7.8.17

UMA EXPERIÊNCIA DE BEM-AVENTURANÇA – Krishnamurti


Ele era moço ainda, mas chefe de família e conceituado homem de negócios. Parecia muito atribulado e preocupado, e ansioso por dizer alguma coisa. Começou dizendo:

Há tempos ocorreu-me uma experiência extraordinária, que me arrebatou o coração; entretanto se foi e dela só me resta a lembrança. Rogo-vos me ajudeis a recuperá-la. Uma certa manhã despertei muito cedo; a cidade dormia ainda e seus rumores não haviam começado. Senti-me impelido a sair; vesti-me rapidamente e saí para a rua. A primavera estava no início e o céu era de um azul pálido.

Apoderou-se de mim um forte sentimento de que devia ir ao parque, distante cerca de uma milha. Desde o instante que transpus a porta da rua, veio-me um estranho sentimento de leveza, como se estivesse caminhando no ar. Até os tijolos dos edifícios pareciam vivos e luminosos. Todo objeto, tudo parecia parte de mim mesmo. Nada estava separado de mim, não havia um eu separado da árvore, ou do jornal jogado na sarjeta, ou das aves. Era um estado de consciência nunca experimentado antes.

No caminho do parque, havia uma loja de flores, e enquanto as contemplava, comecei a sorrir, possuído de uma alegria nunca experimentada antes. As flores estavam a falar-me e eu a falar com elas; faziam parte de mim. Tudo era vivo e eu amava todas as coisas. Eu era o perfume daquelas flores, mas não havia um eu a cheirar as flores. Estive ali mais de vinte minutos, embora não tivesse noção do tempo.

O tempo cessou; não havia passado, presente ou futuro. Só havia – oh, não sei expressar por palavras. Havia uma Presença – não, não é esta a palavra. Era como se a Terra, com tudo o que nela existe, tivesse recebido uma bênção do céu e eu fazia parte dela.

Ao aproximar-me do parque, fiquei completamente fascinado pela beleza daquelas árvores que eu já conhecia. As folhas dançavam cheias de vida, toda a riqueza da Terra se concentrava numa única folha. Senti o coração acelerar-se; e mal podia respirar.

Sentei-me num banco, as lágrimas rolavam-me pelas faces. Rodeava-me um silêncio total, mas esse silêncio estava purificando todas as coisas, lavando-as da dor e do sofrimento. Ao internar-me mais no parque, havia música no ar. Fiquei surpreso, pois não havia casas nas imediações e por certo ninguém teria levado um rádio ao parque àquela hora da manhã. A música fazia parte daquela totalidade. Toda bondade, toda a compaixão do mundo estava presente naquele parque, Deus ali estava.

Não sou religioso, mas naquele parque estava presente um Ser, no qual todas as coisas viviam e agiam. As pernas me tremiam, forçando-me a sentar de novo, recostado numa árvore. O tronco era uma entidade viva como eu, e eu fazia parte daquela árvore, daquele Ser, do mundo. Devo ter desmaiado. Aquilo foi excessivo para mim: as cores intensas e vivas, as folhas, as pedras, as flores, a incrível beleza de todas as coisas. E por sobre tudo aquilo, a bênção de...

Quando voltei a mim, o sol já brilhava e, sem forças para voltar para casa, deixei-me ficar ali, sentado, reunindo as forças e sem ousar pensar. Depois voltei para casa, mas a experiência durou uns dois dias e, tão subitamente como veio, desapareceu.

Começou então meu tormento, eu queria de volta aquela experiência extraordinária, viva, queria tornar a viver, e para sempre, naquele mundo beatífico. Tudo isso aconteceu há dois anos. Andei pensando seriamente em abandonar tudo e ir-me para um recanto solitário do mundo, mas o coração me diz que não a recuperaria por essa maneira. Pensei em partir para a Índia, mas abandonei também tal ideia.

Aqui estou, pois. Tudo eu daria, minha vida e todos meus bens, para tornar a viver naquele mundo. Que devo fazer?”

Resultado de imagem para bem aventurança

Krishnamurti: Ele veio a vós, sem o terdes chamado, senhor. Vós nunca o procurastes. Enquanto o estiverdes procurando, não o tereis nunca. Justamente o desejo de tornar a viver aquele estado extático está impedindo a vinda do novo, a experiência nova daquela suprema felicidade. Tivestes a experiência e estais vivendo agora da lembrança morta de ontem.

Estais dizendo que devo pôr fora e esquecer tudo o que foi e ir arrastando de dia em dia esta minha insignificante existência, interiormente esfomeado?”

Krishnamurti: Se não continuardes a relembrar e a pedir mais – o que constitui um verdadeiro esforço – será então possível que aquela mesma coisa, que escapa inteiramente ao vosso controle, atue por sua própria vontade. A avidez, mesmo com um alvo sublime, só pode gerar sofrimento. Aquela bem-aventurança vem espontaneamente, não a busqueis.


Nenhum comentário:

Postar um comentário