O
sofrimento que se associa frequentemente à morte provém de mudanças
físicas violentas, ou de mudanças mentais não menos bruscas, ou de
ambas. Quando os pensamentos se prendem obstinadamente ao corpo e aos
desejos, ou existe uma poderosa relutância para os abandonar, ou um
temor exagerado em face do que pode acontecer depois, o sofrimento
físico é inutilmente aumentado por essa reação nervosa.
Quando,
porém, o moribundo é suficientemente esclarecido e sabe que o corpo
é uma ideia e disciplinou seus desejos, achar-se-á naturalmente
preparado para esta grande passagem. No caso de um yogue
experimentado e no do sábio que conhece a separação entre seu eu
real e o corpo, esta passagem deve efetuar-se de maneira pacífica.
Na
morte, o moribundo sente uma pressão intensa a começar pelos pés e
invade lentamente o corpo inteiro, deixando os membros pesados, frios
e entorpecidos. O fenômeno reage sobre a respiração, a circulação
do sangue, nos sentidos da vista e dos ouvidos. Quando o processo
termina, na crise final, o coração não pode encher-se
convenientemente. A sensação de estar intimamente identificado com
a maior parte do corpo desaparece, para se concentrar no coração,
por fim.
Um
imenso sentimento de impotência invade, em seguida, o moribundo. Ele
tem a impressão de que forças naturais irresistíveis tomam conta
dele e o arrastam através de um longo túnel escuro, cada vez mais
estreito, longe de tudo que lhe é familiar e amigo, num domínio
desconhecido. Um terrível sentimento de solidão o penetra
dolorosamente.
Nesta
hora fatídica, o discípulo de um mestre sentirá sua presença
consoladora, cuja imagem lhe aparecerá. Os últimos pensamentos do
moribundo se inscrevem no grupo de elementos complexos que determinam
a forma de sua próxima encarnação.
Então,
ele entra num estado de clarividência que pode parecer-lhe
estender-se por alguns dias, mas que é, na realidade, menos longo.
Começa, então, a descoberta de que uma camada misteriosa e profunda
da mente conservou o registro secreto da multidão de suas
experiências desde a infância até a velhice. Nada se perdeu; tudo
existe sob a forma de imagens. Ele revê numerosos episódios,
particularmente os que tiveram maior intensidade em sua vida passada.
O
moribundo não revive as imagens do mesmo modo que seu corpo as
viveu, porque a cronologia é inversa, isto é, começa dos últimos
acontecimentos e remonta à infância. O que acontece em seguida é
que um Eu oculto, que tinha sempre observado o eu superficial, toca
por fim sua consciência. Com essa visão, ele se torna seu juiz
imparcial; abandona repentinamente o ponto de vista egoístico,
puramente pessoal. Pela primeira vez, talvez, ele se vê não somente
como os outros o veem, mas também como o vê o poder impessoal do
karma.
Nesse
momento, ele se acha colocado diante das consequências que seus atos
tiveram para com os outros, durante a vida terrena, consequências
que ele, às vezes, ignorava e pelas quais se desinteressava.
Compreende, então, que muitas de suas próprias infelicidades lhe
eram diretamente atribuíveis. Graças à luz divina de uma
consciência tornada mil vezes mais viva, percebe que tudo que lhe
aconteceu era justo e que derivava, finalmente, de seu caráter e
seus atos. Experimenta um imenso remorso. Fora de qualquer paixão,
vê este eu superficial tal como o Eu oculto sempre o viu, sem suas
máscaras. Vê o erro, o pecado, o mal em certas ações suas
completamente esquecidas.
Vê
também as outras pessoas que conheceu intimamente, tais como são
verdadeiramente, e assim descobre que viveu num mundo artificialmente
criado por ele. É finalmente, por tudo que reviveu, levado a
perguntar-se: “Que fiz deste dom da minha vida?” Quando estas
revelações acabam, ele cai num sono sem sonho, e assim todo seu ser
repousa definitivamente por alguns dias, até despertar no mundo
mental, num plano correspondente a seu estado mental mediano.

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