17.9.18

KRIYA YOGA, O CAMINHO DA EMBRIAGUEZ – Sri Madhukarnath



A palavra Kriya significa técnica, mas na verdade não existem técnicas para encontrar a Verdade. Entretanto você pode preparar a base para chegar à Verdade. Existem muitos tipos de Kriya. Kriya serve para despertar em nós o que está adormecido. A prática não é feita para encontrar a Verdade, mas para se preparar para abrir as janelas internas. Assim, quando a brisa da Divindade soprar, você não estará com as janelas da alma fechadas. Você não pode determinar quando a brisa vai soprar, mas pode manter suas janelas abertas. Assim se torna apto a receber a Verdade.

Podem-se encontrar muitos tipos de Kriyas em livros antigos, como o Gheranda Samhitá, o Shiva Samhitá, Hatha Yoga Pradípika. Também os Yoga Sutras, de Patânjali,  conhecidos como Ashtanga Yoga, são na verdade um tratado sobre Kriya Yoga, como o próprio Patânjali os denomina.

Portanto existem muitos tipos de Kriyas nos livros antigos, mas quando digo Kriya me refiro a uma técnica que foi revelada por certa escola ou tradição de yoga. A Kriya que pratico é a que foi revelada pela tradição Nath (Nath Sampradaya), à qual pertence meu guru Maheshwarnath Babaji (não confundir com Mahavatar Babaji).
       Imagem relacionada
            Mahavatar Babaji

Kriya não é uma prática para desenvolver poderes sobrenaturais, como caminhar sobre a água ou levitar no ar. Este não é o objetivo do yoga. Se você já foi iniciado na Kriya Yoga da Self-Realization Fellowship, fundada por Paramahansa Yogananda, não necessita ser iniciado por mim, porque a Kriya que trago é muito similar. Pode haver uma diferença aqui ou ali, mas o ponto central é o mesmo. Mas se obteve Kriya de outras fontes, não posso garantir que seja a mesma.

De acordo com o yoga, no sistema humano existem inumeráveis canais pelos quais flui a energia, mas os principais canais são os que fluem no centro da coluna (sushumna), à esquerda (idá) e à direita (pingalá). 
 
Para a interiorização e meditação, você precisa juntar as energias que fluem por idá e pingalá, trazê-las ao muladhara (chakra na base da coluna) e fazê-las viajar por um novo canal, o sushumna. Essas energias vão subir e se tornar mais e mais sutis, abrindo e fazendo funcionar um novo instrumento de percepção no topo da cabeça (o chakra sahasrara).

Este movimento é a prática de Kriya. Kriya canaliza as energias e abre sua percepção em níveis mais elevados. Se você não praticar, não alcançará perfeição no campo do yoga. Pouco valem o aprendizado e o estudo. É necessário trabalhar duro.
 
Para a prática existem quatro regras básicas a serem seguidas:
1) pratique ao menos uma vez por dia. Se fizer duas vezes, está muito bem. Mas ao menos uma vez por dia é absolutamente necessário praticar. A melhor hora para a prática é antes do sol nascer. Mas também pode-se praticar a qualquer hora do dia, ou em qualquer lugar. Se fizer uma refeição completa, espere pelo menos 2:30 h para praticar, do contrário poderá ter complicações digestivas.
2) tente o mais que puder apegar-se à verdade em sua vida diária, isto é, não mentir. Neste mundo nem sempre podemos ser 100% verazes, mas mesmo assim tente o mais que puder.
3) tente o mais que puder levar uma vida simples. Não deixe sua felicidade depender das coisas que tem ou não tem. Quanto menos você tiver, melhor se sentirá. Alimente-se de maneira simples. Não vá a extremos: não coma demais nem coma pouco; não durma demais nem durma pouco etc. Também não tente praticar ou meditar demais, pois terá problemas no sistema nervoso.
4) tente o mais que puder não causar dor a outros seres vivos, o que não quer dizer que não deva se defender.

Estas são as quatro regras básicas. Pratique sozinho em seu quarto para não ser perturbado. Não ensine Kriya após aprendê-la: se algo sair errado na prática da outra pessoa, você não poderá ajudá-la, não saberá o que fazer. Nem tente vender essa técnica. Estamos vivendo um tempo em que há mais gurus que discípulos. Discípulos são muito difíceis de encontrar. Há pessoas que, três semanas depois de aprenderem Kriya, já se consideram gurus.

Acho que alguns de vocês já ouviram falar de um grande yogue, talvez o primeiro a trazer a mensagem dos Upaníshads ao Ocidente, que foi o Swami Vivekananda. O nome de seu mestre era Ramakrishna Paramahamsa.

Certo dia Ramakrishna estava andando de carruagem puxada a cavalos, no século 19, pelas ruas de Calcutá. De repente ele olhou pela janela da carruagem e viu um homem completamente bêbado, cambaleando ao andar. Então Ramakrishna pediu a seus acompanhantes que parassem a carruagem, saiu, foi até o homem e o abraçou. E disse:
- Hei, irmão. Você e eu estamos bêbados. Você está desfrutando sua bebedeira e eu estou desfrutando a minha. Você bebeu algo, eu bebi algo diferente, mas estamos ambos bêbados.

E aquele bêbado ficou perplexo, mesmo tendo grande dificuldade de controlar seu estado de embriaguez. Então Ramakrishna subiu novamente na carruagem e se foi.

Vários anos mais tarde, após a morte do mestre, um dos monges da Ordem Ramakrishna estava parado na porta do templo do monastério da Ordem e havia uma foto de Ramakrishna dentro do templo. Então o monge viu que chegou um homem alto, de cabelo emaranhado e vestido apenas com uma tanga, no estilo dos renunciantes da Índia.
Este homem olhou para o jovem monge e disse:
- Posso abraçar aquela foto dentro do templo?

O monge respondeu:
- Não permitimos que as pessoas entrem para abraçar a foto. Sinto muito. Mas por que quer abraçá-la?

O estranho respondeu:
- Você não vai se lembrar, porque não estava lá. Certo dia, eu estava tão bêbado, que andava cambaleando pelas ruas de Calcutá, e passou uma carruagem que parou  a meu lado. Este senhor da foto desceu, abraçou-me e disse: Você está bêbado, eu também estou bêbado. Depois com grande dificuldade seus acompanhantes o levaram de volta para a carruagem. A partir daquele dia, não coloquei uma gota de álcool na boca, mas estou constantemente bêbado com o licor do êxtase divino. Esta é a pessoa que fez isso comigo. Então posso abraçá-lo?

E o monge disse:
- Está bem. Pode abraçar a imagem.

Então o homem foi e abraçou a foto de Ramakrishna, sem nada falar, e depois retirou-se para nunca mais ser visto e sem ninguém saber para onde foi.

Contei esta história para dizer que, neste caminho da Kriya Yoga, podemos pensar que estamos nos negando muitas coisas, mas na verdade é o caminho da liberdade. Deixamos de correr atrás de pequenas contas de vidro sem valor, para encontrar um grande tesouro. É um caminho de grande felicidade.
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