7.3.17

A ALEGRIA, A HABITAÇÃO E AS ROUPAS - "O Profeta" de Khalil Gibran

Então uma mulher disse: "Fala-nos da Alegria e da Tristeza."

E ele respondeu:
"Vossa alegria é vossa tristeza desmascarada.
E o mesmo poço que dá nascimento a vosso riso foi muitas vezes
preenchido por vossas lágrimas.
E como poderia não ser assim?
Quanto mais profundamente a tristeza cravar a sua garra em vosso ser,
tanto mais alegria podereis conter.
Não é a taça que contém vosso vinho a mesma que foi queimada no
forno do oleiro?
E não é a lira que acaricia vossa alma a própria madeira que foi
entalhada a faca?
Quando estiverdes alegres, olhai no fundo de vosso coração, e achareis
que o que vos deu tristeza é aquilo mesmo que vos está dando alegria.
E quando estiverdes tristes, olhai novamente no vosso coração e vereis
que, na verdade, estais chorando por aquilo mesmo que constituiu vosso deleite.
Alguns dentre vós dizeis: "A alegria é maior que a tristeza", e outros
dizem: "Não, a tristeza é maior."
Porém, eu vos digo que elas são inseparáveis.
Vêm sempre juntas, e, quando uma está sentada à vossa mesa, lembrai-vos
de que a outra dorme em vossa cama.
Em verdade, vós estais suspensos como os pratos de uma balança entre
vossa tristeza e vossa alegria.
É somente quando estais vazios que estais equilibrados.
Quando o guarda do tesouro vos suspende para pesar seu ouro e sua
prata, então deve a vossa alegria ou a vossa tristeza subir ou descer."

Então um pedreiro aproximou-se e disse: "Fala-nos das Habitações."

E ele respondeu e disse:
"Construí com vossos sonhos um abrigo no deserto, antes de construir
uma moradia no recinto da cidade.
Porque da mesma forma por que voltais para casa no crepúsculo, assim
faz o viajante que vive em vós, o sempre distante e solitário.
Vossa casa é vosso corpo mais largo.
Cresce ao sol e dorme no silêncio da noite, e ela também tem sonhos.
Vossa casa não sonha e, sonhando, escapa da cidade para o bosque ou a colina?
Se eu pudesse enfeixar vossas casas na minha mão e, como um
semeador, dispersá-las nas florestas e nas campinas!
Fossem os vales vossas ruas e as veredas verdejantes vossas aléias, para
que pudésseis procurar-vos um ao outro através dos vinhedos e voltar com a
fragrância da terra nas vossas roupas.
Porém, o tempo dessas coisas ainda não chegou.
No seu temor, vossos pais juntaram-vos demasiadamente perto uns dos
outros. E esse medo sobreviverá algum tempo ainda. E durante esse tempo, as
muralhas de vossas cidades separarão vossos campos.
E dizei-me, povo de Orphalese, que possuís vós nessas habitações? E que
objetos guardais atrás dessas portas trancadas?
Acaso possuís a paz, esse impulso tranqüilo que revela vossa potência?
Possuís as recordações, essas abóbadas cintilantes que amarram os
cumes do espírito?
Possuís a beleza que conduz o coração dos objetos confeccionados com
madeira e pedra para a montanha sagrada?
Dizei-me, possuís tudo isto em vossas casas?
Ou tendes somente o conforto e a cobiça do conforto — esse desejo
furtivo que entra em casa como visita, e depois torna-se hóspede, e depois dono?
Sim, e torna-se também domador e, com forcado e açoite, reduz a títeres
vossos desejos mais amplos.
Embora suas mãos sejam de seda, seu coração é de ferro.
Ele embala-vos até dormirdes, só para rondar vosso leito e zombar da
dignidade de vossos corpos zomba também de vossos sentidos normais e deitados
na penugem macia como um vaso frágil.
Na verdade, vossa paixão pelo conforto assassina as paixões mais nobres
de vossa alma e, depois, zombeteira, marcha no seu enterro.
Mas vós, filhos do espaço, vos os inquietos no repouso, vós não caireis
em armadilhas nem sereis domesticados.
Vossa casa não será uma âncora, mas um mastro.
Não será uma fita reluzente que recobre um ferimento, mas uma
pálpebra que protege o olho.
Não dobrareis as asas para poder atravessar as portas, nem curvareis as
cabeças para não bater nos tetos, nem retereis vossa respiração para não
sacudir e abalar as paredes.
Não morareis em tumbas feitas pelos mortos para os vivos.
E apesar de sua magnificência e esplendor, vossa casa não conterá vosso
segredo nem abrigará vossa nostalgia.
Pois aquilo que é ilimitado em vós mora no castelo do céu cuja porta é a
bruma da aurora e cujas janelas são os cânticos e os silêncios da noite."

Um tecelão disse: "Fala-nos das Roupas."

E ele respondeu:
"Vossos trajes ocultam muito de vossa beleza, porém não escondem o
que não é belo.
Embora procureis em trajes a proteção libertadora de vossa intimidade,
neles podeis encontrar arreios e cadeias.
Pudésseis enfrentar o sol e o vento com mais epiderme e menos roupas;
Pois o sopro da vida está na luz do sol e a mão da vida está no vento.
Alguns dentre vós dizeis: "O vento do Norte foi quem teceu os trajes que vestimos."
Eu, porém, vos digo: Sim, foi o vento do Norte.
Mas a desonra foi o seu tear e o relaxamento dos nervos, o seu fio.
E quando completou seu trabalho, ele riu na floresta.
Não esqueçais que a modéstia é um escudo contra o olhar do impuro.
E quando o impuro desaparecer, que será a decência senão um obstáculo
e uma mancha na alma?
E não esqueçais que a terra se rejubila de sentir vossos pés desnudos e
que os ventos anseiam por brincar com vossos cabelos."


Poet'anarquista: PINTURA - KHALIL GIBRAN

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