O karma sombrio do pecado e da
dor com que nos vestimos na maioria, é muito pesado para que o
levemos a sós. Infelizmente, somos criaturas fracas, de humor
cambiante, fáceis de desencorajar. Somos incapazes de apagar nossas
dúvidas intelectuais, de sobrepujar nossas tentações morais ou de
resolver dificuldades práticas.
Temos, pois, necessidade de
apoio até o dia em que nos sentirmos bastante fortes para nos
levantarmos e conduzirmos nosso fardo. É preciso que alguma coisa
maior que nosso eu ordinário intervenha a nosso favor, no complexo
jogo da vida.
Aqueles dentre nós que
começaram a se inquietar na busca do Eu Superior e desejam,
ardentemente, alargar sua experiência, têm mais ensejos de
melancolia. Muitos dentre nós não são bastante fortes para se
disciplinar; a herança kármica pesa-lhes como uma grande pedra nas
costas, e lhes abafa o anseio de melhorar o caráter.
Por isso, há lugar na vida,
ao lado de nossos esforços, para um esforço divino no sentido do
favor, da graça. Se a obra de obter a capacidade de penetração
espiritual deve ser iniciada pelo homem, ele não poderá sozinho
conduzi-la a bom termo. Acontece que um dia, em desespero de causa,
lançará um apelo de auxílio ao seu Eu Superior. E esta ajuda se
manifestará sob a forma de graça, se a merecer.
O que é a graça? É uma
descida do Eu Superior na zona da consciência. É a visita de uma
potência tão inesperada e imprevisível, quanto feliz e fecunda. É
mão invisível que se estende até nós para nos guiar no meio das
trevas em que titubeamos. É a voz do Eu Superior falando de repente
através do silêncio cósmico que nos rodeia.
É uma vontade cósmica e não
um piedoso desejo ou pensamento amável, que pode produzir
verdadeiros milagres, de acordo com leis desconhecidas. Sua potência
é tal que pode conferir a capacidade de penetração até a
realidade última, tão facilmente como dar vida ao moribundo.
Por existir em cada homem o Eu
Superior, a graça existe em estado potencial. Quando nele desperta,
dá-lhe imediatamente a consciência de mudança enorme no sentido em
que opera; trata-se de mutação mora, física, sentimental ou
material. Esta potência é tal que pode frequentemente destruir seu
equilíbrio no domínio sentimental ou intelectual.
O Eu Superior não está muito
longe; ele está no coração. A afirmação de que Deus reside no
coração do homem não é somente de caráter poético, mas de
caráter científico. E portanto, o nascimento da graça é primeiro
sentido no coração, não na cabeça, porque o coração é o mais
íntimo habitat no corpo humano.
A graça se manifesta de dois
modos: primeiramente, por um sentimento que faz considerar a vida
exterior como insuficiente por si mesma; em segundo lugar, por um
desejo ardente da realidade interior. O nascimento começa por uma
chamada da atenção sobre o peito. A força interior age por uma
força centrípeta que desvia a atenção do exterior e da ambiência
física.
Se o paciente obedece a essa
solicitação e a concentra cada vez mais, no sentido interior,
achará sua recompensa. Começa a sentir que existe nele alguma coisa
oculta de que deve, conscientemente, tomar posse. Essa etapa pode se
estender por vários anos.
Mesmo no coração do pecador
mais endurecido subsiste um núcleo que permanece imaculado; a alma
não cessa, silenciosamente, de mostrar o caminho do bem e da
sabedoria. A graça também se destina àqueles que um mundo
hipócrita despreza e que uma sociedade rígida demais rejeita. A seu
toque místico, a lembrança dos pecados já passados se apaga, as
angústias dos sofrimento do presente se adoçam, os piores rancores
se apaziguam e os tormentos causados pela decepção dos desejos se
dissolvem no ar. O fraco recupera forças, o aflito é consolado.
A graça incita o homem a
praticar a virtude, a apreciar a verdadeira beleza. É um buraco na
fechadura pelo qual o homem pode lançar um golpe de vista sobre a
realidade. É o eu central que o homem tem de descobrir se quiser
saber o que é e o que Deus é, verdadeiramente. É também o guia
interior de que falam certos místicos.
Cada ser finito é
inconsciente e imperceptivelmente atraído para o ser infinito que é
o Eu Supremo, como a mosca para a luz. Não existe felicidade, paz
verdadeira, satisfação duradoura enquanto esta meta não for
alcançada.
Embora o Eu Superior seja
silencioso e imóvel, é sua presença que torna possíveis todas as
atividades e movimentos do homem. Em sentido mais amplo, não é
somente o Observador oculto, mas é também, por participar da Mente
Universal, o senhor interior da pessoa.
É ele que observa o karma da
encarnação seguinte porque conhece todas as possibilidades kármicas
do passado; é o agente secreto que as transpõe no tempo e no espaço
para seu progresso último. Em certos momentos da vida pessoal, pode
intervir repentina e dramaticamente, fazendo surgir acontecimentos
imprevistos ou inspirando irresistivelmente uma certa decisão. E
como resultado, o homem se acha guiado ou protegido milagrosamente.
Na verdade, o Eu Superior é a
consciência mais alta de cada ser humano, é seu verdadeiro anjo da
guarda, que do alto vela por ele. Intervém, às vezes, na vida
pessoal, em caso de comportamento moral pernicioso para si e para os
outros, dando aviso claro e nítido. E se não ouvirmos suas
inspirações, o Eu Superior falará outra vez com voz mais firme –
a do sofrimento kármico.
Temos sempre o direito de
esperar do Eu Superior socorro para nossas dificuldades, até mesmo
ajuda milagrosa, se estivermos no bom caminho que ele nos indica.
Contrariamente, se não tomarmos em consideração, veremos cedo a
manhã cinzenta levantar-se em nossos dias, cobrindo a rósea cor dos
nossos sonhos.
Podemos perguntar: por que o
Eu Superior não manifesta mais abertamente seu poder? Por que não
intervém com mais clareza na vida da consciência? É porque,
sabendo-se imortal e conhecendo a natureza efêmera da pessoa, pode
permitir-se esperar com maravilhosa paciência que cresça, amadureça
e desapareça a força (do egoísmo) da pessoa.
Precisamos mudar de atitude e
erguer os olhos com amor para o Eu Superior. Devemos nos prender a
ele mais que a qualquer outra coisa. Este poder que dirige a vida
universal pode igualmente dirigir nossa vida, se o deixamos que
pense, sinta e aja através de nós; devemos dizer: “Que tua
vontade seja feita!”
Somente a humildade ante este
Eu Superior pode abrir as barreiras que trancam o acesso aos
“subterrâneos do rei, na pirâmide em que reside”. Todo grito
sincero que lançamos, no curso de uma crise, no vazio aparente, é
ouvido pelo Eu Superior sempre presente. Não esqueçamos de ser
sinceros, isto é, que o anseio corresponda aos atos do homem, tanto
quanto seus pensamentos; que seja uma aspiração permanente e não
simplesmente um desejo momentâneo.
Quem invoca a potência
suprema não deve fazê-lo em vão, embora a resposta possa tomar uma
forma inesperada que nem sempre é de seu gosto, e vá às vezes além
de suas esperanças, agindo sempre em benefício verdadeiro e não
somente na aparência. Perde-se, às vezes, muito tempo em reclamar
favores imerecidos. A sabedoria prática e a sinceridade moral
consistem em acolher no coração esta verdade: arrepende-te e serás
remido.
Não podemos dizer que é um
erro orar para fins materiais, o que é justo às vezes. A oração
dirigida a um ser sobrenatural com o fim particular de libertar o
pedinte das aflições que mereceu, não pode ter outro resultado
senão a consolação psicológica que traz. Essa oração não
modificará a penalidade kármica.
A oração, porém, que se
combina com um esforço de arrependimento para corrigir os defeitos
que deram nascimento à aflição e que completa uma tentativa real a
reparar o mal eventualmente causado a outrem, pode não ser vã. O
arrependimento e a reparação são os fatores capitais para tornar
uma oração eficaz. Representam uma força que pode afetar o karma
pessoal.
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