10.12.15

A AÇÃO DO EU SUPERIOR – Paul Brunton


O karma sombrio do pecado e da dor com que nos vestimos na maioria, é muito pesado para que o levemos a sós. Infelizmente, somos criaturas fracas, de humor cambiante, fáceis de desencorajar. Somos incapazes de apagar nossas dúvidas intelectuais, de sobrepujar nossas tentações morais ou de resolver dificuldades práticas.
 
Temos, pois, necessidade de apoio até o dia em que nos sentirmos bastante fortes para nos levantarmos e conduzirmos nosso fardo. É preciso que alguma coisa maior que nosso eu ordinário intervenha a nosso favor, no complexo jogo da vida.
 
Aqueles dentre nós que começaram a se inquietar na busca do Eu Superior e desejam, ardentemente, alargar sua experiência, têm mais ensejos de melancolia. Muitos dentre nós não são bastante fortes para se disciplinar; a herança kármica pesa-lhes como uma grande pedra nas costas, e lhes abafa o anseio de melhorar o caráter.
 
Por isso, há lugar na vida, ao lado de nossos esforços, para um esforço divino no sentido do favor, da graça. Se a obra de obter a capacidade de penetração espiritual deve ser iniciada pelo homem, ele não poderá sozinho conduzi-la a bom termo. Acontece que um dia, em desespero de causa, lançará um apelo de auxílio ao seu Eu Superior. E esta ajuda se manifestará sob a forma de graça, se a merecer.
 
O que é a graça? É uma descida do Eu Superior na zona da consciência. É a visita de uma potência tão inesperada e imprevisível, quanto feliz e fecunda. É mão invisível que se estende até nós para nos guiar no meio das trevas em que titubeamos. É a voz do Eu Superior falando de repente através do silêncio cósmico que nos rodeia.
 
É uma vontade cósmica e não um piedoso desejo ou pensamento amável, que pode produzir verdadeiros milagres, de acordo com leis desconhecidas. Sua potência é tal que pode conferir a capacidade de penetração até a realidade última, tão facilmente como dar vida ao moribundo.
 
Por existir em cada homem o Eu Superior, a graça existe em estado potencial. Quando nele desperta, dá-lhe imediatamente a consciência de mudança enorme no sentido em que opera; trata-se de mutação mora, física, sentimental ou material. Esta potência é tal que pode frequentemente destruir seu equilíbrio no domínio sentimental ou intelectual.
 
O Eu Superior não está muito longe; ele está no coração. A afirmação de que Deus reside no coração do homem não é somente de caráter poético, mas de caráter científico. E portanto, o nascimento da graça é primeiro sentido no coração, não na cabeça, porque o coração é o mais íntimo habitat no corpo humano.
 
A graça se manifesta de dois modos: primeiramente, por um sentimento que faz considerar a vida exterior como insuficiente por si mesma; em segundo lugar, por um desejo ardente da realidade interior. O nascimento começa por uma chamada da atenção sobre o peito. A força interior age por uma força centrípeta que desvia a atenção do exterior e da ambiência física.
 
Se o paciente obedece a essa solicitação e a concentra cada vez mais, no sentido interior, achará sua recompensa. Começa a sentir que existe nele alguma coisa oculta de que deve, conscientemente, tomar posse. Essa etapa pode se estender por vários anos.
 
Mesmo no coração do pecador mais endurecido subsiste um núcleo que permanece imaculado; a alma não cessa, silenciosamente, de mostrar o caminho do bem e da sabedoria. A graça também se destina àqueles que um mundo hipócrita despreza e que uma sociedade rígida demais rejeita. A seu toque místico, a lembrança dos pecados já passados se apaga, as angústias dos sofrimento do presente se adoçam, os piores rancores se apaziguam e os tormentos causados pela decepção dos desejos se dissolvem no ar. O fraco recupera forças, o aflito é consolado.
 
A graça incita o homem a praticar a virtude, a apreciar a verdadeira beleza. É um buraco na fechadura pelo qual o homem pode lançar um golpe de vista sobre a realidade. É o eu central que o homem tem de descobrir se quiser saber o que é e o que Deus é, verdadeiramente. É também o guia interior de que falam certos místicos.
 
Cada ser finito é inconsciente e imperceptivelmente atraído para o ser infinito que é o Eu Supremo, como a mosca para a luz. Não existe felicidade, paz verdadeira, satisfação duradoura enquanto esta meta não for alcançada.
 
Embora o Eu Superior seja silencioso e imóvel, é sua presença que torna possíveis todas as atividades e movimentos do homem. Em sentido mais amplo, não é somente o Observador oculto, mas é também, por participar da Mente Universal, o senhor interior da pessoa.
 
É ele que observa o karma da encarnação seguinte porque conhece todas as possibilidades kármicas do passado; é o agente secreto que as transpõe no tempo e no espaço para seu progresso último. Em certos momentos da vida pessoal, pode intervir repentina e dramaticamente, fazendo surgir acontecimentos imprevistos ou inspirando irresistivelmente uma certa decisão. E como resultado, o homem se acha guiado ou protegido milagrosamente.
 
Na verdade, o Eu Superior é a consciência mais alta de cada ser humano, é seu verdadeiro anjo da guarda, que do alto vela por ele. Intervém, às vezes, na vida pessoal, em caso de comportamento moral pernicioso para si e para os outros, dando aviso claro e nítido. E se não ouvirmos suas inspirações, o Eu Superior falará outra vez com voz mais firme – a do sofrimento kármico.
 
Temos sempre o direito de esperar do Eu Superior socorro para nossas dificuldades, até mesmo ajuda milagrosa, se estivermos no bom caminho que ele nos indica. Contrariamente, se não tomarmos em consideração, veremos cedo a manhã cinzenta levantar-se em nossos dias, cobrindo a rósea cor dos nossos sonhos.
 
Podemos perguntar: por que o Eu Superior não manifesta mais abertamente seu poder? Por que não intervém com mais clareza na vida da consciência? É porque, sabendo-se imortal e conhecendo a natureza efêmera da pessoa, pode permitir-se esperar com maravilhosa paciência que cresça, amadureça e desapareça a força (do egoísmo) da pessoa.
 
Precisamos mudar de atitude e erguer os olhos com amor para o Eu Superior. Devemos nos prender a ele mais que a qualquer outra coisa. Este poder que dirige a vida universal pode igualmente dirigir nossa vida, se o deixamos que pense, sinta e aja através de nós; devemos dizer: “Que tua vontade seja feita!”
 
Somente a humildade ante este Eu Superior pode abrir as barreiras que trancam o acesso aos “subterrâneos do rei, na pirâmide em que reside”. Todo grito sincero que lançamos, no curso de uma crise, no vazio aparente, é ouvido pelo Eu Superior sempre presente. Não esqueçamos de ser sinceros, isto é, que o anseio corresponda aos atos do homem, tanto quanto seus pensamentos; que seja uma aspiração permanente e não simplesmente um desejo momentâneo.
 
Quem invoca a potência suprema não deve fazê-lo em vão, embora a resposta possa tomar uma forma inesperada que nem sempre é de seu gosto, e vá às vezes além de suas esperanças, agindo sempre em benefício verdadeiro e não somente na aparência. Perde-se, às vezes, muito tempo em reclamar favores imerecidos. A sabedoria prática e a sinceridade moral consistem em acolher no coração esta verdade: arrepende-te e serás remido.
 
Não podemos dizer que é um erro orar para fins materiais, o que é justo às vezes. A oração dirigida a um ser sobrenatural com o fim particular de libertar o pedinte das aflições que mereceu, não pode ter outro resultado senão a consolação psicológica que traz. Essa oração não modificará a penalidade kármica.
 
A oração, porém, que se combina com um esforço de arrependimento para corrigir os defeitos que deram nascimento à aflição e que completa uma tentativa real a reparar o mal eventualmente causado a outrem, pode não ser vã. O arrependimento e a reparação são os fatores capitais para tornar uma oração eficaz. Representam uma força que pode afetar o karma pessoal.

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