Certa
vez, dirigi-me aos Himalayas para conhecer as montanhas e seus yogues. Saltei
do ônibus em Rudraprayag e caminhei sem destino pelo rio Ganges até encontrar
uma cabana. Naquele momento já estava escurecendo. Com a ajuda de minha
lanterna fui seguindo até a cabana. Aproximei-me da porta. A cabana estava
iluminada com a fraca luz de um lampião. Alguém ouviu-me chegar e saiu da
cabana. Era um homem de meia-idade vestindo um dhoti indiano.
“Namastê”,
eu disse.
“Namastê,
entre”, ele disse.
Dentro
da cabana, ele me fez colocar de lado a mochila e sentar. O residente da cabana
era alto, de barba e cabelos longos e apresentou-se como sadhu Ananda,
originário do sul da Índia. Convidou-me para ficar alguns dias com ele dizendo
que comida não era problema, uma vez que tinha recursos financeiros e comprava
suas provisões na cidade. Aceitei sua oferta e fiquei ali durante alguns dias.
Fazíamos
longas caminhadas e nos banhávamos no Ganges, meditávamos e discutíamos
religião e filosofia. Ele era uma pessoa bem viajada, culta e tinha decidido
ser sadhu (renunciante) após considerar muitas opções.
Tinha
se formado no famoso Instituto Indiano de Tecnologia, em Delhi, e ensinou
física numa famosa universidade americana durante sete anos antes de decidir
voltar à Índia e tornar-se um buscador espiritual. Era solteiro e não tinha
conexão com sua família. Tinha uma natureza suave e era muito inteligente.
“Certa
noite”, ele me contou, “eu estava sentado às margens do Ganges e perto da
cabana, muito deprimido. Tinha encontrado muitos sadhus, lido muitos
ensinamentos espirituais e praticado diferentes tipos de meditação por oito
anos.
“Nenhum
dos sadhus que encontrei satisfez minhas expectativas e recusei-me a aceita-los
como meus gurus. Li muito J. Krishnamurti e concordava com sua opinião de que
um guru não era necessário e podia inclusive ser um obstáculo. Minha meditação,
que no começo era inspiradora, agora era insípida e mecânica. Não havia
alegria.
“Eu
tinha severas dúvidas e até comecei a pensar que a chamada vida espiritual era
um desperdício de tempo e energia. Disse a mim mesmo que era hora de abandonar
esse tipo fútil de vida e voltar à civilização. Com minhas qualificações, tinha
certeza de que conseguiria um emprego numa universidade e levaria uma vida
normal, talvez me casaria pois minha atração pelo sexo oposto continuava a ser
forte, apesar do celibato que impus a mim mesmo.
“Torturado
por pensamentos conflitantes e com os olhos fechados, gritei alto: ‘Onde estão
os mestres que dizem morar nos Himalayas? Por que não vêm ajudar uma alma
sincera e torturada como eu? Será isso tudo um mito para enganar os inocentes?’
“Nesse
momento senti alguém tocar suavemente meu ombro direito. Abri os olhos. Ao meu
lado estava um velho de pele enrugada, com o corpo quase nu, exceto por uma
tanga em volta dos quadris. Ele tinha um rosto magro, barba rala e olhos
profundos. Usava as marcas de um vaishnava (adorador de Vishnu): uma grande
marca na testa em forma de U, um rosário com contas feitas de manjericão
(planta sagrada para Vishnu) em seu pescoço e marcas semelhantes em seu peito e
braços. Seus cabelos eram emaranhados com um coque no alto da cabeça. Estava
descalço e carregava um pote de metal onde levava água.
“Inclinei-me,
toquei seus pés como é o costume e disse: ‘Hari Om’. Numa voz firme e suave,
quase feminina, ele disse: ‘Não desista tão facilmente, filho. Esse caminho
demanda muitas vidas. Lute e verá a luz. Empregos como professor em
universidades não são difíceis de conseguir, mas a vida de buscador espiritual
não tem preço e não vem a todos’.
“Fiquei
atordoado, não porque ele parecia ler minha mente, mas por causa do momento em
que apareceu. ‘Você é um dos mestres dos Himalayas, swami?’ perguntei. ‘Por
favor, ajude-me nessa angústia. Fique comigo alguns dias e te servirei, grande
ser’. Ele respondeu com um sorriso: ‘Por alguns dias não, ficarei uma noite com
você.’
“Quando
o levei para a cabana, a noite estava chegando. Preparei uma cama para ele e
estendi meu tapete no chão para poder sentar a seus pés. Perguntei-lhe se
comeria alguma coisa e ele disse que ficaria feliz com uma banana e água. ‘Eu
raramente como’, ele disse. ‘Este corpo não precisa de muito’. E disse que
gostaria de dormir um pouco e para eu não me preocupar que ele resolveria meu
problema do seu jeito. ‘Você também deve dormir’, ele disse. ‘Você parece
cansado’.
“Deitando-me
a seus pés e me perguntando quem seria ele, rapidamente adormeci. No meio da
noite, sonhei que uma luz azul profundo pulsava dentro de uma caverna. O som de
tornozeleiras vinha de algum lugar e um doce perfume enchia o ar. De repente
alguém sussurrou ‘Desperte’ e despertei. O som de tornozeleiras continuava,
assim como o doce perfume de incenso dentro de minha cabana.
“Sentei-me
e olhei para a cama. O velho não estava mais lá. Em seu lugar, via uma pessoa
semelhante a um Buddha, de cor dourada, com os olhos fechados e um lindo
sorriso em seu rosto. Atrás dele, uma luz azul prateada iluminava a cabana até
o teto. Assegurando-me de que não estava sonhando, prostrei-me ante ele e
sentei-me na posição de lótus.
“A
figura moveu-se em minha direção e tocou minha cabeça, testa e peito. Uma brisa
refrescante subiu da base de minha espinha até minha cabeça e um calor desceu
do topo de minha cabeça e encheu-me o coração. Eu estava preenchido com uma luz
azul profundo que pulsava, e que tinha seu centro no ponto entre minhas
sobrancelhas. Uma onda de bem-aventurança varreu meu ser e descobri num
relâmpago que eu não era o pesado corpo físico, mas sim um ser feito de
partículas de luz que entravam e saíam do chakra de meu coração, num ciclo
contínuo.
“Quando
saí desse transe, já era dia. Abri meus olhos e não vi ninguém, nada exceto um
leve perfume do incenso que eu tinha sentido naquela
noite. A partir daquele dia, caminhei bastante na senda espiritual. Já não há
mais conflitos. Vejo com clareza.”
Depois
de me despedir de Ananda, não mais me encontrei com ele. Sei que está em algum
lugar dos Himalayas, peregrinando em total liberdade, sem ligações nem apegos.

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