(essas
são as impressões de um monge da Ordem Ramakrishna ao visitar os
Himalayas pela primeira vez em 1887)
Deixei
Mussouri com a agradável idéia de estar mais próximo de meu
destino e iniciei a jornada para Tehri com ótima disposição.
Percorri alguns quilômetros e então voltei meus olhos para o Norte.
Diante de mim desdobrou-se uma visão magnífica. O Himalaya, “a
medida de aferição do mundo”, surgia em toda sua vastidão,
branco e imaculado.
Meus
pés recusaram-se a andar. Sentei-me ali por algum tempo, os olhos
banqueteando-se na glória do Himalaya, a cordilheira coberta de
neves eternas. Um arrepio percorreu meu corpo, enquanto sentia uma
alegria sem limites. Disse a mim mesmo, “Olhe, isso é o Himalaya.
O Mestre (Ramakrishna) recomendava a todos um vislumbre dessa
montanha celestial”.
Ali,
a Natureza na forma de Párvati encontra-se com Shiva, no lar do pai
da Mãe Divina (Himavat, a divindade dos Himalayas). Nunca pensei que
a primeira visão do Himalaya me deixaria tão maravilhado. Tive a
sensação de que o mundo mortal ficara lá embaixo e que chegara ao
reino dos céus.

Impaciente,
queria entrar na morada celeste. Notei o sereno silêncio que pairava
por toda parte. A cordilheira branca era cercada por extensas
florestas. Eu me senti arrebatado pelos sentimentos sublimes que a
visão da magnífica criação do Senhor provocava em mim. Com a
mente apaziguada e calma, fiz repetidas reverências ante os pés da
majestosa montanha – a encarnação da supremacia e glória
divinas.
As
coisas mundanas amorteceram-se e cobri uns trinta quilômetros quase
em transe, sem qualquer fadiga. Encontrei um ou outro viajante no
caminho entremeado de árvores cobertas de flores vermelhas, que
contêm mel.
Em
Jamunotri, vi pela primeira vez a forma dourada do Himalaya, suas
neves refulgindo aos raios do sol poente. Sempre coberta de imaculada
brancura, a montanha revestia-se agora de ouro líquido. Tomado de
assombro ante tal grandiosidade pensei, “Que visão esplêndida!
Amarelo brilhante e branco como a flor do champak (magnólia
amarela)”.
Himagiri,
a montanha de neve, surgia como Hemagiri, a montanha de ouro. Emudeci
ante a gloriosa beleza, excessiva para ser descrita. Metade da
montanha mostrava-se branca como a cânfora, como a prata, e a outra
metade brilhava como ouro puro. Como a união de Shiva e Párvati,
pensei.
Somente
nessas montanhas se pode ver a indescritível união de Shiva e
Párvati. Contemplei o belo panorama e pensei que Himavan, o pai de
Párvati, esquecera a dor da separação de sua filha e agora
fundia-se a Shiva ao meditar constantemente sobre a forma de
Ardhanariswara (divindade que é metade Shiva e metade a Mãe
Divina).
Via-se
ali a serena beleza da Mãe Universal e o terrível aspecto de Shiva
pronto a efetuar a dissolução do mundo! Ali estava a terra de Nara
e Narayana cultuada pelos sábios, a sagrada terra conhecida como
Badarikashram, nas vizinhanças do rio Alakananda; o território
purificado por incontáveis sábios, siddhas (seres perfeitos),
charanas (cantores celestiais), yakshas (anjos), kinnaras
(semideuses) e gandharvas (músicos celestiais), que moraram lá.
O
canto de diversos pássaros coloridos ressoava pela mata de árvores
quase divinas, com galhos pesados de frutos maduros e flores
cheirosas, e uma trepadeira chamada soma, cuja seiva revivia os
moribundos. Por ali vagava o veado almiscareiro, entre lagoas e lagos
de beleza sobrenatural e águas cristalinas perfumadas pelas flores
caídas das árvores à sua volta.
Aquela
sim, pensei, era de fato a morada da beleza, da paz e da felicidade,
onde Párvati, a Mãe Universal, abençoava todas as criaturas do
mundo. Ocorreu-me de novo que os Himalayas eram a verdadeira forma de
Shiva; os rochedos pontiagudos e escarpados cobertos de neve, de onde
descia uma corrente caudalosa de água irrompendo sobre as pedras,
formando lá embaixo lagos límpidos como o cristal, profundos como o
próprio abismo, e penhascos rochosos, alcantilados, com
despenhadeiros cheios de cavernas – tudo sendo, de fato, as formas
de Shiva espalhadas por toda parte em mil aspectos distintos,
erguendo-se até as nuvens. Parecia que Shiva estava prestes a
começar a dança que abalava o mundo.
Ninguém
pode ser insensível a ponto de não reconhecer que uma visita ao
Himalaya é na realidade uma visita ao lar celestial de Párvati e
Shiva, que realizam os desejos de seus devotos ao surgirem para eles
como uma forma viva.
Em
lugar algum me deparei com um espetáculo tão arrebatador como o
grandioso Himalaya, fascinante e inspirador! Contemplei as diferenças
entre Shiva e Párvati, sentindo uma felicidade indescritível!
Quem
nunca visitou o Himalaya deveria fazê-lo pelo menos uma vez na vida,
para que sua existência terrena tenha sentido.
Enquanto
prosseguia ao longo da estrada para Gangotri, a magnificência do
Himalaya começou a desdobrar-se perante meus olhos novamente. A
imensa cordilheira em forma de tartaruga, coberta de neve imaculada,
ergueu-se diante de mim. Dessa montanha precipitava-se o rio Ganges
em curvas bruscas e águas borbulhantes como se cantasse “Hara,
Hara” (Shiva, Shiva).
Por
entre altas montanhas e suas encostas superiores cobertas de neve
corre o rio Ganges, e abaixo dos cumes nevados vêem-se imensos
pinheiros. Dos dois lados do rio há rochas brancas, lisas como
mármore, empilhadas umas sobre as outras como um altar védico.
Tão
tocante era o panorama que me abandonei inteiramente a ele, sentindo
que não estava mais na terra. Andei sobre as rochas, sentando ora em
uma, ora em outra, pois achava que jamais veria semelhante paisagem
novamente. Através da visão e outros sentidos absorvi o máximo da
divina beleza e da serenidade do Himalaya, que preencheram meu
coração até a borda.
Sem
noção de que o dia quase terminara, eu não conseguia abandonar o
local. Vendo-me nesse estado de transe, o monge que eu encontrara
antes de chegar a Bharava Zola conseguiu despertar-me, levando-me com
ele para Gangotri.
Em
seguida, ao chegar em Uttarkashi, fui acometido por uma forte
diarréia e abriguei-me em seus arredores, às margens do Ganges.
Durante dois dias, não pude sequer visitar a cidade, situada um
pouco distante. No terceiro dia, pensei em voltar à cidade, mas
sentia-me extremamente fraco. Mal acabara de pensar nisso, notei um
homem daquela região que se aproximava.
Com
as roupas um pouco sujas, perguntou como me sentia. Quando tomou
conhecimento de meu estado lastimável nos últimos dois dias, seus
olhos se encheram de lágrimas. Comovido com sua solidariedade,
pensei “Quem será esse homem? Quem o terá enviado aqui? Por que
se dá o trabalho de me confortar?”
Com
muito cuidado me ajudou a levantar, e amparando-me conduziu-me
lentamente a sua pequena cabana numa extremidade da cidade. Seus
únicos pertences eram duas ou três panelas de barro e uma lareira
composta de três pedras. Depois cozinhou um pouco de arroz e
alimentou-me afetuosamente.
Quando
terminei a refeição, ele se mostrou muito contente. Meu coração
se enche de gratidão quando lembro esse incidente. Que satisfação
tinha aquele homem de alimentar o hóspede! Talvez ninguém
conhecesse esse homem bondoso, de sentimentos tão generosos.
Possivelmente todos o consideravam louco. Embora fosse bem bonito,
era indiferente à própria aparência; não penteava o cabelo e suas
roupas não eram muito limpas. Mas tinha um brilho natural no rosto e
parecia estar sempre sorrindo, o que levava outros a considerá-lo
maluco.
Contudo
achei que se fingia de louco para que não percebessem sua grandeza
espiritual e sua verdadeira natureza. Ao falar com as outras pessoas,
costumava divagar incoerentemente, embora jamais falasse assim
comigo. Quando se dirigia a mim, era sempre muito simples e lógico.
Sob
os cuidados desse homem, recuperei-me inteiramente em dois ou três
dias. Não consigo imaginar como ele pôde ter sabido de mim e da
minha doença, nem o que o fez ir àquele local solitário e se dar
ao trabalho de cuidar de mim até recobrar a saúde. Contudo sua
bondade não se voltava apenas a mim; feliz, servia qualquer um que
necessitasse, oferecendo-lhe comida que costumava coletar para si
mesmo. Tinha sempre no rosto uma expressão plácida e serena.
Quando
parti, o santo homem me acompanhou até determinado ponto do caminho.
Vendo sua sincera afeição por mim, fiquei bastante comovido. Não
sabia como retribuir o que fizera por mim. Como se entendesse o que
eu estava pensando, ele comentou que aquela região era muito gelada
e disse, “Jamais usei um cobertor em toda minha vida”.
Ao
ouvi-lo dizer isso, fiquei muito aliviado, ali estava a solução do
meu problema. Coloquei meu cobertor em suas costas e disse a mim
mesmo, “Que sorte a minha poder satisfazer um desejo tão
insignificante de alguém bom e gentil”. Finalmente nos separamos e
prossegui sozinho.
Pensei,
“Tenho certeza que, embora aparentemente louco, esse homem é um
grande sábio disfarçado.” Quando garoto, contaram-me que grandes
sábios comportam-se como loucos para continuarem incógnitos entre
as pessoas.
Swami Akhandananda
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