isto.
50. Ao dormir, quando o sono ainda não te dominou e a consciência externa desaparece, neste ponto o ser é revelado.
51. No verão, quando tu vires o céu infinitamente claro, entra nesta claridade.
52. Deita-te como morta. Envolvida pela ira, permaneça assim. Ou olha fixamente sem mover uma pestana. Ou sugue algo e torna-te a sucção.
 53. Sem apoios para os pés ou as mãos, senta-te apenas sobre as nádegas. De repente, a centralização.
54. Numa posição confortável gradualmente impregne uma área entre as axilas em grande paz.
55. Vê como se fosse pela primeira vez uma pessoa bela ou um objeto comum.
56. Com a boca levemente aberta, mantém a mente no meio da língua. Ou à medida que a respiração entra silenciosamente, sente o som HH (aspirado).
57. Sobre uma cama ou um assento, deixa-te tornar sem peso, além da mente.
58. Num veículo em movimento, oscilando ritmicamente, experimenta. Ou num veículo parado, deixa-te balançar em vagarosos círculos invisíveis.
 59. Simplesmente olhando o céu azul além das nuvens, a serenidade.
60. Shakti, vê todo o espaço como se já absorvido em tua própria cabeça no esplendor.
61. Despertar, dormir, sonhar, conhecer a ti mesma como luz.
62. Na chuva durante uma noite escura entra nesta escuridão como a forma das formas.
63. Quando não houver uma noite chuvosa e sem lua, fecha os olhos e encontra a escuridão ante ti. Abrindo os olhos, vê a escuridão. Assim os enganos desaparecem para sempre.
64. Assim como tens o impulso de fazer algo, para.
65. Concentra-te no som a-u-m sem nenhum a ou m.
66. Silenciosamente pronuncia uma palavra terminando em AH. Depois o  HH sem esforço, a espontaneidade.
67. Sente-te como penetrando todas as direções, longe, perto.
68. Fura uma parte de tua forma cheia de néctar com um alfinete, e gentilmente entra no furo.
69. Sente: meu pensamento, pensamento-eu, órgãos internos – eu.
70. Ilusões enganam. Cores limitam. Mesmo as coisas divisíveis são indivisíveis.
71. Quando algum desejo vier, pensa nele. Então subitamente, abandona-o.
72. Ante o desejo e ante o conhecimento, como posso dizer eu sou? Pensa nisso. Dissolve na beleza.
73. Com toda tua consciência já no começo do desejo, do conhecimento, conhece.
74. Ó Shakti, cada percepção particular é limitada, desaparecendo em onipotência.
75. Na verdade as formas são unas. Uno é o ser onipresente e tua própria forma. Realiza cada forma como feita desta consciência.
76. Em estados mentais de extremo desejo, fica indiferente.
77. Este assim chamado universo aparece como um espetáculo ilusório. Para ser feliz olha-o desta maneira.
78. Oh Amada, não coloques a atenção no prazer ou na dor, mas entre estes.
79. Lança de lado o apego ao corpo, realizando “Eu estou em toda parte”. Quem está em toda parte é feliz.
80. Objetos e desejos existem em mim assim como em outros. Aceitando isso, deixa-os ser transformados.
81. A apreciação do objetivo e do subjetivo é a mesma para o iluminado e para o não iluminado. O primeiro tem uma grandeza: ele permanece no estado subjetivo, não se perde nas coisas.
82. Sente a consciência de cada pessoa como tua própria consciência. Assim, deixando de lado a autopreocupação, torna-te cada ser.
83. Pensando em nada tornarás ilimitado o ser limitado.
84. Acredita onisciente, onipotente, onipresente.
85. Assim como ondas vêm com a água e flamas com o fogo, assim as ondas universais conosco.
86. Perambula por aí até exausta, e então, caindo no chão, neste cair sê a totalidade.
87. Supõe que tu estás gradualmente sendo privada de força ou de conhecimento. No instante da privação, transcende.
88. Ouve enquanto o ensinamento místico final é ensinado: olhos imóveis, sem piscar, imediatamente torna-te absolutamente livre.
89. Fecha os ouvidos pressionando-os e o reto contraindo-o, entra no som do som.
90. No fim de um poço profundo, olha firmemente em suas profundidades até que – a maravilha.
91. Quando tua mente vagar, internamente ou externamente, neste mesmo lugar - isto.
92. Quando vividamente consciente através de algum sentido em particular, mantém-te na consciência.
93. No começo de um espirro, durante o susto, na ansiedade, sobre um abismo, fugindo na batalha, na extrema curiosidade, no começo da fome, no fim da fome, esteja ininterruptamente consciente.
94. Deixa a atenção se fixar num lugar onde tu vês um acontecimento passado, e até mesmo tua forma, tendo perdido suas características presentes, é transformada.
95. Olha algum objeto, e então vagarosamente tira dele tua visão, então vagarosamente tira dele teu pensamento. Então.
96. A devoção liberta.
97. Sente um objeto à tua frente. Sente a ausência de todos os outros objetos, menos este. Então deixa de lado o sentimento do objeto e o sentimento da ausência, realiza.
98. A pureza de outros ensinamentos é uma impureza para nós. Na verdade, não conheças nada como puro ou impuro.
99. Esta consciência existe como cada ser, e nada mais existe.
100. Sê a mesma e indiferente para um amigo e para um estranho, na honra e na desonra.
101. Quando um pensamento contra alguém ou a favor de alguém aparecer, não o coloques sobre a pessoa em questão, mas permanece centrada.
102. Supõe que tu contemplas algo além da percepção, além da compreensão, além do não-ser, tu.
103. Entra no espaço, sem apoio, eterno, calmo.
104. Sempre que tua atenção acende, neste mesmo ponto, experiência.
105. Entra no som de teu nome, e através deste som, todos os sons.
106. Eu existo. Isto é meu. Isto é isto. Ó Amada, mesmo assim conhece ilimitadamente.
107. Esta consciência é o espírito que guia em cada um. Sê isto.
108. Aqui é uma esfera de mudança, mudança, mudança. Através da mudança, destrói a mudança.
109. Assim como uma galinha dá nascimento a seus pintinhos, dá nascimento a conhecimentos particulares, realizações particulares, na realidade.
110. Desde que, na verdade, cativeiro e liberdade são relativos, estas palavras são apenas para aqueles assustados com o universo. Este universo é um reflexo das mentes. Assim como tu vês muitos sóis na água refletidos de um sol, assim vê o cativeiro e a liberação.
111. Cada coisa é percebida através da cognição. O eu brilha no espaço através da cognição. Percebe o ser único como conhecedor e conhecido.
112. Amada, neste momento deixa a mente, a cognição, a respiração, a forma, serem incluídos.

27.10.17

O APEGO ÀS SENSAÇÕES SEXUAIS – P. Yogananda


A verdade é que apenas os tolos são apegados ao mundo. Tolos são os que vivem na ignorância, aqueles para quem o mundo é real, porque pensam ser este o único modo de vida.

O apego é como um eczema. Quanto mais você tenta obter alívio e cede à exigência de coçá-lo, mais ele coça; e quanto mais você o deixa quieto, menos o eczema incomoda.

É por isso que Krishna diz a Arjuna no Bhagavad Gita: “Saia deste mar de sofrimento”. Esteja no mundo e faça sua parte, mas não se deixe apanhar nem ficar preso às ilusões, ou será escravizado.


Os que vivem o tempo todo no plano sexual acham que não podem viver sem sexo. Mas os que praticam abstinência e conseguem transmutar essa energia, jamais o desejam. O fumo traz a mesma ilusão. As pessoas que nunca fumaram ou que cortaram esse hábito nunca sentem falta do tabaco.

CHAVES PARA A SABEDORIA: TANTRA YOGA - SHIVA E SHAKTI (4ª PARTE)

20.10.17

OS PODERES MÍSTICOS DO YOGUE – P. Yogananda



Quando você conhece Deus, pode até não possuir poderes milagrosos, mas tem a seu comando todo o poder do Universo, se precisar. Deus me deu muitos poderes nesta vida, mas eu os devolvi a Ele e só os uso quando Ele me ordena.

Há a história do encontro de Madhusudan com Gorakhnath, o santo de Gorakhpur, onde meu corpo nasceu. Quando ouvi a história, fiquei curado de qualquer desejo por poderes milagrosos que pudesse ter.

Gorakhnath tinha conseguido todos os oito poderes de um yogue plenamente iluminado (o poder de ser tão pequeno quanto um átomo, o poder de ser tão grande quanto o espaço, o poder de ser tão leve quanto algodão, o poder de ser tão pesado quanto chumbo, o poder de chegar em qualquer lugar ou qualquer planeta, o poder de ter todos os seus desejos realizados, o poder de criar e o poder de ter domínio sobre tudo).

Na hora de deixar o corpo, Gorakhnath quis transmitir os poderes a uma alma merecedora. Os mestres podem fazer isso, assim como o manto do poder de Elias foi passado a Eliseu.
Certo dia, Gorakhnath teve a visão de um jovem, uma alma muito espiritualizada, à beira do Ganges em Varanasi. Tendo o poder de se transportar astralmente de um lugar a outro, ele apareceu diante do jovem, que se chamava Madhusudan, que ao levantar o olhar e ver o santo, disse:


- Por favor, não fiques na minha frente. Estás tapando o sol.

O santo retrucou:

- Não sabes quem sou? Meu nome é Gorakhnath.

- Eu sei – disse o jovem -, mas agora estou fazendo minhas devoções.

Após algum tempo o devoto perguntou ao santo:

- O que queres de mim?

Gorakhnath explicou:
- Tenho oito poderes e aquele a quem eu der esta chintámani (pedra mística que concede todos os desejos) terá todos esses poderes. Quero oferece-los a ti.

Madhusudan respondeu:
- Muito bem, podes me dar.

Mas assim que recebeu a pedra mística, e para grande espanto de Gorakhnath, atirou-a para bem longe no meio das águas do Ganges.
- Por que fizeste isto? – quis saber o santo.

Então o jovem disse:
- Ainda ilusão, ainda ilusão. Os poderes me foram dados para eu fazer o que me aprouvesse, não é mesmo? Bem, esta é a única utilidade que tenho para eles. Nada são, comparados Àquilo que já possuo.

O grande Gorakhnath curvou-se diante do jovem e disse:
- Tu me libertaste da última ilusão que ainda me mantinha afastado de Deus.

Às vezes, até os grandes Seres se desviam do Objetivo. Gorakhnath estava tão apaixonado por seus poderes que não tinha ido além deles em direção a Deus. Mas quando finalmente renunciou ao apego a essa posse tão estimada, alcançou a união com Deus.


18.10.17

COMO VIVER EM MAYA – Swami Atulananda



(Swami Atulananda, que era holandês e vivia nos Himalayas, escreve uma carta a uma senhora americana)

A vida é um mistério; não estamos certos de nada, não podemos prever nada, estamos quase sempre errados ao julgarmos os outros, não podemos acreditar em nada – nem mesmo em nossos sentidos – não podemos desacreditar em nada. Maya de fato! 

Mas há um caminho de saída, que leva para fora de Maya. Esse é nosso consolo. Olho a vida de um modo mais impessoal. Os erros dos outros não me angustiam em absoluto.

Alguns de nossos swamis são santos, outros tiveram de ser expulsos da Missão Ramakrishna. Tudo é igualmente interessante, tudo é fonte de estudo, tudo é o jogo da Mãe Divina. Ninguém para se louvar, ninguém para se criticar – todos são filhos da Mãe. Um passo correto, um passo falso – tudo é parte do jogo. 

É por isso que me divirto quando você esconde coisas, quando quer proteger a reputação das pessoas. Eu nem acredito, nem desacredito. Vejo e ouço, e tudo já se foi. Deixo os outros formarem opiniões, julgar, criticar. Para mim a vida é um filme. Veja e esqueça. Não feche os olhos, não tome partido.

O que quero agora é ser capaz de me incluir no jogo, ser uma mera testemunha de mim mesmo também – na dor, no prazer, na saúde e na doença, nas boas ações e nas más ações. E sei que não sou nada disso – sou livre, o Atman. Todos são livres, o Atman.

O que vemos são os atores representando – hoje mendigo, amanhã rei, hoje pecador, amanhã santo. É sempre a mesma pessoa representando diferentes papeis. Portanto é difícil chocar-me ou fazer-me sentir diferente com relação a outras pessoas, mesmo se cometeram um erro.

Veja M. por exemplo. Estou convencido de que ele representa o papel de uma criatura irresponsável. Então me protejo. Mas meus sentimentos para com ele não mudam. Eu o recebo quando vem, como antes. Se você me perguntar se posso confiar nele, digo: seja cuidadosa. Ele pode enganá-la. Mas isso não significa que lhe desejo o mal. Apenas sei que se emprestar-lhe algum dinheiro, há uma boa chance de não ver mais o dinheiro. Mas se poupar algum, posso dar a ele. Por que não? Deixe-o divertir-se, ter sua experiência. Filho da Mãe, jogo da Mãe.

Fico contente de encontrar todo tipo de gente, os maus e os bons. Deixe o jogo continuar. Turiyananda certa vez me disse que leu no Mahabhárata que Krishna, ao desenhar sua capital, reservou uma parte da cidade para as prostitutas viverem. E ele ficou horrorizado. Por que Krishna permitiu prostitutas em sua cidade ideal?

Swami Turiyananda Quotes — PURIWAVES | | | Swami Turiyananda ...  Turiyananda

Mais tarde, ele entendeu. Elas também têm o direito de viver, têm de ocupar seu lugar no jogo, representar seu papel na peça teatral. Sem elas, a peça não seria completa. Deixe cada um escolher seu próprio papel; e que ele o represente bem. E quando escolher mudar sua parte, tudo bem: outros tomarão seu lugar. Cada papel traz seus próprios resultados, cada papel tem seu próprio pagamento.

Nenhum swami afirma ser perfeito. Muitos dizem, "Apenas pela graça da Mãe Divina não sou pior do que sou." Isto é sabedoria, conhecimento da vida. Mas apenas as almas velhas e experientes sabem disso.

Por que as pessoas se sentem atraídas por um patife e fogem dum santo? Porque o patife é sincero; e uma pessoa toda santificada é um mito. Se ela é considerada perfeita por seus amigos e protetores, sabemos que estamos sendo enganados.

Swami Vivekananda não se importava se uma pessoa era boa ou má, mas odiava pessoas dissimuladas. Certa vez realizei que somos todos Atman, almas, e que nossas individualidades terrenas são apenas reflexos das almas. E veio-me o conhecimento de que esta vida é irreal, e que somos tolos em leva-la a sério, odiar, invejar e disputar etc. Vi que é tudo loucura, pois na realidade somos todos iguais, Espírito, bem-aventurados, além do amor e do ódio, todos igualmente livres, perfeitos, além de todos os desejos.

Pense como a vida seria para mim um paraíso, se eu conseguisse reter aquela consciência. Teria havido apenas amor, amor por todos e por tudo. Nenhum mal, nenhum bem, a vida apenas um jogo de sombra para desfrutar, se a percebermos como tal.

Sou a alma, sou imortal; a vida é minha própria sombra neste mundo de Maya. Esta é a verdade e esta é minha religião, a única coisa da religião de que estou certo. Tenho tido momentos em que você poderia cortar meu corpo em pedaços, e ainda assim eu estaria rindo. Eu estaria sendo uma testemunha, desapegado do corpo, desfrutando do jogo. E agora, quando tenho uma dor de dente ou uma dor de cabeça, fico perdido. Este mundo se tornou real novamente.

Mesmo assim, sei que esse mundo é relativo, enquanto que o Espírito-Realidade é absoluto. A religião significa apenas a tentativa de conseguir a consciência do Espírito e retê-la. Tudo o mais na religião é um disparate, ou como Swami Vivekananda diz, "uma verdade menor".

Vedanta Monks and Nuns – Vedanta Society of St. Louis  Atulananda

 

MINHAS MEMÓRIAS DA ÍNDIA – Swami Atulananda




(Swami Atulananda era holandês e foi o primeiro swami da Ordem Ramakrishna de origem ocidental. Conheceu pessoalmente Vivekananda, Brahmananda e outros discípulos diretos de Sri Ramakrishna)

Vedanta Monks and Nuns – Vedanta Society of St. Louis  Atulananda

Eu costumava ficar incomodado com a atitude de Sri Ramakrishna e com suas respostas a perguntas. Seu "Não sei." "A Mãe sabe." "A Mãe pode fazer tudo." Vejo a maravilhosa sabedoria disso agora. Quem sabe algo nessa massa de mistério? Certas coisas podem ter acontecido durante um milhão de anos, e chamamos isso de lei da natureza. Mas o que é um milhão de anos para Deus? É menos de um segundo.

Se a mente humana mudasse ao menos um pouco, veria um novo universo com diferentes leis. Eu costumava combater a ideia de que algo pudesse acontecer sem estar de acordo com a leis naturais. A velha história na vida de Sri Ramakrishna da flor branca num arbusto de flores vermelhas...

Hoje acredito que tudo é possível. Acredito em milagres. Como Swami Saradananda uma vez me disse, não conhecemos as leis sutis da natureza. O devoto entra em contato com essas leis mais sutis. Daí que elas parecem milagres misteriosos para as outras pessoas.

Swami Saradananda – Vedanta Society of St. Louis  Saradananda

Todas as experiências de Ramakrishna são opostas à ciência atual. A ciência diz, "Impossível" e rejeita. "Mãe, você sabe tudo, pode fazer tudo. Quero te amar e ser teu filho." Isso para mim parece ser sabedoria. E deixe os cientistas combaterem, deixe os fundamentalistas combaterem, é bom para eles. Todos nós temos combatido. Agora vamos ter um pouco de paz. Vamos nos retirar da arena, nos tornarmos espectadores e desfrutar.

Se ao menos pudéssemos olhar a vida e considera-la uma diversão, em vez de levar as coisas tão a sério. "Encare a vida com alegria," diz Nivedita, "e saiba que tudo é um jogo da Mãe Divina." Aí está o segredo! A Mãe ri porque não está apegada. Nós choramos porque estamos apegados. Ela se retrai e se expande novamente. E acha que é uma grande diversão. Nós nos envolvemos e nos enredamos, e então choramos e lamentamos cheios de autopiedade durante o processo de apegar-se e libertar-se.

Sister Nivedita - Wikiquote  Nivedita

"Conheça o Atman e seja livre." Então poderá jogar como quiser. É assim que a vida deve ser. Então a vida inteira se torna bela. É apenas uma questão de ângulo de visão. Se temos a visão correta, não existe o mal, nem a fealdade, nem a tristeza. É tudo parte de uma maravilhosa peça teatral ou sonho. Como tudo parece diferente quando nos colocamos de lado como testemunhas!

Eu nunca quis a Verdade por causa da Verdade, mas porque ela traz felicidade. Sei que a verdadeira felicidade consiste em conhecer a mim mesmo, meu  Atman. Não encontro felicidade no mundo. Portanto tento realizar o Atman. E o caminho de Jnana me atrai porque leva ao autoconhecimento, e parece mais razoável para mim.

Você sabe que os santos cristãos advertem contra a sensualidade. Mas temos de passar por isso. É apenas quando realizamos nosso Atman que nos elevamos acima da sensualidade. Então só existe a Bem-Aventurança. É um estado absoluto em que os sentimentos comuns cessam.

Portanto a beleza mundana é uma coisa, a beleza espiritual outra. Swami Turiyananda apreciava a beleza. Vi isso em nossas peregrinações. Ele amava belas paisagens. Mesmo assim ele me disse, "Não me importo com a beleza exterior. Quero a beleza interior."

A beleza espiritual, que vem da realização espiritual, tem um efeito duradouro. Ela muda a pessoa para melhor, enquanto que a beleza exterior não tem esse efeito. Ela me deixa como sou agora.

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