Ele era moço ainda, mas chefe
de família e conceituado homem de negócios. Parecia muito
atribulado e preocupado, e ansioso por dizer alguma coisa. Começou
dizendo:
“Há tempos ocorreu-me uma
experiência extraordinária, que me arrebatou o coração;
entretanto se foi e dela só me resta a lembrança. Rogo-vos me
ajudeis a recuperá-la. Uma certa manhã despertei muito cedo; a
cidade dormia ainda e seus rumores não haviam começado. Senti-me
impelido a sair; vesti-me rapidamente e saí para a rua. A primavera
estava no início e o céu era de um azul pálido.
“Apoderou-se de mim um forte
sentimento de que devia ir ao parque, distante cerca de uma milha.
Desde o instante que transpus a porta da rua, veio-me um estranho
sentimento de leveza, como se estivesse caminhando no ar. Até os
tijolos dos edifícios pareciam vivos e luminosos. Todo objeto, tudo
parecia parte de mim mesmo. Nada estava separado de mim, não havia
um eu separado da árvore, ou do jornal jogado na sarjeta, ou das
aves. Era um estado de consciência nunca experimentado antes.
“No caminho do parque, havia
uma loja de flores, e enquanto as contemplava, comecei a sorrir,
possuído de uma alegria nunca experimentada antes. As flores estavam
a falar-me e eu a falar com elas; faziam parte de mim. Tudo era vivo
e eu amava todas as coisas. Eu era o perfume daquelas flores, mas não
havia um eu a cheirar as flores. Estive ali mais de vinte minutos,
embora não tivesse noção do tempo.
“O tempo cessou; não havia
passado, presente ou futuro. Só havia – oh, não sei expressar por
palavras. Havia uma Presença – não, não é esta a palavra. Era
como se a Terra, com tudo o que nela existe, tivesse recebido uma
bênção do céu e eu fazia parte dela.
“Ao aproximar-me do parque,
fiquei completamente fascinado pela beleza daquelas árvores que eu
já conhecia. As folhas dançavam cheias de vida, toda a riqueza da
Terra se concentrava numa única folha. Senti o coração
acelerar-se; e mal podia respirar.
“Sentei-me num banco, as
lágrimas rolavam-me pelas faces. Rodeava-me um silêncio total, mas
esse silêncio estava purificando todas as coisas, lavando-as da dor
e do sofrimento. Ao internar-me mais no parque, havia música no ar.
Fiquei surpreso, pois não havia casas nas imediações e por certo
ninguém teria levado um rádio ao parque àquela hora da manhã. A
música fazia parte daquela totalidade. Toda bondade, toda a
compaixão do mundo estava presente naquele parque, Deus ali estava.
“Não sou religioso, mas
naquele parque estava presente um Ser, no qual todas as coisas viviam
e agiam. As pernas me tremiam, forçando-me a sentar de novo,
recostado numa árvore. O tronco era uma entidade viva como eu, e eu
fazia parte daquela árvore, daquele Ser, do mundo. Devo ter
desmaiado. Aquilo foi excessivo para mim: as cores intensas e vivas,
as folhas, as pedras, as flores, a incrível beleza de todas as
coisas. E por sobre tudo aquilo, a bênção de...
“Quando voltei a mim, o sol
já brilhava e, sem forças para voltar para casa, deixei-me ficar
ali, sentado, reunindo as forças e sem ousar pensar. Depois voltei
para casa, mas a experiência durou uns dois dias e, tão subitamente
como veio, desapareceu.
“Começou então meu
tormento, eu queria de volta aquela experiência extraordinária,
viva, queria tornar a viver, e para sempre, naquele mundo beatífico.
Tudo isso aconteceu há dois anos. Andei pensando seriamente em
abandonar tudo e ir-me para um recanto solitário do mundo, mas o
coração me diz que não a recuperaria por essa maneira. Pensei em
partir para a Índia, mas abandonei também tal ideia.
“Aqui estou, pois. Tudo eu
daria, minha vida e todos meus bens, para tornar a viver naquele
mundo. Que devo fazer?”

Krishnamurti: Ele veio a vós,
sem o terdes chamado, senhor. Vós nunca o procurastes. Enquanto o
estiverdes procurando, não o tereis nunca. Justamente o desejo de
tornar a viver aquele estado extático está impedindo a vinda do
novo, a experiência nova daquela suprema felicidade. Tivestes a
experiência e estais vivendo agora da lembrança morta de ontem.
“Estais dizendo que devo pôr
fora e esquecer tudo o que foi e ir arrastando de dia em dia esta
minha insignificante existência, interiormente esfomeado?”
Krishnamurti: Se não
continuardes a relembrar e a pedir mais – o que constitui um
verdadeiro esforço – será então possível que aquela mesma
coisa, que escapa inteiramente ao vosso controle, atue por sua
própria vontade. A avidez, mesmo com um alvo sublime, só pode gerar
sofrimento. Aquela bem-aventurança vem espontaneamente, não a
busqueis.
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