Yogue:
A meditação é da máxima importância para mim; medito
regularmente duas vezes ao dia, há mais de vinte e cinco anos. No
começo era muito difícil, eu não tinha controle dos meus
pensamentos e havia distrações demais; porém gradualmente consegui
barrar-lhes o acesso, quase totalmente. Tenho estado com vários
gurus e seguido diferentes sistemas de meditação, mas por alguma
razão não me sinto satisfeito com nenhum deles. Todos eles levavam
até um certo ponto, conforme o sistema, e verifiquei que estava me
tornando um mero resultado do sistema. Mas graças a essas
experiências, aprendi a dominar completamente meus pensamentos e
minhas emoções. Pratiquei a respiração profunda, para aquietar o
corpo e o espírito. Repeti a palavra sagrada e jejuei por longos
períodos; moralmente procedo da maneira correta e as coisas mundanas
não têm atração para mim. Mas após todos estes anos de lutas e
esforços, de disciplina e renúncia, não encontrei a paz, a
bem-aventurança de que nos falam as Grandes Entidades. Em raras
ocasiões tenho encontrado momentos luminosos de profundo êxtase;
entretanto pareço incapaz de traspassar a ilusão de minha própria
mente, e nela me vejo aprisionado.
Estávamos
sentados à margem de um vasto rio. A cidade era mais acima, a breve
distância dali. O sol descia atrás de nós e sombras caíam sobre a
água. Era um belo e tranquilo entardecer, com massas de nuvens a
leste, e o rio profundo mal parecia mover-se. A toda essa beleza ele
parecia completamente alheio; estava inteiramente absorvido em seu
problema.
Krishnamurti:
Durante todos estes anos cessastes alguma vez de lutar pelo alvo
final? Pode o processo do tempo levar ao Eterno?
Yogue:
Nunca deixei de lutar por aquilo a que aspira meu coração. Não
ouso parar, se parasse deterioraria. É da própria natureza das
coisas subir cada vez mais, e sem a vontade, o esforço, haveria
estagnação.
Krishnamurti:
Pode
o eu em algum tempo libertar-se da auto-escravização e suas
ilusões? Não deve o eu deixar de existi, para que tenha existência
o “Sem Nome”? E esse lutar constante pelo alvo final não tem
apenas o efeito de dar mais força ao eu? Vós lutais pelo alvo
final, outro anda atrás das coisas mundanas; vosso esforço pode ser
mais nobilitante, mas é ainda um desejo de ganho, não?
Yogue:
Dominei todas as paixões, todos os desejos, exceto esse, que é mais
do que um desejo: é a única coisa para que vivo.
Krishnamurti:
Deveis então morrer para ela também, como estais morto para outros
desejos. Desejais experimentar o “Sem Nome”, mas o experimentador
é sempre condicionado pela sua experiência. Se sabeis que estais
experimentando Deus, então esse Deus é a projeção de vossas
esperanças e ilusões.
Yogue:
Quereis dizer que tudo o que construí com tanto fervor e esforço
tem de ser destruído? E devo eu próprio ser o instrumento de sua
destruição?
Krishnamurti:
Qualquer que seja a atividade e por mais nobre que seja o alvo, todo
esforço por parte do eu se conserva sempre na esfera de suas
próprias lembranças e projeções, conscientes ou inconscientes.
Qualquer que seja o movimento da mente, do eu, este nunca poderá
libertar-se; poderá subir de um nível para outro nível, passar de
uma escolha estúpida para uma escolha mais inteligente, mas seu
movimento estará sempre dentro da esfera que ele próprio criou.
Podeis, e deveis, estar tranquilo, sem esperança, sem aspiração,
sem desejo.
Yogue:
Mas no meu estado atual, que se deve fazer?
Krishnamurti:
Tão grande é vossa ânsia de ir para diante, tão impaciente estais
por terdes uma direção positiva, que na verdade não estais
escutando.
Na manhã
seguinte ele voltou. O sol começava a mostrar-se por cima das
árvores. Tudo estava muito quieto, e as atividades humanas, ao longo
do rio, ainda não haviam começado.
Yogue:
Apesar de minha aparente impaciência e ansiedade, interiormente devo
ter estado muito atento a tudo o que ontem dissestes; porque hoje de
manhã despertei com um certo sentimento de liberdade e uma claridade
que vêm da compreensão. Podemos continuar de onde ficamos?
Krishnamurti:
Podemos considerar de maneira nova o problema. A mente está
incessantemente ativa, recebendo impressões. Aprisionada que está
em suas lembranças e reações, ela é um agregado de desejos e
conflitos numerosos. Esta atividade psicológica do eu e do meu tem
de cessar, pois tal atividade cria problemas e produz agitação e
desordem. Mas qualquer esforço para cessar essa atividade resulta em
maior atividade e agitação.
Yogue:
Isto é verdade, já o notei. Quanto mais tentamos tornar tranquila
nossa mente, tanto mais resistência se cria, e nosso esforço se
consome no quebrar essa resistência.
Krishnamurti:
Se estais cônscio do caráter vicioso desse círculo e reconheceis
que não o podeis quebrar, então graças a esse percebimento o
observador deixa de existir.
Yogue:
Isso parece a coisa mais difícil do mundo – suprimir o observador.
Já o tentei, mas até agora sem êxito nenhum. Como se faz isso?
Krishnamurti:
Não estais ainda pensando em termos de eu e não-eu? Afinal, o
pensador e seu pensamento não são dois processos diferentes, mas
nós os fazemos tais, a fim de atingirmos um fim desejado. Nosso
problema não é de como suprimir o observador, mas de compreender o
desejo.
Yogue:
Deve existir uma entidade capaz de compreender, um estado separado da
ignorância.
Krishnamurti:
Dizíamos que é essencial compreender o desejo. Um desejo se opõe
ao outro, o desejo mais proveitoso entra em conflito com o menos
proveitoso etc. Embora por muitas razões ele possa separar-se, o
fato é que o desejo é um processo indivisível, não é?
Yogue:
Agora que me chamais a atenção para isso, começo a sentir que de
fato assim é.
Krishnamurti:
O desejo pode fracionar-se em muitos impulsos opostos e em conflito
entre si, mas tudo é sempre desejo. Esses impulsos concorrem para a
formação do eu, com suas memórias e ansiedades, e a atividade
total desse eu está limitada à esfera do desejo. Não é exato?
Yogue:
Tende a bondade de continuar. Estou escutando com todo meu ser,
procurando penetrar além das palavras, profundamente, e sem esforço.
Krishnamurti:
Nosso problema, pois, é este: é possível a atividade do desejo
cessar, sem nenhuma espécie de compulsão? Só quando isso acontece,
a mente pode ficar tranquila. Se estais cônscio disso, como um fato,
a atividade do desejo não cessa?
Yogue:
Só por um período muito breve, depois a atividade habitual se
reinicia. Como fazer cessar essa atividade? ... mas ao mesmo tempo
que pergunto, vejo como é absurdo perguntar!
Krishnamurti:
Sabeis como somos ávidos; queremos sempre mais e mais. A exigência
da cessação do eu se torna a nova atividade do eu; porém ela é
uma outra forma de desejo. Só quando a mente se acha espontaneamente
tranquila, pode a “Outra Coisa”, aquilo que não é produto da
mente, surgir na existência.

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