14.3.17

O ACESSO À ALMA INTERIOR – Paul Brunton


Obter acesso à sua própria alma não é uma façanha tão rara como talvez o pareça. Muitos são os que preparam, sem o saber, as condições apropriadas para isso. O artista o faz quando abstrai sua mente das circunstâncias externas, arrebatado e absorvido por sua arte. Ele experimenta o êxtase num grau menor, e esquece de si mesmo em sua obra ou visão.

É neste estado que os gênios produziram suas mais finas criações. “É quando sou eu mesmo, inteiramente solitário e animoso, é nessas ocasiões que minhas idéias fluem melhor; donde e como vêm não sei, nem posso forçá-las”, confessou Mozart a um amigo.

Um escritor perdido em lucubrações sobre seu tema, tem sua mente tão profundamente mergulhada numa simples sequência de idéias que chega a não reconhecer as coisas, pessoas ou acontecimentos a seu redor.

O pintor se absorve tanto na contemplação do quadro que está produzindo, que se esquece do passar das horas, e assim também o músico no entusiasmo da composição musical.

Quando Leonardo da Vinci se sentia minguado de idéias criadoras, bastava-lhe atentar para um monte de cinzas, que de sua concentração nascia um devaneio, do qual brotavam idéias que estava necessitando.

Lorde Tennyson, laureado poeta inglês, escreveu: “Desde muito criança, quando me encontro a sós, passo frequentemente por uma espécie de transe desperto. Minha intensa consciência de individualidade parece dissolver-se e diluir-se na de um ser ilimitado, e a perda da personalidade parece não uma extinção, mas um ingresso na verdadeira vida.”

Sir Isaac Newton, numa manhã de sol já alto, foi encontrado sentado na cama, semi-vestido, mergulhado em meditação, e numa outra ocasião permaneceu por longo tempo em sua adega, onde uma sequência de idéias se havia apossado dele ao ir apanhar uma garrafa de vinha para seus hóspedes.

Lorde Kitchener tinha atitudes de “ar pensativo”, em que seus olhos se revolviam, como que contemplando a raiz de seu nariz. Então ele parecia como que totalmente alheio ao que se passava ao redor.

À medida que se aprofunda a concentração, o mundo externo vai sendo lentamente esquecido. As câmaras mentais se tornam vazias de todo pensamento, exceto esta dominante expectativa por uma resposta do Eu interno.

Nesse estágio, cessareis qualquer esforço, não procurareis efetuar nada, mas antes permitireis que algo seja efetuado em vós. Daí em diante, o que for feito o será pela ação divina e não pela vossa. Não mais perguntareis, mas vos submetereis, sem questionar, àquilo que apela ao mais íntimo de vosso ser.

Então diante de vosso olho mental pode delinear-se um brilhante quadro simbólico. Podereis ver uma cruz com um círculo se expandindo em cores gloriosas, ou como uma radiante estrela pentagonal. Ou podereis experimentar apenas uma tocante ternura no coração, uma suave sensação de engolfamento num esplêndido repouso.

Os que varam anos solicitando alguma insinuação ou revelação do Eu interior, com o tempo receberão uma rica recompensa. Um simples vislumbre que obtenhamos daquele misterioso ser, nos tirará os aborrecimentos da vida e os submeterá a nossos pés. Uma santa palavra de seus lábios oraculares ministra uma bênção que inunda nosso pequeno eu de alegria cósmica.

O despertamento para a consciência espiritual é algo que não se pode desenvolver apenas por um sistema mecânico e medido. “A arte acontece!” exclamou Ruskin, e o mesmo ocorre com a espiritualidade. O aspirante põe em prática certos exercícios, sejam de meditação ou relaxamento, sejam de auto-observação ou auto-recordação, e um dia a verdadeira consciência parece chegar-se a ele, suave e seguramente.

Esse dia não pode ser determinado. Poderá vir logo no início de seus esforços, ou somente depois de logos anos de luta decepcionante. Pois depende de uma manifestação da Graça de parte do Eu interior, de uma energia mais profunda do que sua vontade pessoal, que agora começa a participar desse jogo celeste.

Uma vez que a graça atue num homem, não há como escapar. Silenciosa, gradativa mas imperceptivelmente, ela o conduz para o interior. Graça é o requisito essencial para a iluminação. Contudo não podeis propiciá-la; só o pode fazer vosso Eu interior ou um verdadeiro Adepto.

Tenho ouvido falar de uns poucos que obtêm a Graça sem trabalhos nem sacrifícios. Esses poucos que a recebem aparentemente como uma súbita dádiva, caída dos céus, não significam nenhuma exceção à regra de pedir. A diferença é que suas aspirações foram expressas e ouvidas em existências anteriores, em outras encarnações.

Quando a Graça desponta de nosso próprio Eu interno, este desperta um certo anseio no coração e começa a conduzir nossos pensamentos por certos canais. Tornamo-nos satisfeitos com a vida tal qual ela é; principiamos a aspirar algo melhor; iniciamos uma busca de uma Verdade superior à crença que até então nos sustentou.


O amadurecimento da alma para esta profunda experiência da união com o Eu interno se opera gradativamente, tal qual o amadurecimento de uma fruta. Mas tão logo esteja completo o crescimento, a união subjuga a alma irresistivelmente, e o homem realmente nasce de novo.

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