Um homem disse: "Fala-nos do Conhecimento de Si Próprio."
E ele respondeu, dizendo:
"Vossos corações conhecem em silêncio os segredos dos dias e das noites.
Mas vossos ouvidos anseiam ouvir o que vossos corações sabem.
Desejais conhecer em palavras aquilo que sempre conhecestes em pensamento.
Quereis tocar com os dedos o corpo nu de vossos sonhos.
E é bom que vós o desejeis.
A fonte secreta de vossa alma precisa brotar e correr, murmurando, para o mar;
E o tesouro de vossas profundezas ilimitadas precisa revelar-se a vossos olhos.
Mas não useis balanças para pesar vossos tesouros desconhecidos;
E não procureis explorar as profundidades de vosso conhecimento com
uma vara ou uma sonda.
Porque o Eu é um mar sem limites e sem medidas.
Não digais: "Encontrei a verdade." Dizei de preferência: "Encontrei uma verdade."
Não digais: "Encontrei a senda da alma." Dizei de preferência: "Encontrei
a alma andando em meu caminho."
Porque a alma anda por todos os caminhos.
A alma não caminha numa linha reta nem cresce como um caniço.
A alma desabrocha, tal um lótus de inúmeras pétalas."
Então um professor disse: "Fala-nos do Ensino."
E ele disse:
"Nenhum homem poderá revelar-vos nada senão o que já está meio
adormecido na aurora do vosso entendimento.
O mestre que caminha à sombra do templo, rodeado de discípulos, não
dá de sua sabedoria, mas sim de sua fé e de sua ternura.
Se ele for verdadeiramente sábio, não vos convidará a entrar na mansão
de seu saber, mas antes vos conduzirá ao limiar de vossa própria mente.
O astrônomo poderá falar-vos de sua compreensão do espaço, mas não
vos poderá dar sua compreensão.
O músico poderá cantar para vós o ritmo que existe em todo o universo,
mas não vos poderá dar o ouvido que capta a melodia, nem a voz que a repete.
E o versado na ciência dos números poderá falar-vos do mundo dos
pesos e medidas, mas não vos poderá levar até lá.
Porque a visão de um homem não empresta suas asas a outro homem.
E assim como qualquer de vós se mantém só no conhecimento de Deus,
assim cada um de vós deve ter sua própria compreensão de Deus e sua própria
interpretação das coisas da terra."
Pois o que vós amais nele pode tornar-se mais claro na sua ausência,
como para o alpinista a montanha aparece mais clara, vista da planície.
E que não haja outra finalidade na amizade a não ser o amadurecimento do espírito.
Pois o amor que procura outra coisa a não ser a revelação de seu próprio
mistério não é amor, mas uma rede armada, e somente o inaproveitável é nela
apanhado.
E que o melhor de vós próprios seja para vosso amigo.
Se ele deve conhecer o fluxo de vossa maré, que conheça também o seu refluxo.
Pois, que achais seja vosso amigo para que o procureis somente a fim de
matar o tempo?
Procurai-o sempre com horas para viver.
Pois o papel do amigo é o de encher vossa necessidade, e não vosso vazio.
E na doçura da amizade, que haja risos e o partilhar dos prazeres.
Pois no orvalho de pequenas coisas, o coração encontra sua manhã e se
sente refrescado."
Então um literato disse: "Fala-nos da Conversação."
E ele respondeu:
"Vos falais quando deixais de estar em paz com vossos pensamentos;
E quando não podeis mais viver na solidão de vosso coração, procurais
viver nos vossos lábios, e encontrais então uma diversão e um passatempo nas
vibrações emitidas.
E em grande parte de vossas conversações, o pensamento é meio assassinado.
Pois o pensamento é uma ave do espaço que, numa gaiola de palavras,
pode abrir suas asas mas não pode voar.
Há entre vós aqueles que procuram os faladores, por medo da solidão.
O silêncio da solidão revela-lhes seu Eu desnudo, e eles preferem escapar-lhe.
E há aqueles que falam e, sem saber ou prever, revelam uma verdade
que eles próprios não compreendem.
E há aqueles que possuem a verdade dentro de si, mas não a expressam em palavras.
No íntimo de tais pessoas, o espírito habita num silêncio rítmico.
Quando encontrardes vosso amigo na rua ou no mercado público, deixai
que o espírito que está em vós ponha em movimento vossos lábios e dirija vossa língua.
E que a voz escondida na vossa voz fale ao ouvido de seu ouvido;
Pois sua alma guardará a verdade de vosso coração, como é lembrado o
sabor do vinho,
Mesmo depois que a sua cor houver sido esquecida, e a taça que o
continha não mais existir."
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