Jiddu
Krishnamurti nasceu numa vila chamada Madanapale. Eu estive na casa onde ele
nasceu e viveu. Um belo lugar. A casa é mantida hoje como um monumento dedicado
a ele. No fim do século 19 e começo do século 20, a teosofia espalhou-se por
todo o mundo. Esse movimento foi iniciado por Madame Blavatsky, que era uma
mulher muito culta e mística.
Nessa época
muitos britânicos e outros europeus, buscadores do misticismo, viajavam à Índia
para explorar a vida mística, entre eles estava Max Muller, Paul Brunton e
outros. Naquela época era uma aventura, você tinha que viajar a cavalo, tinha
que pedir informações a pessoas, encontrar o guru adequado etc.
Madame
Blavatsky foi ao Tibete, depois veio à Índia e finalmente estabeleceu a sede
mundial da teosofia no Sul do país, em Adyar, e ali o sonho dos teósofos era
produzir o ser perfeito. Os teósofos na Índia conseguiram organizar a mais
fantástica biblioteca do mundo, onde juntaram todo tipo de livro sobre o
ocultismo.
Teósofos
como Annie Besant e Leadbeater possuíam um brilhante intelecto, sem dúvida, no
entanto não tinham realização interior. Então começaram a procurar um corpo
apropriado que seria usado pelo Instrutor do Mundo (Maitreya), e puseram
Krishnamurti num treinamento severo para prepara-lo, inclusive com técnicas de
meditação, e ele se tornou um fantástico ser humano.
Quando
Krishnamurti tinha 27 ou 28 anos, a Sociedade Teosófica decidiu anunciar ao
mundo que nele se manifestaria o Instrutor Mundial, que o instrutor perfeito
tinha chegado. As pessoas ficaram muito interessadas em Krishnamurti.
Krishnamurti
então lhes disse: “Eu não sou o Instrutor do Mundo.” E com isso toda a
Sociedade Teosófica desmoronou. Ele teve a coragem, o bom-senso e a sabedoria
de dizer: “Eu não sou”. A grande maioria das pessoas diria: “Sou a reencarnação
de Buddha, Jesus” e tudo o mais. Mas ele teve o bom-senso de dizer: “Não sou
isso que estão tentando me tornar”.
Em
seguida abandonou o movimento teosófico e começou a dar palestras, era um
brilhante orador. Quando falava, encantava as pessoas. Falava de um modo
completamente mágico.
Quando
eu tinha 18 anos, alguém me convidou para assistir a algumas de suas palestras
em vídeo. Era um grupo de estudos. As pessoas diziam: “Você tem que ler Krishnamurti”.
Nos círculos intelectuais da Índia, se você não lesse Krishnamurti, Kirkegaard
e Dostoievsky, era considerado uma pessoa sem cérebro. Era a moda.
Às segundas-feiras
passavam vídeos de Krishnamurti, liam seus livros. Alguns amigos me convidaram
e eu fui. Quando o vi, percebi imediatamente sua integridade, que era notável. Não
li seus livros, apenas assisti aos vídeos. Na verdade eu não tinha tempo de ler
as palavras de ninguém. A vida me chamava o tempo todo. Por isso não tinha
tempo de ouvir meus pais, meus professores ou Krishnamurti. Então deixei o
círculo de estudos e segui minha vida.
Frequentei
esse grupo durante cinco segundas-feiras, durante uma hora e meia cada. Depois do
vídeo, começavam a discutir seus ensinamentos, e tudo acabava numa grande
confusão, porque ninguém entendia o que ele dizia. Ele se recusava a usar
qualquer método, qualquer exemplo, qualquer parábola ou história, nada. Apenas análise,
dissecação. Isto é chamado Jnana Marga, o caminho do intelecto.
Dos sete
bilhões de pessoas desse planeta, se você encontrar dez mil pessoas que têm
esse tipo de intelecto cortante e analítico, que pode seguir analisando cada
coisa... eu creio que você não vai encontrar dez mil pessoas assim. Talvez você
encontre mil pessoas, e essas mil talvez não estejam interessadas no processo
espiritual, talvez estejam interessadas em usar seu intelecto em coisas materiais.
Ao redor
de Krishnamurti todos podiam sentir que aquele homem era especial, mas ninguém
entendia o que ele falava, porque ele se recusava a fazer o papel de guru, ele
se recusava a iniciar alguém, se recusava a usar qualquer tipo de método,
qualquer tipo de processo.
Ele disse:
“De qualquer maneira a iluminação acontecerá”. É verdade. Ela acontecerá, mas
talvez após um milhão de vidas. Então, se você tiver pressa, deve ter aquele
tipo de intelecto, que é raro. Ou então deve usar seus outros instrumentos, que
são o corpo, a energia, as emoções, todas essas coisas. Krishnamurti podia com
seu intelecto chegar àquelas verdades, mas ninguém mais podia.
Ele era
um fantástico ser humano. Enquanto estava nesse mundo, podia-se sentir a
fragrância. Quando se foi, só ficaram os livros, porque não havia um processo
vivo.
Um amigo
meu disse sobre Krishnamurti: “Quando entrei na sala onde estava dando uma palestra,
senti que adentrei um muro de amor. Esse sentimento bateu em minha face”.
As pessoas
nunca associam Krishnamurti ao amor. Ele não era um homem que demonstrava seus
sentimentos. Era rígido, sério, definitivamente não parecia amoroso, mas era
amoroso, absolutamente compassivo. Suas palavras eram como facas: analisavam,
dissecavam.
O próprio
Krishnamurti não queria que as pessoas se apoiassem nele. Dizia que se se
apoiassem ficariam presas. Se houvesse no mundo um milhão de mentes puramente
racionais, esse método seria fabuloso para se seguir. Mas nesse mundo as
pessoas ainda não estão preparadas para isso. É um belo processo espiritual,
mas...
Krishnamurti
era como uma flor. Sua fragrância foi sentida enquanto estava neste mundo. Suas
palavras são boas se você quiser usa-las como um tipo de exercício intelectual.
Se puder entender algo, elas são uteis, brilhantes.
Krishnamurti
Sri Aurobindo

Swami Nirmalananda