Obter
acesso à sua própria alma não é uma façanha tão rara como
talvez o pareça. Muitos são os que preparam, sem o saber, as
condições apropriadas para isso. O artista o faz quando abstrai sua
mente das circunstâncias externas, arrebatado e absorvido por sua
arte. Ele experimenta o êxtase num grau menor, e esquece de si mesmo
em sua obra ou visão.
É neste
estado que os gênios produziram suas mais finas criações. “É
quando sou eu mesmo, inteiramente solitário e animoso, é nessas
ocasiões que minhas idéias fluem melhor; donde e como vêm não
sei, nem posso forçá-las”, confessou Mozart a um amigo.
Um
escritor perdido em lucubrações sobre seu tema, tem sua mente tão
profundamente mergulhada numa simples sequência de idéias que chega
a não reconhecer as coisas, pessoas ou acontecimentos a seu redor.
O pintor
se absorve tanto na contemplação do quadro que está produzindo,
que se esquece do passar das horas, e assim também o músico no
entusiasmo da composição musical.
Quando
Leonardo da Vinci se sentia minguado de idéias criadoras,
bastava-lhe atentar para um monte de cinzas, que de sua concentração
nascia um devaneio, do qual brotavam idéias que estava necessitando.
Lorde
Tennyson, laureado poeta inglês, escreveu: “Desde muito criança,
quando me encontro a sós, passo frequentemente por uma espécie de
transe desperto. Minha intensa consciência de individualidade parece
dissolver-se e diluir-se na de um ser ilimitado, e a perda da
personalidade parece não uma extinção, mas um ingresso na
verdadeira vida.”
Sir
Isaac Newton, numa manhã de sol já alto, foi encontrado sentado na
cama, semi-vestido, mergulhado em meditação, e numa outra ocasião
permaneceu por longo tempo em sua adega, onde uma sequência de
idéias se havia apossado dele ao ir apanhar uma garrafa de vinha
para seus hóspedes.
Lorde
Kitchener tinha atitudes de “ar pensativo”, em que seus olhos se
revolviam, como que contemplando a raiz de seu nariz. Então ele
parecia como que totalmente alheio ao que se passava ao redor.
À
medida que se aprofunda a concentração, o mundo externo vai sendo
lentamente esquecido. As câmaras mentais se tornam vazias de todo
pensamento, exceto esta dominante expectativa por uma resposta do Eu
interno.
Nesse
estágio, cessareis qualquer esforço, não procurareis efetuar nada,
mas antes permitireis que algo seja efetuado em vós. Daí em diante,
o que for feito o será pela ação divina e não pela vossa. Não
mais perguntareis, mas vos submetereis, sem questionar, àquilo que
apela ao mais íntimo de vosso ser.
Então
diante de vosso olho mental pode delinear-se um brilhante quadro
simbólico. Podereis ver uma cruz com um círculo se expandindo em
cores gloriosas, ou como uma radiante estrela pentagonal. Ou podereis
experimentar apenas uma tocante ternura no coração, uma suave
sensação de engolfamento num esplêndido repouso.
Os que
varam anos solicitando alguma insinuação ou revelação do Eu
interior, com o tempo receberão uma rica recompensa. Um simples
vislumbre que obtenhamos daquele misterioso ser, nos tirará os
aborrecimentos da vida e os submeterá a nossos pés. Uma santa
palavra de seus lábios oraculares ministra uma bênção que inunda
nosso pequeno eu de alegria cósmica.
O
despertamento para a consciência espiritual é algo que não se pode
desenvolver apenas por um sistema mecânico e medido. “A arte
acontece!” exclamou Ruskin, e o mesmo ocorre com a espiritualidade.
O aspirante põe em prática certos exercícios, sejam de meditação
ou relaxamento, sejam de auto-observação ou auto-recordação, e um
dia a verdadeira consciência parece chegar-se a ele, suave e
seguramente.
Esse dia
não pode ser determinado. Poderá vir logo no início de seus
esforços, ou somente depois de logos anos de luta decepcionante.
Pois depende de uma manifestação da Graça de parte do Eu interior,
de uma energia mais profunda do que sua vontade pessoal, que agora
começa a participar desse jogo celeste.
Uma vez
que a graça atue num homem, não há como escapar. Silenciosa,
gradativa mas imperceptivelmente, ela o conduz para o interior. Graça
é o requisito essencial para a iluminação. Contudo não podeis
propiciá-la; só o pode fazer vosso Eu interior ou um verdadeiro
Adepto.
Tenho
ouvido falar de uns poucos que obtêm a Graça sem trabalhos nem
sacrifícios. Esses poucos que a recebem aparentemente como uma
súbita dádiva, caída dos céus, não significam nenhuma exceção
à regra de pedir. A diferença é que suas aspirações foram
expressas e ouvidas em existências anteriores, em outras
encarnações.
Quando a
Graça desponta de nosso próprio Eu interno, este desperta um certo
anseio no coração e começa a conduzir nossos pensamentos por
certos canais. Tornamo-nos satisfeitos com a vida tal qual ela é;
principiamos a aspirar algo melhor; iniciamos uma busca de uma
Verdade superior à crença que até então nos sustentou.
O
amadurecimento da alma para esta profunda experiência da união com
o Eu interno se opera gradativamente, tal qual o amadurecimento de
uma fruta. Mas tão logo esteja completo o crescimento, a união
subjuga a alma irresistivelmente, e o homem realmente nasce de novo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário