24.2.13

NO TANQUE DO TEMPLO - Ramana Maharshi


Foi em 1931, quando Krishna tinha 11 anos de idade, ele pediu permissão de sua mãe para ir ao templo para o puja.

Antes de chegar lá, ele decidiu tomar um banho na piscina do templo. Ele desceu os degraus e entrou na água com cuidado, uma vez que não sabia nadar, mas apesar de seu cuidado, ele escorregou e caiu na parte funda da água. Com grande esforço ele conseguiu subir e gritar por socorro, mas ninguém o ouviu.

Após a terceira tentativa, ele afundou, sem qualquer esperança de sobreviver. De repente viu uma luz muito brilhante dentro de sua cabeça no meio da qual aparecia o rosto de Bhagavan. Isto aconteceu rapidamente e desapareceu. Um pouco depois ele sentiu algo pegar seus tornozelos e perdeu a consciência.

Quando despertou estava nos degraus do tanque. Após perceber que estava vivo, perguntou às pessoas perto dele como tinha chegado ali. Disseram-lhe que um velho que passava por ali desceu correndo os degraus, pulou no tanque, trouxe-o para fora da água e o deixou ali, e depois foi embora tão rapidamente como veio. Krishna então fez seu puja e foi para casa, sem dizer nada a sua avó.


Na manhã seguinte eles foram juntos ao Ashram como de costume e se prostraram ante Sri Bhagavan. Bhagavan olhou-os e perguntou se era fundo o tanque do templo. O garoto não entendeu a importância da pergunta, e logo após saiu silenciosamente do salão. Foi apenas mais tarde na vida que ele percebeu que seu salvador não tinha sido outro que o próprio Sri Bhagavan. É verdade que Sri Bhagavan considerava os poderes ocultos como um obstáculo à prática espiritual, mas também é certo que Sri Bhagavan é todo graça e compaixão e nunca falha a seus devotos.

Outro incidente aconteceu um ano depois. Certa manhã no ashrama ele notou que todos tinham uma cópia da nova biografia de Sri Bhagavan, Sri Ramana Vijayam, recém saída da editora, e presenteada a todos os moradores do ashrama. Krishna foi a Chinnaswamy pedir uma cópia. Após Chinnaswamy recusar-se a dar uma, ele foi onde Sri Bhagavan estava e ficou chorando. Bhagavan perguntou por que ele chorava e Krishna lhe disse o que acontecera. Bhagavan então mandou um atendente pegar uma cópia do livro. Após escrever "Ramanan" na primeira folha, ele deu a cópia ao garoto, que se encheu de felicidade e agradeceu. Sri Bhagavan então observou: "Oho! Você está todo feliz agora e o choro acabou tão depressa." Krishna então saiu do salão para dizer a Chinnaswamy que ele tinha conseguido o que queria das mãos do próprio Sri Bhagavan.


23.2.13

RECEITA DE SAÚDE - P. Yogananda


Comer três refeições por dia é um hábito extremamente perigoso. Muitos estão morrendo rapidamente porque comem ao som da campainha. Ignore este chamado se você não sentir fome. 

É bom comer regularmente, porque uma expectativa psicológica é criada nas celulas do corpo, a qual ajuda a secreção dos sucos digestivos. As células inteligentes, como animais famintos no zoológico, esperam pela hora da comida. Mas nunca coma a não ser que tenha fome. Coma moderadamente se tiver fome. Coma menos se tiver pouca fome. Não coma nada se não tiver fome. 

Descarte as refeições em que você tenta comer com pouca fome e isto vai aumentar sua fome para a próxima refeição. Use seu poder da vontade para resistir à tentação de comer três refeições todo dia, pois devido a elas todo o sistema, incluindo as células, o coração, os nervos, o estômago, tem de trabalhar continuamente. Dê um descanso ocasional para sua máquina inteligente (o corpo), cortando o café da manhã, o almoço ou o jantar todo dia.

 Se você estiver muito faminto e trabalhando duro, pode sem problemas comer três refeições leves por dia, mas se você não faz muito trabalho físico, então duas refeições por dia são o suficiente.

O mestre (P. Yogananda) uma vez em uma palestra falou das qualidades espirituais presentes nos alimentos. Disse que o corpo existe para manifestar a alma, e que todo alimento tem qualidades intrínsecas. Nós nos beneficiamos dessas diferentes vibrações magnéticas. Por exemplo, as cerejas têm a vibração da alegria. As bananas, um alimento muito espiritual, conferem tranquilidade e humildade. Entusiasmo e energia renovada são derivados dos ovos e do leite. As laranjas e os limões expulsam a melancolia e são estimulantes cerebrais. As amêndoas e o mel refletem, tanto um quanto o outro, o autocontrole. As amoras auxiliam a clareza do pensamento. O morango está sintonizado com a dignidade, e as uvas têm a vibração especial de Amor Divino.



5.2.13

SAVITRI E YAMA, O DEUS DA MORTE


Havia um rei chamado Ashvapati. O rei tinha uma filha, que era tão boa e bela que era chamada Savitri, que é o nome de uma oração sagrada dos Hindus. Quando Savitri cresceu, seu pai lhe disse para escolher um marido. As princesas indianas eram muito independentes e escolhiam seus próprios pretendentes. Savitri concordou e viajou a regiões distantes, montada numa carruagem de ouro, com seus guardas e cortesãos a quem seu pai a confiou, parando em diferentes cortes, e vendo diferentes príncipes, mas nenhum deles pôde ganhar o coração de Savitri.

Finalmente chegaram a um sagrado eremitério numa floresta, onde não se permitia a matança de animais. Ali os animais não temiam os homens, e até os peixes vinham e pegavam comida das mãos. Por milhares de anos ninguém havia matado nada ali. Os sábios ali iam para viver entre os gamos e os pássaros. Quando um homem se cansava da vida, ele ia à floresta, e na companhia dos sábios, falando de religião e praticando meditação, ele passava o que restava de sua vida.

Aconteceu que havia um rei, Dyumatsena, que foi derrotado por seus inimigos e privado de seu reino, quando já era velho e tinha perdido a visão. Este pobre, cego e velho rei, com sua rainha e seu filho, refugiou-se na floresta e passava sua vida em rígidas austeridades. O nome do rapaz era Satyavan.

E aconteceu que após visitar todas as diferentes cortes, Savitri finalmente chegou a esse eremitério, ou lugar sagrado. Nem mesmo o maior dos reis poderia passar pelos eremitérios, ou ashramas como eram chamados, sem prestar homenagens aos sábios. Assim Savitri chegou a este eremitério e viu ali Satyavan, e seu coração foi conquistado. Quando Savitri retornou a casa de seu pai, ele lhe perguntou, `Savitri, querida filha, você viu alguém com quem gostaria de casar-se?'

Então, corando, disse Savitri, `Sim, pai.' `Qual é o nome do príncipe?' `Ele não é um príncipe, mas o filho do rei Dyumatsena que perdeu seu reino – um príncipe que vive uma vida monástica, a vida na floresta, colhendo raízes e ervas, ajudando e alimentando seus velhos pais, que vivem numa cabana.'

Ao ouvir isto, o pai consultou o sábio Nárada, que estava presente ali, e este declarou que a escolha feita era um mau presságio. O rei então lhe pediu para explicar por que. E Narada disse, `Dentro de doze meses o jovem morrerá.' Então o rei disse, `Savitri, este jovem vai morrer em doze meses, e você será viúva: pense nisso! Desista de sua escolha, minha filha, você não deve casar-se com um noivo assim fadado.' `Não se preocupe, pai; não me peça para casar-me com outra pessoa e sacrificar a castidade, pois eu amo e aceitei em minha mente apenas aquele bom e bravo Satyavan como meu marido. Uma dama escolhe apenas uma vez, e ela nunca se desvia de sua verdade.'
Quando o rei viu que Savitri estava decidida em sua mente e coração, ele concordou. Então Savitri casou-se com Satyavan, e saiu do palácio de seu pai para ir para a floresta, para viver com seu marido e ajudar os pais dele.
Embora Savitri soubesse a data em que Satyavan iria morrer, ela manteve isso em segredo. Diariamente ela ia às profundezas da floresta, colher frutas e flores, juntar lenha, e então voltava à cabana, e cozinhava a refeição e ajudava os velhos. Assim suas vidas seguiam até que o dia fatal se aproximou, e faltavam apenas três dias. Ela fez um voto de passar três noites em jejum e austeridades, e manteve suas duras vigílias. Savitri passou noites em dor e sem dormir, com fervorosas preces e lágrimas secretas, até que a temida manhã raiou. Naquele dia Savitri não podia suportar ficar separada de seu marido, nem mesmo por um momento. Ela pediu permissão de seus sogros para acompanhar o marido, quando ele foi juntar as ervas e lenha usuais. De repente, ele reclamou a sua esposa que se sentia desmaiando, `Minha cabeça está tonta e meus sentidos titubeiam, cara Savitri. Deixe-me descansar ao seu lado por um instante.'

Tremendo ela replicou, `Venha, coloque sua cabeça no meu colo, meu querido senhor.' E ele colocou sua cabeça no colo da esposa e pouco depois expirou. Ali ficou ela sentada, derramando lágrimas, na solitária floresta, até que os emissários da Morte se aproximaram para levar a alma de Satyavan. Mas eles não podiam se aproximar do local onde Savitri se sentava com o corpo de seu marido morto, a cabeça dele descansando em seu colo. Havia uma zona de fogo ao redor dela, e nenhum dos emissários da Morte podia entrar. Eles todos fugiram dali e retornaram ao rei Yama, o Deus da Morte, e lhe disseram que não puderam conseguir a alma daquele homem. Então foi Yama, o Juiz dos mortos. Ele julga se um homem, ao morrer, deve ser punido ou recompensado. Evidentemente ele pôde adentrar aquele círculo mágico, porque era um deus. Quando chegou a Savitri, ele disse, `Filha, deixe este corpo morto, pois a morte é o destino dos mortais.'
Então Savitri se afastou, e Yama levou a alma. Antes que ele fosse longe, ouviu passos sobre as folhas secas. Ele voltou-se. `Savitri, filha, por que você me segue? Este é o destino dos mortais.' `Não estou vos seguindo, Pai,' replicou Savitri, `mas este é também o destino da mulher, ela segue onde seu amor a leva, e a Lei Eterna não separa o homem amado e a fiel esposa.'
Então disse o Deus da Morte, 'Peça qualquer graça, exceto a vida de seu marido.' `Se quiserdes conceder uma graça, ó Senhor da Morte, peço que meu sogro possa ser curado de sua cegueira e seja feliz.' `Que seu piedoso desejo seja concedido, filha.' E então Yama viajou com a alma de Satyavan.
Novamente os passos foram ouvidos. Ele olhou em volta. `Savitri, minha filha, você ainda me segue?' `Sim, meu Pai; não posso evitar; tento voltar, mas a mente segue meu marido e o corpo vai atrás. A alma já se foi, e naquela alma também está a minha; e quando se leva a alma, o corpo segue, não é assim?' `Estou satisfeito com suas palavras, boa Savitri. Peça outra graça de mim, mas não deve ser a vida de seu marido.' `Que meu sogro recupere seu reino e riqueza perdidos, Pai, se quiserdes me conceder outra graça.' `Amável filha,' Yama respondeu, `esta graça agora concedo; mas volte para casa, pois um mortal vivente não pode ir com Yama.'
E então Yama seguiu seu caminho. Mas Savitri, meiga e fiel, ainda seguia seu marido morto. Yama novamente se voltou. `Nobre Savitri, não prossiga nessa angústia sem esperança.' `Não posso deixar de seguir onde vós levais meu amado.' `Então suponha, Savitri, que seu marido é um pecador e tem que ir para o inferno. Neste caso Savitri vai com aquele que ela ama?' `Fico contente em seguir onde ele vai, seja vida ou morte, céu ou inferno,' disse a amante esposa.
'Abençoadas são suas palavras, minha criança, estou satisfeito com você, peça outra graça, mas o morto não pode voltar à vida.' `Já que me permitis, então que a linhagem imperial de meu sogro não seja destruída; que seu reino seja deixado aos filhos de Satyavati.' Então o Deus da Morte sorriu. `Minha filha, vós obtereis vosso desejo agora: aqui está a alma de vosso marido, ele viverá novamente. Ele viverá para ser pai e vossos filhos reinarão no devido tempo. Volte para casa. O amor conquistou a Morte! Nunca uma mulher amou como vós, e vós sois a prova de que mesmo eu, o Deus da Morte, sou impotente contra o poder do verdadeiro amor!' 

 

O GRANDE SÁBIO JADA BHÁRATA


O grande rei Bharata em sua velhice entregou seu trono a seu filho, e retirou-se à floresta para praticar a meditação. Ele que havia governado sobre milhões de súditos, que havia vivido em palácios de mármore, vestido de ouro e prata, que bebeu em copos adornados de jóias – este rei construiu uma pequena cabana com suas próprias mãos, feita de junco e capim, às margens de um rio nas florestas dos Himalaias. Ali ele vivia de raízes e ervas selvagens, e constantemente meditava n'Aquele que está sempre presente na alma do homem.
Dias, meses e anos se passaram. Um dia, uma fêmea de veado veio beber água perto de onde o sábio real estava meditando. No mesmo instante, um leão rugiu perto dali. A fêmea ficou tão terrificada que, sem satisfazer sua sede, pulou dentro do rio para atravessá-lo. Ela estava prenhe, e esse extremo esforço a fez dar à luz o pequeno gamo, e imediatamente após, ela caiu morta. O gamo estava sendo carregado rapidamente pela corrente do rio, quando foi notado pelos olhos do rei. O rei se levantou de sua posição de meditação e salvando o gamo da água, levou-o a sua cabana, fez uma fogueira, e com cuidado e atenção o fez voltar à vida. Então o sábio tomou o gamo sob sua proteção, alimentando-o com grama e frutas.
O gamo cresceu sob o cuidado paternal do rei, e se tornou um belo gamo. Então, aquele cuja mente foi forte bastante para desfazer as ligações do apego ao poder, posição e família, apegou-se ao gamo que ele tinha salvado. E ficou cada vez mais afeiçoado ao gamo, e cada vez menos podia concentrar sua mente no Atman. Quando o gamo saía para pastar na floresta e se atrasava para voltar, a mente do sábio real ficava ansiosa e preocupada. Ele pensava, "Talvez meu pequeno foi atacado por algum tigre – ou talvez algum outro perigo o pegou; do contrário, porque se demora?"

Alguns anos passaram assim, mas um dia a morte veio, e o sábio real deitou-se para morrer. Mas sua mente, ao invés de se concentrar no Atman, pensava no gamo; e com os olhos fixos no triste olhar de seu amado gamo, sua alma deixou o corpo. Como resultado disto, no próximo nascimento ele nasceu como um gamo. Mas nenhum karma se perde, e todas as grandes e boas ações que ele fez como rei e sábio frutificaram. Como gamo, ele se lembrava de seu nascimento anterior, embora não pudesse falar e vivesse num corpo animal. Ele evitava os outros gamos e instintivamente pastava perto dos eremitérios onde oblações eram oferecidas e os Upanishads eram ensinados.

Após terminar sua vida como um gamo, nasceu novamente como o filho mais jovem de um rico Brahmin. E nesta vida também, ele lembrou-se de seu passado, e ainda na infância determinou-se a não mais se deixar enredar pelo bem e o mal da vida. A criança, à medida que crescia, era forte e sadia, mas nada falava, e vivia como um demente, temendo se enredar nos afazeres mundanos. Seus pensamentos estavam sempre no Infinito, e ele vivia apenas para esgotar seu Prârabdha Karma. Com o tempo o pai morreu, e os filhos dividiram a propriedade entre si; e achando que o mais jovem fosse um inútil, tomaram sua parte. E a única coisa que lhe davam era sua comida. As esposas dos irmãos eram frequentemente rígidas com ele, pondo-o para fazer todo o trabalho pesado; e se ele não pudesse fazer tudo que elas queriam, elas o tratavam muito mal. Mas ele não se mostrava aborrecido nem temeroso, e nem dizia uma palavra. Quando elas ficavam muito iradas, ele saía da casa e se sentava sob uma árvore, até que se acalmassem, e então ele voltava quietamente à casa novamente.
Um dia, quando elas o haviam tratado com mais rudeza que o habitual, Bharata saiu da casa, sentou-se sob a sombra de uma árvore e descansou. Aconteceu que o rei do país estava passando por ali, carregado num palanquim nos ombros dos carregadores. Um dos carregadores inesperadamente ficou doente, e os outros procuravam um homem para substituí-lo. Vieram até Bharata que estava sob a árvore; e vendo que ele era um jovem forte, perguntaram-lhe se tomaria o lugar do homem doente no palanquim do rei. Mas Bharata não respondeu. Vendo que ele era capaz, os servidores do rei o pegaram e colocaram para carregar o palanquim. Sem dizer nada, Bharata seguiu em frente. Logo após isto, o rei observou que o palanquim não estava sendo devidamente levado, e olhando para fora do palanquim dirigiu-se ao novo carregador dizendo, "Tolo, descanse um pouco; se seus ombros lhe doem, descanse um pouco."
     Então Bharata, colocando abaixo o palanquim, abriu seus lábios pela primeira vez em sua vida, e disse, "A quem chamais, ó rei, de tolo? A quem pedis para baixar o palanquim? Quem dizeis que está cansado? A quem vos dirigis como 'você'? Se pela palavra 'você', ó rei, quisestes dizer este pedaço de carne, ele é composto da mesma matéria que a vossa; é inconsciente, não conhece cansaço nem dor. Se é a mente, a mente é a mesma que a vossa; ela é universal. Mas se a palavra 'você' se aplica a algo além disso, então é o Eu, a Realidade em mim, que é a mesma que em vós, e é o Uno no universo. Quereis dizer, ó rei, que o Eu pode alguma vez se cansar, ou pode se machucar? Eu não quis, ó rei – este corpo não quis – pisar os pobres vermes que se arrastam sobre a estrada, e portanto, ao tentar evitá-los, o palanquim se moveu de modo irregular. Mas o Eu nunca se cansa, ele nunca está fraco; nunca suporta o braço do palanquim: porque é onipotente e onipresente." E assim ele discorreu sobre a natureza da alma, e sobre o mais alto conhecimento etc.
O rei, que se orgulhava de seu conhecimento e filosofia, desceu do palanquim, e caiu aos pés de Bharata dizendo, "Peço vosso perdão, ó poderoso ser, eu não sabia que éreis um sábio quando pedi para me carregardes." Bharata o abençoou e partiu. Ele então reassumiu o mesmo curso de sua vida anterior. Quando Bharata deixou o corpo, libertou-se para sempre da roda dos renascimentos.




ADVAITA E OUTRAS HISTÓRIAS - Swami Vivekananda

Vi muitos grandes homens em Hrishikesh. Um caso que me lembro é de um homem que parecia ser louco. Ele vinha nu pela rua, com meninos perseguindo-o e jogando pedras nele. Estava rindo e feliz, enquanto o sangue corria de seu rosto e pescoço. Eu o levei e lavei suas feridas, colocando cinzas para cessar o sangramento. E rindo o tempo todo ele me contou da brincadeira que ele e os meninos tiveram, jogando pedras. “Assim o Pai brinca”, ele disse.

Lembro, quando garoto, de ouvir um missionário cristão pregando a uma multidão na Índia. Entre outras coisas ele dizia que, se ele desse uma pancada no ídolo dos ouvintes com sua bengala, o que este faria? Um dos ouvintes respondeu, “E se eu ofender seu Deus, o que Ele pode fazer?” Disse o pregador: “Você será punido quando morrer.” E a isto respondeu o hindu: “Assim também meu ídolo o punirá quando você morrer.”

Um dia, na adolescência, após terminar a meditação, vi a maravilhosa figura de um monge aparecer subitamente – de onde não sei – e ficou parado à minha frente a uma certa distância, enchendo o quarto com seu brilho divino. Ele estava vestido com roupas ocres e tinha um kamandalu (pote de água) em sua mão. Sua face tinha uma expressão tão calma e serena, nascida da indiferença a todas as coisas, que fiquei admirado e me senti atraído a ele. Ele caminhou vagarosamente ao meu encontro, com os olhos fixos em mim, como se quisesse dizer alguma coisa. Mas fui dominado pelo medo e não pude me manter parado. Levantei-me de meu assento, abri a porta e rapidamente deixei o quarto. Um momento depois pensei, “Por que este medo bobo?” Ganhei coragem e voltei ao quarto para ouvir o monge, mas oh, ele não estava mais lá. Eu esperei muito tempo por ele, mas em vão. Senti-me arrependido por ter sido estúpido de fugir sem ouvi-lo. Já vi muitos monges, mas nunca vi uma expressão tão extraordinária em qualquer outra face, e frequentemente penso que tive a boa sorte de ver o Senhor Buddha naquele dia.

Um dia Ramakrishna tentou instruir Naren (Swami Vivekananda) sobre a identidade da alma individual com a Mente Universal (Atman e Brahman). Narendra deixou a sala, e indo até onde estava um amigo seu disse, "Como pode ser isto? Este jarro é Deus, este copo é Deus e nós também somos Deus: nada pode ser mais absurdo!" Ouvindo o riso de Naren, Ramakrishna, que estava em sua sala num estado semiconsciente, saiu nu, com sua roupa embaixo do braço. Ele disse sorrindo, "Olá, sobre o que estão conversando?" E então tocou Narendra e entrou em êxtase (Samadhi). Naren contou mais tarde o que aconteceu:
“O toque mágico do Mestre naquele dia imediatamente trouxe uma maravilhosa mudança em minha mente. Fiquei assombrado ao descobrir que na verdade nada havia no universo senão Deus! Eu vi isso claramente, mas mantive silêncio para ver se a impressão duraria; mas ela não diminuiu durante o dia. Voltei para casa, mas ali também, tudo que eu via era Brahman (a Mente Universal). Sentei-me para comer, mas vi que tudo – a comida, o prato, a pessoa que servia, e inclusive eu mesmo, tudo era Aquele. Comi um pouco e me sentei quieto. Fui surpreendido pelas palavras de minha mãe, "Por que se senta quieto? Termine sua refeição", e então comecei a comer novamente.
Mas a todo momento, quer comendo ou deitado, ou indo ao colégio, eu tinha a mesma experiência e me sentia numa espécie de êxtase. Enquanto caminhava pelas ruas, percebi os carros passando, mas não me senti inclinado a sair do caminho. Senti que os carros e eu éramos um. Não havia sensação em meus membros, que pareciam estar paralisados. Não me agradava comer, e sentia como se outra pessoa estivesse comendo. Às vezes me deitava durante a refeição; e após alguns minutos me levantava e recomeçava a comer. Minha mãe ficou alarmada e disse que deveria haver algo errado comigo. Ela temia que eu não vivesse por muito tempo. Quando houve uma pequena mudança nesse estado, o mundo começou a parecer semelhante a um sonho. Ao caminhar pela Praça Cornwallis, eu bati minha cabeça contra os corrimãos de ferro para ver se eles eram reais ou apenas um sonho. Este estado de coisas continuou por alguns dias. Quando voltei ao normal novamente, percebi que devia ter tido um vislumbre do estado de Advaita. Então percebi que as palavras das escrituras não eram falsas. Daí em diante não pude negar as conclusões da filosofia Advaita."