7.3.17

O TEMPO, O BEM E O MAL, E A PRECE - "O Profeta" de Khalil Gibran

Então um astrônomo: disse; “Mestre, que dizeis do Tempo?"

E ele respondeu:
"Gostaríeis de medir o tempo, o ilimitado e o incomensurável.
Gostaríeis de ajustar vosso comportamento e mesmo reger o curso de
vossa alma de acordo com as horas e as estações.
Do tempo gostaríeis de fazer um rio, na margem do qual sentaríeis para
observar correr as águas.
Contudo, o que em vós escapa ao tempo sabe que a vida também escapa ao tempo.
E sabe que ontem é, apenas, a recordação de hoje e amanhã, o sonho de hoje.
E aquilo que canta e medita em vós continua a morar dentro daquele
primeiro momento em que as estrelas foram semeadas no espaço.
Quem, dentre vós, não sente que seu poder de amar é ilimitado?
E, porém, quem não sente esse amor, embora ilimitado, circunscrito
dentro do seu próprio ser, e não se movendo de um pensamento amoroso a
outro, e de uma ação amorosa a outra?
E não é o tempo, exatamente como o amor, indivisível e insondável?
Contudo, se em vossos pensamentos deveis dividir o tempo em estações,
que cada estação envolva todas as outras estações,
E que vosso presente abrace o passado com nostalgia e o futuro com
ânsia e carinho."

UM DOS anciãos da cidade disse: "Fala-nos do Bem e do Mal."

E ele respondeu:
"Do bem que está em vós, poderei falar, mas não do mal.
Pois que é o mal senão o próprio bem torturado por sua fome e sede?
Em verdade, quando o bem sente fome, procura alimentos até nos antros
escuros, e quando sente sede, desaltera-se até em águas estagnadas.
Vós sois bons quando vos identificais com vós próprios.
Porém, quando não vos identificais com vós próprios, não sois maus.
Pois a casa que se divide não se torna antro de ladrões; é, apenas, uma
casa dividida.
E um navio sem leme pode vaguear sem rumo entre recifes perigosos, e
não se afundar.
Vós sois bons quando vos esforçais por dar de vós próprios.
Porém, não sois maus quando vos limitais a procurar o lucro.
Pois, quando lutais pelo lucro, sois simplesmente raízes que se agarram à
terra e sugam seu seio.
Certamente a fruta não pode dizer à raiz: "Sê como eu, madura e plena,
e sempre generosa de tua abundância."
Pois, para a fruta, dar é uma necessidade como, para a raiz, receber é
uma necessidade.
Vós sois bons quando falais plenamente acordados.
Porém, não sois maus quando adormeceis enquanto vossa língua
tartamudeia sem propósito.
E mesmo um discurso gaguejante pode fortalecer uma língua débil.
Vós sois bons quando andais rumo a vosso objetivo, firmemente e com
passos intrépidos.
Porém, não sois maus quando ides coxeando.
Mesmo aqueles que coxeiam não andam para trás.
Mas vós que sois fortes e velozes, guardai-vos de coxear por
complacência na presença dos coxos.
Vós sois bons de inumeráveis maneiras, e não sois maus quando não sois bons.
Estais apenas ociosos e indolentes.
Pena que as gazelas não possam ensinar a velocidade às tartarugas.
Na vossa ânsia pelo vosso Eu-gigante está vossa bondade: e essa ânsia
está em todos vós.
Mas em alguns, essa ânsia é uma torrente que se precipita
impetuosamente para o mar, carregando os segredos das colinas e as canções
da floresta.
Em outros, é uma corrente preguiçosa que se perde em meandros, e
serpenteia, arrastando-se, antes de atingir a costa.
Mas que aquele que muito deseja se guarde de dizer àquele que pouco
deseja: "Por que és lento e atrasado?"
Pois o verdadeiramente bom não pergunta ao desnudo: "Onde está tua
roupa?" nem ao desabrigado:
"Que aconteceu à tua casa?"

Então uma sacerdotisa disse: "Fala-nos da Prece."

E ele respondeu, dizendo:
"Vós rezais nas vossas aflições e necessidades; pudésseis também rezar
na plenitude de vossa alegria e nos dias de abundância.
Pois que é a oração senão a expansão de vosso ser para o éter vivente?
E se constitui conforto exalar vossas trevas no espaço, maior conforto
sentireis quando exalardes a aurora de vosso coração.
E se não podeis reter vossas lágrimas quando vossa alma vos chama
para orar, ela vos deveria esporear repetidamente, embora chorando, até que
aprendêsseis a orar com alegria.
Quando rezais, vos elevais até encontrardes, nas alturas, aqueles que
estão orando à mesma hora, e que, fora da oração, talvez nunca encontrásseis.
Portanto, que vossa visita a esse templo invisível não tenha nenhuma
outra finalidade senão o êxtase e a doce comunhão.
Pois se penetrardes no templo unicamente para pedir, nada recebereis.
E se nele entrardes para vos curvar, ninguém vos erguerá.
E mesmo se aí fordes para mendigar favores para outros, não sereis atendidos.
É bastante que entreis no templo invisível.
Não vos posso ensinar a rezar com palavras.
Deus não escuta vossas palavras, exceto quando Ele próprio as pronuncia
através de vossos lábios.
E não vos posso ensinar a oração dos mares e das florestas e das montanhas.
Mas vós que nascestes das montanhas, e das florestas, e dos mares,
podeis encontrar suas preces no vosso coração.
E se somente escutardes na quietude da noite, ouvi-los-eis dizendo em silêncio:
"Deus nosso, que és nosso Eu alado, é Tua vontade em nós que quer.
É Teu desejo em nós que deseja.
É Teu impulso em nós que pode transformar nossas noites, que Te
pertencem, em dias que, também Te pertencem.
Nada Te podemos pedir, pois Tu conheces nossas necessidades antes
mesmo que nasçam em nós.
Tu és nossa necessidade; e dando-nos mais de Ti, Tu nos dás tudo."


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