3.3.17

IMPRESSÕES DE UM MONGE NOS HIMALAYAS – Swami Akhandananda


(essas são as impressões de um monge da Ordem Ramakrishna ao visitar os Himalayas pela primeira vez em 1887)

Deixei Mussouri com a agradável idéia de estar mais próximo de meu destino e iniciei a jornada para Tehri com ótima disposição. Percorri alguns quilômetros e então voltei meus olhos para o Norte. Diante de mim desdobrou-se uma visão magnífica. O Himalaya, “a medida de aferição do mundo”, surgia em toda sua vastidão, branco e imaculado.

Meus pés recusaram-se a andar. Sentei-me ali por algum tempo, os olhos banqueteando-se na glória do Himalaya, a cordilheira coberta de neves eternas. Um arrepio percorreu meu corpo, enquanto sentia uma alegria sem limites. Disse a mim mesmo, “Olhe, isso é o Himalaya. O Mestre (Ramakrishna) recomendava a todos um vislumbre dessa montanha celestial”.

Ali, a Natureza na forma de Párvati encontra-se com Shiva, no lar do pai da Mãe Divina (Himavat, a divindade dos Himalayas). Nunca pensei que a primeira visão do Himalaya me deixaria tão maravilhado. Tive a sensação de que o mundo mortal ficara lá embaixo e que chegara ao reino dos céus.

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Impaciente, queria entrar na morada celeste. Notei o sereno silêncio que pairava por toda parte. A cordilheira branca era cercada por extensas florestas. Eu me senti arrebatado pelos sentimentos sublimes que a visão da magnífica criação do Senhor provocava em mim. Com a mente apaziguada e calma, fiz repetidas reverências ante os pés da majestosa montanha – a encarnação da supremacia e glória divinas.

As coisas mundanas amorteceram-se e cobri uns trinta quilômetros quase em transe, sem qualquer fadiga. Encontrei um ou outro viajante no caminho entremeado de árvores cobertas de flores vermelhas, que contêm mel.

Em Jamunotri, vi pela primeira vez a forma dourada do Himalaya, suas neves refulgindo aos raios do sol poente. Sempre coberta de imaculada brancura, a montanha revestia-se agora de ouro líquido. Tomado de assombro ante tal grandiosidade pensei, “Que visão esplêndida! Amarelo brilhante e branco como a flor do champak (magnólia amarela)”.

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Himagiri, a montanha de neve, surgia como Hemagiri, a montanha de ouro. Emudeci ante a gloriosa beleza, excessiva para ser descrita. Metade da montanha mostrava-se branca como a cânfora, como a prata, e a outra metade brilhava como ouro puro. Como a união de Shiva e Párvati, pensei.

Somente nessas montanhas se pode ver a indescritível união de Shiva e Párvati. Contemplei o belo panorama e pensei que Himavan, o pai de Párvati, esquecera a dor da separação de sua filha e agora fundia-se a Shiva ao meditar constantemente sobre a forma de Ardhanariswara (divindade que é metade Shiva e metade a Mãe Divina).

Via-se ali a serena beleza da Mãe Universal e o terrível aspecto de Shiva pronto a efetuar a dissolução do mundo! Ali estava a terra de Nara e Narayana cultuada pelos sábios, a sagrada terra conhecida como Badarikashram, nas vizinhanças do rio Alakananda; o território purificado por incontáveis sábios, siddhas (seres perfeitos), charanas (cantores celestiais), yakshas (anjos), kinnaras (semideuses) e gandharvas (músicos celestiais), que moraram lá.

O canto de diversos pássaros coloridos ressoava pela mata de árvores quase divinas, com galhos pesados de frutos maduros e flores cheirosas, e uma trepadeira chamada soma, cuja seiva revivia os moribundos. Por ali vagava o veado almiscareiro, entre lagoas e lagos de beleza sobrenatural e águas cristalinas perfumadas pelas flores caídas das árvores à sua volta.

Aquela sim, pensei, era de fato a morada da beleza, da paz e da felicidade, onde Párvati, a Mãe Universal, abençoava todas as criaturas do mundo. Ocorreu-me de novo que os Himalayas eram a verdadeira forma de Shiva; os rochedos pontiagudos e escarpados cobertos de neve, de onde descia uma corrente caudalosa de água irrompendo sobre as pedras, formando lá embaixo lagos límpidos como o cristal, profundos como o próprio abismo, e penhascos rochosos, alcantilados, com despenhadeiros cheios de cavernas – tudo sendo, de fato, as formas de Shiva espalhadas por toda parte em mil aspectos distintos, erguendo-se até as nuvens. Parecia que Shiva estava prestes a começar a dança que abalava o mundo.

Ninguém pode ser insensível a ponto de não reconhecer que uma visita ao Himalaya é na realidade uma visita ao lar celestial de Párvati e Shiva, que realizam os desejos de seus devotos ao surgirem para eles como uma forma viva.

Em lugar algum me deparei com um espetáculo tão arrebatador como o grandioso Himalaya, fascinante e inspirador! Contemplei as diferenças entre Shiva e Párvati, sentindo uma felicidade indescritível!

Quem nunca visitou o Himalaya deveria fazê-lo pelo menos uma vez na vida, para que sua existência terrena tenha sentido.

Enquanto prosseguia ao longo da estrada para Gangotri, a magnificência do Himalaya começou a desdobrar-se perante meus olhos novamente. A imensa cordilheira em forma de tartaruga, coberta de neve imaculada, ergueu-se diante de mim. Dessa montanha precipitava-se o rio Ganges em curvas bruscas e águas borbulhantes como se cantasse “Hara, Hara” (Shiva, Shiva).

Por entre altas montanhas e suas encostas superiores cobertas de neve corre o rio Ganges, e abaixo dos cumes nevados vêem-se imensos pinheiros. Dos dois lados do rio há rochas brancas, lisas como mármore, empilhadas umas sobre as outras como um altar védico.

Tão tocante era o panorama que me abandonei inteiramente a ele, sentindo que não estava mais na terra. Andei sobre as rochas, sentando ora em uma, ora em outra, pois achava que jamais veria semelhante paisagem novamente. Através da visão e outros sentidos absorvi o máximo da divina beleza e da serenidade do Himalaya, que preencheram meu coração até a borda.

Sem noção de que o dia quase terminara, eu não conseguia abandonar o local. Vendo-me nesse estado de transe, o monge que eu encontrara antes de chegar a Bharava Zola conseguiu despertar-me, levando-me com ele para Gangotri.

Em seguida, ao chegar em Uttarkashi, fui acometido por uma forte diarréia e abriguei-me em seus arredores, às margens do Ganges. Durante dois dias, não pude sequer visitar a cidade, situada um pouco distante. No terceiro dia, pensei em voltar à cidade, mas sentia-me extremamente fraco. Mal acabara de pensar nisso, notei um homem daquela região que se aproximava.

Com as roupas um pouco sujas, perguntou como me sentia. Quando tomou conhecimento de meu estado lastimável nos últimos dois dias, seus olhos se encheram de lágrimas. Comovido com sua solidariedade, pensei “Quem será esse homem? Quem o terá enviado aqui? Por que se dá o trabalho de me confortar?”

Com muito cuidado me ajudou a levantar, e amparando-me conduziu-me lentamente a sua pequena cabana numa extremidade da cidade. Seus únicos pertences eram duas ou três panelas de barro e uma lareira composta de três pedras. Depois cozinhou um pouco de arroz e alimentou-me afetuosamente.

Quando terminei a refeição, ele se mostrou muito contente. Meu coração se enche de gratidão quando lembro esse incidente. Que satisfação tinha aquele homem de alimentar o hóspede! Talvez ninguém conhecesse esse homem bondoso, de sentimentos tão generosos. Possivelmente todos o consideravam louco. Embora fosse bem bonito, era indiferente à própria aparência; não penteava o cabelo e suas roupas não eram muito limpas. Mas tinha um brilho natural no rosto e parecia estar sempre sorrindo, o que levava outros a considerá-lo maluco.

Contudo achei que se fingia de louco para que não percebessem sua grandeza espiritual e sua verdadeira natureza. Ao falar com as outras pessoas, costumava divagar incoerentemente, embora jamais falasse assim comigo. Quando se dirigia a mim, era sempre muito simples e lógico.

Sob os cuidados desse homem, recuperei-me inteiramente em dois ou três dias. Não consigo imaginar como ele pôde ter sabido de mim e da minha doença, nem o que o fez ir àquele local solitário e se dar ao trabalho de cuidar de mim até recobrar a saúde. Contudo sua bondade não se voltava apenas a mim; feliz, servia qualquer um que necessitasse, oferecendo-lhe comida que costumava coletar para si mesmo. Tinha sempre no rosto uma expressão plácida e serena.

Quando parti, o santo homem me acompanhou até determinado ponto do caminho. Vendo sua sincera afeição por mim, fiquei bastante comovido. Não sabia como retribuir o que fizera por mim. Como se entendesse o que eu estava pensando, ele comentou que aquela região era muito gelada e disse, “Jamais usei um cobertor em toda minha vida”.
Ao ouvi-lo dizer isso, fiquei muito aliviado, ali estava a solução do meu problema. Coloquei meu cobertor em suas costas e disse a mim mesmo, “Que sorte a minha poder satisfazer um desejo tão insignificante de alguém bom e gentil”. Finalmente nos separamos e prossegui sozinho.

Pensei, “Tenho certeza que, embora aparentemente louco, esse homem é um grande sábio disfarçado.” Quando garoto, contaram-me que grandes sábios comportam-se como loucos para continuarem incógnitos entre as pessoas.

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