A palavra Kriya significa
técnica, mas na verdade não existem técnicas para encontrar a Verdade.
Entretanto você pode preparar a base para chegar à Verdade. Existem muitos
tipos de Kriya. Kriya serve para despertar em nós o que está adormecido. A
prática não é feita para encontrar a Verdade, mas para se preparar para abrir
as janelas internas. Assim, quando a brisa da Divindade soprar, você não estará
com as janelas da alma fechadas. Você não pode determinar quando a brisa vai
soprar, mas pode manter suas janelas abertas. Assim se torna apto a receber a
Verdade.
Podem-se encontrar muitos
tipos de Kriyas em livros antigos, como o Gheranda Samhitá, o Shiva Samhitá,
Hatha Yoga Pradípika. Também os Yoga Sutras, de Patânjali, conhecidos como Ashtanga Yoga, são na verdade
um tratado sobre Kriya Yoga, como o próprio Patânjali os denomina.
Portanto existem muitos
tipos de Kriyas nos livros antigos, mas quando digo Kriya me refiro a uma
técnica que foi revelada por certa escola ou tradição de yoga. A Kriya que
pratico é a que foi revelada pela tradição Nath (Nath Sampradaya), à qual
pertence meu guru Maheshwarnath Babaji (não confundir com Mahavatar Babaji).
Mahavatar Babaji
Kriya não é uma prática para
desenvolver poderes sobrenaturais, como caminhar sobre a água ou levitar no ar.
Este não é o objetivo do yoga. Se você já foi iniciado na Kriya Yoga da
Self-Realization Fellowship, fundada por Paramahansa Yogananda, não necessita
ser iniciado por mim, porque a Kriya que trago é muito similar. Pode haver uma
diferença aqui ou ali, mas o ponto central é o mesmo. Mas se obteve Kriya de
outras fontes, não posso garantir que seja a mesma.
De acordo com o yoga, no
sistema humano existem inumeráveis canais pelos quais flui a energia, mas os
principais canais são os que fluem no centro da coluna (sushumna), à esquerda
(idá) e à direita (pingalá).
Para a interiorização e
meditação, você precisa juntar as energias que fluem por idá e pingalá,
trazê-las ao muladhara (chakra na base da coluna) e fazê-las viajar por um novo
canal, o sushumna. Essas energias vão subir e se tornar mais e mais sutis,
abrindo e fazendo funcionar um novo instrumento de percepção no topo da cabeça
(o chakra sahasrara).
Este movimento é a prática
de Kriya. Kriya canaliza as energias e abre sua percepção em níveis mais
elevados. Se você não praticar, não alcançará perfeição no campo do yoga. Pouco
valem o aprendizado e o estudo. É necessário trabalhar duro.
Para a prática existem
quatro regras básicas a serem seguidas:
1) pratique ao menos uma vez
por dia. Se fizer duas vezes, está muito bem. Mas ao menos uma vez por dia é
absolutamente necessário praticar. A melhor hora para a prática é antes do sol
nascer. Mas também pode-se praticar a qualquer hora do dia, ou em qualquer
lugar. Se fizer uma refeição completa, espere pelo menos 2:30 h para praticar,
do contrário poderá ter complicações digestivas.
2) tente o mais que puder
apegar-se à verdade em sua vida diária, isto é, não mentir. Neste mundo nem
sempre podemos ser 100% verazes, mas mesmo assim tente o mais que puder.
3) tente o mais que puder
levar uma vida simples. Não deixe sua felicidade depender das coisas que tem ou
não tem. Quanto menos você tiver, melhor se sentirá. Alimente-se de maneira
simples. Não vá a extremos: não coma demais nem coma pouco; não durma demais
nem durma pouco etc. Também não tente praticar ou meditar demais, pois terá
problemas no sistema nervoso.
4) tente o mais que puder
não causar dor a outros seres vivos, o que não quer dizer que não deva se
defender.
Estas são as quatro regras
básicas. Pratique sozinho em seu quarto para não ser perturbado. Não ensine
Kriya após aprendê-la: se algo sair errado na prática da outra pessoa, você não
poderá ajudá-la, não saberá o que fazer. Nem tente vender essa técnica. Estamos
vivendo um tempo em que há mais gurus que discípulos. Discípulos são muito
difíceis de encontrar. Há pessoas que, três semanas depois de aprenderem Kriya,
já se consideram gurus.
Acho que alguns de vocês já
ouviram falar de um grande yogue, talvez o primeiro a trazer a mensagem dos
Upaníshads ao Ocidente, que foi o Swami Vivekananda. O nome de seu mestre era
Ramakrishna Paramahamsa.
Certo dia Ramakrishna estava
andando de carruagem puxada a cavalos, no século 19, pelas ruas de Calcutá. De
repente ele olhou pela janela da carruagem e viu um homem completamente bêbado,
cambaleando ao andar. Então Ramakrishna pediu a seus acompanhantes que parassem
a carruagem, saiu, foi até o homem e o abraçou. E disse:
- Hei, irmão. Você e eu
estamos bêbados. Você está desfrutando sua bebedeira e eu estou desfrutando a
minha. Você bebeu algo, eu bebi algo diferente, mas estamos ambos bêbados.
E aquele bêbado ficou
perplexo, mesmo tendo grande dificuldade de controlar seu estado de embriaguez.
Então Ramakrishna subiu novamente na carruagem e se foi.
Vários anos mais tarde, após
a morte do mestre, um dos monges da Ordem Ramakrishna estava parado na porta do
templo do monastério da Ordem e havia uma foto de Ramakrishna dentro do templo.
Então o monge viu que chegou um homem alto, de cabelo emaranhado e vestido
apenas com uma tanga, no estilo dos renunciantes da Índia.
Este homem olhou para o
jovem monge e disse:
- Posso abraçar aquela foto
dentro do templo?
O monge respondeu:
- Não permitimos que as
pessoas entrem para abraçar a foto. Sinto muito. Mas por que quer abraçá-la?
O estranho respondeu:
- Você não vai se lembrar,
porque não estava lá. Certo dia, eu estava tão bêbado, que andava cambaleando
pelas ruas de Calcutá, e passou uma carruagem que parou a meu lado. Este senhor da foto desceu,
abraçou-me e disse: Você está bêbado, eu também estou bêbado. Depois com grande
dificuldade seus acompanhantes o levaram de volta para a carruagem. A partir
daquele dia, não coloquei uma gota de álcool na boca, mas estou constantemente
bêbado com o licor do êxtase divino. Esta é a pessoa que fez isso comigo. Então
posso abraçá-lo?
E o monge disse:
- Está bem. Pode abraçar a
imagem.
Então o homem foi e abraçou
a foto de Ramakrishna, sem nada falar, e depois retirou-se para nunca mais ser
visto e sem ninguém saber para onde foi.
Contei esta história para
dizer que, neste caminho da Kriya Yoga, podemos pensar que estamos nos negando
muitas coisas, mas na verdade é o caminho da liberdade. Deixamos de correr
atrás de pequenas contas de vidro sem valor, para encontrar um grande tesouro.
É um caminho de grande felicidade.
Madhukarnath
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