18.4.14

O EU SUPERIOR E A MORTE – Paul Brunton


O sofrimento que se associa frequentemente à morte provém de mudanças físicas violentas, ou de mudanças mentais não menos bruscas, ou de ambas. Quando os pensamentos se prendem obstinadamente ao corpo e aos desejos, ou existe uma poderosa relutância para os abandonar, ou um temor exagerado em face do que pode acontecer depois, o sofrimento físico é inutilmente aumentado por essa reação nervosa.

Quando, porém, o moribundo é suficientemente esclarecido e sabe que o corpo é uma ideia e disciplinou seus desejos, achar-se-á naturalmente preparado para esta grande passagem. No caso de um yogue experimentado e no do sábio que conhece a separação entre seu eu real e o corpo, esta passagem deve efetuar-se de maneira pacífica.

Na morte, o moribundo sente uma pressão intensa a começar pelos pés e invade lentamente o corpo inteiro, deixando os membros pesados, frios e entorpecidos. O fenômeno reage sobre a respiração, a circulação do sangue, nos sentidos da vista e dos ouvidos. Quando o processo termina, na crise final, o coração não pode encher-se convenientemente. A sensação de estar intimamente identificado com a maior parte do corpo desaparece, para se concentrar no coração, por fim.

Um imenso sentimento de impotência invade, em seguida, o moribundo. Ele tem a impressão de que forças naturais irresistíveis tomam conta dele e o arrastam através de um longo túnel escuro, cada vez mais estreito, longe de tudo que lhe é familiar e amigo, num domínio desconhecido. Um terrível sentimento de solidão o penetra dolorosamente.

Nesta hora fatídica, o discípulo de um mestre sentirá sua presença consoladora, cuja imagem lhe aparecerá. Os últimos pensamentos do moribundo se inscrevem no grupo de elementos complexos que determinam a forma de sua próxima encarnação.

Então, ele entra num estado de clarividência que pode parecer-lhe estender-se por alguns dias, mas que é, na realidade, menos longo. Começa, então, a descoberta de que uma camada misteriosa e profunda da mente conservou o registro secreto da multidão de suas experiências desde a infância até a velhice. Nada se perdeu; tudo existe sob a forma de imagens. Ele revê numerosos episódios, particularmente os que tiveram maior intensidade em sua vida passada.

O moribundo não revive as imagens do mesmo modo que seu corpo as viveu, porque a cronologia é inversa, isto é, começa dos últimos acontecimentos e remonta à infância. O que acontece em seguida é que um Eu oculto, que tinha sempre observado o eu superficial, toca por fim sua consciência. Com essa visão, ele se torna seu juiz imparcial; abandona repentinamente o ponto de vista egoístico, puramente pessoal. Pela primeira vez, talvez, ele se vê não somente como os outros o veem, mas também como o vê o poder impessoal do karma.

Nesse momento, ele se acha colocado diante das consequências que seus atos tiveram para com os outros, durante a vida terrena, consequências que ele, às vezes, ignorava e pelas quais se desinteressava. Compreende, então, que muitas de suas próprias infelicidades lhe eram diretamente atribuíveis. Graças à luz divina de uma consciência tornada mil vezes mais viva, percebe que tudo que lhe aconteceu era justo e que derivava, finalmente, de seu caráter e seus atos. Experimenta um imenso remorso. Fora de qualquer paixão, vê este eu superficial tal como o Eu oculto sempre o viu, sem suas máscaras. Vê o erro, o pecado, o mal em certas ações suas completamente esquecidas.

Vê também as outras pessoas que conheceu intimamente, tais como são verdadeiramente, e assim descobre que viveu num mundo artificialmente criado por ele. É finalmente, por tudo que reviveu, levado a perguntar-se: “Que fiz deste dom da minha vida?” Quando estas revelações acabam, ele cai num sono sem sonho, e assim todo seu ser repousa definitivamente por alguns dias, até despertar no mundo mental, num plano correspondente a seu estado mental mediano.

 



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