19.1.13

A CRENÇA EM DEUS - Krishnamurti



Pergunta: Acreditar em Deus tem sido um poderoso incentivo para melhorar a vida. O senhor rejeita Deus, por quê? Por que não tenta restabelecer a fé do homem em Deus?

K. – Olhemos para o problema de um modo aberto e inteligente. Eu não rejeito Deus – isso seria demasiado estúpido. Só o homem que não conhece a realidade utiliza palavras sem significado. Aquele que diz que sabe, não sabe; o que experiencia a Realidade a todo o momento não tem os meios para comunicar essa realidade. A crença é a negação da Verdade; a crença impede a Verdade; acreditar em Deus é não encontrar Deus. Nem o crente nem o não-crente encontram Deus; porque a Verdade é o Desconhecido, e acreditar ou não no desconhecido é uma projeção pessoal e portanto não é Real. Sei que você é crente, e sei também que isso tem pouco significado na sua vida.

 Há muita gente crente; milhões acreditam em Deus e nisso obtêm consolo. Primeiro que tudo, por que é crente? É crente porque isso lhe dá satisfação, conforto, esperança e, como você afirma, dá significado à vida. De fato, o seu acreditar tem muito pouco significado, porque acredita e explora os outros, acredita e mata, acredita num Deus universal e aceita que os homens se matem uns aos outros. O homem rico também acredita em Deus, ele explora sem piedade, acumula riqueza, e depois constrói um templo ou torna-se filantropo. Os homens que jogaram a bomba atômica em Hiroshima disseram que Deus estava com eles; aqueles que voaram da Inglaterra para destruir a Alemanha afirmavam que Deus era o seu co-piloto. Os ditadores, os primeiros ministros, os generais, os presidentes, todos eles falam de Deus, têm imensa fé em Deus. E estão eles a fazer o que devem fazer, construindo uma vida melhor para os seres humanos? 

As pessoas que afirmam acreditar em Deus já destruíram metade do mundo, e este planeta está uma completa desgraça. Através da intolerância religiosa criam-se divisões entre os povos, os que acreditam e os que não acreditam, o que conduz a guerras religiosas. Isso demonstra como as nossas mentes estão extraordinariamente politizadas. Será que acreditar em Deus é «um poderoso incentivo para uma vida melhor»? Por que queremos nós um incentivo para viver melhor? Claro que esse incentivo deve ser o nosso próprio desejo de viver com higiene e com simplicidade, não é assim? Se procuramos um incentivo, é porque não estamos interessados em tornar a vida melhor para todos, estamos apenas interessados no nosso incentivo, que é diferente do de outra pessoa – e acabaremos por lutar por causa de um incentivo! 

Se vivemos em paz uns com os outros, não porque acreditamos mas porque somos seres humanos, então partilhamos todos os meios de produção com o objetivo de produzir coisas para toda a gente. Devido à falta de inteligência, aceitamos a ideia de uma superinteligência a que chamamos «Deus»; mas esse «Deus» não nos vai proporcionar uma vida melhor. O que conduz a uma vida melhor é a Inteligência; e não pode existir inteligência-Deus, se houver crença, se houver divisões sociais, se os meios de produção estiverem nas mãos de poucos indivíduos, se existirem nações isoladas e governos soberanos. Tudo isto indica falta de inteligência e é a falta de inteligência que está a impedir uma vida melhor, e não a descrença em Deus. Todos nós acreditamos de modos diferentes, mas a crença não tem qualquer realidade.

 A realidade é aquilo que cada um é, o que cada um faz, pensa, e acreditar em Deus é um mero escape para a nossa monótona, estúpida e cruel existência. Mais, a crença invariavelmente divide as pessoas: há o hindu, o budista, o cristão, o comunista, o socialista, o capitalista, e todo o resto. A crença e a ideia dividem; nunca levam as pessoas a estarem unidas. Algumas pessoas podem juntar-se e formar um grupo; mas esse grupo acaba por se opor a outro grupo. Ideias e crenças nunca são unificadoras; pelo contrário, elas são separativas, desintegradoras e destrutivas. Portanto, a crença em Deus está de fato a espalhar a infelicidade no mundo; embora essa crença nos traga consolo momentâneo, ela na realidade traz mais sofrimento e destruição na forma de guerras, fome, divisão de classes e a impiedosa ação de indivíduos que se põem à parte. 

Assim, a crença não tem validade alguma. Se acreditamos realmente em Deus, se isso é uma experiência real para nós, então há um sorriso na nossa face; e não destruímos os outros seres humanos. O que é a Realidade? O que é Deus? Deus não é a palavra, a palavra não é a realidade. Para conhecer isso que é imensurável, que não está no tempo, a mente tem de estar liberta do tempo, quer dizer, a mente tem de se libertar de todo o pensamento, de todas as ideias acerca de Deus. 

O que sabemos nós sobre Deus ou a Verdade? Não sabemos realmente nada sobre essa Realidade. Tudo o que conhecemos são palavras, são experiências de outros ou alguns momentos de experiências pessoais. Claro que isso não nos dá a conhecer Deus, não é a Verdade, isso não está para além do tempo, temos de compreender o processo do tempo, tempo sendo pensamento, sendo o processo de «vir a ser», sendo acumulação de conhecimentos. Isso é tudo o que está por detrás da mente; a mente, em si, é esse fundo, é o consciente e o inconsciente, é o coletivo e o individual. 

Assim, a mente tem de estar livre do conhecido, isto é, ela tem de estar completamente em silêncio, não FORÇADA ao silêncio. A mente que é forçada, controlada, moldada, posta dentro de limites e mantida quieta, não é uma mente em paz. Podemos ter sucesso por algum tempo em forçar a mente a ser superficialmente silenciosa, mas tal mente não é uma mente serena. A serenidade só acontece quando compreendemos todo o processo do pensamento, porque compreender esse processo é acabar com ele, e na cessação do processo do pensamento está o começo do silêncio.Só quando a mente está completamente em silêncio, não apenas a um nível superficial mas a um nível profundo da consciência – só então o desconhecido pode manifestar-se. 

O Desconhecido não é algo para ser experimentado pela mente; apenas o silêncio e só o silêncio pode ser experienciado. Se a mente experimenta o que quer que seja que não o silêncio, é porque está simplesmente a projetar os seus próprios desejos, e uma tal mente não está em silêncio. Silêncio é a libertação do passado, dos conhecimentos, de memórias conscientes e inconscientes; quando a mente está em completo silêncio, em não funcionamento, quando há silêncio que não é produto do esforço, então o Intemporal, o Eterno dá-se a mostrar. Esse estado não é um estado para lembrar – não há qualquer entidade a recordá-lo, a experimentá-lo.

 Portanto, Deus, a Verdade, chamemos-lhe o que quisermos, é algo que se manifesta a todo momento, e isso só acontece num estado de liberdade e de espontaneidade, não quando a mente é disciplinada de acordo com um padrão. Deus não é uma coisa da mente, não vem através da autoprojeção; só acontece quando há virtude, que é liberdade. Virtude é enfrentar o fato do QUE É, e enfrentar o FATO gera um estado de BÊNÇÃO. Quando a mente está nesse estado de profunda alegria, em paz, sem qualquer movimento, sem a projeção consciente ou inconsciente do pensamento – só então o ETERNO se manifesta.” 


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16.1.13

YOGA E TRANSFORMAÇÃO - A Mãe


  • A força que desce naquele que faz yoga e o ajuda em sua transformação, age de muitas maneiras diferentes e seus resultados variam de acordo com a natureza que a recebe e com o trabalho a ser feito. Primeiro ela apressa a transformação de tudo no ser que está pronto para ser transformado. Se ele estiver aberto e receptivo em sua mente, a mente, tocada pelo poder do yoga, começa a mudar e progredir rapidamente. Pode acontecer a mesma rapidez de mudança na consciência vital, se ela estiver pronta, ou até mesmo no corpo. Mas no corpo, o poder transformador do yoga opera somente até certo ponto, porque a receptividade do corpo é limitada. Mas o rápido progresso de uma parte do ser que não seja seguido de um progresso equivalente das outras partes, produz uma desarmonia na natureza, um deslocamento em algum lugar; e onde e quando este deslocamento ocorre, pode traduzir-se em doença. A natureza da doença depende da natureza do deslocamento. Uma espécie de desarmonia afeta a mente e a perturbação que a produz pode levar até mesmo à loucura; uma outra espécie afeta o corpo e a vemos aparecer como febre ou erupção ou qualquer outra desordem de maior ou menor importância.

  • De um lado, a ação das forças do yoga apressa o movimento de transformação do ser, nas partes que estão preparadas para receber e responder ao poder que está trabalhando sobre ele. O yoga, deste modo, economiza tempo. O trabalho de transformação que levaria anos no curso ordinário, pode ser feito pelo yoga em poucos dias ou até mesmo em poucas horas.

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  • O corpo é geralmente denso, inerte e apático. Ele deve ir devagar, deve caminhar no próprio passo, como o faz na vida ordinária. O mesmo acontece quando os adultos andam muito depressa para as crianças que estão em sua companhia; eles têm que parar de vez em quando e esperar até que a criança, que vem vagarosamente atrás, se aproxime e os alcance. Esta divergência entre o progresso do ser interior e a inércia do corpo cria frequentemente um deslocamento no sistema, que se manifesta em forma de doença. É por isso que as pessoas que fazem yoga (raja yoga) começam amiúde a sofrer de algum desconforto ou desordem física. Isto não precisa acontecer, se forem precavidos e cuidadosos. Ou se houver uma receptividade maior e incomum no corpo, então também eles escaparão. Mas uma receptividade não misturada, fazendo as partes físicas seguirem de perto o passo da transformação interior, é quase impossível, a não ser que o corpo já tenha sido preparado no passado (em vidas passadas) para os processos do yoga.

  • É por esta razão que somos obrigados a dizer para muitos: 'Não puxem, não se apressem; vocês devem dar tempo ao corpo para seguir'. Alguns devem ser retidos durante anos e não lhes é permitido fazer muito ou progredir demais.

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  • Toda vez que há um forte movimento de progresso, ele é invariavelmente seguido de um período de imobilidade, o que parece, para aqueles que não estão prevenidos, um intervalo de embotamento e estagnação e desencorajamento, no qual todo progresso é interrompido; e eles perguntam ansiosamente: 'O que aconteceu? Estou perdendo tempo?' Mas a verdade é que este tempo é necessário para a assimilação; é uma pausa que dá ao corpo um meio de se abrir mais e tornar-se receptivo e aproximar-se mais do nível alcançado pela consciência interior.

  • Há por exemplo uma certa pressão na cabeça, que é sentida por muitos aspirantes, especialmente nos estágios iniciais do yoga, quando alguma coisa que está fechada tem de se abrir. É algo que pode facilmente ser superado se você souber que é um efeito da pressão das forças às quais você está se abrindo, quando elas trabalham fortemente no corpo para produzir um resultado e apressar a transformação. 

     

RELIGIÃO E CONHECIMENTO - A Mãe


  • Em todas as religiões achamos certo número de pessoas que possuem grande capacidade emocional e estão cheias de aspiração real e ardente, porém têm uma mente muito simples e não sentem necessidade de se aproximar do Divino pelo conhecimento. Para estas naturezas, a religião tem sua utilidade, e é mesmo necessária a elas, pois através de formas externas, como as cerimônias da Igreja, ela oferece uma espécie de apoio e serve de auxílio à aspiração espiritual interior. Em cada religião existem alguns que desenvolveram alta vida espiritual. Não foi a religião que lhes deu espiritualidade; foram eles que colocaram sua espiritualidade dentro da religião. Colocados em qualquer outro lugar, nascidos em qualquer outro culto, teriam achado lá a mesma vida espiritual. Este poder em sua natureza é tal que a religião não se torna uma escravidão ou um cativeiro. Mas como não têm uma mente forte, clara e ativa, precisam de acreditar neste ou naquele credo como absolutamente verdadeiro e consagrar-se a ele sem qualquer pergunta perturbadora ou dúvida. Há pessoas assim em todas as religiões e seria um crime perturbar sua fé. Para elas, a religião não é um obstáculo.

  • Quando você se detém num credo religioso e se liga a ele, tomando-o pela única verdade do mundo, você pára seu progresso e a expansão de seu ser interior. Cada um de nós já nasceu em vários países diferentes, já pertenceu a muitas nações distintas, já seguiu inúmeras religiões variadas. Por que devemos aceitar a última como a melhor?


AMOR HUMANO E DIVINO - A Mãe


  • O amor é uma das grandes forças universais; existe por si mesmo e seu movimento é livre e independente dos objetos nos quais e através dos quais se manifesta. Manifesta-se em qualquer lugar onde encontre uma possibilidade de manifestação, onde quer que haja receptividade, onde quer que haja uma abertura para ele. O que você chama de amor, e pensa ser uma coisa individual e pessoal, é apenas sua capacidade de receber e manifestar esta força universal. Conscientemente, ele procura sua manifestação e realização na terra; conscientemente escolhe seus instrumentos, desperta para suas vibrações aqueles que são capazes de uma resposta, esforça-se para realizar neles aquilo que é sua meta eterna, e quando o instrumento não é adequado, deixa-o e volta-se para procurar outros. Os homens pensam que, de repente, se apaixonam; veem seu amor chegar e crescer e gradualmente desaparecer – ou talvez durar um pouco mais naqueles que são especialmente capacitados para seu movimento mais durável. Mas a sensação de ser uma experiência pessoal toda sua era uma ilusão. Nada mais era que uma onda do mar sem fim do amor universal.

  • As deformações que vemos nas aparentes expressões do amor pertencem a seus instrumentos. O amor não se manifesta apenas em seres humanos; está em todo lugar. Seu movimento está nas plantas, talvez nas próprias pedras; nos animais é fácil notar sua presença. Todas as deformações deste grande Poder Divino vêm da obscuridade e ignorância e egoísmo do instrumento limitado. O amor não tem apego ou desejo, não tem fome de posse nem ligação egoística; é, no seu movimento puro, a procura da união do ser com o Divino. O amor divino dá-se e não pede nada. O que os seres humanos fizeram dele não é preciso dizer – transformaram-no em algo feio e repulsivo. E entretanto, mesmo nos seres humanos, o primeiro contato com o amor traz para baixo algo da sua substância mais pura; por um momento eles se tornam capazes de esquecer-se de si mesmos, por um momento seu toque divino desperta e amplia tudo que é bom e bonito. Mas depois vem à tona a natureza humana, cheia de suas exigências impuras, pedindo alguma coisa em troca, negociando com o que dá, clamando por suas próprias satisfações inferiores, distorcendo e denegrindo o que era divino.

  • Em alguns, a pureza da manifestação do Amor Divino é tão grande que são mal compreendidos por toda a humanidade e até mesmo são acusados de ser duros e sem coração. Porque neles, esse amor é divino e não humano em sua forma e em sua substância. Pois quando o homem fala de amor, ele o associa a uma fraqueza emocional e sentimental. E quando não está misturado com emoções fracas e sentimentais, acham-no duro e frio; não podem reconhecer nele o mais alto grau e intensidade do poder do amor.

  • A força do amor no mundo está tentando encontrar consciências que sejam capazes de receber este movimento divino na sua pureza, e de expressá-lo. Esta corrida de todos os seres em busca do amor é o impulso dado pelo Amor Divino, que se esconde atrás do anseio e busca dos homens.

  • O movimento do amor não é limitado aos seres humanos e é talvez menos distorcido em outros mundos. Olhe para as flores e árvores. Quando o sol se põe e tudo se torna silencioso, sente-se por um momento e coloque-se em comunhão com a natureza; você sentirá subindo da terra de debaixo das raízes das árvores, ascendendo e caminhando através de suas fibras até os mais altos galhos espalhados, a aspiração de um amor intenso e saudade – uma saudade de algo que traz luz e dá felicidade, pela luz que se foi e que você gostaria de ter de volta. Há um anseio tão puro e intenso que se você puder sentir o movimento nas árvores, seu próprio ser também se elevará numa prece ardente pela paz e luz e amor que ainda não são manifestados aqui.

  • Se você entrar em contato com este verdadeiro amor divino, vasto e puro, se você o tiver sentido mesmo por um momento e na sua forma ínfima, tomará consciência da coisa abjeta na qual o desejo humano o transformou. Tornou-se na natureza humana algo baixo, brutal, egoísta, violento, feio, ou então algo sentimental e fraco, formado de sentimentos mesquinhos, frágeis, superficiais e exigentes. E a esta torpeza e brutalidade ou a esta fraqueza egoística chamam de amor!


7.1.13

SEXO E SAÚDE - Divaldo Franco



Assexuado, o Espírito renasce numa como noutra polaridade, a fim de adquirir
experiências e compreensão de deveres, que são pertinentes a ambos os sexos. A
intrepidez masculina e a docilidade feminina são capítulos que dão ao Espírito
equilíbrio e harmonia. Dessa forma, em uma reencarnação pode o Espírito tomar um
corpo masculino e noutra um feminino, ou realizar um vasto programa de
renascimento em um sexo para depois começar os processos experimentais em outro,
sem qualquer prejuízo emocional para a sua estrutura íntima.

Fadado ao progresso, que é ilimitado, o Espírito deve vivenciar cada reencarnação enobrecendo as funções de que se constitui  seu corpo, de modo a desenvolver os valores que lhe dormem em latência.
Graças à conduta moral em cada polaridade, mais fácil se lhe torna, quando
edificante, escolher o próximo cometimento. No entanto, quando se permite
corromper ou desviar-se do rumo das suas funções, gera perturbações emocionais e
psíquicas que lhe impõem duros processos de recuperação, de que não se pode
furtar com facilidade.

A correta aplicação das forças genésicas propicia ao Espírito alegria de viver e
entusiasmo no desempenho das tarefas que lhe dizem respeito, constituindo-se
emulação para o progresso e a felicidade.

Nada obstante, o sexo é um dos capítulos mais complexos de algumas ciências
psíquicas, tais a Psicologia, a Psicanálise, a Psiquiatria, em razão das disfunções e dos desconsertos que ocorrem em muitas vidas como resultado das experiências atormentadas próximas ou remotas, que lhe geraram desequilíbrios e inarmonias, hoje refletidos em seu comportamento. Valiosos capítulos da Medicina são dedicados às psicopatologias sexuais, que se apresentam como aberrações morfológicas e psicológicas, levando o indivíduo a estados graves de conduta e de vida.

Eminentes estudiosos da sexologia vêm procurando desmistificar as funções sexuais, que a ignorância medieval vestiu de fantasias e de pecados, gerando perturbações emocionais muito graves nas criaturas humanas. Como decorrência da nobre proposta, a liberação sexual, exagerando as suas licenças morais, vem trazendo transtornos graves e desarmonias profundas em muitos indivíduos que vivem conflitivamente em razão das dificuldades para se adaptarem às exigências comportamentais do momento.

É natural que, num momento de transição de valores, campeiem o absurdo e o fantasioso, tentando adquirir cidadania moral, ao tempo em que empurram os cidadãos na direção do fosso da promiscuidade e do desespero, da fuga pelo tabaco, pelo álcool, pelas drogas aditivas, pela alucinação, pelo suicídio...

Torna-se indispensável quão imediata uma nova ética moral, a fim de que os valores nobres granjeados pela sociedade no curso dos milênios, não se percam no chafurdar das paixões e no desprestígio das instituições, como o matrimônio, a família, a castidade, a saúde comportamental, o grupo social...

O matrimônio e a monogamia são conquistas valiosas logradas pelo ser humano após torpes experiências de convivência doentia através dos tempos. Tentar reduzi-los a lembranças do passado, é uma aventura macabra cujas consequências são imprevisíveis para a própria sociedade.

Vive-se, na Terra, a hora do sexo. O sexo vive na cabeça das pessoas, parecendo
haver saído da organização genésica onde se sedia. Naturalmente, o pensamento é
força atuante e desencadeadora da função sexual. Reduzir o indivíduo apenas às
imposições reais ou estimuladas do sexo em desalinho, conforme vem acontecendo,
é transformá-lo em escravo de uma função pervertida pela mente e atormentada
pelas fantasias mórbidas.

O ser humano são os seus valores éticos, suas aspirações, seus sonhos, suas
lutas, suas grandezas e também aprendizagens dolorosas. Graças a todos esses
fenômenos do cotidiano, ele cresce e se aprimora, saindo dos limites em que se
encarcera para os incomparáveis voos da amplidão. Sitiá-lo no gozo sexual e asfixiá-lo nos vapores da libido perturbada, constitui agressão injustificável às suas conquistas emocionais, psíquicas e intelectuais, que lhe dão sabedoria para discernir e para realizar.

Progredindo sempre, o Espírito jamais retrograda no seu processo reencarnatório.

Nada obstante, em razão de conduta irregular pode estacionar, aguardando reparação dos erros graves cometidos, quando já não mais se deveria permiti-los. Nesse desenvolvimento intelecto-moral, vincula-se àqueles a quem ama ou de quem se distanciou pelo crime e pela iniquidade, experimentando o apoio dos afetos e a perseguição dos inimigos, que não o perdoam pelas ofensas de que foram vítimas.

É nesse campo de lutas que surgem as lamentáveis e dolorosas obsessões de graves consequências. O sexo, mal conduzido, em razão do envolvimento emocional e das dilacerações espirituais que produz em outrem, como naquele que o utiliza mal, abre campo para terríveis conúbios obsessivos, ao mesmo tempo que, praticado de forma vil, atrai Espíritos igualmente atormentados e doentes que se vinculam ao indivíduo, levando-o a processos de parasitose terrível e de difícil libertação.

Desvios sexuais, aberrações nas práticas do sexo, condutas extravagantes e
desarticuladoras das funções estabelecidas pelas Leis da Vida, geram perturbações de longo curso, que não se recompõem com facilidade, senão ao largo de dolorosas reencarnações expungitivas e purificadoras.

Tormentos da libido e da função sexual têm suas matrizes nos comportamentos
anteriores que o Espírito se permitiu, quando, em outras reencarnações, abusou da faculdade procriativa, aplicando-a para o prazer exorbitante, ou explorou pessoas que se lhe tornaram vítimas, estimulou abortamentos e se permitiu experiências perversas e anormais, ou derrapou nos excessos com exploração de outras vidas... Todas essas condutas arbitrárias fixaram-se nos tecidos sutis do perispírito, impondo necessidades falsas, que agora os pacientes procuram atender, ampliando o complexo campo de problemas íntimos.

O respeito e a consideração pelas funções sexuais constituem a melhor terapia
preventiva para a manutenção da saúde moral, assim como o esforço para a
recomposição do caráter, quando alguém já se permitiu corromper, ao lado da
terapêutica especializada, fazem-se imprescindíveis para a conquista da harmonia.

Ninguém se engane quanto aos compromissos do sexo perante a vida e cuide de não enganar a outrem. Cada um responde sempre pelo que inspira e pelo que faz.
O sexo não foi elaborado para o prazer vulgar, senão para as emoções superiores
na construção das vidas, ou para as sensações compensativas quando amparado
pelas dúlcidas vibrações do amor, mantendo a afetividade e a alegria de viver.

Reflexionar e agir de maneira correta em relação às funções sexuais é dever de
todo ser que pensa e que compreende a finalidade da existência humana.
Nesta hora de conturbação moral e de violência, de agressividade, de aberrações
sexuais, de descontrole geral e de sofrimentos de todo porte, cumpre-nos, a todos, somar esforços em favor dos princípios da dignidade humana e da honradez, do equilíbrio no comportamento e da educação das gerações novas, único meio de oferecer ao futuro uma sociedade menos conturbada e deslindada dos terríveis cipoais da obsessão.

À educação moral cabe a tarefa de construir um novo homem e uma nova mulher, que formarão uma nova e saudável sociedade para o porvir.







6.1.13

A AURA HUMANA - Ramacháraka



A aura é visível apenas para quem possui o poder psíquico altamente desenvolvido. Alguns, possuindo uma visão inferior, só têm sido capazes de ver algumas das mais grosseiras manifestações da emanação que constitui a aura.

Cada princípio do homem (espírito, mente espiritual, intelecto, mente instintiva, prana, corpo astral e corpo físico) irradia energia que, combinando-se, constitui o que é conhecido como aura humana. A aura de cada princípio, se se afastasse ou fosse separada dos outros, ocuparia o mesmo espaço que o ocupado pela aura de todos ou de algum dos princípios. Era outras palavras: as várias auras dos diferentes princípios se interpenetram umas às outras, e sendo de diferentes estados de vibração, não interferem umas com as outras.

A forma mais grosseira da aura humana é, naturalmente, a que emana do corpo físico. Algumas vezes denominam-na aura de saúde, pois é uma indicação segura do estado de saúde física da pessoa de cujo corpo irradiar. Como todas as outras formas da aura, estende-se do corpo a uma distância de algumas polegadas. Do mesmo modo que todas as outras formas da aura, é oval. A aura física é, praticamente, incolor (ou, positivamente, quase de um branco azulado, parecido à cor da água clara), mas possui um aspecto peculiar, não possuído pelas outras manifestações da aura, posto que se apresenta à visão psíquica como "estriada" por numerosas linhas finas, que se estendem como crina eriçada do corpo para fora. Em saúde e vitalidade, essas crinas saem retas, enquanto que, em casos de saúde imperfeita ou pobreza de vitalidade, caem como cabelo flexível de um animal. Este fenômeno é ocasionado pela corrente de Prana que vigoriza o corpo com maior ou menor intensidade; o corpo está sadio quando tem uma provisão normal de Prana, enquanto que o corpo fraco ou doente sofre pela quantidade insuficiente do mesmo Prana. Essa aura física é visível para muitos que só têm um grau muito limitado de visão psíquica. As partículas desprendidas da aura física permanecem no ponto ou lugar onde a pessoa esteve; e os cães e outros animais que possuem certo sentido fortemente desenvolvido, têm a faculdade de seguir o cheiro ou as pegadas da pessoa ou animal da qual estão na pista.

A aura que emana do segundo princípio ou corpo astral é como o princípio mesmo, de cor e aparência vaporosa, tendo alguma semelhança com o vapor antes de dissolver-se e desaparecer de nossa vista. Aqueles de nossos leitores que alguma vez tenham visto uma forma astral ou o que comumente se chama um fantasma — de alto ou baixo grau — relembrarão, provavelmente, de ter visto uma nebulosa de forma ovóide, vaporosa, rodeando a figura mais visível da forma astral. Essa débil e vaporosa nuvem oval era a aura astral.

A aura do terceiro princípio, ou Prana, é difícil de descrever, exceto para aqueles que já viram os raios X. Vê-se algo como uma nuvem vaporosa de cor e aparência de uma chispa elétrica. De fato, todas as manifestações de Prana se parecem à luz ou chispas elétricas. Prana tem um colorido suavemente rosado, quando está no corpo ou próximo dele, mas perde este aspecto desde que se aparta algumas polegadas do corpo. Essa aura prânica é extraída, algumas vezes, de uma pessoa forte e sã, por uma débil que carece de vitalidade e, então, extrai daquela o que lhe é necessário. Nestes casos a pessoa que é despojada sem seu consentimento, experimentará uma sensação de languidez e lassidão, depois de haver estado em companhia da pessoa que absorveu uma parte de sua vitalidade.

A aura é vista pelo observador psíquico como uma nuvem luminosa, quase oval, na forma, estendendo-se de dois a três pés (60 a 90 cm) em todas as direções do corpo. Não termina de maneira abruta, mas sim, desvanece-se gradualmente até que de todo desaparece. Suas cores são originadas por certos estados mentais da pessoa circundada pela aura. Cada pensamento, emoção ou sentimento manifesta-se por um certo matiz ou combinação de cores. O psíquico desenvolvido pode ler os pensamentos de uma pessoa como se fossem as páginas de um livro aberto: basta que ele compreenda a linguagem das cores áuricas — linguagem que, naturalmente, todos os ocultistas desenvolvidos conhecem.


CORES ÁURICAS E SEU SIGNIFICADO
- Preto, representa ódio, malícia, vingança e sentimentos semelhantes.
- Pardo, de um matiz mais brilhante, representa egoísmo.
- Pardo-cinzento, de um matiz peculiar (quase como o de um cadáver), representa temor e terror.
- Pardo, de um matiz escuro, representa depressão e melancolia.
- Verde, de um matiz sujo, representa ciúmes. Se há muita ira de envolta com os ciúmes, aparecerão chamas encarnadas sobre um fundo verde.
- Verde, de um matiz quase cor de ardósia, representa falsidade baixa.
- Verde, de um matiz brilhante peculiar, representa tolerância para as opiniões e crenças de outros; fácil adaptação às mudanças de condições, adaptabilidade, tato, etc.
- Encarnado de matiz semelhante ao das chamas que, misturadas com a fumaça, saem de um orifício, ardendo, representa sensualidade e paixões animais.
- Encarnado, visto em formas de labaredas de um vermelho brilhante, parecidas, em seu aspecto, ao resplendor de um relâmpago, indica cólera.
- Carmesim, representa amor, variando em matiz de acordo com o caráter da paixão. Um amor sensual e grosseiro será de um carmesim escuro e opaco, enquanto que, combinado com sentimentos elevados, aparecerá em tons mais luminosos e mais agradáveis. Uma forma muito mais elevada de amor apresentará uma cor quase aproximada a um formoso cor-de-rosa.
- Moreno, de uma coloração avermelhada, representa avareza e voracidade.
- Alaranjado, de um tom brilhante, representa orgulho e ambição.
- Amarelo, em seus variados matizes, representa poder intelectual. Se o intelecto se satisfaz com coisas de ordem inferior, o seu matiz é de um amarelo escuro e sombrio; e conforme vai elevando-se a níveis mais altos, a cor se torna mais brilhante e mais clara; um formoso amarelo dourado significa uma grande aquisição intelectual; amplo e brilhante raciocínio, etc.
- Azul de um matiz escuro, representa pensamentos, emoções e sentimentos religiosos. Esta cor varia em claridade, conforme o grau de altruísmo manifestado na concepção religiosa.
- Azul-Claro, de um matiz luminoso e puro, representa espiritualidade. Alguns dos graus mais elevados de espiritualidade observados na humanidade ordinária, mostram-se neste matiz azul cheios de brilhantes pontos luminosos, chispantes e titilantes, como estrelas numa clara noite de inverno.

Outro fato notável para aqueles que não têm pensado no assunto, é que a cor ultravioleta, na aura, é indício de desenvolvimento psíquico, empregado num plano elevado e altruísta, enquanto que a cor infravermelha, vista na aura humana, indica que a pessoa possui desenvolvimento psíquico, porém que o emprega para propósitos egoístas e indignos — magia negra, em realidade.

Além das duas cores acima mencionadas, há outra que também é invisível à visão comum — o verdadeiro amarelo primário — o qual é indicador da iluminação espiritual e que é percebido debilmente ao redor da cabeça daqueles que são espiritualmente grandes. A cor que nos ensina como característica do sétimo princípio — o espírito — se diz ser de pura luz branca — de um brilho especial — igual à qual jamais foi vista por humanos olhos.

A aura que emana da mente instintiva é constituída, principalmente, dos matizes muito sombrios e escuros.

Convém fazer notar, aqui, que ainda quando a mente esteja sossegada, pairam sobre a aura matizes que revelam as tendências predominantes do homem, de modo que o seu grau de progresso e desenvolvimento, como também seus gostos e outras qualidades de sua personalidade, podem ser facilmente distinguidos. Quando a mente é agitada por uma paixão forte, sentimento ou emoção, a aura inteira parece ser colorida pelo matiz ou matizes particulares que representam esses estados. Por exemplo, um violento acesso de cólera faz que toda a aura mostre brilhantes raios vermelhos sobre um fundo negro, que quase eclipsam as outras cores. Esse estado dura mais ou menos tempo, de acordo com a violência da paixão.

Uma forte onda de amor, ao passar pela mente, fará que a aura inteira manifeste o carmesim, dependendo o matiz do caráter da paixão. Da mesma forma, uma exaltação de sentimento religioso dará à aura inteira um tom azul, como se explicou na tábua das cores.

Vereis, pelo que temos dito, que há dois aspectos para a condição da cor da aura: o primeiro depende dos pensamentos que habitualmente predominam e se manifestam na mente da pessoa, e o segundo depende do sentimento, emoção ou paixão particular ao manifestar-se num momento. A cor passageira desaparece quando o sentimento se extingue, ainda que um sentimento, paixão ou emoção, repetidamente manifestado, se revela com o tempo na cor áurica habitual.

A cor normal manifestada na aura, sem dúvida muda gradualmente de tempo em tempo, à proporção que o caráter da pessoa melhora ou se modifica. As cores habituais indicam o caráter geral da pessoa; as cores passageiras mostram o sentimento, a emoção, a paixão que a dominam nesse momento particular.

O homem que tem o intelecto bem desenvolvido, apresenta uma aura inundada com um formoso amarelo dourado, pertencente à intelectualidade. Quando o intelecto do homem tem absorvido a idéia da espiritualidade e se dedica à aquisição de poder, desenvolvimento e progresso espirituais, esse amarelo mostrará no contorno dos seus bordos um azul-claro de um matiz particularmente puro.

A aura que emana da mente espiritual ou sexto princípio é da cor do verdadeiro amarelo primário, que é invisível à vista ordinária e não pode ser reproduzido artificialmente pelo homem. Concentra-se ao redor da cabeça do homem espiritualmente iluminado e algumas vezes produz um fulgor particular, que pode ser visto até por pessoas de pequeno desenvolvimento.

A auréola que aparece nos quadros dos grandes instrutores espirituais da raça é o resultado de uma tradição nascida de um fato experimentado pelos primitivos discípulos desses mestres. O halo ou a glória vistos nos quadros, têm a sua origem no mesmo fato. Quando outra vez contemplarmos o assombroso quadro de Hoffmann, "Gethsemani", experimentaremos uma nova compreensão do fulgor místico que rodeia a cabeça do Grande Mestre espiritual.

Da aura do sétimo princípio, o espírito, muito pouco podemos dizer, e este pouco chegou até nós por tradição. Foi nos dito que é constituído de uma luz de "branco puro", alguma coisa desconhecida para a ciência humana. 
 

KRISHNAMURTI DISSOLVENDO A ORDEM DA ESTRELA (discursando para teosofistas)



Vamos discutir esta manhã a dissolução da Ordem da Estrela. Muitos ficarão contentes, e outros estarão tristes. Não é uma questão nem de alegria, nem de tristeza, porque é inevitável, como vou explicar.

Afirmo que a Verdade é uma terra sem caminhos, e você não pode chegar a ela por qualquer caminho, por qualquer religião, por qualquer seita. Este é meu ponto de vista, e creio nisto absoluta e incondicionalmente. A Verdade, sendo ilimitada, incondicionada, inalcançável por qualquer caminho que seja, não pode ser organizada; nem deve qualquer organização ser formada para levar ou coagir pessoas por qualquer caminho particular. Se você entender isto, então verá como é impossível organizar uma crença. Uma crença é puramente uma questão individual, e você não pode nem deve organizá-la. Se o fizer, ela morre, se cristaliza; torna-se um credo, uma seita, uma religião, para ser imposta a outros.

Isto é o que todos no mundo inteiro tentam fazer. A Verdade é comprimida e tornada um brinquedo para aqueles que são fracos, para aqueles que estão apenas momentaneamente descontentes. A Verdade não pode ser trazida para baixo, mas sim o indivíduo é que deve fazer o esforço para subir a ela. Você não pode trazer o cume da montanha para o vale.

Assim, esta é a primeira razão, do meu ponto de vista, de por que a Ordem da Estrela deve ser dissolvida. Apesar disso, vocês provavelmente formarão outras Ordens, continuarão a pertencer a outras organizações à procura da Verdade. Eu não quero pertencer a qualquer organização do tipo espiritual; por favor, entendam isto.

Se uma organização é criada para este propósito, ela se torna uma muleta, uma fraqueza, uma dependência, e vai mutilar o indivíduo, e impedi-lo de crescer, de firmar sua individualidade, que repousa em sua descoberta daquela Verdade absoluta, incondicionada. Assim, esta é outra razão por que decidi, sendo o Chefe da Ordem, dissolvê-la.

Isto não é uma grande façanha, porque não quero seguidores. No momento que você segue alguém, você cessa de seguir a Verdade. Não me preocupa saber se vocês atentam para o que digo ou não. Quero fazer algo no mundo e vou fazê-lo com firme concentração. Preocupo-me apenas com uma coisa: libertar o homem. Desejo vê-lo livre de todas as prisões, de todos os medos, e não fundar religiões, novas seitas, nem estabelecer novas teorias e novas filosofias. Então vocês vão me perguntar naturalmente por que viajo pelo mundo, continuamente falando. Vou-lhes dizer por que faço isto; não porque desejo seguidores, nem porque desejo um grupo especial de discípulos especiais. (Como os homens adoram ser diferentes de seus semelhantes, ainda que estas diferenças sejam ridículas, absurdas e triviais! Não quero encorajar este absurdo.) Não tenho discípulos, nem apóstolos, na terra ou no reino da espiritualidade.

Nem é a atração do dinheiro, nem o desejo de viver uma vida confortável, que me atrai. Se eu quisesse levar uma vida confortável, não viria a um acampamento ou viveria num país úmido! Estou falando com franqueza, porque quero esclarecer isto de uma vez por todas. Não quero estas discussões infantis ano após ano.

Um repórter de jornal, que me entrevistou, considerou magnífico o ato de dissolver uma organização na qual existem milhares e milhares de membros. Para ele era uma grande ato porque ele disse: ‘O que você fará depois? Como vai viver? Não terá seguidores, as pessoas não mais o ouvirão.’ Se houver apenas cinco pessoas que ouvirem, que viverem, que tiverem seus rostos voltados para o eterno, será suficiente. De que serve ter milhares que não entendem, que estão completamente envolvidos no preconceito, que não querem o novo, mas sim ajustar o novo a suas vidas estagnadas e estéreis?

Porque sou livre, não condicionado, integral, não a parte, não o relativo, mas a Verdade integral, desejo aqueles que procuram me entender, procuram ser livres, não me seguir, não fazer de mim uma prisão que se tornará uma religião, uma seita. Mas sim serão livres de todo medo – do medo da religião, do medo da salvação, do medo da espiritualidade, do medo do amor, do medo da morte, do medo da própria vida. Assim como um artista pinta um quadro porque acha prazer em pintar, porque é sua autoexpressão, sua glória, seu bem-estar, assim também faço isto e não porque quero algo de alguém. Vocês estão acostumados com a autoridade, ou com a atmosfera da autoridade, que vocês pensam que os levará à espiritualidade. Vocês pensam e esperam que outra pessoa possa, com seus poderes extraordinários – um milagre – levá-los a este reino da eterna liberdade que é a Felicidade. Toda vossa visão da vida está baseada naquela autoridade.

Já faz três anos que vocês me ouvem, sem nenhuma mudança acontecendo, exceto em poucos. Agora, analisem o que estou dizendo, sejam críticos, para que possam entender totalmente.

Durante dezoito anos vocês se prepararam para este evento, para a Vinda do Instrutor do Mundo. Por dezoito anos vocês se organizaram, buscaram alguém que lhes daria uma nova felicidade a vossos corações e mentes, que transformaria toda vossa vida, que lhes daria uma nova compreensão, por alguém que vos erguesse a um novo plano de vida, que lhes daria um novo encorajamento, que vos libertasse – e agora veja o que está acontecendo! Ponderem, raciocinem, e descubram de que modo esta crença os tornou diferentes – não a diferença superficial de usar um distintivo, o que é trivial, absurdo. De que maneira tal crença varreu todas as coisas não essenciais da vida? Esta é a única maneira de julgar: de que modo vocês estão mais livres, maiores, mais perigosos para toda sociedade baseada no falso e no não essencial? De que modo os membros desta organização se tornaram diferentes?

Vocês todos dependem de outra pessoa para vossa espiritualidade, para vossa felicidade de outra pessoa, para vossa iluminação de outra pessoa. Quando digo: olhem dentro de vocês mesmos para a iluminação, para a glória, para a purificação, e para a incorruptibilidade do eu, nenhum de vocês deseja fazê-lo. Pode haver uns poucos, mas muito, muito poucos. Assim, para que ter uma organização?

Ninguém, agindo do exterior, pode vos fazer livres; nem pode a adoração organizada, nem vossa imolação por uma causa pode vos fazer livres; nem pertencer a uma organização, nem vos lançar ao trabalho os tornarão livres. Você usa uma máquina para escrever cartas, mas não a coloca num altar e a adora. Mas é isto o que vocês estão fazendo quando as organizações se tornam vossa principal preocupação. 'Quantos membros há nela?’ Esta é a primeira pergunta que me fazem todos os repórteres de jornais. 'Quantos seguidores você tem? Por este número julgaremos se o que você diz é verdadeiro ou falso.’ Não sei quantos existem. Não estou preocupado com isto. Se houvesse apenas uma homem que tivesse sido libertado, isto seria suficiente.

Vocês têm a idéia de que apenas certas pessoas têm a chave para o Reino da Felicidade. Ninguém a tem. Ninguém tem autoridade para possuir esta chave. Esta chave é seu próprio eu, e apenas no desenvolvimento e purificação e na incorruptibilidade deste eu está o Reino do Eterno.

Vocês estão acostumados a que lhes digam o quanto avançaram, qual é seu status espiritual. Que infantil! Quem senão vocês mesmos pode dizer se são incorruptíveis?

Mas aqueles que realmente desejam entender, que estão procurando encontrar aquilo que é eterno, sem começo ou fim, caminharão juntos com maior intensidade, serão um perigo para tudo que é não essencial, para as irrealidades, para as sombras. E eles se juntarão, se tornarão uma chama, porque entendem. Devemos criar um tal grupo, e este é meu propósito. Por causa daquela amizade verdadeira – a qual vocês parecem não conhecer – haverá real cooperação da parte de cada um. E isto não por causa da autoridade, não por causa da salvação, mas porque vocês realmente compreendem, e daí são capazes de viver no eterno. Isto é algo maior que todo prazer, que todo sacrifício.

Assim, estas são algumas das razões por que, após cuidadosa consideração por dois anos, tomei esta decisão. Não é um impulso momentâneo. Ninguém me persuadiu a isto – não sou persuadido em tais coisas. Por dois anos estive pensando nisto, cuidadosa e pacientemente, e agora decidi dissolver a Ordem, uma vez que sou o Chefe. Vocês podem formar outras organizações e esperar outra pessoa. Com isto não me preocupo, nem com criar novas prisões, novas decorações para estas prisões. Minha única preocupação é libertar completa e incondicionalmente os homens.