30.8.17

A VIDA UNIVERSAL (Ensinamentos da Teosofia)



Um Universo vem a existir porque uma entidade cósmica o está incorporando; e um Universo morre, assim como uma pessoa morre, porque chegou ao ponto em que a maior parte de suas energias passou aos reinos invisíveis.

Os Universos se incorporam assim como fazem os egos humanos. As mesmas leis fundamentais operam no grande como no pequeno. As diferenças estão nos detalhes, não nos princípios. A morte é apenas uma mudança, a vida é apenas uma experiência.

A única coisa que permanece é a pura consciência, pois ela inclui tudo o mais. As pessoas pensam comumente que crescem até a maturidade e então param de crescer, ficam maduras durante algum tempo e começam a declinar. Mas a decadência simplesmente significa que o ser interior está começando a fazer seu caminho e seu novo corpo nos mundos invisíveis.

Do mesmo modo, o nascimento e crescimento de um Universo, assim como sua culminação e decadência, seguida por sua morte, são causados pela vinda da entidade cósmica das esferas invisíveis para os reinos materiais, incorporando-se em suas substâncias, e assim construindo um Universo material, e em seguida começa seu processo de desmaterialização. E quando esse processo se aproxima do fim, o Universo está em seus estágios de dissolução.

Acontece o mesmo com uma estrela, um sol ou um planeta. Acontece o mesmo com qualquer entidade. A vida é infinita, não tem começo nem fim; e um Universo não é diferente em essência de um ser humano.

Considere as estrelas e os planetas: cada um deles é um átomo no corpo cósmico; cada um deles é uma morada organizada de uma multidão de vidas atômicas menores que construíram seus corpos. Além disso, cada sol brilhante no espaço foi em certo tempo do passado um ser equivalente a um ser humano, possuindo algum grau de autoconsciência, poder intelectual e visão espiritual, assim como um corpo.

E os planetas assim como as miríades de entidades desses planetas, que circulam ao redor de tais deuses cósmicos, tais estrelas ou sóis, são agora as mesmas entidades que em distantes manvantaras do passado eram as vidas atômicas daquela entidade solar.

Através das eras, essas entidades seguiram buscando o aprendizado e o progresso. Mas muito à frente de seu caminho evolucionário, estava seu divino pai, a fonte de seu ser.

Quando nós, ao despertarmos os poderes de nosso deus interior, nos tornarmos planetas e depois sóis gloriosos brilhando nas profundezas cósmicas, então as estrelas e planetas ao nosso redor serão aqueles que agora são nossos companheiros seres humanos.

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Consequentemente, as relações kármicas que temos uns com os outros na Terra ou em algum outro lugar afetarão seus destinos, assim como o nosso. Sim, cada um de nós será, nos distantes eons do futuro, um sol brilhante do espaço infinito. E isso acontecerá apenas quando despertarmos nossa divindade no coração de nosso ser, e quando essa divindade, por sua vez, tiver evoluído a alturas ainda maiores.

Além do nosso sol, existem outros sóis, tão elevados que para nós são invisíveis, sóis dos quais nosso próprio sol é um servidor divino. A Via Láctea, que é em si mesma um Universo completo e autônomo, é apenas uma célula cósmica no corpo de alguma entidade supercósmica, que por sua vez é apenas uma de uma infinidade de outras como ela.

O grande contém o pequeno; o maior contém o grande. Tudo vive por e para o todo. Essa é a razão por que a separatividade tem sido chamada de “a grande heresia”. É a grande ilusão, pois a separatividade não existe. Nada pode viver sozinho para si mesmo. Cada entidade vive pelo todo, e o todo é incompleto sem uma de suas entidades, portanto vive por ela.

O espaço infinito é nosso lar. Ali iremos e ali estamos mesmo agora. Estamos não apenas conectados por elos inquebráveis com o próprio coração do infinito, mas somos também esse coração. Este é o caminho que os antigos filósofos ensinaram, o caminho do Ser interior.

Nosso destino está em nossas mãos. Podemos construir a nós mesmos, ou arruinar a nós mesmos. Nenhum deus proíbe, nenhum deus impõe; somos filhos do divino, portanto partilhamos da liberdade divina da vontade, e como almas parcialmente desenvolvidas construímos nosso destino.

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Podemos formatar nossas vidas, podemos torná-las boas, más, belas, distorcidas ou feias. Não há fatalismo nisso. Toda a natureza ao nosso redor, não apenas está nos ajudando, mas também nos dando oportunidades para exercitar nossa força contra a oposição, que é o único caminho de desenvolver os músculos espirituais.

O exercício traz a força. Se a natureza não nos desse nenhuma oportunidade para revelar a divindade interior, nunca cresceríamos. Portanto, a natureza não apenas é uma bela e prestativa mãe, mas também uma rígida enfermeira cuidando de nós com infinita compaixão, e insistindo com suas reações a nossas ações para que nossa vontade cresça em força através do exercício e que nossa compreensão se torne mais brilhante através do uso.

A DIVINDADE INTERIOR – James A. Long


Não temos evoluído sozinhos, nem estamos sós agora. Quando a divina centelha dentro de cada um de nós nos tirou do Jardim do Eden (o Jardim do Eden simboliza nosso tempo pré-encarnatório, quando vivíamos em inocência e proteção divina), e disse: “Você evoluiu e caminhou um longo caminho através dos reinos inferiores da natureza, e agora ganhou o direito de trabalhar seu próprio destino vivendo como um ser humano”, essa divindade não nos abandonou.

Ela retirou-se para a profundeza de nossas almas, e permanece ali hoje. Todo dia de nossas vidas ela nos está dizendo, se ao menos pudéssemos ouvir: “Você é meu filho pródigo. Siga seu caminho, através do sofrimento e da alegria que trouxer para si mesmo. Mas lembre que a partir de agora você deve através de seu próprio livre arbítrio viajar pelos ciclos de experiência. Então ganhará o direito de voltar para mim, estará rico e forte espiritualmente.”

Aquela centelha divina nunca nos abandonou, e nunca nos abandonará; pois sua natureza é irradiar sua influência até que, não apenas reconheçamos sua presença, mas também nos determinemos a trabalhar com ela.


Não, nunca estivemos sós, nem carregamos todo o karma do passado numa única vida. Afinal, em nossas milhares de vidas, também semeamos belas flores e não apenas sofrimentos no jardim da alma.

Nunca devemos sentir que não suportamos o peso de nosso destino, “Deus adequa o peso aos ombros de cada um”. Isto é, a divindade interior, que é na verdade nosso Pai que age como nosso protetor, permite que lidemos apenas com aquela porção de karma que nossa força nos permite carregar.

Podemos ter a esperança de que, quando nossos problemas parecerem maiores do que podemos suportar, existirá sempre dentro de nós aquele guardião que nos assegura o poder e a sabedoria para encarar o desafio. O próprio fato de estarmos na Terra hoje é uma prova de que não perdemos contato com nosso deus interior, pois do contrário não estaríamos aqui como almas humanas que evoluem.

18.8.17

A DEVOÇÃO A SHIVA - Sadhguru

(trecho retirado de uma sessão de perguntas e respostas feitas a Sadhguru num acampamento aos pés do Monte Kailash, no Tibete, onde se acredita seja a morada de Shiva)

PERGUNTA: Notei aqui que a maioria das pessoas desse acampamento tem muita devoção a Shiva, mas eu vim dos Estados Unidos, do sul do Mississippi, e esse yoga é novo para mim, e tenho grande devoção a ti, Sadhguru, mas não sinto devoção a Shiva. Sei que dizemos o mantra, mas precisamos ter devoção a Ele para progredir no caminho espiritual?

SADHGURU: Shiva não precisa de sua devoção. (risos) Ainda ontem alguém estava lendo para mim uma passagem de um livro escrito por Friedrich Nietzsche. Ali Friedrich Nietzsche está dizendo “Só porque há tantas pessoas para receber a luz, o sol pode regozijar-se em aparecer” – isso é besteira alemã. (risos) Se nenhum de vocês estivesse aqui, o sol ainda assim apareceria do mesmo jeito, com a mesma glória. Ele não aparece para você. Isso é uma doença que os seres humanos têm – pensam que toda a existência tem o ser humano como centro. Não é assim.

Assim, Shiva não precisa da sua devoção. Devoção significa uma certa doçura de seu coração. É a melhor condição de estar para qualquer ser humano. Se você não carrega esta doçura em seu coração, a vida lhe trará coisas e você se tornará amarga. Não pense que pode se isolar. Você pode construir um lar, uma família, uma grande conta bancária, mas não permanecerá isolado.

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Se não houver doçura em seu coração, você se tornará amarga, ressentida – isto tem acontecido a uma grande parte da humanidade. Assim, num certo nível, a devoção significa uma constante doçura em seu coração; um tipo de doçura que não depende de ajuda exterior.

Suponha que você se apaixone por alguém, seu coração se torna doce. Mas por quanto tempo? Não se pode garantir. Essa paixão pode se tornar extremamente amarga, devido a situações ou doença ou morte ou perda, ou simplesmente por tédio. A pessoa que você achava excitante e fantástica, depois de alguns anos, você a estará vendo de maneira diferente. Mas devoção é uma doçura constante do coração, não depende de ninguém.

Então devo ter devoção a Shiva?’ Não faz nenhuma diferença para Ele, mas se você for um devoto – a devoção é um outro tipo de inteligência que o intelecto não é capaz de entender. Shiva é um alienígena. Ele não pertence a este planeta. Ele não tem pais humanos, porque não nasceu aqui. Ele não tem um túmulo, porque não morreu aqui. Ele não tem filhos, porque nenhuma mulher humana poderia gerar um filho dele.

Portanto, não é sobre Shiva, é sobre você. Você deve viver com devoção. O objeto de sua devoção não importa. Mas precisa viver com absoluta devoção. Devoção significa que você está vazia do eu. Devoção significa um alto estado de receptividade, porque você não está mais cheia de si, há espaço vazio em si, e assim algo pode tocá-la, algo pode entrar em você, algo pode morar em você. Se você estiver muito cheia de si, 'quando eu for tão grande quanto... quando alguém for tão grande quanto eu sou...' - se você está neste tipo de condição, então nada entra em você, nada pode entrar em você. Algum espaço é necessário.

A devoção não é fácil, porque não é algo que se alcança, é uma retirada. Você não tem que subir, apenas tem que desaparecer. ‘Não, não, Sadhguru, não é possível para mim desaparecer.’ Está bem, ao menos reduza um pouco a si mesma, seja menos.




7.8.17

UMA EXPERIÊNCIA DE BEM-AVENTURANÇA – Krishnamurti


Ele era moço ainda, mas chefe de família e conceituado homem de negócios. Parecia muito atribulado e preocupado, e ansioso por dizer alguma coisa. Começou dizendo:

Há tempos ocorreu-me uma experiência extraordinária, que me arrebatou o coração; entretanto se foi e dela só me resta a lembrança. Rogo-vos me ajudeis a recuperá-la. Uma certa manhã despertei muito cedo; a cidade dormia ainda e seus rumores não haviam começado. Senti-me impelido a sair; vesti-me rapidamente e saí para a rua. A primavera estava no início e o céu era de um azul pálido.

Apoderou-se de mim um forte sentimento de que devia ir ao parque, distante cerca de uma milha. Desde o instante que transpus a porta da rua, veio-me um estranho sentimento de leveza, como se estivesse caminhando no ar. Até os tijolos dos edifícios pareciam vivos e luminosos. Todo objeto, tudo parecia parte de mim mesmo. Nada estava separado de mim, não havia um eu separado da árvore, ou do jornal jogado na sarjeta, ou das aves. Era um estado de consciência nunca experimentado antes.

No caminho do parque, havia uma loja de flores, e enquanto as contemplava, comecei a sorrir, possuído de uma alegria nunca experimentada antes. As flores estavam a falar-me e eu a falar com elas; faziam parte de mim. Tudo era vivo e eu amava todas as coisas. Eu era o perfume daquelas flores, mas não havia um eu a cheirar as flores. Estive ali mais de vinte minutos, embora não tivesse noção do tempo.

O tempo cessou; não havia passado, presente ou futuro. Só havia – oh, não sei expressar por palavras. Havia uma Presença – não, não é esta a palavra. Era como se a Terra, com tudo o que nela existe, tivesse recebido uma bênção do céu e eu fazia parte dela.

Ao aproximar-me do parque, fiquei completamente fascinado pela beleza daquelas árvores que eu já conhecia. As folhas dançavam cheias de vida, toda a riqueza da Terra se concentrava numa única folha. Senti o coração acelerar-se; e mal podia respirar.

Sentei-me num banco, as lágrimas rolavam-me pelas faces. Rodeava-me um silêncio total, mas esse silêncio estava purificando todas as coisas, lavando-as da dor e do sofrimento. Ao internar-me mais no parque, havia música no ar. Fiquei surpreso, pois não havia casas nas imediações e por certo ninguém teria levado um rádio ao parque àquela hora da manhã. A música fazia parte daquela totalidade. Toda bondade, toda a compaixão do mundo estava presente naquele parque, Deus ali estava.

Não sou religioso, mas naquele parque estava presente um Ser, no qual todas as coisas viviam e agiam. As pernas me tremiam, forçando-me a sentar de novo, recostado numa árvore. O tronco era uma entidade viva como eu, e eu fazia parte daquela árvore, daquele Ser, do mundo. Devo ter desmaiado. Aquilo foi excessivo para mim: as cores intensas e vivas, as folhas, as pedras, as flores, a incrível beleza de todas as coisas. E por sobre tudo aquilo, a bênção de...

Quando voltei a mim, o sol já brilhava e, sem forças para voltar para casa, deixei-me ficar ali, sentado, reunindo as forças e sem ousar pensar. Depois voltei para casa, mas a experiência durou uns dois dias e, tão subitamente como veio, desapareceu.

Começou então meu tormento, eu queria de volta aquela experiência extraordinária, viva, queria tornar a viver, e para sempre, naquele mundo beatífico. Tudo isso aconteceu há dois anos. Andei pensando seriamente em abandonar tudo e ir-me para um recanto solitário do mundo, mas o coração me diz que não a recuperaria por essa maneira. Pensei em partir para a Índia, mas abandonei também tal ideia.

Aqui estou, pois. Tudo eu daria, minha vida e todos meus bens, para tornar a viver naquele mundo. Que devo fazer?”

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Krishnamurti: Ele veio a vós, sem o terdes chamado, senhor. Vós nunca o procurastes. Enquanto o estiverdes procurando, não o tereis nunca. Justamente o desejo de tornar a viver aquele estado extático está impedindo a vinda do novo, a experiência nova daquela suprema felicidade. Tivestes a experiência e estais vivendo agora da lembrança morta de ontem.

Estais dizendo que devo pôr fora e esquecer tudo o que foi e ir arrastando de dia em dia esta minha insignificante existência, interiormente esfomeado?”

Krishnamurti: Se não continuardes a relembrar e a pedir mais – o que constitui um verdadeiro esforço – será então possível que aquela mesma coisa, que escapa inteiramente ao vosso controle, atue por sua própria vontade. A avidez, mesmo com um alvo sublime, só pode gerar sofrimento. Aquela bem-aventurança vem espontaneamente, não a busqueis.


3.8.17

DIÁLOGO COM UM YOGUE – Krishnamurti


Yogue: A meditação é da máxima importância para mim; medito regularmente duas vezes ao dia, há mais de vinte e cinco anos. No começo era muito difícil, eu não tinha controle dos meus pensamentos e havia distrações demais; porém gradualmente consegui barrar-lhes o acesso, quase totalmente. Tenho estado com vários gurus e seguido diferentes sistemas de meditação, mas por alguma razão não me sinto satisfeito com nenhum deles. Todos eles levavam até um certo ponto, conforme o sistema, e verifiquei que estava me tornando um mero resultado do sistema. Mas graças a essas experiências, aprendi a dominar completamente meus pensamentos e minhas emoções. Pratiquei a respiração profunda, para aquietar o corpo e o espírito. Repeti a palavra sagrada e jejuei por longos períodos; moralmente procedo da maneira correta e as coisas mundanas não têm atração para mim. Mas após todos estes anos de lutas e esforços, de disciplina e renúncia, não encontrei a paz, a bem-aventurança de que nos falam as Grandes Entidades. Em raras ocasiões tenho encontrado momentos luminosos de profundo êxtase; entretanto pareço incapaz de traspassar a ilusão de minha própria mente, e nela me vejo aprisionado.

Estávamos sentados à margem de um vasto rio. A cidade era mais acima, a breve distância dali. O sol descia atrás de nós e sombras caíam sobre a água. Era um belo e tranquilo entardecer, com massas de nuvens a leste, e o rio profundo mal parecia mover-se. A toda essa beleza ele parecia completamente alheio; estava inteiramente absorvido em seu problema.

Krishnamurti: Durante todos estes anos cessastes alguma vez de lutar pelo alvo final? Pode o processo do tempo levar ao Eterno?

Yogue: Nunca deixei de lutar por aquilo a que aspira meu coração. Não ouso parar, se parasse deterioraria. É da própria natureza das coisas subir cada vez mais, e sem a vontade, o esforço, haveria estagnação.

Krishnamurti: Pode o eu em algum tempo libertar-se da auto-escravização e suas ilusões? Não deve o eu deixar de existi, para que tenha existência o “Sem Nome”? E esse lutar constante pelo alvo final não tem apenas o efeito de dar mais força ao eu? Vós lutais pelo alvo final, outro anda atrás das coisas mundanas; vosso esforço pode ser mais nobilitante, mas é ainda um desejo de ganho, não?

Yogue: Dominei todas as paixões, todos os desejos, exceto esse, que é mais do que um desejo: é a única coisa para que vivo.

Krishnamurti: Deveis então morrer para ela também, como estais morto para outros desejos. Desejais experimentar o “Sem Nome”, mas o experimentador é sempre condicionado pela sua experiência. Se sabeis que estais experimentando Deus, então esse Deus é a projeção de vossas esperanças e ilusões.

Yogue: Quereis dizer que tudo o que construí com tanto fervor e esforço tem de ser destruído? E devo eu próprio ser o instrumento de sua destruição?

Krishnamurti: Qualquer que seja a atividade e por mais nobre que seja o alvo, todo esforço por parte do eu se conserva sempre na esfera de suas próprias lembranças e projeções, conscientes ou inconscientes. Qualquer que seja o movimento da mente, do eu, este nunca poderá libertar-se; poderá subir de um nível para outro nível, passar de uma escolha estúpida para uma escolha mais inteligente, mas seu movimento estará sempre dentro da esfera que ele próprio criou. Podeis, e deveis, estar tranquilo, sem esperança, sem aspiração, sem desejo.

Yogue: Mas no meu estado atual, que se deve fazer?

Krishnamurti: Tão grande é vossa ânsia de ir para diante, tão impaciente estais por terdes uma direção positiva, que na verdade não estais escutando.

Na manhã seguinte ele voltou. O sol começava a mostrar-se por cima das árvores. Tudo estava muito quieto, e as atividades humanas, ao longo do rio, ainda não haviam começado.

Yogue: Apesar de minha aparente impaciência e ansiedade, interiormente devo ter estado muito atento a tudo o que ontem dissestes; porque hoje de manhã despertei com um certo sentimento de liberdade e uma claridade que vêm da compreensão. Podemos continuar de onde ficamos?

Krishnamurti: Podemos considerar de maneira nova o problema. A mente está incessantemente ativa, recebendo impressões. Aprisionada que está em suas lembranças e reações, ela é um agregado de desejos e conflitos numerosos. Esta atividade psicológica do eu e do meu tem de cessar, pois tal atividade cria problemas e produz agitação e desordem. Mas qualquer esforço para cessar essa atividade resulta em maior atividade e agitação.

Yogue: Isto é verdade, já o notei. Quanto mais tentamos tornar tranquila nossa mente, tanto mais resistência se cria, e nosso esforço se consome no quebrar essa resistência.

Krishnamurti: Se estais cônscio do caráter vicioso desse círculo e reconheceis que não o podeis quebrar, então graças a esse percebimento o observador deixa de existir.

Yogue: Isso parece a coisa mais difícil do mundo – suprimir o observador. Já o tentei, mas até agora sem êxito nenhum. Como se faz isso?

Krishnamurti: Não estais ainda pensando em termos de eu e não-eu? Afinal, o pensador e seu pensamento não são dois processos diferentes, mas nós os fazemos tais, a fim de atingirmos um fim desejado. Nosso problema não é de como suprimir o observador, mas de compreender o desejo.

Yogue: Deve existir uma entidade capaz de compreender, um estado separado da ignorância.

Krishnamurti: Dizíamos que é essencial compreender o desejo. Um desejo se opõe ao outro, o desejo mais proveitoso entra em conflito com o menos proveitoso etc. Embora por muitas razões ele possa separar-se, o fato é que o desejo é um processo indivisível, não é?

Yogue: Agora que me chamais a atenção para isso, começo a sentir que de fato assim é.

Krishnamurti: O desejo pode fracionar-se em muitos impulsos opostos e em conflito entre si, mas tudo é sempre desejo. Esses impulsos concorrem para a formação do eu, com suas memórias e ansiedades, e a atividade total desse eu está limitada à esfera do desejo. Não é exato?

Yogue: Tende a bondade de continuar. Estou escutando com todo meu ser, procurando penetrar além das palavras, profundamente, e sem esforço.

Krishnamurti: Nosso problema, pois, é este: é possível a atividade do desejo cessar, sem nenhuma espécie de compulsão? Só quando isso acontece, a mente pode ficar tranquila. Se estais cônscio disso, como um fato, a atividade do desejo não cessa?

Yogue: Só por um período muito breve, depois a atividade habitual se reinicia. Como fazer cessar essa atividade? ... mas ao mesmo tempo que pergunto, vejo como é absurdo perguntar!

Krishnamurti: Sabeis como somos ávidos; queremos sempre mais e mais. A exigência da cessação do eu se torna a nova atividade do eu; porém ela é uma outra forma de desejo. Só quando a mente se acha espontaneamente tranquila, pode a “Outra Coisa”, aquilo que não é produto da mente, surgir na existência.

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DIÁLOGO COM UMA ESCRITORA – Krishnamurti


Ela fora escritora e seus livros tinham ampla circulação. Disse que só após muitos anos teve possibilidade de vir para a Índia. Decidiu abandonar sua família e viera na esperança de encontrar um pouco de paz. Não conhecia aqui pessoa alguma ao chegar.

Tinha ido primeiro para um certo ashram, a respeito do qual havia lido. O guru, lá, era um velho suave, que tinha tido certas experiências religiosas, das quais vivia agora, e repetia constantemente certas frases sânscritas, que seus discípulos entendiam.

Foi bem recebida nesse retiro e achou fácil ajustar-se a suas regras. Passou lá vários meses mas, não encontrando a paz desejada, anunciou um dia que ia partir. Os discípulos mostraram-se horrorizados, pois achavam impossível que alguém pensasse em deixar tão excelso mestre de sabedoria.

Entretanto ela partiu. Dirigiu-se então a um ashram situado nas montanhas, onde ficou algum tempo, feliz a princípio, pois o lugar era belo. A disciplina era um tanto rigorosa, o que todavia não lhe causava desprazer. Mas os discípulos veneravam uma tradição morta, uma sabedoria morta, um instrutor morto. Ao partir dali, mostraram-se também chocados, ameaçando-a com a treva espiritual.

Foi em seguida para um ashram muito afamado, onde se repetiam certas asserções religiosas e se praticavam meditações prescritas, mas gradualmente descobriu que se estava deixando prender e destruir numa armadilha. Nem o instrutor nem os discípulos queriam a liberdade, embora falassem a respeito dela. Todos tinham muito empenho em manter o ashram, em prender os discípulos, em nome do guru.

Mais uma vez rompeu as amarras e foi-se para outra parte; mais uma vez se repetiu a mesma história, com ligeiras variações.




Escritora: Posso assegurar-vos que estive na maioria dos ashrams importantes, e em todos queriam prender-me, adaptar-me à força ao padrão de pensamento que chamam “A Verdade”. Por que nos querem forçar a ajustar-nos a um dado padrão, ao modo de vida instituído pelo instrutor?

Krishnamurti: A submissão dá satisfação; garante segurança ao discípulo e confere poder tanto ao discípulo como ao instrutor. Pela submissão fortalece-se a autoridade; a submissão leva a um estado de embotamento, a que chamam paz. A submissão anestesia a mente ao conflito. Queremos tornar-nos embotados, insensíveis; queremos fechar as portas ao feio, e desse modo nos fazemos também insensíveis ao belo. O instrutor sabe e vós não sabeis. Seria insensato de vossa parte, descobrir qualquer coisa por vós mesmo, quando o instrutor que vos conforta já a conhece; e assim vos tornais seu escravo. O instrutor e o discípulo prosperam na exploração mútua. Ninguém vai a um ashram para ter liberdade. Vai-se lá para ser confortado, viver uma vida fechada na disciplina e na crença, para adorar e também ser adorado; e a tudo isso se dá o nome de “busca da verdade”.

Escritora: Num desses lugares, onde o instrutor está subindo em reputação e popularidade, quando eu disse que vinha ver-vos, ergueram as mãos para o céu e alguns tinham lágrimas nos olhos. Mas este foi o último capítulo! Vim aqui para falar a respeito de uma coisa que me está a premir o coração. A dor da solidão excede às minhas forças; não me refiro à solidão física, que esta é agradável, mas à profunda dor interior de estar sozinha. Que devo fazer a esse respeito?

Krishnamurti: Quando perguntais pelo caminho, vos tornais seguidora de um guia. Porque existe essa dor da solidão, desejais ajuda, e o próprio desejo de ser conduzido por um guia abre a porta à compulsão, à imitação e ao temor. Só a verdade liberta, e não o desejo de ser livre. Para compreender o novo, não deve a mente deixar de funcionar? Não deve estar tranquila, sem procurar nenhuma via de fuga dessa solidão? Não é necessário observar o movimento da solidão, seu movimento de desespero e esperança? A própria atividade da mente é um processo de isolamento, de resistência. O problema, portanto, não é a dor da solidão, mas a própria mente, que projeta o problema. A compreensão da mente é o começo da libertação.

Escritora: Mas não é necessário esforço, esforço para compreender?

Krishnamurti: Pode-se compreender alguma coisa pela luta, pelo conflito? Não vem a compreensão quando a mente está completamente tranquila, quando cessa a ação do esforço? A mente obrigada a estar quieta não é uma mente tranquila. É uma mente morta, insensível. Quando existe o desejo, não existe a beleza do silêncio.




DIÁLOGO COM UM POLÍTICO – Krishnamurti


Ele era membro do governo e cônscio de sua própria importância. Falou de seus deveres e responsabilidades para com o povo; explicou por que seu partido era superior à oposição; discorreu sobre os esforços que estavam fazendo para acabar com a corrupção e sobre a dificuldade de encontrar homens incorruptíveis e ao mesmo tempo eficientes.

Perguntou por que havia a ânsia de poder. O que se entende por poder? Todo indivíduo e todo grupo aspira ao poder – para si próprio ou para o partido. O partido é um prolongamento do próprio indivíduo. O asceta busca poder na renúncia, a mãe por meio de seu filho.

Há o poder da eficiência, com suas crueldades; e o poder da máquina, nas mãos de uns poucos; há a dominação de um indivíduo por outro, a exploração dos estúpidos pelos espertos; o poder do dinheiro, o poder do nome e da palavra. Todos ambicionamos uma certa espécie de poder, seja sobre nós mesmos, seja sobre os outros.

Esse impulso para o poder produz uma certa felicidade e satisfação. E como nos satisfazemos facilmente! O conforto que nos dá o alcançarmos uma satisfação nos torna cegos. Toda satisfação causa cegueira. Por que buscamos o poder?

Político: Suponho que seja porque ele nos proporciona conforto físico, posição social e respeitabilidade – quando exercido dentro das normas aprovadas.

Krishnamurti: Buscamos o poder tanto interiormente quanto exteriormente. Por que? Por que nos prostramos diante da autoridade, de um livro, de uma pessoa, do Estado ou de uma crença? Antigamente era a autoridade do sacerdote que nos acorrentava, hoje é a autoridade do técnico, do especialista. Já não notastes a maneira como tratamos o homem que tem um título, o homem de posição, o homem poderoso? O poder, sob alguma forma, parece dominar-nos a vida: o poder de um sobre muitos, a utilização de um por outro ou a mútua utilização.

Político: O que entendeis por “utilização de outro”?

Krishnamurti: Isto é simples, não? Nós nos servimos uns dos outros para satisfação mútua. Necessitais de votos para galgar o poder; fazeis uso do povo para obterdes o que desejais – e o povo tem necessidade do que prometeis. A mulher necessita do homem, e o homem da mulher. Nossas relações estão baseadas na necessidade e na utilização. Tais relações são intrinsecamente violentas, e esta é a razão por que a violência constitui a base de nossa sociedade. Enquanto eu fizer uso de outra pessoa para minha satisfação pessoal ou para a concretização de uma ideologia, só poderá haver medo, desconfiança e oposição.

Político: Mas é impossível viver sem essa necessidade mútua.

Krishnamurti: Eu tenho necessidade do carteiro, mas se me sirvo dele para satisfazer um certo impulso interior, nesse caso a necessidade social se torna uma necessidade psicológica e nossa relação sofreu uma mudança radical. A necessidade psicológica torna inevitável a busca de poder, e esse poder é utilizado como meio de satisfação. O homem que é ambicioso para si mesmo ou para seu partido, ou aquele que deseja alcançar um ideal, é um fator de desintegração na sociedade.

Político: A ambição não é inevitável?

Krishnamurti: Por que admiti-la como inevitável? A crueldade do homem para com o homem é inevitável? Não desejais pôr-lhe fim?

Político: Se não sou cruel para com outros, alguém será cruel para comigo, e assim sendo tenho de manter-me por cima.

Krishnamurti: Estar por cima – eis justamente a aspiração de todo indivíduo, todo grupo, toda ideologia, e por causa dessa aspiração é que se mantêm em pleno vigor a crueldade e a violência. Como pode haver paz quando há utilização mútua? O poder de uma ideia e o poder da espada são iguais; todos os dois são destrutivos. A ideia e a crença, tal como a espada, lançam o homem contra o homem.

Político: Por que então somos dominados por esse desejo de poder?

Krishnamurti: A luta pelo poder não é um dos meios mais “respeitáveis” de fuga a nós mesmos? Cada um luta por fugir a sua própria insuficiência, sua pobreza interior, sua solidão, seu isolamento. Considerai o que sucederia se vos vísseis ameaçado de perder todo vosso poder, vossa posição, vossa riqueza? Resistiríeis à ameaça, não? Resistiríeis com violência ou com argumentos racionais e sutis. Se fôsseis capaz de, voluntariamente, abrir mão de todas vossas aquisições, vos tornaríeis o mesmo que nada, não é verdade?

Político: Parece-me que sim, e isso é muito desalentador. Naturalmente eu não desejo ser o mesmo que nada.

Krishnamurti: E tendes assim a ostentação exterior, sem nenhuma substância interior, sem o incorruptível tesouro interior. Desejais a exibição exterior, e outro também a deseja, e desse conflito resulta o ódio e o medo, a violência e a deterioração. Vós, com vossa ideologia, sois tão vazio como a oposição, e é por isso que vos estais destruindo mutuamente, em nome da paz, da eficiência, do emprego adequado ou em nome de Deus. Como quase todo mundo deseja estar de cima, edificamos uma sociedade de violência, conflito, inimizade.

Político: Mas como erradicar tudo isso?

Krishnamurti: Não sendo ambicioso, ávido de poder, de nome, posição; sendo o que sois, sendo simples, sendo ninguém. O pensar negativo é o supremo grau de inteligência.

Político: Mas a crueldade e a violência que campeiam no mundo não podem ser eliminadas por meu esforço individual. E não levaria um tempo infinito, até que todos os outros fossem transformados?

Krishnamurti: Os outros sois vós mesmo. Esta pergunta nasce do desejo de evitar vossa transformação imediata, não é verdade? Para podermos ir longe, temos que começar pelo que está perto. Mas na verdade não desejais transformar-vos; desejais que as coisas continuem como estão, principalmente se estais “por cima” e, assim, dizeis que levará um tempo infinito para se transformar o mundo. O mundo sois vós mesmo; o mundo não poderá ser transformado enquanto não estiverdes transformado. A felicidade está na transformação e não na avidez.

Político: Mas eu sou regularmente feliz. Naturalmente há em mim coisas de que não gosto, mas não tenho tempo nem disposição para me ocupar com elas.

Krishnamurti: Só um homem feliz pode criar uma nova ordem social; mas não é feliz aquele que está identificado com uma ideologia ou crença, ou que está todo absorvido em qualquer atividade social ou individual. A felicidade não é um fim em si mesma. Ela vem com a compreensão “do que é”. A felicidade que se compra é meramente satisfação; a felicidade conquistada pela ação, pelo poder, é mera sensação. E como a sensação se acaba depressa, há sempre a ânsia de mais e cada vez mais. Enquanto o mais for um meio para a felicidade, o fim será sempre a insatisfação, o conflito, o sofrimento. A felicidade não é uma lembrança; é o estado que se torna existente com a Verdade, sempre nova, nunca contínua.

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