5.2.13

O GRANDE SÁBIO JADA BHÁRATA


O grande rei Bharata em sua velhice entregou seu trono a seu filho, e retirou-se à floresta para praticar a meditação. Ele que havia governado sobre milhões de súditos, que havia vivido em palácios de mármore, vestido de ouro e prata, que bebeu em copos adornados de jóias – este rei construiu uma pequena cabana com suas próprias mãos, feita de junco e capim, às margens de um rio nas florestas dos Himalaias. Ali ele vivia de raízes e ervas selvagens, e constantemente meditava n'Aquele que está sempre presente na alma do homem.
Dias, meses e anos se passaram. Um dia, uma fêmea de veado veio beber água perto de onde o sábio real estava meditando. No mesmo instante, um leão rugiu perto dali. A fêmea ficou tão terrificada que, sem satisfazer sua sede, pulou dentro do rio para atravessá-lo. Ela estava prenhe, e esse extremo esforço a fez dar à luz o pequeno gamo, e imediatamente após, ela caiu morta. O gamo estava sendo carregado rapidamente pela corrente do rio, quando foi notado pelos olhos do rei. O rei se levantou de sua posição de meditação e salvando o gamo da água, levou-o a sua cabana, fez uma fogueira, e com cuidado e atenção o fez voltar à vida. Então o sábio tomou o gamo sob sua proteção, alimentando-o com grama e frutas.
O gamo cresceu sob o cuidado paternal do rei, e se tornou um belo gamo. Então, aquele cuja mente foi forte bastante para desfazer as ligações do apego ao poder, posição e família, apegou-se ao gamo que ele tinha salvado. E ficou cada vez mais afeiçoado ao gamo, e cada vez menos podia concentrar sua mente no Atman. Quando o gamo saía para pastar na floresta e se atrasava para voltar, a mente do sábio real ficava ansiosa e preocupada. Ele pensava, "Talvez meu pequeno foi atacado por algum tigre – ou talvez algum outro perigo o pegou; do contrário, porque se demora?"

Alguns anos passaram assim, mas um dia a morte veio, e o sábio real deitou-se para morrer. Mas sua mente, ao invés de se concentrar no Atman, pensava no gamo; e com os olhos fixos no triste olhar de seu amado gamo, sua alma deixou o corpo. Como resultado disto, no próximo nascimento ele nasceu como um gamo. Mas nenhum karma se perde, e todas as grandes e boas ações que ele fez como rei e sábio frutificaram. Como gamo, ele se lembrava de seu nascimento anterior, embora não pudesse falar e vivesse num corpo animal. Ele evitava os outros gamos e instintivamente pastava perto dos eremitérios onde oblações eram oferecidas e os Upanishads eram ensinados.

Após terminar sua vida como um gamo, nasceu novamente como o filho mais jovem de um rico Brahmin. E nesta vida também, ele lembrou-se de seu passado, e ainda na infância determinou-se a não mais se deixar enredar pelo bem e o mal da vida. A criança, à medida que crescia, era forte e sadia, mas nada falava, e vivia como um demente, temendo se enredar nos afazeres mundanos. Seus pensamentos estavam sempre no Infinito, e ele vivia apenas para esgotar seu Prârabdha Karma. Com o tempo o pai morreu, e os filhos dividiram a propriedade entre si; e achando que o mais jovem fosse um inútil, tomaram sua parte. E a única coisa que lhe davam era sua comida. As esposas dos irmãos eram frequentemente rígidas com ele, pondo-o para fazer todo o trabalho pesado; e se ele não pudesse fazer tudo que elas queriam, elas o tratavam muito mal. Mas ele não se mostrava aborrecido nem temeroso, e nem dizia uma palavra. Quando elas ficavam muito iradas, ele saía da casa e se sentava sob uma árvore, até que se acalmassem, e então ele voltava quietamente à casa novamente.
Um dia, quando elas o haviam tratado com mais rudeza que o habitual, Bharata saiu da casa, sentou-se sob a sombra de uma árvore e descansou. Aconteceu que o rei do país estava passando por ali, carregado num palanquim nos ombros dos carregadores. Um dos carregadores inesperadamente ficou doente, e os outros procuravam um homem para substituí-lo. Vieram até Bharata que estava sob a árvore; e vendo que ele era um jovem forte, perguntaram-lhe se tomaria o lugar do homem doente no palanquim do rei. Mas Bharata não respondeu. Vendo que ele era capaz, os servidores do rei o pegaram e colocaram para carregar o palanquim. Sem dizer nada, Bharata seguiu em frente. Logo após isto, o rei observou que o palanquim não estava sendo devidamente levado, e olhando para fora do palanquim dirigiu-se ao novo carregador dizendo, "Tolo, descanse um pouco; se seus ombros lhe doem, descanse um pouco."
     Então Bharata, colocando abaixo o palanquim, abriu seus lábios pela primeira vez em sua vida, e disse, "A quem chamais, ó rei, de tolo? A quem pedis para baixar o palanquim? Quem dizeis que está cansado? A quem vos dirigis como 'você'? Se pela palavra 'você', ó rei, quisestes dizer este pedaço de carne, ele é composto da mesma matéria que a vossa; é inconsciente, não conhece cansaço nem dor. Se é a mente, a mente é a mesma que a vossa; ela é universal. Mas se a palavra 'você' se aplica a algo além disso, então é o Eu, a Realidade em mim, que é a mesma que em vós, e é o Uno no universo. Quereis dizer, ó rei, que o Eu pode alguma vez se cansar, ou pode se machucar? Eu não quis, ó rei – este corpo não quis – pisar os pobres vermes que se arrastam sobre a estrada, e portanto, ao tentar evitá-los, o palanquim se moveu de modo irregular. Mas o Eu nunca se cansa, ele nunca está fraco; nunca suporta o braço do palanquim: porque é onipotente e onipresente." E assim ele discorreu sobre a natureza da alma, e sobre o mais alto conhecimento etc.
O rei, que se orgulhava de seu conhecimento e filosofia, desceu do palanquim, e caiu aos pés de Bharata dizendo, "Peço vosso perdão, ó poderoso ser, eu não sabia que éreis um sábio quando pedi para me carregardes." Bharata o abençoou e partiu. Ele então reassumiu o mesmo curso de sua vida anterior. Quando Bharata deixou o corpo, libertou-se para sempre da roda dos renascimentos.




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