20.2.15

A ALIMENTAÇÃO CARNÍVORA E AS DOENÇAS - Ramatis


Sob o uso de muita proteína ou da ingestão indiscriminada de carne, eleva-se a pressão arterial e, com o tempo, podem surgir a arteriosclerose, o mal de Bright, assim como reduzir-se o calibre das coronárias, com graves perturbações cardíacas e não raro fatais.

O próprio canceroso, quando ingere muita carne, demonstra maior virulência de seu mal. Alguns nutricionistas modernos e atenciosos pesquisadores não vacilam em afirmar que, devido ao grande consumo de carne por parte da humanidade, ainda grassam enfermidades como apendicite, asma, congestão do fígado, gota, hemorróidas, prisão de ventre, úlceras e excrescências no corpo, enquanto reconhecem que a alimentação à base de frutas e vegetais contribui admiravelmente para recuperar os elementos que favorecem o curso e a flora no tubo intestinal.

Convém notar que os venenos da carne são bastante nocivos ao fígado e o obrigam a um trabalho fatigante, saturando-o de modo a dificultar-lhe o processo delicado da filtração. Acresce ainda que o homem, pelo seu hábito pernicioso de ainda acrescentar ao cozido ou assado das vísceras animais a pimenta, o molho picante, a mostarda, o cravo, o sal em excesso e toda sorte de condimentos excitantes, efetuando as mais violentas combinações químicas com outros condimentos, como a cebola, o alho e o vinagre, termina por aniquilar mais cedo o seu organismo carnal.

Depois, ele mesmo trata de imunizar-se contra os efeitos perniciosos que lesam o seu organismo, socorrendo-se de toda sorte de medicamentos heterogêneos da farmacologia pesada moderna, crente de poder compensar a agressividade da química violenta e corrosiva, que fez eclodir.

O uso da carne ainda é acompanhado do molho picante, o que obriga os órgãos físicos a um funcionamento intensivo e fatigante, a fim de produzirem maior quantidade de fermentos, bílis, sucos e hormônios que atendem às necessidades digestivas e proporcionam a filtração dos venenos e sua expulsão para o exterior.

Sob o excesso de alimentação imprudente, que produz a toxicose daninha, os rins e o fígado fatigam-se e congestionam-se para atender ao serviço de filtros vivos do corpo; o pâncreas esgota-se pela hiperprodução de fermentos e as ilhotas de Langerhans atrofiam-se, reduzindo o seu fornecimento de insulina e culminando na diabete insolúvel.

As vísceras animais vertem ainda outras toxinas nocivas, que perturbam o movimento peristáltico do intestino, aumentam a viscosidade sanguínea, concorrendo para a apoplexia, enquanto o ácido úrico dissemina-se pelo sangue, causando o artritismo.

Não vos deve ser desconhecido que os povos orientais, alimentados só com arroz, frutas, legumes e feijão de soja, não padecem de arteriosclerose, angina do peito, enfarte do miocárdio ou hemorragias cerebrais, enquanto no Ocidente essas doenças aumentam incontrolavelmente entre os homens supernutridos pela carne, que é rica de colesterol.

Em certos povos ocidentais, o seu desjejum já é farto de presunto, toucinho, chouriço ou carne enlatada, ainda em mistura com queijo, manteiga, ovos, nata e leite que, embora aconselhados na boa alimentação, ainda mais os saturam porque também são gorduras animais.

Deste modo, aumenta continuamente o número de atestados de óbitos que lhes oficializam o falecimento sob a responsabilidade das moléstias do sangue e das veias supersaturadas de proteínas!

Alguns tipos de parasitas intestinais, de que o homem se torna hospedeiro, procriam-se antes em forma larval no organismo dos animais; é o caso da “Taenia saginata”, que vive sua primeira fase larval no boi; a Taenia solium, que prefere o porco, ou o Bothriocephalus, a solitária, cuja fase larval se processa entre certos peixes da água doce e que, ao atingir a fase adulta no intestino do homem, chega a alcançar até alguns metros de comprimento.

Alguns outros parasitas pertencentes aos cestódios e vermes do grupo dos helmintos, que podem ser examinados no seu ciclo de vida parasitária no homem, têm a sua procedência larval em certos animais que também são devorados famelicamente pelo homem, fazendo-o sofrer, depois, os efeitos daninhos de sua própria insaciabilidade zoofágica!

A carne é deficiente de vitaminas, pois o animal não as assimila com tanta precisão como se desejaria; elas são abundantes nos frutos, legumes, cereais e hortaliças, a verdadeira fonte natural de sua vivência. Acresce, ainda, que as vitaminas da carne se consomem sob a ação da fervedura ou do assado, agravando-se o seu poder maléfico pela junção de outras substâncias corrosivas, que são fornecidas pelos molhos picantes, pimenta e outros condimentos tóxicos.

A prova mais evidente destas asserções está em que a humanidade terrícola, quanto mais se entrega à alimentação carnívora, principalmente com a facilidade atual da carne enlatada, tanto mais é compelida a consumir maior quantidade de vitaminas artificiais.

Qualquer compêndio ou manual de cozinha, que trate da qualidade da alimentação, explica-vos que a carne magra, por exemplo, contém quase dois terços de água, vinte por cento de proteína, cinco por cento de gordura e três por cento de resíduos e matéria mineral, contendo pouca vitamina A, B, e C.

As carnes enlatadas ainda são vitaminicamente mais pobres porque, submetidas a rigoroso processo de fervura industrial, volatizam grande parte dos seus elementos energéticos e, mesmo quanto aos sais minerais, ficam restando pouco sódio e cálcio; o próprio ferro ali encontrado ainda é proveniente dos resíduos de sangue que ficam retidos e coagulados nos tecidos musculares.

No caso da doença do escorbuto, por exemplo, a Medicina explica que se trata de uma “discrasia hemorrágica” proveniente da falta de ingestão de vegetais ou frutas frescas, culminando em profunda avitaminose. Antes de ser descoberta a carência vitamínica que provocava escorbuto, os exércitos em campanhas, as caravanas de longo percurso ou os marinheiros que passavam muito tempo no mar, alimentados exclusivamente de carne, se dizimavam abatidos por essa moléstia que lhes afetava a nutrição pela falta de vitamina C, a qual só é pródiga nos frutos, legumes, cereais, tais como limão, uvas, tomate, repolho cru, cebola ou espinafre.

É evidente que, se a carne possuísse o teor vitamínico exato e necessário ao organismo humano, o escorbuto não afetaria os carnívoros, mas unicamente os vegetarianos. No entanto, o resultado é diametralmente oposto, pois essa moléstia debela-se justamente quando os doentes são tratados com frutas e vegetais frescos!

Não há dúvida de que existem, principalmente entre os povos nômades da Asia, pessoas que passam quase que exclusivamente a carne de carneiro, cabrito ou caça selvagem; no entanto, eles são produtos de um meio agreste, cuja vida é liberta do artificialismo da cozinha das metrópoles; estão mais próximos da vida selvagem, que exige nutrição mais primitiva, o que é mais uma prova de a alimentação carnívora ser incompatível com o homem altamente civilizado ou de sensibilidade espiritual.

É a própria Medicina do vosso mundo que, após longas e exaustivas pesquisas à procura dos elementos que produzem a fadiga no organismo humano, firmou as conclusões que aconselham indiretamente ao homem o abandono da carne.

Assim é que se comprovou ser a fadiga produzida pelos venenos do corpo e sob três causas distintas: a primeira, como um efeito das modificações químicas que se processam nos músculos; a segunda, conseqüente dos ácidos minerais e outras substâncias que exaurem o homem e são ingeridos com a própria alimentação; a terceira, conseqüente dos venenos excretados pelas bactérias proteolíticas, que produzem a putrefação das proteínas não absorvidas pelo cólon intestinal.

Ora, a carne não é digerida completamente pelo homem numa porcentagem de cinco a dez por cento, e se putrefaz acelerando o desenvolvimento da amebíase, colite, irritações ou fístulas, porquanto nesse processo de putrefação dominam o escatol e indol, como venenos causadores da fadiga.

Os alimentos carnívoros também sofrem grande perda de sua energia vital durante a combustão interna, assim como acentuam a produção de ácidos nocivos e que afetam o equilíbrio bioquímico intestinal, fato do qual resulta a intoxicação de órgãos, tecidos e sangue, com a presença do ácido úrico causador do artritismo.

A alimentação vegetariana, portanto, é superior a qualquer regime carnívoro, uma vez que os hidratos de carbono predominam nos vegetais, constituindo-se em uma ótima fonte de energia para o bom funcionamento dos músculos, principalmente com o uso da batata e cereais, ou frutos doces, como a ameixa, uva, figo, pêra, cana-de-açúcar, caqui, melancia e passas.




O SENTIMENTO SÁTVICO – Rolf Skarnitzl


A influência de sattva (as gunas da natureza são: sattva - harmonia, bondade e luz interior; rajas – atividade, desejo, cobiça; e tamas – indolência física, escuridão mental, crueldade) em sádhana (prática espiritual) é essencial, porque sattva abre o caminho para a iluminação. Por essa razão, o sádhaka (praticante) luta para manter sattva permanentemente em sua mente.

A guna rajas opera com mais frequência, uma vez que tendemos à extroversão, a voltar a mente para o exterior fascinados pelas coisas externas. A mente, nesse caso, se deleita com os objetos apresentados pelos sentidos. Por isso, rajas tende a ser a guna mais desenvolvida na maior parte das pessoas.

Se o sádhaka quer se livrar de suas tendências inferiores, ele deve estar atento à guna sattva e usá-la para “iluminar” sua personalidade. Ele deve empreender uma luta heróica contra o dragão (as tendências) que lança o veneno paralisante de tamas. O sucesso do sádhaka depende de como ele elimina a influência de tamas, uma vez que essa guna cobre a mente com sua escuridão.

Para isso, deve-se estar concentrado no interior de si mesmo. Para isso existem dois métodos: meditação e sentimento sátvico. A mente não pode estar permanentemente introvertida sem a prática regular de meditação. É necessário um esforço incessante; não é suficiente reservar alguns minutos para o sádhana e passar o resto do dia em autoindulgência.

A pessoa deve estar muito alerta e controlar a atividade dos fatores que exteriorizam a mente. Sempre que possível, ela deve ligar-se a pensamentos e sentimentos positivos e sátvicos. O sentimento sátvico é caracterizado por um sentimento de leveza, otimismo, luz interior, paz harmoniosa, entendimento sutil, ternura e emoções refinadas. O sentimento sátvico se manifesta quando encontramos as belezas da natureza, com suas flores e paisagens, quando admiramos a noite estrelada, quando vemos a ternura com que os pássaros alimentam seus filhotes, quando nos deparamos com uma obra de arte de imensa beleza ou quando ouvimos uma bela música.

Ele também surge quando experimentamos relacionamentos harmoniosos com outras pessoas, especialmente quando existe auxílio desinteressado de um para outro. Ou quando nos deparamos com uma sábia expressão da verdade, em que aspectos de verdade e justiça nos são revelados.

Mas surge principalmente quando avistamos a face de um ser sátvico ou estamos na presença de tal pessoa. Um forte estímulo sátvico também surge quando estudamos literatura espiritual ou as vidas de sábios e santos, que são expressão de seres sátvicos.

A oração é um modo muito bom de introduzir sentimento sátvico na mente. Sattva cresce na companhia de sádhakas avançados, e mais ainda na presença de santos e sábios. Com a prática fica mais fácil despertar o sentimento sátvico, e este começará a dominar o coração e mente do sádhaka. E isto é um sinal de maturidade.

Quanto mais o sádhaka desenvolve respeito, afeição, devotamento, compaixão e desejo de servir os seres humanos, mais sutil se torna sua personalidade e mais desapegado ele estará dos impulsos de rajas.

É importante lembrar-se constantemente da natureza do verdadeiro “Eu” da pessoa. O hábito de lembrar-se não é adquirido por mera decisão, mas sim o resultado de persistente esforço. O melhor método para se ganhar a consciência do supremo Eu é a autoindagação ensinada por Rámana Maharshi.

O sentimento sátvico contribui para a compreensão da Realidade, que é o objetivo da vida de todo sádhaka. Quando caminhamos pelo mundo e não desejamos ferir a ninguém, o sentimento sátvico é um guia simples e excelente para corrigir eventualmente o comportamento. Ele substitui vários volumes de livros que nos ensinam como agir em vários tipos de situações.

Se nossa mente está sintonizada com o sentimento sátvico, então o que fizermos estará em harmonia com a situação que vivenciamos. Esse equilíbrio emocional enche a personalidade com sentimentos de harmonia e paz.


*Nota: existem ainda outros métodos para desenvolver sattva, não citados pelo autor do artigo, quais sejam: pranayama, repetição de mantras, boas ações, ingestão de alimentos sátvicos (como frutas, leite e cereais) e abandono dos não-sátvicos (como por exemplo carne, álcool, drogas, alho, cebola), moderação e frugalidade na vida sexual, além de outras práticas de yoga.


4.2.15

A VONTADE DE RAMA – Sri Ramakrishna


Num certo vilarejo vivia um tecelão. Ele era uma alma muito devota. Todos confiavam nele e o amavam. Ele costumava vender sua produção no mercado da vila. Quando um freguês lhe perguntava o preço de uma peça de roupa, o tecelão dizia: “Pela vontade de Rama (Rama é um avatar) o preço da matéria-prima é cinco rúpias e o preço da mão-de-obra é duas rúpias; pela vontade de Rama o lucro é uma rúpia. O preço da roupa, pela vontade de Rama é oito rúpias.”

Tal era a confiança no tecelão que o cliente imediatamente pagava o preço e levava a roupa. O tecelão era um verdadeiro devoto de Rama. Após terminar sua refeição da noite, ele passava longas horas em sua sala de meditação meditando em Rama e repetindo seu mantra.

Certa noite, o tecelão estava sem sono e ficou sentado no lado de fora de sua casa, observando a noite. Um bando de ladrões passou por ali e, como precisavam de alguém para carregar os bens que iriam roubar, disseram ao tecelão: “Venha conosco”. Assim dizendo o pegaram pela mão e levaram.

Após roubarem uma residência, colocaram vários itens roubados sobre a cabeça do tecelão, ordenando-lhe que os carregasse. De repente a polícia chegou e os ladrões fugiram. Mas o tecelão com seu carregamento foi preso. Ele foi mantido preso toda a noite.

No dia seguinte foi levado ao juiz para interrogatório. Os moradores da vila souberam o que tinha acontecido e foram à corte. Eles disseram ao juiz: “Excelência, este homem não é um ladrão.”

Então o juiz pediu ao tecelão que declarasse o que aconteceu. O tecelão disse: “Excelência, pela vontade de Rama, terminei minha refeição à noite. Então pela vontade de Rama eu estava sentado do lado de fora da casa. Era noite avançada, pela vontade de Rama. Pela vontade de Rama, eu estava pensando em Rama e cantando seu nome e suas glórias, quando pela vontade de Rama passou por ali um bando de ladrões. Pela vontade de Rama me arrastaram com eles; pela vontade de Rama roubaram uma residência, e pela vontade de Rama colocaram as coisas roubadas sobre minha cabeça. Naquele momento, pela vontade de Rama, fui preso. Então pela vontade de Rama a polícia me manteve preso durante a noite toda, e esta manhã pela vontade de Rama fui trazido à presença de Vossa Excelência”.

O juiz percebeu que o tecelão era um homem de fé e ordenou que o libertassem. A caminho de casa, o tecelão disse a seus amigos: “Pela vontade de Rama fui libertado”.

   


  Sri Ramakrishna