21.9.18

OS SONS DA RESPIRAÇÃO – David Frawley



A respiração reflete certos sons naturais que se conectam a certas letras do alfabeto. Os mais importantes dos sons prânicos são o S e o H que possuem qualidades de chiado ou de passagem do ar, tal como o mantra So’ham. A inalação, puxando o ar para dentro, reflete o mantra So, e a exalação, libertando energia, reflete o mantra Ham. So indica energia lunar receptiva, enquanto que Ham reflete energia solar projetiva. So’ham é também um mantra de Shiva.
 
O iogue luta para equilibrar a corrente So’ham interior. Isso pode ser feito de duas maneiras. A primeira é expandir essas energias naturais com So como inalação e Ham como exalação. A segunda é reverter essas energias com  Ham como inalação e Sa como exalação. A prática de So’ham reflete uma energia lunar nutridora. A prática de Hamsa reflete uma energia solar purificadora. Ambas as práticas têm seu lugar no Yoga. Shiva não é apenas So’ham mas também Hamsa.

 


Uma vez que a inalação e a exalação estejam equilibradas, elas se interiorizam em paz interior. Então esses mesmos sons “Hamsa So’ham” continuam a reverberar dentro da espinha e do sushumna como os sons naturais do Eu: So’ham “Ele sou eu,” e Ham Sa, “Eu sou Ele”, referindo-se ao Eu Supremo. Este é o fluir interior da respiração não-dualística, que é a respiração de Shiva.

Existem muitas tradições em Prana Yoga conectadas ao Senhor Shiva. Elas estão refletidas em várias práticas de Yoga.

Nadi Shodhana: a respiração alternada é a prática principal para equilibrar as energias prânicas dentro de nós. Ela pode ser usada para equilibrar os nadis solar e lunar, ou direito e esquerdo, bem como as energias de Agni (fogo) e Soma (lua) no corpo. Use o mantra Ham ao respirar pela narina direita e Sa ou So ao respirar pela esquerda (So para inalação e Sa para exalação).
 
* Nota: a prática de respiração alternada deve ser realizada com cautela, em razão de ser muito forte e poder afetar o equilíbrio nervoso do praticante. Se o praticante notar que seus nervos esquentam em demasia com a prática, deve cessá-la por alguns dias, até os nervos se recuperarem. 

O BUDDHA INTERIOR – G. de Purucker



Um Buddha é aquele que escalou os graus da evolução humana, um por um, e assim atingiu o estado búdico, que significa glória intelectual e espiritual. Ele é um "Desperto," que manifesta a divindade que está no coração de seu próprio ser.
Os Buddhas são as flores mais nobres da raça humana. São seres que se elevaram acima da humanidade, atingindo a divindade, e isto foi feito libertando a luz que estava aprisionada no interior, a luz da divindade interior, brilhando na alma humana.
Cada ser humano é um Buddha que ainda não se expressou. Agora neste momento, dentro e acima de você, está seu Eu Superior, e à medida que os milênios passam e você conquista o eu inferior a fim de se tornar o Eu Maior, você se aproxima mais e mais do Buddha adormecido dentro de você.
Mas na verdade não é o Buddha interior que está adormecido, é você que está dormindo na matéria, tendo sonhos maus trazidos por suas paixões, suas visões falsas, seu egoísmo, produzindo pesados véus de personalidade ao redor do Buddha interior.
Aqui está o segredo: o Buddha dentro de você o está observando. Seu Buddha interior tem um olho sobre você, misticamente falando. A mão d’Ele está estendida com compaixão em direção a você, digamos assim, mas você deve estender a sua para tocá-lo através de sua própria vontade e aspiração.
Considere o que é um ser humano: alguém que tem um deus em seu coração, com um Buddha que envolve  esse deus, uma alma espiritual que envolve esse Buddha, uma alma humana que envolve essa alma espiritual, uma alma animal que envolve essa alma humana e um corpo que envolve a alma animal.
Quando o ser humano aprendeu tudo que a Terra pode ensiná-lo, ele se torna divino e não mais retorna à terra pela reencarnação – exceto aqueles cujos corações estão tão cheios da sagrada chama da Compaixão, que permanecem próximos desse planeta a fim de ajudar seus irmãos mais jovens e menos evoluídos.
Essas exceções são os Buddhas de Compaixão.
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Existem, por outro lado, seres muito grandes, santos e puros, cujo conhecimento é vasto e profundo, mas que quando atingem o estado de Buddha, em vez de sentir o chamado do Amor para voltar e ajudar, passam adiante e entram na Luz Divina, no estado de indizível bem-aventurança que é o Nirvana, e deixam a humanidade para trás.
Esses são os Buddhas Pratyekas. Embora exaltados, não se encontram no mesmo nível da sublimidade dos Buddhas de Compaixão.
O Buddha sabe que não pode avançar para a glória espiritual a menos que viva a vida espiritual, a menos que cultive sua natureza espiritual, mas quando o faz apenas para receber recompensas espirituais, vida espiritual só para si, ele é um Buddha Pratyeka.
Por outro lado, aquele que pertence à ordem dos Buddhas de Compaixão, embora tenha em vista os mesmos objetivos, treina seu espírito para se tornar completamente indiferente a suas próprias vantagens. Este último tem a fazer um trabalho enorme, e logicamente a recompensa também corresponde.
O Buddha de Compaixão, com a expansão de seu ser, torna-se um com o Universo espiritual, enquanto que o Buddha Pratyeka torna-se um com uma linha particular de evolução no Universo.
O Buddha de Compaixão, tendo ganhado tudo, ganhado o direito à paz e felicidade cósmicas, renuncia a isso para poder voltar e ajudar a humanidade. O Buddha Pratyeka passa adiante e entra na bem-aventurança indizível do Nirvana, e ali permanece por milhões de eras; e quando o Buddha Pratyeka emergir do Nirvana para retomar sua evolução em direção à expansão de seu ser, ele se encontrará na retaguarda do Buddha de Compaixão, que estará mais avançado no caminho do Infinito.
O ser humano, em sua longa evolução, pode tomar, desses dois caminhos, aquele que preferir.

* Nota: a palavra Buddha interior pode ser substituída por Cristo interior ou Krishna interior. 

17.9.18

KRIYA YOGA, O CAMINHO DA EMBRIAGUEZ – Sri Madhukarnath



A palavra Kriya significa técnica, mas na verdade não existem técnicas para encontrar a Verdade. Entretanto você pode preparar a base para chegar à Verdade. Existem muitos tipos de Kriya. Kriya serve para despertar em nós o que está adormecido. A prática não é feita para encontrar a Verdade, mas para se preparar para abrir as janelas internas. Assim, quando a brisa da Divindade soprar, você não estará com as janelas da alma fechadas. Você não pode determinar quando a brisa vai soprar, mas pode manter suas janelas abertas. Assim se torna apto a receber a Verdade.

Podem-se encontrar muitos tipos de Kriyas em livros antigos, como o Gheranda Samhitá, o Shiva Samhitá, Hatha Yoga Pradípika. Também os Yoga Sutras, de Patânjali,  conhecidos como Ashtanga Yoga, são na verdade um tratado sobre Kriya Yoga, como o próprio Patânjali os denomina.

Portanto existem muitos tipos de Kriyas nos livros antigos, mas quando digo Kriya me refiro a uma técnica que foi revelada por certa escola ou tradição de yoga. A Kriya que pratico é a que foi revelada pela tradição Nath (Nath Sampradaya), à qual pertence meu guru Maheshwarnath Babaji (não confundir com Mahavatar Babaji).
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            Mahavatar Babaji

Kriya não é uma prática para desenvolver poderes sobrenaturais, como caminhar sobre a água ou levitar no ar. Este não é o objetivo do yoga. Se você já foi iniciado na Kriya Yoga da Self-Realization Fellowship, fundada por Paramahansa Yogananda, não necessita ser iniciado por mim, porque a Kriya que trago é muito similar. Pode haver uma diferença aqui ou ali, mas o ponto central é o mesmo. Mas se obteve Kriya de outras fontes, não posso garantir que seja a mesma.

De acordo com o yoga, no sistema humano existem inumeráveis canais pelos quais flui a energia, mas os principais canais são os que fluem no centro da coluna (sushumna), à esquerda (idá) e à direita (pingalá). 
 
Para a interiorização e meditação, você precisa juntar as energias que fluem por idá e pingalá, trazê-las ao muladhara (chakra na base da coluna) e fazê-las viajar por um novo canal, o sushumna. Essas energias vão subir e se tornar mais e mais sutis, abrindo e fazendo funcionar um novo instrumento de percepção no topo da cabeça (o chakra sahasrara).

Este movimento é a prática de Kriya. Kriya canaliza as energias e abre sua percepção em níveis mais elevados. Se você não praticar, não alcançará perfeição no campo do yoga. Pouco valem o aprendizado e o estudo. É necessário trabalhar duro.
 
Para a prática existem quatro regras básicas a serem seguidas:
1) pratique ao menos uma vez por dia. Se fizer duas vezes, está muito bem. Mas ao menos uma vez por dia é absolutamente necessário praticar. A melhor hora para a prática é antes do sol nascer. Mas também pode-se praticar a qualquer hora do dia, ou em qualquer lugar. Se fizer uma refeição completa, espere pelo menos 2:30 h para praticar, do contrário poderá ter complicações digestivas.
2) tente o mais que puder apegar-se à verdade em sua vida diária, isto é, não mentir. Neste mundo nem sempre podemos ser 100% verazes, mas mesmo assim tente o mais que puder.
3) tente o mais que puder levar uma vida simples. Não deixe sua felicidade depender das coisas que tem ou não tem. Quanto menos você tiver, melhor se sentirá. Alimente-se de maneira simples. Não vá a extremos: não coma demais nem coma pouco; não durma demais nem durma pouco etc. Também não tente praticar ou meditar demais, pois terá problemas no sistema nervoso.
4) tente o mais que puder não causar dor a outros seres vivos, o que não quer dizer que não deva se defender.

Estas são as quatro regras básicas. Pratique sozinho em seu quarto para não ser perturbado. Não ensine Kriya após aprendê-la: se algo sair errado na prática da outra pessoa, você não poderá ajudá-la, não saberá o que fazer. Nem tente vender essa técnica. Estamos vivendo um tempo em que há mais gurus que discípulos. Discípulos são muito difíceis de encontrar. Há pessoas que, três semanas depois de aprenderem Kriya, já se consideram gurus.

Acho que alguns de vocês já ouviram falar de um grande yogue, talvez o primeiro a trazer a mensagem dos Upaníshads ao Ocidente, que foi o Swami Vivekananda. O nome de seu mestre era Ramakrishna Paramahamsa.

Certo dia Ramakrishna estava andando de carruagem puxada a cavalos, no século 19, pelas ruas de Calcutá. De repente ele olhou pela janela da carruagem e viu um homem completamente bêbado, cambaleando ao andar. Então Ramakrishna pediu a seus acompanhantes que parassem a carruagem, saiu, foi até o homem e o abraçou. E disse:
- Hei, irmão. Você e eu estamos bêbados. Você está desfrutando sua bebedeira e eu estou desfrutando a minha. Você bebeu algo, eu bebi algo diferente, mas estamos ambos bêbados.

E aquele bêbado ficou perplexo, mesmo tendo grande dificuldade de controlar seu estado de embriaguez. Então Ramakrishna subiu novamente na carruagem e se foi.

Vários anos mais tarde, após a morte do mestre, um dos monges da Ordem Ramakrishna estava parado na porta do templo do monastério da Ordem e havia uma foto de Ramakrishna dentro do templo. Então o monge viu que chegou um homem alto, de cabelo emaranhado e vestido apenas com uma tanga, no estilo dos renunciantes da Índia.
Este homem olhou para o jovem monge e disse:
- Posso abraçar aquela foto dentro do templo?

O monge respondeu:
- Não permitimos que as pessoas entrem para abraçar a foto. Sinto muito. Mas por que quer abraçá-la?

O estranho respondeu:
- Você não vai se lembrar, porque não estava lá. Certo dia, eu estava tão bêbado, que andava cambaleando pelas ruas de Calcutá, e passou uma carruagem que parou  a meu lado. Este senhor da foto desceu, abraçou-me e disse: Você está bêbado, eu também estou bêbado. Depois com grande dificuldade seus acompanhantes o levaram de volta para a carruagem. A partir daquele dia, não coloquei uma gota de álcool na boca, mas estou constantemente bêbado com o licor do êxtase divino. Esta é a pessoa que fez isso comigo. Então posso abraçá-lo?

E o monge disse:
- Está bem. Pode abraçar a imagem.

Então o homem foi e abraçou a foto de Ramakrishna, sem nada falar, e depois retirou-se para nunca mais ser visto e sem ninguém saber para onde foi.

Contei esta história para dizer que, neste caminho da Kriya Yoga, podemos pensar que estamos nos negando muitas coisas, mas na verdade é o caminho da liberdade. Deixamos de correr atrás de pequenas contas de vidro sem valor, para encontrar um grande tesouro. É um caminho de grande felicidade.
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