21.10.14

OS ESTÁGIOS PRELIMINARES DA MEDITAÇÃO – CHANDRA SWAMI


Devem ser mencionados alguns perigos contra os quais o ansioso aspirante deve guardar-se. O curso normal da mente é dirigir-se para fora, para o mundo objetivo, mas a meditação é o movimento inverso. Portanto, o iniciante que tenta concentrar sua mente por um longo período, especialmente em ajna chakra, sentirá uma tensão em seu cérebro.

Se o aspirante pratica a concentração além de sua capacidade e faz esforços violentos para fixar sua atenção no meio das sobrancelhas, ele corre o risco de causar dano às células nervosas de seu cérebro. Dor de cabeça aguda e embotamento no cérebro, prolongada sensação de resfriamento no meio das sobrancelhas, excessivo calor ou intensa irritação na testa são sinais de perigo.

Além disso, aqueles que desejam caminhar muito rápido no início do caminho espiritual e praticam além de suas capacidades, geralmente ficam cansados e exauridos em breve, e abandonam as práticas. Para evitar estes perigos o estudante deve começar a praticar a concentração por apenas alguns minutos de cada vez, e então vagarosamente aumentar a duração.

Se o cérebro ficar cansado e houver dor de cabeça durante a prática, interrompa o exercício e deixe a mente relaxar. Entretenha-se com alguma ideia religiosa ou artística. Comece as práticas novamente quando estiver novamente descansado, mental e fisicamente. Essa jornada espiritual não deverá durar um dia, mas sim meses e anos. Quem sabe quantas vidas serão necessárias para alcançar o destino final? Portanto, não seja impaciente. Trabalhe firme e calmamente. A prática firme e regular, sem pressa, é o que se precisa para o sucesso.

EXPERIÊNCIAS NA MEDITAÇÃO

1. No estágio preliminar de interiorização, certos sons que lembram o bater de um tambor, alto ou baixo, o fluir de um rio, o trovão, o zumbido de abelhas etc. serão ouvidos no ouvido direito. Certas cores também aparecerão entre as sobrancelhas. Esses sons e cores vêm e se vão e são constituídos dos cinco elementos.

Ao experimentar isso, alguns praticantes imaginam que fizeram grande avanço. Mas nada há de espiritual nestes sons e cores; são meramente reflexos causados pelo contato da mente com o plano físico sutil. Estes sons e cores podem prejudicar a concentração, se muita atenção lhes for dada.

2. Um pouco mais de interiorização leva a pessoa ao plano astral, onde também várias coisas são vistas e experimentadas. Muitas vozes sussurram nos ouvidos. Às vezes as mensagens são ouvidas claramente, mas apenas algumas são genuínas, enquanto que muitas são enganosas. Novamente o praticante deve ter cuidado. Ele não deve seguir cegamente qualquer mensagem ou voz ou sugestão.

Nesse estágio de contemplação, numerosas visões são vistas. Muitas delas são representações simbólicas de coisas, estados e forças do plano astral, mas algumas representam acontecimentos reais naquele plano. É melhor não se enredar com tais visões e vozes que vêm e vão. A pessoa deve tratá-las com indiferença e tentar estar focado no objetivo. Aspirantes sinceros não permanecem nesse estágio por muito tempo, mas passam por ele rapidamente.

3. (a) Após passar pelo plano astral,  a concentração se torna madura. A pessoa começa a ter experiências elevadas e bem-aventuradas de planos mais elevados. Santos de uma alta ordem, vivos ou mortos, frequentemente aparecem. Eles vêm para ajudar o praticante. Eles devem ser saudados e adorados. Às vezes falam sobre coisas espirituais e guiam o praticante.

(b) Visões de deuses e deusas também aparecem nesse estágio. A divindade ou avatar adorado pelo praticante aparece frequentemente. Até mesmo quando o praticante está de olhos abertos, quando está relaxado em posição sentada ou deitada. Essas experiências produzem grande felicidade e elevam a mente.

(c) Às vezes, eventos que acontecem em lugares distantes e outros que acontecerão no futuro são refletidos na consciência com detalhes. O poder de ler pensamentos também se manifesta. Nesse estágio, o praticante pode, se quiser, desenvolver os poderes de clarividência, clariaudiência e telepatia muito facilmente, mas se assim o fizer interromperá seu progresso espiritual. Por isso o praticante é avisado para não perder tempo em desenvolver estes poderes.

(d) Lampejos de luz de um caráter mais dinâmico ocorrem frequentemente. Uma luz refulgente dourada às vezes aparece ante os olhos, quando a pessoa está sentada quietamente, e todas as coisas desaparecem nela. Isso dura apenas alguns minutos. Tais lampejos indicam que a realização espiritual está chegando.

(e) A pessoa ouve um arrebatador som vindo do Coração espiritual no meio do peito, e isso rapidamente se espalha pelo corpo inteiro como uma corrente elétrica. Essa experiência deixa o praticante inteiramente abstraído do mundo exterior. Após uns quinze minutos este som se centraliza no ajna chakra e se transforma numa deslumbrante luz. Essa experiência é muito abençoada. Algumas palavras aparecem como que escritas por um relâmpago na testa. Elas são às vezes tão claras que a pessoa pode lê-las, palavra por palavra. Essas duas experiências vêm geralmente aos que praticam mantra japa por longos períodos.

4. Quando a consciência se aprofunda, estas visões e lampejos cessam e a pessoa começa a sentir um êxtase espiritual que aumenta regularmente. É um êxtase tão grande que a pessoa se sente irresistivelmente puxado para dentro dele. Nesse estágio todas as tentações mundanas perdem o poder de influenciar o praticante. Ele se sente atraído a lugares solitários, onde pode sentar-se sozinho e gozar da alegria interior.

O praticante agora entra numa nova fase. O sentido de esforço pessoal desaparece, mas a sádhana (práticas) se torna mais vigorosa e rápida. Seu êxtase espiritual se transforma numa profunda paz. Todo o mundo exterior é completamente apagado e a consciência goza de um repouso estático. Este é o nirvana, o samadhi.

Ao descer dessa experiência, o mundo parece ser uma sombra, sem substância – um jogo irreal, vão e inútil das qualidades irreais. Mas essa experiência ainda não é a experiência final. Então a Consciência começa a absorver o “Todo” em si mesma e gradualmente realiza sua unidade essencial com o “Todo”.

Existem ainda duas experiências mais, que não são descritas aqui, antes de se alcançar a experiência perfeita, em que a pessoa se funde no Absoluto.

15.10.14

O CAMINHO POSITIVO E O CAMINHO NEGATIVO – Arthur Osborne


Para que o homem saia do estado decaído em que se encontra, e tome nas mãos sua evolução espiritual, existem dois caminhos: o positivo e o negativo, de acordo com as práticas que ele deve realizar.

O Caminho Negativo está exemplificado nas palavras de Cristo, ao dizer que “quem dá sua vida pelo Cristo a encontrará”, é o caminho da entrega, e também o caminho da vichara (autoinvestigação). É o caminho do cristão medieval, cujo objetivo era extinguir o falso eu.

Dizer que esse caminho é negativo não significa que é fraco ou sem esforços. Ele requer total abnegação do eu falso individual, que perdeu seu direito divino. Quando o usurpador deixa o trono, o verdadeiro herdeiro, o Eu crístico, fica livre para ocupá-lo.

No Caminho Positivo, os métodos são de terapia, de construção da natureza espiritual, mental e física da pessoa, e de obter o estado conhecido como o “homem primordial”. Tais métodos incluem a yoga, o tantra, o hermetismo (ocultismo) e as técnicas praticadas no taoísmo chinês.

Pode-se dizer que no Caminho Negativo, um homem obtém primeiro o Reino dos Céus e as outras coisas lhe são dadas por acréscimo. Isso é obtido através da renúncia às posses. O Caminho Positivo pode ser considerado mais completo, uma vez que as “outras coisas” que são dadas ao homem no Caminho Negativo não incluem necessariamente uma plena saúde física e poderes sobrenaturais. Estas são qualidades desenvolvidas no Caminho Positivo.

Por outro lado, o Caminho Negativo conduz o homem a um estado mental, em que estas coisas não têm nenhum valor para ele, nem ele se importa se as tem ou não. No Caminho Positivo vários poderes considerados sobrenaturais podem ser deliberadamente desenvolvidos, como descreve Patânjali em seus Yoga Sutras. É possível que tais poderes também se manifestem no homem espiritualizado que eliminou o ego, mas esse homem não irá procurá-los, e nem se importar com eles se aparecerem.

De um outro ponto de vista, o Caminho Positivo é menos completo. Embora seja um estado resplendente e glorioso, ainda não é o estado de identidade total com o Eu Universal: ainda é um estado humano, embora num sentido sublime do termo. Isto é, ainda não leva o homem à meta final.

Mencionar as características de cada caminho não quer dizer diminuir seu valor; cada aspirante será atraído por sua própria natureza e destino para o caminho mais adequado a ele. O yoga é provavelmente o mais conhecido e acessível entre os Caminhos Positivos no mundo de hoje. Infelizmente, no entanto, ele é considerado por muitos como apenas uma terapia física. Embora o yoga físico seja benéfico à saúde, a pessoa não deveria se satisfazer apenas com esse aspecto, mas sim buscar seus benefícios espirituais, incluindo na hatha yoga (yoga físico) as práticas também da raja yoga (yoga mental).

No tocante à raja yoga, esta é uma ciência na qual a pessoa não é apenas o experimentador, mas também o laboratório em que a experiência é conduzida. Como em qualquer outra ciência, os materiais devem ser devidamente preparados e o experimento ser devidamente conduzido, de acordo com as instruções de alguém que conhece. Do contrário o experimento pode não ser  efetivo. A pessoa estará lidando com material perigoso e uma explosão poderá destruir o laboratório.

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Nota: Os interessados em Raja Yoga devem contatar a Self Realization Fellowship, de Los Angeles, ou o Centro da SRF em São Paulo, que ensina um caminho baseado nesse ramo do yoga: Rua Professor Carlos de Carvalho, 164, 4º e 9º andares, Itaim Bibi, São Paulo – SP. Telefone: 3079-0323.
www.srfsaopaulo.com.br

a. osborne

EM BUSCA DO YOGA – Swami Sharadananda


As escrituras dizem que yama e niyama (limpeza física e mental, controle do comportamento e do caráter) são a base do edifício do yoga. Decidi começar com ahimsa (não-violência), satya (falar a verdade) e brahmacharya (continência sexual).

Meu amado guru, Sri Swami Sivananda, escreveu em seus livros que sirshâsana e siddhâsana (posturas da hatha yoga) são as melhores para o brahmacharya; e que se alguém pode fazer sirshâsana por três horas, ele desperta sua kundalini shakti, uma vez que seu vírya (sêmen) é convertido em  ojas (força espiritual).

Comecei imediatamente a praticar. Dia e noite eu sonhava apenas em converter vírya em ojas e despertar a kundalini. Minha conversa e minha leitura eram apenas como converter vírya em ojas, como despertar a kundalini, como ser indiferente ao calor e frio, ao bom e mau, à dor e prazer. Eu vivia numa estranha mundo meu, totalmente convencido de que tais práticas poderiam me tornar um yogue e jivanmukta (livre ainda no corpo).

Imaginei que atendo-me meramente ao lado físico, poderiam ser produzidos resultados espirituais. O desejo de controlar os sentidos era tão forte que pratiquei continuamente. Senti que nada havia nos três mundos que pudesse me desviar de minha prática. A mera sugestão de que algo ajudava ou prejudicava o sádhana (prática espiritual) era o bastante para que eu adotasse ou renunciasse àquilo.

Eu não tinha hábitos ruins, mas ao ouvir que eram obstáculos ao sádhana, abandonei o chá preto, o café, açúcar, sal, pimenta, sem hesitar. Digo isto apenas para mostrar como era forte minha determinação. Pratiquei rigorosas austeridades, mas os resultados foram poucos, uma vez que eram de natureza psíquica, e não espiritual.

Nesse estágio, escrevi a meu guru e lhe perguntei por que minha kundalini não tinha despertado, embora eu fizesse três horas de sirshâsana por dia. Meu guru respondeu chamando-me de tolo e me aconselhando a não fazer sirshâsana mais de cinco minutos e a mudar meu sádhana para a introspecção. Fiquei muito desapontado, e me perguntei: se isso era yoga, por que as pessoas escreviam diferentemente em livros a respeito.

Quanto a siddhâsana, eu tinha aprendido que devia praticá-la por seis horas continuamente, mas ela não me concedeu controle mental e nem o poder de suportar calor e frio. Apesar disso, todas essas práticas desenvolveram meu poder da vontade e meu desapego, preparando-me assim para encarar o verdadeiro sádhana espiritual, que é o esforço para eliminar todos os desejos e tornar-me humilde e livre do ego.

Obviamente, o estado livre de ego significa identificar-se com o Eu Universal ou ver todo o universo dentro de si mesmo. Agora eu buscava a verdadeira espiritualidade, não meramente poderes psíquicos. Um sádhaka (praticante) pode avançar espiritualmente apenas se seu desapego e equanimidade mental crescerem e ele se tornar mais humilde. Para isso, todos os desejos devem ser destruídos, até o próprio ego.

Voltei-me para esse tipo de sádhana por meio de vichara (auto-indagação). Permaneci em Gangotri (uma região às margens do rio Ganges) por três anos fazendo sádhana. Além de vichara, eu costumava meditar nas várias virtudes e tentava adquiri-las. Outra disciplina minha era tentar ver Deus em tudo.

Um outro obstáculo era o desejo de comer alimentos saborosos. A fim de controlar esse desejo, decidi nunca comer sozinho; eu preparava comida para outros sadhus (renunciantes) que viviam também por ali e partilhava o alimento com eles.

As escrituras dizem que a coragem é um sinal de ausência de ego, então para testar a mim mesmo fui viver num lugar chamado Chidvasa, que é totalmente desabitado. Chega-se ali por um caminho através das montanhas; a vila mais próxima fica a 30 km de distância, e durante o inverno o local é inacessível devido à neve.

As primeiras semanas foram terríveis. A mente tentava me convencer a partir e todo tipo de ideia e temores se apresentava em minha mente. Mas resisti. No lar você pode ver muitas coisas diferentes se sair de casa, mas ali no inverno não havia nada de novo para ver, apenas a mesma neve deserta. É por isso que, nos tempos antigos, muitos aspirantes espirituais se retiravam a lugares desertos. Chega uma hora em que você não tem mais desejo de ver, nem esperança de que aconteça algo novo; e assim sua atenção é voltada para dentro em busca de algo novo para se ver. E isso acontece também com os sentidos.

A pessoa tem de estar bem preparada e treinada, antes de enfrentar a solidão. Alguém que não pode aguentar a tensão pode muito bem ficar louco ou cometer suicídio. Todas as vâsanas (tendências e inclinações da mente) despertam e se agitam terrivelmente, mas se você não lhes der espaço, elas se aquietam e você sente um amor universal por todos os seres.

Certa tarde, eu estava fora de minha cabana, quando de repente vi uma enorme pantera negra caminhando vagarosamente em minha direção, a uns oito metros de distância. Eu a vi antes que ela me visse. Então encaramos um ao outro durante um minuto, e depois disso a pantera se voltou calmamente e foi embora pelo caminho que veio. Não senti qualquer medo. Na verdade senti um impulso de pegar algum alimento da cabana e oferecer a ela, mas ela já tinha ido embora.

Este foi um ótimo teste para minha coragem. Para quem pode suportar a tensão, a solidão é um treino excelente para ver o que é Deus e o que é o ego, quais desejos escondidos existem em sua mente e como identificar-se com o Eu Universal.

3.10.14

O PROGRESSO ESPIRITUAL (carta de Sri Krishnaprem a um amigo)


Você diz que é difícil continuar. Isto é um bom sinal. Este caminho é o mais difícil do mundo, e enquanto achamos que ele é fácil com certeza não chegaremos muito longe; apenas estaremos rodando confortavelmente numa estrada plana. Podemos ser felizes e estarmos em paz por algum tempo, mas essa felicidade ou paz é ilusória: qualquer coisa poderá perturbá-la, e nada teremos adquirido.

A verdadeira paz é completamente diferente, é algo que tem seu começo no coração de ventos tremendos, ventos que nos fariam em pó. É apenas quando sentimos tensão, quando a respiração fica ofegante, que podemos saber que estamos realmente subindo, avançando. Até então só teremos caminhado rapidamente o caminho já feito numa vida anterior.

Esta vida começa quando a tensão chega – raramente antes. Não se chega à meta, até que a casca de ovo do eu é quebrada. Para que então se lamentar quando a tensão e o cansaço chegam? Com dor nascemos, tanto física como espiritualmente, mas então será a vida interior que procurávamos, e não a felicidade fechada em si mesma da existência dentro do útero.

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Krishnaprem é o nome hindu de Richard Nixon, professor universitário americano que foi para a Índia na década de 1930, em busca de espiritualidade. Tornou-se discípulo de Yashoda Ma, uma devota de Krishna, e alcançou grande realização espiritual.




1.10.14

AS LEIS ESPIRITUAIS DE ATRAÇÃO – P. Yogananda


Quando pais bons se unem sexualmente, eles formam uma luz na base da espinha, a qual resulta das correntes positiva e negativa da espinha e dos órgãos sexuais. Esta luz age como um sinal para o portal através do qual uma alma do mundo astral pode ser levada a ser fisicamente concebida, ao combinar-se espermatozóide e óvulo.

Quando a alma entra, o embrião é formado e gradualmente o corpo fica pronto para nascer. Almas que possuem um karma ruim têm de entrar no corpo de mães malvadas. Quando pais malvados se unem sexualmente, eles formam uma luz escura na base da espinha, assinalando a entrada de uma alma com karma ruim.

Os semelhantes se atraem. Almas com karma ruim nascem em famílias malvadas, almas com karma bom nascem em boas famílias. Famílias malvadas e famílias boas atraem almas com tendências más e boas, de acordo com o magnetismo de suas inclinações interiores. Isto é, famílias más gostam de atrair almas com mau karma. Famílias boas gostam de atrair boas almas.

Do mesmo modo, os malvados preferem as famílias malvadas e as almas boas preferem as boas famílias. A lei cósmica e a energia cósmica são apenas guias para ajudar ambos, o bom e o mau, a chegar a seus destinos respectivos.

3.9.14

A HISTÓRIA DE DABHRA, O DEVOTO DE SHIVA


Certa vez em Kailasa (morada de Shiva), Párvati (a Mãe Divina, consorte de Shiva) curiosamente perguntou ao Senhor Paramesvara (outro nome de Shiva) enquanto este descansava com Sua cabeça no colo dela: Senhor! Diga-me, por favor, quem é teu devoto favorito: Nandi, Bhringi ou Chandi.

Pasupáti, o Senhor dos seres, passando os dedos nos cachos de cabelos de Párvati, replicou: Mais que qualquer outro, inclusive você, Dabhra Bhakta é o que mais me agrada. Nem posso abençoá-lo o tanto que ele merece.

Chocada com tal revelação, Uma (outro nome da Mãe Divina) pediu uma explicação. Shiva levantou-se, besuntou Seu corpo com cinzas, prendeu seus cabelos e disse, Siga-me e veja por si mesma.E dirigiu-se para o mundo dos homens.

Enquanto isso, em sua cidade Dabhra se preparava para alimentar os devotos de Shiva, uma vez que era o dia auspicioso da estrela Bharani no mês de Chaitra. Uma vez que nenhum devoto se aproximava, ele saiu para encontrá-los.

Neste momento, Shiva apareceu como um Bhairava (um tipo assustador de devoto de Shiva) em sua casa e gritou, Dabhra está em casa? Posso conseguir alguma comida aqui?”

Chandana, a empregada da família, saiu e replicou reverentemente: Por favor, entre. O dono da casa logo estará aqui.A resposta foi: Nós bhairavas não entramos numa casa quando o dono não se encontra. Vou-me embora.”

Então, Sveta, a esposa de Dabhra Bhakta, correu até a porta e suplicou-lhe que ficasse. Repetindo as mesmas palavras de antes, ele acrescentou: Vou descansar no templo de Ganapáti (Ganesha).

Momentos depois, Dabhra retornou desapontado por não encontrar nenhum devoto para alimentar. Sua esposa narrou a ele o que tinha acontecido em sua ausência e pediu-lhe para buscar o devoto, que brilhava como Shiva, e se encontrava no templo próximo.

Ouvindo estas palavras, que eram como néctar, Dabhra correu ao templo e encontrou o Bhairava sentado em Virásana (uma pose da hatha yoga) sob uma figueira. Seu cotovelo se apoiava num yoga danda, o bastão do yogue. Brahma kapala, o crânio que lhe servia de tigela de esmolar alimentos, estava ao lado de sua mão direita, e esta estava ocupada deslizando sobre as contas sagradas do rosário (repetindo mantras). Seu brilho era semelhante ao do próprio sol.

O grande yogue parecia velho, enrugado e um pouco cansado. Dabhra caiu a seus pés e os segurou com devoção. O Bhairava, com um olhar, perguntou: Quem está aí?Encantado com a pergunta, Dabhra replicou: “Embora eu me considere um escravo dos devotos, as pessoas me chamam de Dabhra Bhakta. Tomo refúgio em vós. Abençoe meu lar com o pó de vossos pés e partilhe a comida que servimos.

O Bhairava replicou, Sua fama já alcançou lugares distantes. Você é um símbolo do ditado ‘A caridade começa em casa’. Hoje é Chaitra Bharani, um dia auspicioso. Que grande sorte é ser servido por um verdadeiro devoto! Entretanto, preciso avisá-lo sobre uma coisa um pouco desagradável. Bem, não quero causar problemas a sua família. É melhor me dirigir a outra casa. E assim dizendo levantou-se para partir.

Quando o Bhairava se levantou, Dabhra segurou rapidamente seus pés, e tentando detê-lo suplicou, “Faça prova de mim, meu senhor! Por sua graça serei capaz de satisfazer suas exigências.” O Senhor o interrompeu dizendo, “Espere, espere, eu não como alimentos como leite, manteira, arroz, verduras etc. Nem mesmo frutas apanhadas da árvore celestial Kalpa me agradam. Agora ouça sobre meus hábitos alimentares. Como apenas uma vez a cada seis meses – e como carne! Por certo isto está além do que você pretende arranjar para mim.”

Dabhra rapidamente replicou, “Temos animais jovens em casa. Diga-me qual deles você quer.” O Bhairava pausou um momento e disse, “Bem, o que eu consumo é carne humana – aquela de um garoto de cinco ou seis anos, filho único de seus pais, sem pecados e perfeito fisicamente. Enquanto a mãe o segura em seu colo, o pai deve cortá-lo em pedaços, e ambos não devem sentir a menor tristeza no coração. Após o pai lavar e limpar a carne, a mãe deve cozinhá-la usando pimenta e outros temperos. Apenas gosto deste tipo de comida. Agora, corra para sua esposa e obtenha dela sua aprovação sincera.”

Dabhra correu para sua casa e, aproximando-se dela, colocou o braço a seu redor e explicou-lhe as regras de conduta do Shaiva Dharma (deveres dos devotos de Shiva para com os yogues desta tradição).

Ela logo lhe disse: “Diga logo o que vai pela sua mente.” Então Dabhra narrou as exigências do Bhairava. Sveta fechou seus olhos contemplando o Senhor (Shiva) e replicou, “Se esta é a vontade do Senhor, vá e traga nosso amado filho cuja vida consagraremos ao próprio Senhor.”

Dabhra foi até a escola do guru (na antiguidade as crianças estudavam com um guru versado nas escrituras), onde o menino Sripáti estava meditando. Com a chegada de seu pai, o guru do menino pediu-lhe que recitasse um hino que dizia: “Apenas Shiva é digno de adoração. Os devotos de Shiva são sempre dignos de ser servidos.”

Imensamente satisfeito com a recitação, o guru o abençoou com vida longa e prosperidade. Dabhra, com a permissão do guru, levou o menino e o entregou a sua mãe. Sveta banhou e perfumou o garoto, secou-o com uma toalha e segurando-o em seu colo, chamou seu marido. Dabhra trouxe consigo uma afiada faca e avisou sua esposa: “Não se deixe dominar pela piedade, para não estragar esta oferenda.”

Ele observou o garoto pela última vez e cortou sua cabeça com um só golpe. A cabeça do menino rolou do colo da mãe. Sem perda de tempo, o sangue foi recolhido num vaso, o tronco foi cortado em pedaços e as partes comestíveis foram cuidadosamente removidas e lavadas.

Dabhra entregou a carne para sua esposa, que a temperou e cozinhou. Como a cabeça não se prestava para cozinhar, foi preservada pela empregada Chandana. Então Sveta informou a seu marido que a comida estava pronta e que ele deveria buscar o Bhairava sem demora.

Dabhra correu novamente ao templo e informou ao Bhairava que estava sentado em meditação no mesmo lugar. Então o Bhairava se levantou majestosamente em sua grandeza que inspirava medo. Tomou sua tigela feita de crânio numa mão e com a outra tocou seu damaru (pequeno tamborete que nos retratos de Shiva simboliza o som criador do Universo – OM), que ecoou terrivelmente pela região.

O Bhairava tinha um cinto feito de crânios que se tocavam uns contra os outros à medida que ele andava. As grossas tranças de seus cabelos estavam amarradas no alto da cabeça e fixadas por pequenos crânios. Sua testa, pintada com as marcas de Shiva, parecia mostrar um feroz terceiro olho, enquanto seus dois olhos espalhavam terror e compaixão ao mesmo tempo. À medida que ele andava apoiado em Dabhra, as grandes presilhas de seus tornozelos tilintavam manifestando o primitivo nada — som e vibração cósmicos.

Quando chegaram à casa, Dabhra fez sentar o velho Bhairava e lavou seus pés numa bacia de ouro e prestou-lhe uma adoração ceremonial. Mais tarde, colocando duas grandes bananas ante o Bhairava, Sveta serviu a carne cozida com arroz e verduras.

O Bhairava examinou os alimentos dos pratos e observou, “Vejo que esqueceram de cozinhar a cabeça.” Enquanto o casal se olhava com ansiedade, a empregada Chandana apareceu ali com uma panela e disse, “Esperando isso, cozinhei a cabeça separadamente.”

Sentindo-se grandemente aliviado, o casal disse ao convidado, “Reverendo Senhor, o que vós pedistes foi servido. Comei até estar satisfeito.” Então o Bhairava replicou, “Não me apresse. Nunca como sem companhia.” Ouvindo isso, Dabhra saiu para procurar um segundo convidado e retornou sem encontrar nenhum. Quando o Bhairava sugeriu que o próprio Dabhra poderia acompanhá-lo, ele replicou, “Prefiro esperar que o convidado coma, para servi-lo.”

Ao ser pressionado novamente, Dabhra sentou-se ao lado do convidado. Quando estavam para começar, o convidado observou, “Normalmente os pais alimentam seus filhos primeiro, e até ficam satisfeitos em sacrificar sua própria comida aos filhos. Agora chame seu filho imediatamente e deixe-o comer conosco.”

Em resposta a estas angustiantes palavras, Dabhra disse, “Ele não se encontra mais aqui, por isso por favor continue antes que a comida esfrie.” Entretanto, o Bhairava ordenou-lhe que chamasse seu filho pelo nome. Dabhra, ainda calmo, pediu a sua esposa que o chamasse. Então, Sveta, controlando sua emoção, saiu e gritou: “Sripáti, meu amado filho. Venha imediatamente.”

Esse chamado operou um milagre! Como que aparecendo do nada, Sripáti chegou cambaleando em direção a sua mãe e jogou-se em seus braços. Ela não podia acreditar no que via. Seria este menino outra pessoa? Ela  o beijou. O garoto cheirava aquelas pimentas com que fora temperado. A mãe parou para pensar no que acontecera, mas decidiu esvaziar sua mente em gratidão ao Senhor cujos caminhos são impenetráveis.

O menino lhe perguntou inocentemente, “Mãe, onde fui depois que estive no seu colo?” A mãe o apertou no coração e replicou, “Nenhum lugar, querido!”

Para descobrir a causa da demora, Dabhra saiu e ficou mudo pelo choque que recebeu ao ver a cena. Ele correu para abraçar também seu filho. Quando entraram na casa, não mais viram o Bhairava ou a comida. Então o Senhor Shiva lhes apareceu, enquanto seres celestiais derramavam pétalas perfumadas, e eram ouvidos sons de seus instrumentos divinos.

A família abençoada louvou o Senhor. O compassivo Senhor Paramesvara (Shiva) os abençoou com a libertação do ciclo de nascimentos e mortes (mukti), bem como abençoou sua servidora Chandana também.




15.8.14

QUANDO A NATUREZA NÃO FUNCIONA BEM – P. Yogananda


Devido aos males acumulados de más ações das pessoas em geral, e suas vibrações destrutivas, as leis celestiais que controlam as forças da natureza são impedidas de funcionar adequadamente, resultando em secas, enchentes etc. Mesmo os Mestres da Sabedoria não podem livrar o povo do sofrimento, porque as pessoas exercitaram seu próprio livre-arbítrio mal dirigido para excluir os poderes divinos.

Se um povo passa fome, isso é resultado dos males acumulados das pessoas, sendo que sua punição foi trazida por elas próprias, porque suas ações erradas e suas vibrações romperam as sutis forças astrais que controlam as condições climáticas que governam o planeta.



Portanto, a natureza desgovernada não é um fatalismo, mas sim as consequências do mau uso que o homem faz de seu livre-arbítrio.