(relato de dois espíritos que
observam uma família encarnada, isto é, no corpo físico)
A pequena família se reuniu, ao
redor da mesa posta, e a esposa do médico me impressionou pelo apuro da
apresentação. A pintura do rosto, sem dúvida, era admirável. O traje elegante e
sóbrio, as jóias discretas e o penteado harmonioso realçavam-lhe a profundez do
olhar, mas rodeava-se ela de substância fluídica deprimente. A aura escura
denunciava-lhe a posição de inferioridade. Socialmente, aquela dama devia ser
das de mais fino trato; contudo, terminado o jantar, deixou positivamente
evidenciada sua deplorável condição psíquica. Depois de uma discussão menos
feliz com o marido, a jovem mulher buscou o sono da sesta, num sofá largo e
macio.
Intencionalmente, Maurício
convidou-me a observar-lhe o repouso e, com enorme surpresa, não lhe vi os
mesmos traços fisionômicos no corpo astral que abandonava a estrutura carnal,
entregue ao descanso. Alguma semelhança era de notar-se, mas, afinal de contas,
a senhora tornara-se irreconhecível. Estampava no rosto os sinais das bruxas
dos velhos contos infantis. A boca, os olhos, o nariz e os ouvidos revelavam
algo de monstruoso.
Lembrei-me, então, do livro em que
Oscar Wilde nos conta a história do retrato de Dorian Gray, que
adquiria horrenda expressão à medida que o dono se alterava, intimamente, na
prática do mal e, endereçando a Maurício olhar indagador, dele recebi
esclarecimento:
— Sim, meu amigo — disse,
tolerante —, a imaginação de Wilde não fantasiou. O homem e a mulher, com
os seus pensamentos, atitudes, palavras e atos criam, no íntimo, a verdadeira
forma espiritual a que se acolhem. Cada crime, cada queda, deixam aleijões e
sulcos horrendos no campo da alma, tanto quanto cada ação generosa e cada
pensamento superior acrescentam beleza e perfeição à forma astral, dentro da
qual a individualidade real se manifesta, principalmente depois da morte do
corpo denso. Há criaturas belas e admiráveis na carne e que, no fundo, são
verdadeiros monstros mentais, do mesmo modo que há corpos torturados e
detestados, no mundo, escondendo Espíritos angélicos, de celestial formosura.
E mostrando a infeliz que se
ausentava de casa, semiliberta do veículo material, acentuou:
— Esta irmã desventurada permanece
sob o império de Espíritos gozadores e animalizados que, por
muito tempo, a reterão em lastimáveis desequilíbrios. Acreditamos que
ela, sem fé renovadora, sem ideais santificantes e sem conduta digna,
não perceberá tão cedo os perigos que corre e somente se lembrará de chorar,
aprender e transformar-se para o bem, quando se afastar, em definitivo, do vaso
de carne, na condição de autêntica bruxa.
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