Para
certos temperamentos, é quase impossível tomar a senda da análise
introspectiva (vichara). Suas mentes não foram constituídas de uma
maneira que lhes permita fixarem seus pensamentos neste tema. O que
então lhes cabe fazer?
A
maneira do estudante sair desta dificuldade é principiar por se
ajustar ao ritmo de inspiradas obras artísticas, ou por cultivar
emoções elevadas induzidas ante a beleza da Natureza.
Um
quadro pintado por uma mão genial, um poema de alguém sensível ao
aspecto natural da vida, o tocar de um violino por um mestre como
Kreisler, um passeio através dos bosques de outono, uma contemplação
do brilho do sol sobre as plantas, ou a visão de uma antiga igreja à
luz do sol no ocaso: tudo isto pode lhe despertar delicados
sentimentos, que em regra jamais o poderiam fazer as atividades
comuns da vida cotidiana.
Nestes
momentos há um poder espiritual de que nos recordamos muito tempo
após haverem passado. Inteligentemente utilizados, podem tornar-se
como a escada de Jacó, estendendo-se da terra ao céu.
Hoje em
dia, o artista inspirado faz as vezes do sacerdote, tornando-se o
instrumento daquele aspecto do Poder Superior que se revela no homem
como beleza.
O
artista, o escritor e o músico se encarnam em sua obra, e se ele for
abençoado com inspirações elevadas, se ele se sentar aos pés da
divina beleza ou verdadeira sabedoria, então no grau em que puderdes
submeter-vos à sua influência, partilhareis com ele destas
inspirações.

Em presença de alguma grande cena da Natureza, o ser humano é inconscientemente levado a recordar-se de seu verdadeiro lar espiritual. Ele se deleita com as brilhantes nuvens do céu, os prados pacíficos e os lagos plácidos, pois lhe recordam sua origem espiritual.
Às
vezes, ao ouvir uma música de profunda inspiração, as nobres
melodias de Bach ou as árias puras de Mozart, ou detendo seu olhar
nalguma cena de montanha, o homem recebe insinuações de uma vida
superior. A música, sendo a mais direta de todas as artes, propicia
o meio mais autêntico de expressão espiritual.
Aqueles
que procuram recolher em suas mentes a colheita mundial de beleza e
sabedoria impressas, sentem-se movidos a isso por um instinto que vem
de eras remotas. Quando nossos olhos contemplam uma página escrita
com gosto literário e cintilante de áureos pensamentos espirituais,
percebemos um misterioso sentimento confirmando o que lemos.
O
estudante que se sinta empolgado pela grande literatura deveria
escolher um livro, ou algumas passagens de determinado livro, que lhe
façam um profundo apelo ou pareçam trazer em si um sopro de
inspiração; que sobre ele exerçam um efeito exaltador, que lhe
chegue com a força de uma mensagem das regiões superiores.
Se
preferir a grande poesia e aurir seu poder, poderá sentir esta
inspiração em algum poema de Francis Thompson, num soneto de
Shelley ou composição lírica de Keats, e em alguns dos cintilantes
versos de George Russel.

Se optar pela prosa, há escritores que acendem a centelha divina da arte criadora e inflamam a chama da imaginação humana. O ensaio de Emerson sobre a autoconfiança, por exemplo, apresenta, pelo menos, uma centena de sentenças notáveis. Passai uma hora com Emerson e estareis em companhia dos grandes.
Que o
estudante selecione um parágrafo ou fragmento de qualquer livro
antigo ou moderno que mais lhe fale no íntimo, e rumine-o
mentalmente, procurando reverentemente aurir seu significado e
penetrar no ritmo espiritual ou na onda de longitude mental que lhe
transmita. Faça-o com a máxima lentidão, com a máxima
concentração que lhe for possível, mantendo o coração e a mente
integrados no trecho escolhido, enquanto as palavras lhe vibram na
alma.
O
estudante também pode despertar a intuição por outras vias.
Cabe-lhe escolher o meio que sinta ser o mais forte para si. Poderia
obter o mesmo resultado ouvindo músicas compostas por verdadeiros
gênios. Uns lograrão este estado interno através de um livro,
outros através da música, e assim por diante.
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