27.4.16

O QUE É DEUS – A Mãe, do Sri Aurobindo Ashram




respondendo a uma pergunta feita por um discípulo, a Mãe diz:

Tudo depende do significado que você coloca na palavra “Deus”. É uma palavra que expressa “algo” que você não conhece, mas está tentando alcançar.

Se você recebeu uma educação religiosa, está acostumado a chamar isso de “Deus”. Se recebeu uma educação mais positivista e filosófica, está acostumado a chamar isto por todo tipo de nomes, e pode ter ao mesmo tempo a ideia de que é a suprema verdade.

A realidade é distante demais da nossa compreensão, e chamamos de Deus. Algumas religiões dão uma forma precisa à divindade; e às vezes dão várias formas e têm vários deuses; às vezes dão apenas uma forma e têm apenas um Deus; mas tudo isso é fabricação humana.

Existe “algo”, existe uma realidade que está além de todas as nossas expressões, mas que podemos contatar praticando uma disciplina. Podemos nos identificar com ela. Quando a pessoa se identifica com essa realidade, ela sabe o que é, mas não pode expressá-la, pois as palavras não podem dizê-la.

Portanto, se você usar um tipo de vocabulário, se tiver uma convicção mental particular, você usará o vocabulário correspondente àquela convicção. Se pertencer a outro grupo que tem outra maneira de falar, você falará e pensará sobre essa realidade daquele modo.

Existe algo que não pode ser apreendido pelo pensamento, mas que existe. Mas o nome que você dá a isso pouco importa, nada importa, esse “algo” existe. Assim, a única coisa a fazer é entrar em contato com isso – não dar um nome ou descrever. Na verdade não serve para nada dar um nome ou descrever. A pessoa deve entrar em contato, concentrar-se sobre esse “algo”, vivê-lo, e se tiver a experiência não importa o nome que se dá. Apenas a experiência importa.

E quando as pessoas associam a experiência com uma expressão particular – de um modo tão estreito, tão fechado em si mesmo – isso é uma inferioridade. A pessoa deve ser capaz de viver essa realidade através de todos os caminhos possíveis, todas as ocasiões; deve-se vivê-la, pois ela é o supremo bem, é todo-poderosa, é onisciente... Sim, você pode vivê-la, mas não pode falar sobre ela. E se falar, o que é dito não tem grande importância. É apenas uma maneira de expressão, eis tudo.

Existe uma linha de filósofos que substituíram a noção de Deus pela noção de um Absoluto impessoal ou pela noção da Verdade ou a noção de Justiça, ou até mesmo a noção de progresso – de algo eternamente progressivo; mas para quem tem a capacidade interior de identificar-se com aquilo, o que é dito não tem muita importância.

Às vezes a pessoa pode ler todo um livro de filosofia e não progredir nenhum passo. Às vezes a pessoa pode ser um fervoroso devoto de uma religião e não progredir. Há pessoas que passam muitas vidas sentados em contemplação e nada alcançam.

Há pessoas (e temos exemplos bem conhecidos) que costumavam fazer os mais modestos trabalhos manuais, como um sapateiro remendando sapatos velhos, e que tiveram a experiência.

Isso está totalmente além do que se pensa ou diz. É uma dádiva, eis tudo. E tudo que é necessário fazer é conseguir identificar-se com essa realidade e vivê-la. Às vezes você lê uma sentença num livro e ela te leva lá. Às vezes você lê livros inteiros de filosofia ou religião e esses livros não te levam a lugar algum.

Entretanto há pessoas para quem a leitura de livros de filosofia ajuda a seguir em frente. Mas todas essas coisas são secundárias. Existe apenas uma coisa que é importante: uma vontade sincera e persistente, pois essas coisas não acontecem num piscar de olhos. É preciso perseverar.

Quando alguém sente que não está avançando, não deve se desencorajar; deve tentar encontrar o que está se opondo na natureza, e então fazer o progresso necessário. E de repente se faz um progresso. E quando se chega ao final, você tem uma experiência.

E o que é impressionante é que pessoas que seguem diferentes caminhos, com construções mentais totalmente diferentes, do maior crente ao maior ateu, até mesmo materialistas, têm chegado a essa mesma experiência, ela é a mesma para cada um. Porque é o verdadeiro, porque é real, porque é a única realidade.

E é total e simplesmente “aquilo”. Nada mais posso dizer. Porque palavras não têm importância. O importante é seguir o caminho, seu caminho, não importa qual seja, para chegar lá.


Um comentário:

  1. Isso está expresso em dois mantran(s) e seus significados: Hari Om Tat Sat & No Tattwan Asi ! Aprendi sobre os dois no livro da brasileira "Chiang Sing" 'Mistérios e Magias Do Tibet',. Muito bom , recomendo ! Há diferentes "traduções" ou leituras que se podem fazer deles, de acordo com a escola adotada e/ou Dharshna(disciplina filosófico-doutrinaria/comportamental, por isso preferi não colocar a interpretação do livro em questão para não conduzir o entendimento, que pode variar de um extremo a outro, desde o mais religioso mistico espiritualista e poético Vedanta ao mais cético,naturalista , materialista, científico e seco Sankhya, sem que um exclua o outro necessariamente ! Os dois sistemas se completam e se complementam, um abunda o que falta no outro . O mesmo vale para os dois outros sistemas comportamentais/posturais em termos de tomadas de atitude diferentes, perante a vida, as coisas, pessoas e situações que são o Tantra e o sistema Brama-Achárya OU SIMPLESMENTE Acharya. Outra fonte, foram os ensinos do Mestre De Rose, de Yôga.

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