18.4.14

APÓS O CICLO DE REENCARNAÇÕES – Paul Brunton


O caminho das reencarnações é longo, mas não infinito. Acabamos esse ciclo depois de haver bem compreendido a última lição desta terra e assimilado o primeiro princípio do ser. Então, em função das tendências morais do indivíduo, entramos numa das três vias seguintes.

Primeiro, podemos escolher nossa fusão para sempre no espírito universal e abandonar o fardo do eu individual na grande paz. Segundo, podemos trocar este planeta por um outro mais adiantado, onde as formas e os graus de existência são mais afinados e mais belos. Existem outros globos habitados, mais ou menos evoluídos que o nosso, no universo.

Todo ser humano cujo desenvolvimento se tornou tão completo que um reaparecimento na terra seria para ele inteiramente inútil, adquire naturalmente o direito de reencarnar-se num globo habitado por criaturas mais evoluídas.

Terceiro, podemos aceitar silenciosamente o terrível sacrifício de abandonar as recompensas justamente ganhas e seguir de novo as reencarnações, e aqui voltar em ajuda àqueles que avançam com dificuldades nas trevas da ignorância e da confusão. Neste caso, condenando-nos a descer de novo no meio da humanidade sofredora, precisamos prever que ficaremos incompreendidos por aqueles que procuramos ajudar, e não deveremos contar com seu reconhecimento.

É a força dos desejos que conduz o homem comum no ciclo de suas existências terrestres; no caso do sábio, é uma imensa piedade.

 


O EU SUPERIOR E A MORTE – Paul Brunton


O sofrimento que se associa frequentemente à morte provém de mudanças físicas violentas, ou de mudanças mentais não menos bruscas, ou de ambas. Quando os pensamentos se prendem obstinadamente ao corpo e aos desejos, ou existe uma poderosa relutância para os abandonar, ou um temor exagerado em face do que pode acontecer depois, o sofrimento físico é inutilmente aumentado por essa reação nervosa.

Quando, porém, o moribundo é suficientemente esclarecido e sabe que o corpo é uma ideia e disciplinou seus desejos, achar-se-á naturalmente preparado para esta grande passagem. No caso de um yogue experimentado e no do sábio que conhece a separação entre seu eu real e o corpo, esta passagem deve efetuar-se de maneira pacífica.

Na morte, o moribundo sente uma pressão intensa a começar pelos pés e invade lentamente o corpo inteiro, deixando os membros pesados, frios e entorpecidos. O fenômeno reage sobre a respiração, a circulação do sangue, nos sentidos da vista e dos ouvidos. Quando o processo termina, na crise final, o coração não pode encher-se convenientemente. A sensação de estar intimamente identificado com a maior parte do corpo desaparece, para se concentrar no coração, por fim.

Um imenso sentimento de impotência invade, em seguida, o moribundo. Ele tem a impressão de que forças naturais irresistíveis tomam conta dele e o arrastam através de um longo túnel escuro, cada vez mais estreito, longe de tudo que lhe é familiar e amigo, num domínio desconhecido. Um terrível sentimento de solidão o penetra dolorosamente.

Nesta hora fatídica, o discípulo de um mestre sentirá sua presença consoladora, cuja imagem lhe aparecerá. Os últimos pensamentos do moribundo se inscrevem no grupo de elementos complexos que determinam a forma de sua próxima encarnação.

Então, ele entra num estado de clarividência que pode parecer-lhe estender-se por alguns dias, mas que é, na realidade, menos longo. Começa, então, a descoberta de que uma camada misteriosa e profunda da mente conservou o registro secreto da multidão de suas experiências desde a infância até a velhice. Nada se perdeu; tudo existe sob a forma de imagens. Ele revê numerosos episódios, particularmente os que tiveram maior intensidade em sua vida passada.

O moribundo não revive as imagens do mesmo modo que seu corpo as viveu, porque a cronologia é inversa, isto é, começa dos últimos acontecimentos e remonta à infância. O que acontece em seguida é que um Eu oculto, que tinha sempre observado o eu superficial, toca por fim sua consciência. Com essa visão, ele se torna seu juiz imparcial; abandona repentinamente o ponto de vista egoístico, puramente pessoal. Pela primeira vez, talvez, ele se vê não somente como os outros o veem, mas também como o vê o poder impessoal do karma.

Nesse momento, ele se acha colocado diante das consequências que seus atos tiveram para com os outros, durante a vida terrena, consequências que ele, às vezes, ignorava e pelas quais se desinteressava. Compreende, então, que muitas de suas próprias infelicidades lhe eram diretamente atribuíveis. Graças à luz divina de uma consciência tornada mil vezes mais viva, percebe que tudo que lhe aconteceu era justo e que derivava, finalmente, de seu caráter e seus atos. Experimenta um imenso remorso. Fora de qualquer paixão, vê este eu superficial tal como o Eu oculto sempre o viu, sem suas máscaras. Vê o erro, o pecado, o mal em certas ações suas completamente esquecidas.

Vê também as outras pessoas que conheceu intimamente, tais como são verdadeiramente, e assim descobre que viveu num mundo artificialmente criado por ele. É finalmente, por tudo que reviveu, levado a perguntar-se: “Que fiz deste dom da minha vida?” Quando estas revelações acabam, ele cai num sono sem sonho, e assim todo seu ser repousa definitivamente por alguns dias, até despertar no mundo mental, num plano correspondente a seu estado mental mediano.

 



15.4.14

COMO RECONHECER A INTUIÇÃO – Paul Brunton


Afogamos, às vezes, uma intuição sob a força de nossas emoções, de nossos preconceitos ou desejos, e nos lembramos disso em seguida, com remorso, quando os acontecimentos demonstraram que ela era justa.

Sócrates tinha inteira fé na intuição que ele chamava “seu demônio”, e lhe obedecia. Assim ele a descrevia: “Vós me ouvistes falar de um oráculo ou de um sinal que me vem. Eu o tenho ouvido desde a infância. Este sinal é uma voz que me interdiz de fazer alguma coisa de que tenha intenção. Até aqui este oráculo teve o hábito de opor-se a mim, até em coisas insignificantes desde que fossem um erro. Muitas vezes me faz parar no meio de um discurso; mas hoje não manifestou oposição a nenhuma coisa que eu disse ou fiz. Que explicação vejo aí? Vou dizê-la: considero certo tudo que declaro, porque o sinal habitual já se teria manifestado se houvesse agido pelo mal e não pelo bem.”

Emerson disse: “Não pretendo receber ordens divinas nem de grande revelação. Às vezes, porém, quando faço um projeto, quando penso em uma viagem ou numa maneira de agir, descubro em meu espírito uma espécie de oposição muda que me é impossível explicar; se não desaparece, inclino-me e lhe obedeço.”

A intuição é espontânea, involuntária. É uma voz que não se ouve, mas se faz comumente ouvir justamente no momento em que ela é verdadeiramente necessária e não somente quando é solicitada. Algumas vezes vem guiar-nos, às vezes vem dizer-nos que renunciemos, ou provoca uma brusca mudança de intenção, de opinião, de julgamento ou decisão.