7.3.17

AS COMPRAS, OS CRIMES E AS LEIS - "O Profeta" de Khalil Gibran

Um comerciante disse: "Fala-nos das Compras e Vendas."

E ele respondeu:
"A vós a terra oferece seus frutos, e nada vos faltará se somente
souberdes como encher as mãos.
É trocando as dádivas da terra que encontrareis a abundância e sereis satisfeitos.
E, contudo, a menos que a troca se faça no amor e na justiça, ela
conduzirá uns à avidez e outros à fome.
Quando vós, trabalhadores dos campos e dos vinhedos, encontrardes no
mercado os tecelões, os oleiros e os colhedores de especiarias,
Invocai o espírito mestre da terra para que desça sobre vós e santifique
as balanças e os cálculos que comparam valor com valor.
E não permitais que aqueles que têm as mãos vazias tomem parte nas
vossas transações, eles que vos venderiam suas palavras em troca de vosso labor.
A tais homens deveríeis dizer:
"Vinde conosco aos nossos campos ou ide com nossos irmãos para o mar
e jogai vossa rede:
Pois tanto quanto a nós, a terra e o mar vos serão generosos."
Mas quando vierem os cantores e os bailarinos e os flautistas, comprai de
suas ofertas.
Pois eles também colhem frutos e incensos e, embora feitos de sonhos,
seus produtos são vestimentas e alimentos para vossas almas.
E antes de deixardes o mercado, vede que ninguém se retire de mãos vazias.
Pois o espírito mestre da terra não descansará em paz sobre o vento
enquanto as necessidades do mais humilde entre vós não tiverem sido
satisfeitas."

Então um dos juízes da cidade acercou-se e disse: "Fala-nos do Crime e
do Castigo."

E ele respondeu, dizendo:
"É quando vosso espírito vagueia sobre o vento Que vós, sozinhos e
desprevenidos, cometeis delitos contra os outros e, portanto, contra vós próprios.
E pela remissão do mal cometido, devereis bater à porta dos eleitos e
esperar algum tempo antes de serdes atendidos.
Similar ao oceano é vosso Eu-divino:
Permanece sempre imaculado.
E, como o éter, ele sustenta somente os alados.
E similar também ao sol é vosso Eu-divino:
Desconhece os caminhos das tocas e evita o covil das serpentes.
Mas vosso Eu-divino não reside sozinho no vosso ser.
Em vós, muito é ainda do homem, e muito não é ainda do homem.
Mas apenas de um pigmeu informe que vagueia sonâmbulo nas brumas,
em procura de seu próprio despertar.
É do homem em vós que quero agora falar.
Porque é ele, e não o vosso Eu-divino ou o pigmeu que vagueia nas
brumas, quem conhece o crime e o castigo do crime.
Constantemente vos tenho ouvido falar daquele que comete uma ação
má como se não fosse dos vossos, mas um estrangeiro entre vós e um intruso
em vosso mundo.
Mas eu vos digo: Da mesma maneira que o santo e o justo não podem se
elevar acima do que há de mais elevado em vós,
Assim o perverso e o fraco não podem descer abaixo do que há de mais
baixo em vós.
E da mesma forma que nenhuma folha amarelece senão com o silencioso
assentimento da árvore inteira,
Assim o malfeitor não pode agir mal sem o secreto consentimento de todos vós.
Como uma procissão, vós avançais, juntos, para vosso Eu-divino.
Vós sois o caminho e os que caminham.
E quando um dentre vós tropeça, ele cai pelos que caminham atrás dele,
alertando-os contra a pedra traiçoeira.
Sim, e ele cai pelos que caminham adiante dele, que, embora tendo o pé
mais ligeiro e mais seguro, não removeram, contudo, a pedra traiçoeira.
E ouvi também isto, embora a palavra deva pesar rudemente sobre
vossos corações:
O assassinado é censurável por seu próprio assassínio.
E o roubado não é isento de culpa por ter sido roubado.
E o justo não é inocente das ações do mau.
Sim, o culpado é, muitas vezes, a vítima do ofendido.
E mais comumente ainda, o condenado carrega o fardo para o inocente e
o irreprochável.
Vós não podeis separar o justo do injusto e o bom do malvado;
Porque ambos caminham juntos diante da face do sol, exatamente como
os fios branco e negro são tecidos juntos.
E quando o fio negro rompe-se, o tecelão verifica todo o tecido e examina
também o tear.
Se um dentre vós põe em julgamento a esposa infiel,
Que pese também na balança o coração de seu marido, e meça sua alma
com cuidado.
E aquele que deseja fustigar o ofensor, examine a alma do ofendido.
E se um dentre vós pretende punir em nome da retidão e pôr o machado
na árvore do mal, que considere também as raízes da árvore;
E, na verdade, encontrará as raízes do bem e do mal, do frutífero e do
estéril, entrelaçadas no coração silencioso da terra.
E vós, juízes que desejais ser justos.
Que julgamento pronunciareis contra aquele que, embora honesto na
carne, é ladrão no espírito?
E como punireis aquele que assassina o corpo, mas é, ele próprio,
assassinado no espírito?
E como processareis aquele que, impostor e opressor nas suas ações,
É também molestado e ultrajado?
E como punireis aqueles cujos remorsos já são maiores que seus delitos?
Não é o remorso uma justiça aplicada por esta mesma lei que vós
desejais servir?
E, contudo, não podeis pôr o remorso sobre o coração do inocente, nem
levantá-lo do coração do culpado.
Espontaneamente, ele gritará na noite para que os homens despertem e
se considerem.
E vós que desejais compreender a justiça, como a compreendereis sem
examinar todas as ações na plenitude da luz?
Somente então sabereis que o erecto e o caído são um mesmo homem,
vagueando no crepúsculo entre a noite de seu Eu-pigmeu e o dia de seu Eu-divino.
E que a pedra angular do templo não supera a pedra mais baixa de suas
fundações."

Então um advogado disse: "Que pensais de nossas Leis, Mestre?"

E ele respondeu:
"Vós vos deleitais em estabelecer leis.
Mas vos deleitais ainda mais em violá-las,
Tais como crianças brincando à beira do oceano edificam, pacientemente,
torres de areia e, logo em seguida, as destroem entre risadas.
Mas enquanto edificais vossas torres de areia, o oceano atira mais areia à praia,
E quando vós as destruís, o oceano ri convosco.
Na verdade, o oceano sempre ri com os inocentes.
Mas que dizer daqueles para quem a vida não é um oceano, nem as leis
baixadas pelo homem, torres de areia,
Aqueles para quem a vida é uma pedra, e a lei, um cinzel com^ o qual
procuram esculpi-la à sua própria imagem?
Que dizer do aleijado que odeia os bailarinos?
E do boi que gosta de seu jugo e considera o gamo e o veado seres
extraviados e vagabundos?
E da serpente idosa que não pode mais largar a pele e qualifica todas as
outras de desnudas e impudicas?
E daquele que chega cedo ao banquete de núpcias e, depois, saciado e
esgotado, segue seu caminho, dizendo que todo festim é uma violação da lei e
todo festejador um culpado?
Que direi desses todos, senão que eles também se mantêm na claridade
do sol, mas de costas para o sol?
Vêem somente suas sombras, e suas sombras são suas leis.
E que é o sol para eles senão um lançador de sombras?
E que é reconhecer as leis senão curvar-se e delinear essas sombras
sobre a terra?
Vós, porém, que caminhais encarando o sol, que imagens desenhadas
sobre a terra vos podem reter?
Vós que viajais com o vento, que catavento orientará vosso curso?
Que lei humana vos poderá atar quando quebrardes vosso jugo, mas não
à porta de uma prisão humana?
Que leis temereis se dançardes sem tropeçar em nenhuma cadeia de
ferro feita pelo homem?
E quem vos poderá acusar em juízo se rasgais vossas vestimentas sem
as atirar no caminho alheio?
Povo de Orphalese, podeis abafar o tambor e afrouxar as cordas da lira,
mas quem poderá proibir a calhandra de cantar?"

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