Qual a sorte dos que são
condenados a ser fustigados cedo ou tarde por doenças resultantes de
organismos físicos defeituosos que lhes deram origem? Se, apesar de
nossos esforços, nosso corpo não pode libertar-se de suas
enfermidades, se nossa vida física é paralisada, podemos procurar
socorro na fé religiosa, na experiência mística ou na meditação
metafísica que alargam nossos horizontes e diminuem nossa
concentração sobre nós mesmos.
Nossa triste experiência não
é inteiramente vã e sem valor. Diz um texto tibetano: “Sabei que
o sofrimento, sendo o meio de ensinar ao homem a necessidade da vida
interior, é um mestre espiritual.”
Aqueles que sofreram
profundamente e cujas esperanças morreram, ouvem uma mensagem
espiritual mais cedo que os outros, embora estes últimos sejam mais
inteligentes ou intelectualizados. Não revisamos nossa escala de
valores senão quando os sentidos perderam sua supremacia sobre nós.
Todo mal aparente não é um
mal real. Quem não conheceu alguém que se afastou de seguir um
caminho graças a uma doença? A mesma prova que enfraquece a virtude
de um homem fortalece a de outro.
Toda experiência tende a
educar a inteligência e disciplinar as emoções. Em conseqüência
disso, se o sofrimento leva o homem à vida abençoada que o eleva,
mesmo que só fosse por essa razão e nesses limites, estaria
plenamente justificado.
O que aconteceria se o sistema
nervoso não nos avisasse, por exemplo, que a mão está exposta ao
fogo? Essa mão seria destruída e perdida para sempre. Desse modo o
sofrimento físico protege a vida física. O que acontece quando
protege a vida moral? Em nosso estágio evolucionário, a dor moral
ocupa um lugar mais útil que o prazer.
Platão declarou que seria uma
infelicidade o homem escapar ao castigo merecido. Esse castigo pode
fazer-lhe reconhecer um erro, dar-lhe uma atitude moral mais segura,
purificar seu caráter. É igualmente a dor que pode, da melhor
maneira, vencer a crueldade, o orgulho, os apetites depravados do
homem. Aqui, apenas palavras são impotentes contra esses males.
O sofrimento kármico é uma
conseqüência de atos anteriores. O tempo educa o homem e desenvolve
nele a faculdade de perceber o que é justo. Se a pessoa não
encontrar a causa em sua personalidade do momento, deve procurá-la
nas personalidades anteriores.
Nosso livre arbítrio do
passado é a fonte de nossa sorte atual, assim como o livre arbítrio
do presente será a fonte de nossa sorte futura. Por isso, não há
lugar para o fatalismo, nem tampouco para uma autoconfiança
exagerada.
Quando uma força kármica
tomou um certo impulso, não é mais possível contê-la, embora seu
efeito possa ser alterado (isto é, diminuído através de práticas
espirituais, como karma yoga ou outras práticas espirituais).
No entanto, um pensamento que
não alcança um certo grau de força e desenvolvimento não produz
conseqüências kármicas. Vê-se, assim, a importância de afogar as
ideias más logo no começo.
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