4.3.17

O AMOR, O MATRIMÔNIO E OS FILHOS – “O Profeta” de Khalil Gibran


Então Almitra perguntou ao Profeta: "Fala-nos do Amor."

E ele ergueu a fronte e olhou para a multidão; e um silêncio caiu sobre eles, e com uma voz forte, dirigiu-se a eles, dizendo:

"Quando o amor vos chamar, segui-o.
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe, Embora a espada oculta 
na sua plumagem
possa ferir-vos; E quando ele vos falar, acreditai nele, Embora sua voz possa
despedaçar vossos sonhos como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma por que o amor vos coroa, assim ele vos crucifica.
E da mesma forma por que ele contribui para vosso crescimento, ele trabalha
para vossa poda.
E da mesma forma por que ele sobe à vossa altura e acaricia vossos
ramos mais tenros que se embalam ao sol, Assim também ele desce até vossas
raízes e as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor a vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma no pão místico do
banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós para que conheçais os
segredos de vossos corações e, com esse conhecimento, vos convertais no pão
místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor procurardes somente a paz e o gozo do amor.
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez e abandonásseis
a eira do amor, para entrar no mundo sem estações, onde rireis, mas não todos
os vossos risos, e chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio e nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui e não se deixa possuir.
Pois ele basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga: "Deus está no meu coração", mas
que diga antes: "Eu estou no coração de Deus."
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor, pois o amor, se vos
achar dignos, determinará ele próprio o vosso curso.
O amor não tem outro desejo, senão o de atingir sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos, sejam estes vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho que canta sua melodia
para a noite;
De conhecerdes a dor de sentir a ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor;
E de sangrardes de boa vontade e com alegria;
De acordardes na aurora com o coração alado e agradecerdes por um
novo dia de amor;
De descansardes ao meio-dia, e meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes para casa à noite com gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado, e nos
lábios uma canção de bem-aventurança."

Então, Almitra falou novamente e disse:
"E que nos dizes do Matrimônio, mestre?"

E ele respondeu, dizendo:
"Vós nascestes juntos, e juntos permanecereis para todo o sempre.
Juntos estareis quando as brancas asas da morte dissiparem vossos dias.
Sim, juntos estareis até na memória silenciosa de Deus.
Mas que haja espaços na vossa junção.
E que as asas do céu dancem entre vós.
Amai-vos um ao outro, mas não façais do amor um grilhão:
Que haja, antes, um mar ondulante entre as praias de vossas almas.
Enchei a taça um do outro, mas não bebais na mesma taça.
Dai do vosso pão um ao outro, mas não comais do mesmo pedaço.
Cantai e dançai juntos, e sede alegres; mas deixai cada um de vós estar sozinho.
Assim como as cordas da lira são isoladas e, no entanto, vibram na
mesma harmonia.
Dai vossos corações, mas não os confieis à guarda um do outro.
Pois somente a mão da Vida pode conter vossos corações.
E vivei juntos, mas não vos aconchegueis demasiadamente;
Pois as colunas do templo erguem-se separadamente,
E o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro."

E uma mulher que carregava seu filho nos braços disse: "Fala-nos dos Filhos."

E ele disse:
"Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da Vida por si mesma.
Eles vêm através de vós mas não de vós,
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podereis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis
visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós;
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda Sua
força para que Suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como Ele ama a flecha que voa, também ama o arco que
permanece estável."


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