16.3.17

O EU INTERNO E O EGO – Paul Brunton


O homem é em si um universo em miniatura. Seu Eu interno constitui o sol e seu eu pessoal desempenha o papel de lua. Assim como a lua empresta sua luz do sol, assim sua personalidade empresta do Eu interno sua vitalidade e seus poderes de pensar e sentir.

Os homens que vivem apenas em função da sabedoria de seu eu pessoal, assemelham-se aos homens que trabalham à noite sob a luz lunar, por não haver sol. Os homens que vivem em função da sabedoria do Eu interno, podem também apreciar a contribuição da personalidade, porém atribuem-lhe um valor secundário.

Uma vez que tenhais vos colocado nas mãos do Eu interno, vossa vida começará a fluir serena e docemente. Internamente ela se assemelhará a uma tranqüila corrente, mesmo que lá fora rujam as tormentas. Vosso zelo pelo exato resultado de vossos assuntos não poderá ser maior do que o Eu interno tem por vós.

Quando empunhais as rédeas, vossa orientação é constantemente ignorante e insensata; mas quando a divindade interna as empunha, sereis serenamente conduzidos acertadamente, pois ela é mais sábia que vós. Ofertai-lhe vossa irrestrita e espontânea submissão.

O Eu divino é infinitamente paciente e estará pronto para dar-vos sua assistência em vossa própria senda, quando estiverdes preparado para invocar sua presença.

Pouco a pouco, imperceptivelmente, vossos esforços diários de meditação abrirão um novo canal ao longo das sinuosas convoluções de vosso cérebro, o que vos facilitará a aproximação da esfera sob a influência do Eu divino.

A prática da auto-investigação (vichara) coloca vossa consciência em contato com o Eu divino, cuja proteção a envolve. Isolar-se instantaneamente nesta busca do eu espiritual, quando subitamente se defronte com um mau acontecimento é neutralizar-lhe o poder de perturbar a mente. Então, qualquer ação seguida será sábia e correta, por estar inspirada pelo Eu divino.

Ao surgir uma contrariedade, o homem deve recusar-se a aceitar as sugestões do desespero ou dúvida que lhe assaltam a mente. Em lugar disso, deve acalmar sua respiração e inquirir: “Quem sou eu que passa por essa dificuldade?”

Cabe ao estudante cultivar o hábito de recorrer imediatamente ao Eu interno, quando em conflito com as circunstâncias que o envolvam. Se o fizer lealmente, dele se apossará uma maravilhosa sensação de paz e segurança, e sua mente passará sem fricções através da ocorrência; as coisas externas começarão a perder seu poder de afetá-lo.

O estudante será capaz de eliminar influências maléficas, que provenham de outras pessoas ou dos ambientes circundantes, que se apresentem sob a forma de moléstias ou circunstâncias incômodas.

Não nos há de surpreender a obtenção de resultados tão admiráveis, se nos lembrarmos que o ser humano é divino em essência. É o nosso reconhecimento mental de nossa própria divindade o que traz a cura em suas asas e interiormente nos liberta do poder maléfico das circunstâncias adversas.

Todos os que se entregam ao Poder Superior recebem sua ajuda protetora. Aprecio a leal declaração do cacique dos índios vermelhos que queriam atacar a igreja dos quackers da cidade de Easton, em Nova York, no ano de 1775, numa radiante manhã de verão.

Índios vem casa homem branco – disse ele apontando para a colônia com o dedo – índios quer matar homem branco, um, dois, três, seis, todos”, e enfiou seu machado de guerra no cinto com ar agressivo. “Índios chega, vê homem branco sentado na casa; nenhuma arma de fogo, nenhuma flecha, nenhuma faca; todos quietos, todos parados, adorando o Grande Espírito. Grande Espírito dentro de índio também – ele apontou para seu peito – então Grande Espírito diz: Índios, não matar eles!”

A força vital do Eu divino flui continuamente em cada elétron dos átomos que formam o corpo. É o Eu divino que realmente dá vida aos nossos corpos e os sustenta. Sem sua presença invisível, nossos corpos cairiam mortos instantaneamente.

O poder do Eu divino está convosco aqui e agora; nada pode privar-vos de sua operação, a não ser vossa voluntária negligência e dúvida. Segui o caminho da auto-indagação e apropriai-vos daquilo que já é vosso.

Todavia o homem não pode ditar à Inteligência Criadora que governa o mundo e impregna sua vida, sobre a exata forma de ajuda que receberá, nem pode pedir sempre satisfação de suas necessidades pessoais, sem outras considerações superiores.

Se a realização espiritual nem sempre pode afastar de seu caminho as sombras da pobreza, doenças ou infortúnios, ela o dotará de coragem para enfrentar a pobreza, paciência para suportar as doenças e sabedoria para arrostar o infortúnio.

O homem que se integre cada vez mais ao Eu divino se sentirá cada vez menos inclinado a importunar os poderes, seja para seu êxito, suas necessidades materiais ou suas inclinações pessoais. Em vez disso, ele sentirá a força protetora deste Eu; se algo lhe pedir, será mais sabedoria, mais amor. Possuindo essas coisas, ele sabe que pode deixar com segurança o resto para a divindade interna, que depois acudirá infalivelmente a suas reais necessidades, na hora precisa.

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