O
grande rei Bharata em sua velhice entregou seu trono a seu filho, e
retirou-se à floresta para praticar a meditação. Ele que havia
governado sobre milhões de súditos, que havia vivido em palácios
de mármore, vestido de ouro e prata, que bebeu em copos adornados de
jóias – este rei construiu uma pequena cabana com suas próprias
mãos, feita de junco e capim, às margens de um rio nas florestas
dos Himalaias. Ali ele vivia de raízes e ervas selvagens, e
constantemente meditava n'Aquele que está sempre presente na alma do
homem.
Dias,
meses e anos se passaram. Um dia, uma fêmea de veado veio beber água
perto de onde o sábio real estava meditando. No mesmo instante, um
leão rugiu perto dali. A fêmea ficou tão terrificada que, sem
satisfazer sua sede, pulou dentro do rio para atravessá-lo. Ela
estava prenhe, e esse extremo esforço a fez dar à luz o pequeno
gamo, e imediatamente após, ela caiu morta. O gamo estava sendo
carregado rapidamente pela corrente do rio, quando foi notado pelos
olhos do rei. O rei se levantou de sua posição de meditação e
salvando o gamo da água, levou-o a sua cabana, fez uma fogueira, e
com cuidado e atenção o fez voltar à vida. Então o sábio tomou o
gamo sob sua proteção, alimentando-o com grama e frutas.
O
gamo cresceu sob o cuidado paternal do rei, e se tornou um belo gamo.
Então, aquele cuja mente foi forte bastante para desfazer as
ligações do apego ao poder, posição e família, apegou-se ao gamo
que ele tinha salvado. E ficou cada vez mais afeiçoado ao gamo, e
cada vez menos podia concentrar sua mente no Atman. Quando o gamo
saía para pastar na floresta e se atrasava para voltar, a mente do
sábio real ficava ansiosa e preocupada. Ele pensava, "Talvez
meu pequeno foi atacado por algum tigre – ou talvez algum outro
perigo o pegou; do contrário, porque se demora?"
Alguns anos passaram assim, mas um dia a morte veio, e o sábio real deitou-se para morrer. Mas sua mente, ao invés de se concentrar no Atman, pensava no gamo; e com os olhos fixos no triste olhar de seu amado gamo, sua alma deixou o corpo. Como resultado disto, no próximo nascimento ele nasceu como um gamo. Mas nenhum karma se perde, e todas as grandes e boas ações que ele fez como rei e sábio frutificaram. Como gamo, ele se lembrava de seu nascimento anterior, embora não pudesse falar e vivesse num corpo animal. Ele evitava os outros gamos e instintivamente pastava perto dos eremitérios onde oblações eram oferecidas e os Upanishads eram ensinados.
Após terminar sua vida como um gamo, nasceu novamente como o filho mais jovem de um rico Brahmin. E nesta vida também, ele lembrou-se de seu passado, e ainda na infância determinou-se a não mais se deixar enredar pelo bem e o mal da vida. A criança, à medida que crescia, era forte e sadia, mas nada falava, e vivia como um demente, temendo se enredar nos afazeres mundanos. Seus pensamentos estavam sempre no Infinito, e ele vivia apenas para esgotar seu Prârabdha Karma. Com o tempo o pai morreu, e os filhos dividiram a propriedade entre si; e achando que o mais jovem fosse um inútil, tomaram sua parte. E a única coisa que lhe davam era sua comida. As esposas dos irmãos eram frequentemente rígidas com ele, pondo-o para fazer todo o trabalho pesado; e se ele não pudesse fazer tudo que elas queriam, elas o tratavam muito mal. Mas ele não se mostrava aborrecido nem temeroso, e nem dizia uma palavra. Quando elas ficavam muito iradas, ele saía da casa e se sentava sob uma árvore, até que se acalmassem, e então ele voltava quietamente à casa novamente.
Um
dia, quando elas o haviam tratado com mais rudeza que o habitual,
Bharata saiu da casa, sentou-se sob a sombra de uma árvore e
descansou. Aconteceu que o rei do país estava passando por ali,
carregado num palanquim nos ombros dos carregadores. Um dos
carregadores inesperadamente ficou doente, e os outros procuravam um
homem para substituí-lo. Vieram até Bharata que estava sob a
árvore; e vendo que ele era um jovem forte, perguntaram-lhe se
tomaria o lugar do homem doente no palanquim do rei. Mas Bharata não
respondeu. Vendo que ele era capaz, os servidores do rei o pegaram e
colocaram para carregar o palanquim. Sem dizer nada, Bharata seguiu
em frente. Logo após isto, o rei observou que o palanquim não
estava sendo devidamente levado, e olhando para fora do palanquim
dirigiu-se ao novo carregador dizendo, "Tolo, descanse um pouco;
se seus ombros lhe doem, descanse um pouco."
Então Bharata, colocando
abaixo o palanquim, abriu seus lábios pela primeira vez em sua vida,
e disse, "A quem chamais, ó rei, de tolo? A quem pedis para
baixar o palanquim? Quem dizeis que está cansado? A quem vos dirigis
como 'você'? Se pela palavra 'você', ó rei, quisestes dizer este
pedaço de carne, ele é composto da mesma matéria que a vossa; é
inconsciente, não conhece cansaço nem dor. Se é a mente, a mente é
a mesma que a vossa; ela é universal. Mas se a palavra 'você' se
aplica a algo além disso, então é o Eu, a Realidade em mim, que é
a mesma que em vós, e é o Uno no universo. Quereis dizer, ó rei,
que o Eu pode alguma vez se cansar, ou pode se machucar? Eu não
quis, ó rei – este corpo não quis – pisar os pobres vermes que
se arrastam sobre a estrada, e portanto, ao tentar evitá-los, o
palanquim se moveu de modo irregular. Mas o Eu nunca se cansa, ele
nunca está fraco; nunca suporta o braço do palanquim: porque é
onipotente e onipresente." E assim ele discorreu sobre a
natureza da alma, e sobre o mais alto conhecimento etc.
O
rei, que se orgulhava de seu conhecimento e filosofia, desceu do
palanquim, e caiu aos pés de Bharata dizendo, "Peço vosso
perdão, ó poderoso ser, eu não sabia que éreis um sábio quando
pedi para me carregardes." Bharata o abençoou e partiu. Ele
então reassumiu o mesmo curso de sua vida anterior. Quando Bharata
deixou o corpo, libertou-se para sempre da roda dos renascimentos.
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