Havia
um rei chamado Ashvapati. O rei tinha uma filha, que era tão boa e
bela que era chamada Savitri, que é o nome de uma oração sagrada
dos Hindus. Quando Savitri cresceu, seu pai lhe disse para escolher
um marido. As princesas indianas eram muito independentes e escolhiam
seus próprios pretendentes. Savitri concordou e viajou a regiões
distantes, montada numa carruagem de ouro, com seus guardas e
cortesãos a quem seu pai a confiou, parando em diferentes cortes, e
vendo diferentes príncipes, mas nenhum deles pôde ganhar o coração
de Savitri.
Finalmente
chegaram a um sagrado eremitério numa floresta, onde não se
permitia a matança de animais. Ali os animais não temiam os homens,
e até os peixes vinham e pegavam comida das mãos. Por milhares de
anos ninguém havia matado nada ali. Os sábios ali iam para viver
entre os gamos e os pássaros. Quando um homem se cansava da vida,
ele ia à floresta, e na companhia dos sábios, falando de religião
e praticando meditação, ele passava o que restava de sua vida.
Aconteceu
que havia um rei, Dyumatsena, que foi derrotado por seus inimigos e
privado de seu reino, quando já era velho e tinha perdido a visão.
Este pobre, cego e velho rei, com sua rainha e seu filho, refugiou-se
na floresta e passava sua vida em rígidas austeridades. O nome do
rapaz era Satyavan.
E
aconteceu que após visitar todas as diferentes cortes, Savitri
finalmente chegou a esse eremitério, ou lugar sagrado. Nem mesmo o
maior dos reis poderia passar pelos eremitérios, ou ashramas como
eram chamados, sem prestar homenagens aos sábios. Assim Savitri
chegou a este eremitério e viu ali Satyavan, e seu coração foi
conquistado. Quando Savitri retornou a casa de seu pai, ele lhe
perguntou, `Savitri, querida filha, você viu alguém com quem
gostaria de casar-se?'
Então,
corando, disse Savitri, `Sim, pai.' `Qual é o nome do príncipe?'
`Ele não é um príncipe, mas o filho do rei Dyumatsena que perdeu
seu reino – um príncipe que vive uma vida monástica, a vida na
floresta, colhendo raízes e ervas, ajudando e alimentando seus
velhos pais, que vivem numa cabana.'
Ao ouvir isto, o pai consultou o
sábio Nárada, que estava presente ali, e este declarou que a
escolha feita era um mau presságio. O rei então lhe pediu para
explicar por que. E Narada disse, `Dentro de doze meses o jovem
morrerá.' Então o rei disse, `Savitri, este jovem vai morrer em
doze meses, e você será viúva: pense nisso! Desista de sua
escolha, minha filha, você não deve casar-se com um noivo assim
fadado.' `Não se preocupe, pai; não me peça para casar-me com
outra pessoa e sacrificar a castidade, pois eu amo e aceitei
em minha mente apenas aquele bom e bravo Satyavan como meu marido.
Uma dama escolhe apenas uma vez, e ela nunca se desvia de sua
verdade.'
Quando
o rei viu que Savitri estava decidida em sua mente e coração, ele
concordou. Então Savitri casou-se com Satyavan, e saiu do palácio
de seu pai para ir para a floresta, para viver com seu marido e
ajudar os pais dele.
Embora Savitri soubesse a data em que Satyavan
iria morrer, ela manteve isso em segredo. Diariamente ela ia às
profundezas da floresta, colher frutas e flores, juntar lenha, e
então voltava à cabana, e cozinhava a refeição e ajudava os
velhos. Assim suas vidas seguiam até que o dia fatal se aproximou, e
faltavam apenas três dias. Ela fez um voto de passar três noites em
jejum e austeridades, e manteve suas duras vigílias. Savitri passou
noites em dor e sem dormir, com fervorosas preces e lágrimas
secretas, até que a temida manhã raiou. Naquele dia Savitri não
podia suportar ficar separada de seu marido, nem mesmo por um
momento. Ela pediu permissão de seus sogros para acompanhar o
marido, quando ele foi juntar as ervas e lenha usuais. De repente,
ele reclamou a sua esposa que se sentia desmaiando, `Minha cabeça
está tonta e meus sentidos titubeiam, cara Savitri. Deixe-me
descansar ao seu lado por um instante.'
Tremendo
ela replicou, `Venha, coloque sua cabeça no meu colo, meu querido
senhor.' E ele colocou sua cabeça no colo da esposa e pouco
depois expirou. Ali ficou ela sentada, derramando lágrimas, na
solitária floresta, até que os emissários da Morte se aproximaram
para levar a alma de Satyavan. Mas eles não podiam se aproximar do
local onde Savitri se sentava com o corpo de seu marido morto, a
cabeça dele descansando em seu colo. Havia uma zona de fogo ao redor
dela, e nenhum dos emissários da Morte podia entrar. Eles todos
fugiram dali e retornaram ao rei Yama, o Deus da Morte, e lhe
disseram que não puderam conseguir a alma daquele homem. Então foi
Yama, o Juiz dos mortos. Ele julga se um homem, ao morrer, deve ser
punido ou recompensado. Evidentemente ele pôde adentrar aquele
círculo mágico, porque era um deus. Quando chegou a Savitri, ele
disse, `Filha, deixe este corpo morto, pois a morte é o destino dos
mortais.'
Então
Savitri se afastou, e Yama levou a alma. Antes que ele fosse longe,
ouviu passos sobre as folhas secas. Ele voltou-se. `Savitri, filha,
por que você me segue? Este é o destino dos mortais.' `Não estou
vos seguindo, Pai,' replicou Savitri, `mas este é também o destino
da mulher, ela segue onde seu amor a leva, e a Lei Eterna não separa
o homem amado e a fiel esposa.'
Então
disse o Deus da Morte, 'Peça qualquer graça, exceto a vida de seu
marido.' `Se quiserdes conceder uma graça, ó Senhor da Morte, peço
que meu sogro possa ser curado de sua cegueira e seja feliz.' `Que
seu piedoso desejo seja concedido, filha.' E então Yama viajou com a
alma de Satyavan.
Novamente os passos foram ouvidos. Ele olhou em
volta. `Savitri, minha filha, você ainda me segue?' `Sim, meu Pai;
não posso evitar; tento voltar, mas a mente segue meu marido e o
corpo vai atrás. A alma já se foi, e naquela alma também está a minha;
e quando se leva a alma, o corpo segue, não é assim?' `Estou
satisfeito com suas palavras, boa Savitri. Peça outra graça de mim,
mas não deve ser a vida de seu marido.' `Que meu sogro recupere seu
reino e riqueza perdidos, Pai, se quiserdes me conceder outra graça.'
`Amável filha,' Yama respondeu, `esta graça agora concedo; mas
volte para casa, pois um mortal vivente não pode ir com Yama.'
E
então Yama seguiu seu caminho. Mas Savitri, meiga e fiel, ainda
seguia seu marido morto. Yama novamente se voltou. `Nobre Savitri,
não prossiga nessa angústia sem esperança.' `Não posso deixar de
seguir onde vós levais meu amado.' `Então suponha, Savitri, que seu
marido é um pecador e tem que ir para o inferno. Neste caso Savitri
vai com aquele que ela ama?' `Fico contente em seguir onde ele vai,
seja vida ou morte, céu ou inferno,' disse a amante esposa.
'Abençoadas
são suas palavras, minha criança, estou satisfeito com você, peça
outra graça, mas o morto não pode voltar à vida.' `Já que me
permitis, então que a linhagem imperial de meu sogro não seja
destruída; que seu reino seja deixado aos filhos de Satyavati.'
Então o Deus da Morte sorriu. `Minha filha, vós obtereis vosso
desejo agora: aqui está a alma de vosso marido, ele viverá
novamente. Ele viverá para ser pai e vossos filhos reinarão no
devido tempo. Volte para casa. O amor conquistou a Morte! Nunca uma
mulher amou como vós, e vós sois a prova de que mesmo eu, o Deus da
Morte, sou impotente contra o poder do verdadeiro amor!'
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