7.3.17

O PRAZER, A BELEZA, A RELIGIÃO E A MORTE - "O Profeta" de Khalil Gibran

Então um ermitão que visitava a cidade uma vez por ano, acercou-se e
disse: "Fala-nos do Prazer."

E ele respondeu, dizendo:
"O prazer é uma canção de liberdade.
Mas não é a liberdade.
É o desabrochar de vossos desejos,
Mas não a sua fruta.
É um abismo olhando para um cume.
Mas não é nem o abismo nem o cume.
É o engaiolado ganhando o espaço,
Mas não é o espaço que o envolve.
Sim, na verdade, o prazer é uma canção de liberdade.
E de bom grado eu vos ouviria cantá-la de todo vosso coração; porém,
não gostaria que perdêsseis vossos corações no canto.
Alguns de vossos jovens procuram o prazer como se fosse tudo na vida,
e são condenados e repreendidos.
Eu preferiria nem condená-los, nem repreendê-los, mas deixá-los procurar.
Pois encontrarão o prazer, mas não só ele:
Sete são suas irmãs, e a última dentre elas é mais bela que o prazer.
Não ouvistes falar do homem que cavava a terra à procura de raízes e
descobriu um tesouro?
E alguns de vossos anciões recordam, seus prazeres com remorso, como
se fossem erros cometidos num estado de embriaguez.
Mas o remorso é o escurecimento da alma e não o seu castigo.
Deveriam, antes, recordar seus prazeres com gratidão, como recordariam
uma colheita de verão.
Todavia, se acharem conforto no remorso, deixemo-los se confortarem.
E há entre vós aqueles que não são jovens para procurar, nem velhos
para recordar;
E no seu temor de procurar e recordar, desprezam todos os prazeres por
medo de afugentar ou ofender o espírito.
Porém, na sua renúncia está seu prazer.
E, assim, eles também descobrem um tesouro embora cavem com as
mãos trêmulas à procura de raízes.
Mas dizei-me quem é que pode ofender o espírito?
Ofende o rouxinol a quietude da noite, ou o pirilampo as estrelas?
E poderá vossa flama ou vossa fumaça sobrecarregar o vento?
Credes que o espírito é um poço tranqüilo que podeis perturbar com um bastão?
Muitas vezes, ao negardes a vós mesmos um prazer, nada mais fazeis do
que armazená-lo nos recessos de vosso Eu.
E quem sabe se o que parece omitido hoje não espera pelo amanhã?
Mesmo vosso corpo conhece sua herança e seus direitos, e vós não o
podereis iludir.
E vosso corpo é a harpa de vossa alma;
A vós pertence tirar dele música melodiosa ou ruídos dissonantes. !
E agora vós perguntais em vosso coração:
"Como distinguiremos o que é bom no prazer do que é mau?"
Ide, pois, aos vossos campos e pomares e, lá, aprendereis que o prazer
da abelha é de sugar o mel da flor,
Mas que o prazer da flor é de entregar o mel à abelha.
Pois, para a abelha, uma flor é uma fonte de vida.
E para a flor, uma abelha é uma mensageira de amor.
E para ambas, a abelha e a flor, dar e receber o prazer é uma
necessidade e um êxtase.
Povo de Orphalese, nos vossos prazeres, imitai as flores e as abelhas."

Um poeta disse: "Fala-nos da Beleza."

E ele respondeu:
"Onde procurareis a beleza e como a podereis encontrar a menos que ela
mesma seja vosso caminho e vosso guia?
E como podereis falar a menos que ela mesma teça vossas palavras?
Os aflitos e os feridos dizem: "A beleza é amável e suave.
Como uma jovem mãe, meio encabulada na sua glória, ela caminha entre nós."
Os apaixonados dizem: "Não, a beleza é uma força poderosa e temível.
Como a tempestade, ela sacode a terra abaixo e o céu acima."
Os cansados e os gastos dizem: "A beleza é um murmúrio suave. Ela fala
em nosso espírito.
Sua voz cede aos nossos silêncios como uma luz tênue que treme por
medo da sombra."
Mas os turbulentos dizem: "Nós a ouvimos gritar entre as montanhas,
E com seus gritos chegavam o tropel de cavalos, o bater de asas e o
rugir de leões."
A noite, os guardas da cidade dizem: "A beleza despontará do Oriente,
com a aurora."
E, ao meio-dia, os trabalhadores e os transeuntes dizem: "Nós a temos
visto inclinada sobre a terra, das janelas do poente."
No inverno, os prisioneiros da neve dizem: "Ela virá com a primavera,
pulando sobre as colinas."
E no calor do verão, os ceifeiros dizem: "Nós a vimos dançar com as
folhas do outono, e havia neve no seu cabelo."
Todas essas coisas, vós dissestes da beleza.
Porém, na verdade, não falastes dela, mas de desejos insatisfeitos.
E a beleza não é um desejo, mas um êxtase.
Não é uma boca sequiosa, nem uma mão vazia que se estende,
Mas, antes, um coração inflamado e uma alma encantada.
Ela não é a imagem que desejais ver, nem a canção que desejais ouvir,
Mas, antes, a imagem que contemplais com olhos velados e a canção que
ouvis com ouvidos tapados.
Não é a seiva por baixo da cortiça enrugada, nem uma asa atada a uma garra.
Mas, sim, um pomar sempre em flor, e uma multidão de anjos em vôo.
Povo de Orphalese, a beleza é a vida quando a vida desvela seu rosto sagrado.
Mas vós sois a vida, e vós sois o véu.
A beleza é a eternidade olhando para si própria num espelho.
Mas vós sois a eternidade, e vós sois o espelho."

Então um velho sacerdote disse: "Fala-nos da Religião." E ele disse:

"Tenho eu falado de outra coisa hoje?
Não é a religião todas as nossas ações e reflexões?
E tudo o que não é ação nem reflexão, mas aquele espanto e aquela
surpresa sempre brotando na alma, mesmo quando as mãos talham a pedra ou
manejam o tear?
Quem pode separar sua fé de suas ações, ou sua crença de seus afazeres?
Quem pode espalhar suas horas perante si, dizendo: "Esta é para Deus, e
essa é para mim; esta é para minha alma, e essa é para meu corpo?"
Todas vossas horas são asas que adejam através do espaço, passando de
um Eu ao outro.
Aquele que veste sua moralidade como veste seus melhores trajes,
melhor seria que andasse desnudo.
O vento e o sol não cavarão buracos na sua pele.
E aquele que traça sua conduta pela ética, encarcera seu pássaro cantor
numa gaiola.
A mais livre canção não chega através de barras e arames.
E aquele para quem a adoração é uma janela a abrir, mas também a
fechar, não visitou ainda o santuário de sua alma, cujas janelas permanecem
abertas de aurora a aurora.
Vossa vida cotidiana é vosso templo e vossa religião.
Todas as vezes que penetrais nela, levai convosco todo o vosso ser.
Levai o arado, a forja, o macete e a lira,
Todas as coisas que modelastes por necessidade ou por prazer:
Pois nos vossos sonhos, não podeis elevar-vos acima de vossas
realizações nem cair abaixo de vossos fracassos.
E levai convosco todos os homens:
Pois na vossa adoração, não podeis voar acima de suas esperanças nem
aviltar-vos abaixo de seu desespero.
E se quereis conhecer a Deus, não procureis transformar-vos em
decifradores de enigmas.
Olhai, antes, à vossa volta e encontrá-Lo-eis a brincar com vossos filhos.
E erguei os olhos para o espaço e vê-Lo-eis caminhando nas nuvens,
estendendo Seus braços no relâmpago e descendo na chuva.
E o vereis sorrindo nas flores e agitando as mãos nas árvores."


Então Almitra falou, dizendo: "Gostaríamos de interrogar-te a respeito da Morte."

E ele disse:
"Quereis conhecer o segredo da morte.
Mas como poderíeis descobri-lo se não o procurardes no coração da vida?
A coruja, cujos olhos, feitos para a noite, são velados ao dia, não pode
descortinar o mistério da luz.
Se quereis realmente contemplar o espírito da morte, abri amplamente
as portas de vosso coração ao corpo da vida.
Pois a vida e a morte são uma e a mesma coisa, como o rio e o mar são
uma e a mesma coisa,
Na profundidade de vossas esperanças e aspirações dorme vosso
silencioso conhecimento do além;
E como sementes sonhando sob a neve.
Assim vosso coração sonha com a primavera.
Confiai nos sonhos, pois neles se ocultam as portas da eternidade.
Vosso temor da morte é semelhante ao temor do camponês quando se
encontra diante do rei, e este estende-lhe sua mão em sinal de consideração.
O camponês não se regozija, apesar do seu temor, de receber as
insígnias do rei?
Contudo, não está ele mais atento ao seu temor que à distinção recebida?
Pois, que é morrer senão expor-se, desnudo, aos ventos e dissolver-se no sol?
E que é cessar de respirar senão libertar o hálito de suas marés agitadas,
a fim de que se levante e se expanda e procure a Deus livremente?
É somente quando beberdes do rio do silêncio que podereis realmente cantar.
É somente quando atingirdes o cume da montanha que começareis a subir.
É quando a terra reivindicar vossos membros que podereis
verdadeiramente dançar."


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O TEMPO, O BEM E O MAL, E A PRECE - "O Profeta" de Khalil Gibran

Então um astrônomo: disse; “Mestre, que dizeis do Tempo?"

E ele respondeu:
"Gostaríeis de medir o tempo, o ilimitado e o incomensurável.
Gostaríeis de ajustar vosso comportamento e mesmo reger o curso de
vossa alma de acordo com as horas e as estações.
Do tempo gostaríeis de fazer um rio, na margem do qual sentaríeis para
observar correr as águas.
Contudo, o que em vós escapa ao tempo sabe que a vida também escapa ao tempo.
E sabe que ontem é, apenas, a recordação de hoje e amanhã, o sonho de hoje.
E aquilo que canta e medita em vós continua a morar dentro daquele
primeiro momento em que as estrelas foram semeadas no espaço.
Quem, dentre vós, não sente que seu poder de amar é ilimitado?
E, porém, quem não sente esse amor, embora ilimitado, circunscrito
dentro do seu próprio ser, e não se movendo de um pensamento amoroso a
outro, e de uma ação amorosa a outra?
E não é o tempo, exatamente como o amor, indivisível e insondável?
Contudo, se em vossos pensamentos deveis dividir o tempo em estações,
que cada estação envolva todas as outras estações,
E que vosso presente abrace o passado com nostalgia e o futuro com
ânsia e carinho."

UM DOS anciãos da cidade disse: "Fala-nos do Bem e do Mal."

E ele respondeu:
"Do bem que está em vós, poderei falar, mas não do mal.
Pois que é o mal senão o próprio bem torturado por sua fome e sede?
Em verdade, quando o bem sente fome, procura alimentos até nos antros
escuros, e quando sente sede, desaltera-se até em águas estagnadas.
Vós sois bons quando vos identificais com vós próprios.
Porém, quando não vos identificais com vós próprios, não sois maus.
Pois a casa que se divide não se torna antro de ladrões; é, apenas, uma
casa dividida.
E um navio sem leme pode vaguear sem rumo entre recifes perigosos, e
não se afundar.
Vós sois bons quando vos esforçais por dar de vós próprios.
Porém, não sois maus quando vos limitais a procurar o lucro.
Pois, quando lutais pelo lucro, sois simplesmente raízes que se agarram à
terra e sugam seu seio.
Certamente a fruta não pode dizer à raiz: "Sê como eu, madura e plena,
e sempre generosa de tua abundância."
Pois, para a fruta, dar é uma necessidade como, para a raiz, receber é
uma necessidade.
Vós sois bons quando falais plenamente acordados.
Porém, não sois maus quando adormeceis enquanto vossa língua
tartamudeia sem propósito.
E mesmo um discurso gaguejante pode fortalecer uma língua débil.
Vós sois bons quando andais rumo a vosso objetivo, firmemente e com
passos intrépidos.
Porém, não sois maus quando ides coxeando.
Mesmo aqueles que coxeiam não andam para trás.
Mas vós que sois fortes e velozes, guardai-vos de coxear por
complacência na presença dos coxos.
Vós sois bons de inumeráveis maneiras, e não sois maus quando não sois bons.
Estais apenas ociosos e indolentes.
Pena que as gazelas não possam ensinar a velocidade às tartarugas.
Na vossa ânsia pelo vosso Eu-gigante está vossa bondade: e essa ânsia
está em todos vós.
Mas em alguns, essa ânsia é uma torrente que se precipita
impetuosamente para o mar, carregando os segredos das colinas e as canções
da floresta.
Em outros, é uma corrente preguiçosa que se perde em meandros, e
serpenteia, arrastando-se, antes de atingir a costa.
Mas que aquele que muito deseja se guarde de dizer àquele que pouco
deseja: "Por que és lento e atrasado?"
Pois o verdadeiramente bom não pergunta ao desnudo: "Onde está tua
roupa?" nem ao desabrigado:
"Que aconteceu à tua casa?"

Então uma sacerdotisa disse: "Fala-nos da Prece."

E ele respondeu, dizendo:
"Vós rezais nas vossas aflições e necessidades; pudésseis também rezar
na plenitude de vossa alegria e nos dias de abundância.
Pois que é a oração senão a expansão de vosso ser para o éter vivente?
E se constitui conforto exalar vossas trevas no espaço, maior conforto
sentireis quando exalardes a aurora de vosso coração.
E se não podeis reter vossas lágrimas quando vossa alma vos chama
para orar, ela vos deveria esporear repetidamente, embora chorando, até que
aprendêsseis a orar com alegria.
Quando rezais, vos elevais até encontrardes, nas alturas, aqueles que
estão orando à mesma hora, e que, fora da oração, talvez nunca encontrásseis.
Portanto, que vossa visita a esse templo invisível não tenha nenhuma
outra finalidade senão o êxtase e a doce comunhão.
Pois se penetrardes no templo unicamente para pedir, nada recebereis.
E se nele entrardes para vos curvar, ninguém vos erguerá.
E mesmo se aí fordes para mendigar favores para outros, não sereis atendidos.
É bastante que entreis no templo invisível.
Não vos posso ensinar a rezar com palavras.
Deus não escuta vossas palavras, exceto quando Ele próprio as pronuncia
através de vossos lábios.
E não vos posso ensinar a oração dos mares e das florestas e das montanhas.
Mas vós que nascestes das montanhas, e das florestas, e dos mares,
podeis encontrar suas preces no vosso coração.
E se somente escutardes na quietude da noite, ouvi-los-eis dizendo em silêncio:
"Deus nosso, que és nosso Eu alado, é Tua vontade em nós que quer.
É Teu desejo em nós que deseja.
É Teu impulso em nós que pode transformar nossas noites, que Te
pertencem, em dias que, também Te pertencem.
Nada Te podemos pedir, pois Tu conheces nossas necessidades antes
mesmo que nasçam em nós.
Tu és nossa necessidade; e dando-nos mais de Ti, Tu nos dás tudo."


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O AUTOCONHECIMENTO, O ENSINO E A CONVERSAÇÃO - "O Profeta" de Khalil Gibran

Um homem disse: "Fala-nos do Conhecimento de Si Próprio."

E ele respondeu, dizendo:
"Vossos corações conhecem em silêncio os segredos dos dias e das noites.
Mas vossos ouvidos anseiam ouvir o que vossos corações sabem.
Desejais conhecer em palavras aquilo que sempre conhecestes em pensamento.
Quereis tocar com os dedos o corpo nu de vossos sonhos.
E é bom que vós o desejeis.
A fonte secreta de vossa alma precisa brotar e correr, murmurando, para o mar;
E o tesouro de vossas profundezas ilimitadas precisa revelar-se a vossos olhos.
Mas não useis balanças para pesar vossos tesouros desconhecidos;
E não procureis explorar as profundidades de vosso conhecimento com
uma vara ou uma sonda.
Porque o Eu é um mar sem limites e sem medidas.
Não digais: "Encontrei a verdade." Dizei de preferência: "Encontrei uma verdade."
Não digais: "Encontrei a senda da alma." Dizei de preferência: "Encontrei
a alma andando em meu caminho."
Porque a alma anda por todos os caminhos.
A alma não caminha numa linha reta nem cresce como um caniço.
A alma desabrocha, tal um lótus de inúmeras pétalas."

Então um professor disse: "Fala-nos do Ensino."

E ele disse:
"Nenhum homem poderá revelar-vos nada senão o que já está meio
adormecido na aurora do vosso entendimento.
O mestre que caminha à sombra do templo, rodeado de discípulos, não
dá de sua sabedoria, mas sim de sua fé e de sua ternura.
Se ele for verdadeiramente sábio, não vos convidará a entrar na mansão
de seu saber, mas antes vos conduzirá ao limiar de vossa própria mente.
O astrônomo poderá falar-vos de sua compreensão do espaço, mas não
vos poderá dar sua compreensão.
O músico poderá cantar para vós o ritmo que existe em todo o universo,
mas não vos poderá dar o ouvido que capta a melodia, nem a voz que a repete.
E o versado na ciência dos números poderá falar-vos do mundo dos
pesos e medidas, mas não vos poderá levar até lá.
Porque a visão de um homem não empresta suas asas a outro homem.
E assim como qualquer de vós se mantém só no conhecimento de Deus,
assim cada um de vós deve ter sua própria compreensão de Deus e sua própria
interpretação das coisas da terra."
Pois o que vós amais nele pode tornar-se mais claro na sua ausência,
como para o alpinista a montanha aparece mais clara, vista da planície.
E que não haja outra finalidade na amizade a não ser o amadurecimento do espírito.
Pois o amor que procura outra coisa a não ser a revelação de seu próprio
mistério não é amor, mas uma rede armada, e somente o inaproveitável é nela
apanhado.
E que o melhor de vós próprios seja para vosso amigo.
Se ele deve conhecer o fluxo de vossa maré, que conheça também o seu refluxo.
Pois, que achais seja vosso amigo para que o procureis somente a fim de
matar o tempo?
Procurai-o sempre com horas para viver.
Pois o papel do amigo é o de encher vossa necessidade, e não vosso vazio.
E na doçura da amizade, que haja risos e o partilhar dos prazeres.
Pois no orvalho de pequenas coisas, o coração encontra sua manhã e se
sente refrescado."

Então um literato disse: "Fala-nos da Conversação."

E ele respondeu:
"Vos falais quando deixais de estar em paz com vossos pensamentos;
E quando não podeis mais viver na solidão de vosso coração, procurais
viver nos vossos lábios, e encontrais então uma diversão e um passatempo nas
vibrações emitidas.
E em grande parte de vossas conversações, o pensamento é meio assassinado.
Pois o pensamento é uma ave do espaço que, numa gaiola de palavras,
pode abrir suas asas mas não pode voar.
Há entre vós aqueles que procuram os faladores, por medo da solidão.
O silêncio da solidão revela-lhes seu Eu desnudo, e eles preferem escapar-lhe.
E há aqueles que falam e, sem saber ou prever, revelam uma verdade
que eles próprios não compreendem.
E há aqueles que possuem a verdade dentro de si, mas não a expressam em palavras.
No íntimo de tais pessoas, o espírito habita num silêncio rítmico.
Quando encontrardes vosso amigo na rua ou no mercado público, deixai
que o espírito que está em vós ponha em movimento vossos lábios e dirija vossa língua.
E que a voz escondida na vossa voz fale ao ouvido de seu ouvido;
Pois sua alma guardará a verdade de vosso coração, como é lembrado o
sabor do vinho,
Mesmo depois que a sua cor houver sido esquecida, e a taça que o
continha não mais existir."

Khalil Gibran (con imágenes) | Kalil gibran, Pinturas, Dibujos

A LIBERDADE, A RAZÃO E A DOR - "O Profeta" de Khalil Gibran

Um tribuno disse: "Fala-nos da Liberdade."

E ele respondeu:
"Às portas da cidade e em vossos lares, eu vos vi prosternar-vos e adorar
vossa própria liberdade,
Como escravos que se humilham perante um tirano e glorificam-no
embora ele os destrua.
Sim, na alameda do templo e à sombra da cidadela, tenho visto os mais
livres entre vós carregar sua liberdade como um jugo e um grilhão.
E meu coração sangrou dentro de mim; pois só podereis libertar-vos
quando até mesmo o desejo de procurar a liberdade se tornar um jugo para vós,
e quando cessardes de falar da liberdade como de uma meta e um fim.
Sereis, na verdade, livres, não quando vossos dias estiverem sem
preocupação e vossas noites sem necessidades e sem aflição.
Mas, antes, quando essas coisas apertarem vossa vida e, entretanto,
conseguirdes elevar-vos acima delas, desnudos e desatados.
E como vos elevareis acima de vossos dias e de vossas noites se não
quebrardes as cadeias com que, na madrugada de vosso entendimento,
prendestes vossa hora meridiana?
Na verdade, o que chamais liberdade é a mais forte destas cadeias,
embora seus anéis cintilem ao sol e vos deslumbrem.
E que é que quereis rejeitar para serdes livres, senão fragmentos de vós próprios?
Se é uma lei injusta que pretendeis abolir, lembrai-vos de que esta lei foi
escrita por vossa própria mão em vossa própria testa.
Não conseguireis extingui-la, queimando vossos códigos nem lavando as
faces de vossos juízes, embora despejeis o mar por cima delas.
E se é um déspota que quereis destronar, verificai primeiro se seu trono
erigido dentro de vós está destruído.
Pois, como pode um tirano dominar os livres e os altivos, se não houver
tirania na sua própria liberdade e vergonha na sua própria altivez?
E se é uma preocupação que quereis rejeitar, essa preocupação foi
escolhida por vós mais do que a vós imposta.
E se é um temor que precisais dissipar, o centro desse temor está em
vosso coração e não na mão do temido.
Na verdade, todas as coisas movem-se dentro de vós em constante
meio-aperto, as desejadas e as receadas, aquelas que vos repugnam e aquelas
que vos atraem, aquelas de que fugis e aquelas que procurais.
Essas coisas movem-se dentro de vós como luzes e sombras em pares
estritamente unidos.
E quando a sombra desvanece e se dissipa, a luz que se demora torna-se
a sombra de uma outra luz.
E desta forma, quando vossa liberdade perde seus entraves, torna-se um
entrave para uma liberdade maior."

A sacerdotisa falou novamente e disse: "Fala-nos da Razão e da Paixão."

E ele respondeu, dizendo:
"Vossa alma é frequentemente um campo de batalha onde vossa razão e
vosso juízo combatem contra vossa paixão e vosso apetite.
Pudesse eu ser o pacificador de vossa alma, transformando a discórdia e
a rivalidade entre vossos elementos em união e melodia.
Mas como poderei fazê-lo, a menos que vós próprios sejais também
pacificadores, mais ainda, enamorados de todos vossos elementos?
Vossa razão e vossa paixão são o leme e as velas de vossa alma navegante.
Se vossas velas ou vosso leme se quebram, só podereis ficar derivando
ou permanecer imóveis no meio do mar.
Pois a razão, reinando sozinha, restringe todo impulso; e a paixão,
deixada a si, é um fogo que arde até sua própria destruição.
Portanto, que vossa alma eleve vossa razão à altura de vossa paixão,
para que ela possa cantar;
E que dirija vossa paixão a passo com a razão, para que ela possa viver
numa ressurreição cotidiana e, tal a fênix, renascer de suas próprias cinzas.
Gostaria de que tratásseis vosso juízo e vosso apetite como trataríeis
dois hóspedes amados em vossa casa.
Certamente não honraríeis a um hóspede mais do que a outro; pois
quem procura tratar melhor a um dos dois, perde o amor e a confiança de ambos.
Entre as colinas, quando vos sentardes à sombra fresca dos álamos
brancos, partilhando da paz e da serenidade dos campos e dos prados distantes,
então que vosso coração diga em silêncio: "Deus repousa na Razão."
E quando bramir a tempestade e o vento poderoso sacudir a floresta, e o
trovão e o relâmpago proclamarem a majestade do céu, então que vosso coração
diga com temor e respeito: "Deus age na Paixão."
E já que sois um sopro na esfera de Deus e uma folha na floresta de
Deus, também deveis descansar na razão e agir na paixão."

Uma mulher disse: "Fala-nos da Dor."

E ele respondeu:
"Vossa dor é o rompimento do invólucro que encerra vossa compreensão.
Assim como a semente da fruta deve se quebrar para que seu coração
apareça ante o sol, deste mesmo modo deveis conhecer a dor.
Se vossos corações pudessem viver sempre no deslumbramento do
milagre cotidiano, vossa dor não vos apareceria menos maravilhosa que vossa
alegria;
E aceitaríeis as estações de vosso coração, como sempre aceitastes as
estações que passam sobre vossos campos.
E contemplaríeis serenamente os invernos de vossa aflição.
Grande parte de vosso sofrimento é por vós próprios escolhida.
É a amarga poção com a qual o médico que está em vós cura o vosso Eu doente.
Confiai, portanto, no médico, e bebei seu remédio em silêncio e tranqüilidade:
Porque sua mão, embora pesada e dura, é guiada pela suave mão do Invisível.
E a taça que ele vos dá, embora queime vossos lábios, foi confeccionada
com a argila que o Oleiro umedeceu com Suas lágrimas sagradas."


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AS COMPRAS, OS CRIMES E AS LEIS - "O Profeta" de Khalil Gibran

Um comerciante disse: "Fala-nos das Compras e Vendas."

E ele respondeu:
"A vós a terra oferece seus frutos, e nada vos faltará se somente
souberdes como encher as mãos.
É trocando as dádivas da terra que encontrareis a abundância e sereis satisfeitos.
E, contudo, a menos que a troca se faça no amor e na justiça, ela
conduzirá uns à avidez e outros à fome.
Quando vós, trabalhadores dos campos e dos vinhedos, encontrardes no
mercado os tecelões, os oleiros e os colhedores de especiarias,
Invocai o espírito mestre da terra para que desça sobre vós e santifique
as balanças e os cálculos que comparam valor com valor.
E não permitais que aqueles que têm as mãos vazias tomem parte nas
vossas transações, eles que vos venderiam suas palavras em troca de vosso labor.
A tais homens deveríeis dizer:
"Vinde conosco aos nossos campos ou ide com nossos irmãos para o mar
e jogai vossa rede:
Pois tanto quanto a nós, a terra e o mar vos serão generosos."
Mas quando vierem os cantores e os bailarinos e os flautistas, comprai de
suas ofertas.
Pois eles também colhem frutos e incensos e, embora feitos de sonhos,
seus produtos são vestimentas e alimentos para vossas almas.
E antes de deixardes o mercado, vede que ninguém se retire de mãos vazias.
Pois o espírito mestre da terra não descansará em paz sobre o vento
enquanto as necessidades do mais humilde entre vós não tiverem sido
satisfeitas."

Então um dos juízes da cidade acercou-se e disse: "Fala-nos do Crime e
do Castigo."

E ele respondeu, dizendo:
"É quando vosso espírito vagueia sobre o vento Que vós, sozinhos e
desprevenidos, cometeis delitos contra os outros e, portanto, contra vós próprios.
E pela remissão do mal cometido, devereis bater à porta dos eleitos e
esperar algum tempo antes de serdes atendidos.
Similar ao oceano é vosso Eu-divino:
Permanece sempre imaculado.
E, como o éter, ele sustenta somente os alados.
E similar também ao sol é vosso Eu-divino:
Desconhece os caminhos das tocas e evita o covil das serpentes.
Mas vosso Eu-divino não reside sozinho no vosso ser.
Em vós, muito é ainda do homem, e muito não é ainda do homem.
Mas apenas de um pigmeu informe que vagueia sonâmbulo nas brumas,
em procura de seu próprio despertar.
É do homem em vós que quero agora falar.
Porque é ele, e não o vosso Eu-divino ou o pigmeu que vagueia nas
brumas, quem conhece o crime e o castigo do crime.
Constantemente vos tenho ouvido falar daquele que comete uma ação
má como se não fosse dos vossos, mas um estrangeiro entre vós e um intruso
em vosso mundo.
Mas eu vos digo: Da mesma maneira que o santo e o justo não podem se
elevar acima do que há de mais elevado em vós,
Assim o perverso e o fraco não podem descer abaixo do que há de mais
baixo em vós.
E da mesma forma que nenhuma folha amarelece senão com o silencioso
assentimento da árvore inteira,
Assim o malfeitor não pode agir mal sem o secreto consentimento de todos vós.
Como uma procissão, vós avançais, juntos, para vosso Eu-divino.
Vós sois o caminho e os que caminham.
E quando um dentre vós tropeça, ele cai pelos que caminham atrás dele,
alertando-os contra a pedra traiçoeira.
Sim, e ele cai pelos que caminham adiante dele, que, embora tendo o pé
mais ligeiro e mais seguro, não removeram, contudo, a pedra traiçoeira.
E ouvi também isto, embora a palavra deva pesar rudemente sobre
vossos corações:
O assassinado é censurável por seu próprio assassínio.
E o roubado não é isento de culpa por ter sido roubado.
E o justo não é inocente das ações do mau.
Sim, o culpado é, muitas vezes, a vítima do ofendido.
E mais comumente ainda, o condenado carrega o fardo para o inocente e
o irreprochável.
Vós não podeis separar o justo do injusto e o bom do malvado;
Porque ambos caminham juntos diante da face do sol, exatamente como
os fios branco e negro são tecidos juntos.
E quando o fio negro rompe-se, o tecelão verifica todo o tecido e examina
também o tear.
Se um dentre vós põe em julgamento a esposa infiel,
Que pese também na balança o coração de seu marido, e meça sua alma
com cuidado.
E aquele que deseja fustigar o ofensor, examine a alma do ofendido.
E se um dentre vós pretende punir em nome da retidão e pôr o machado
na árvore do mal, que considere também as raízes da árvore;
E, na verdade, encontrará as raízes do bem e do mal, do frutífero e do
estéril, entrelaçadas no coração silencioso da terra.
E vós, juízes que desejais ser justos.
Que julgamento pronunciareis contra aquele que, embora honesto na
carne, é ladrão no espírito?
E como punireis aquele que assassina o corpo, mas é, ele próprio,
assassinado no espírito?
E como processareis aquele que, impostor e opressor nas suas ações,
É também molestado e ultrajado?
E como punireis aqueles cujos remorsos já são maiores que seus delitos?
Não é o remorso uma justiça aplicada por esta mesma lei que vós
desejais servir?
E, contudo, não podeis pôr o remorso sobre o coração do inocente, nem
levantá-lo do coração do culpado.
Espontaneamente, ele gritará na noite para que os homens despertem e
se considerem.
E vós que desejais compreender a justiça, como a compreendereis sem
examinar todas as ações na plenitude da luz?
Somente então sabereis que o erecto e o caído são um mesmo homem,
vagueando no crepúsculo entre a noite de seu Eu-pigmeu e o dia de seu Eu-divino.
E que a pedra angular do templo não supera a pedra mais baixa de suas
fundações."

Então um advogado disse: "Que pensais de nossas Leis, Mestre?"

E ele respondeu:
"Vós vos deleitais em estabelecer leis.
Mas vos deleitais ainda mais em violá-las,
Tais como crianças brincando à beira do oceano edificam, pacientemente,
torres de areia e, logo em seguida, as destroem entre risadas.
Mas enquanto edificais vossas torres de areia, o oceano atira mais areia à praia,
E quando vós as destruís, o oceano ri convosco.
Na verdade, o oceano sempre ri com os inocentes.
Mas que dizer daqueles para quem a vida não é um oceano, nem as leis
baixadas pelo homem, torres de areia,
Aqueles para quem a vida é uma pedra, e a lei, um cinzel com^ o qual
procuram esculpi-la à sua própria imagem?
Que dizer do aleijado que odeia os bailarinos?
E do boi que gosta de seu jugo e considera o gamo e o veado seres
extraviados e vagabundos?
E da serpente idosa que não pode mais largar a pele e qualifica todas as
outras de desnudas e impudicas?
E daquele que chega cedo ao banquete de núpcias e, depois, saciado e
esgotado, segue seu caminho, dizendo que todo festim é uma violação da lei e
todo festejador um culpado?
Que direi desses todos, senão que eles também se mantêm na claridade
do sol, mas de costas para o sol?
Vêem somente suas sombras, e suas sombras são suas leis.
E que é o sol para eles senão um lançador de sombras?
E que é reconhecer as leis senão curvar-se e delinear essas sombras
sobre a terra?
Vós, porém, que caminhais encarando o sol, que imagens desenhadas
sobre a terra vos podem reter?
Vós que viajais com o vento, que catavento orientará vosso curso?
Que lei humana vos poderá atar quando quebrardes vosso jugo, mas não
à porta de uma prisão humana?
Que leis temereis se dançardes sem tropeçar em nenhuma cadeia de
ferro feita pelo homem?
E quem vos poderá acusar em juízo se rasgais vossas vestimentas sem
as atirar no caminho alheio?
Povo de Orphalese, podeis abafar o tambor e afrouxar as cordas da lira,
mas quem poderá proibir a calhandra de cantar?"

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