Vamos
discutir esta manhã a dissolução da Ordem da Estrela. Muitos
ficarão contentes, e outros estarão tristes. Não é uma questão
nem de alegria, nem de tristeza, porque é inevitável, como vou
explicar.
Afirmo
que a Verdade é uma terra sem caminhos, e você não pode chegar a
ela por qualquer caminho, por qualquer religião, por qualquer seita.
Este é meu ponto de vista, e creio nisto absoluta e
incondicionalmente. A Verdade, sendo ilimitada, incondicionada,
inalcançável por qualquer caminho que seja, não pode ser
organizada; nem deve qualquer organização ser formada para levar ou
coagir pessoas por qualquer caminho particular. Se você entender
isto, então verá como é impossível organizar uma crença. Uma
crença é puramente uma questão individual, e você não pode nem
deve organizá-la. Se o fizer, ela morre, se cristaliza; torna-se um
credo, uma seita, uma religião, para ser imposta a outros.
Isto
é o que todos no mundo inteiro tentam fazer. A Verdade é comprimida
e tornada um brinquedo para aqueles que são fracos, para aqueles que
estão apenas momentaneamente descontentes. A Verdade não pode ser
trazida para baixo, mas sim o indivíduo é que deve fazer o esforço
para subir a ela. Você não pode trazer o cume da montanha para o
vale.
Assim,
esta é a primeira razão, do meu ponto de vista, de por que a Ordem
da Estrela deve ser dissolvida. Apesar disso, vocês provavelmente
formarão outras Ordens, continuarão a pertencer a outras
organizações à procura da Verdade. Eu não quero pertencer a
qualquer organização do tipo espiritual; por favor, entendam isto.
Se
uma organização é criada para este propósito, ela se torna uma
muleta, uma fraqueza, uma dependência, e vai mutilar o indivíduo, e
impedi-lo de crescer, de firmar sua individualidade, que repousa em
sua descoberta daquela Verdade absoluta, incondicionada. Assim, esta
é outra razão por que decidi, sendo o Chefe da Ordem, dissolvê-la.
Isto
não é uma grande façanha, porque não quero seguidores. No momento
que você segue alguém, você cessa de seguir a Verdade. Não me
preocupa saber se vocês atentam para o que digo ou não. Quero fazer
algo no mundo e vou fazê-lo com firme concentração. Preocupo-me
apenas com uma coisa: libertar o homem. Desejo vê-lo livre de todas
as prisões, de todos os medos, e não fundar religiões, novas
seitas, nem estabelecer novas teorias e novas filosofias. Então
vocês vão me perguntar naturalmente por que viajo pelo mundo,
continuamente falando. Vou-lhes dizer por que faço isto; não
porque desejo seguidores, nem porque desejo um grupo especial de
discípulos especiais. (Como os homens adoram ser diferentes de seus
semelhantes, ainda que estas diferenças sejam ridículas, absurdas e
triviais! Não quero encorajar este absurdo.) Não tenho discípulos,
nem apóstolos, na terra ou no reino da espiritualidade.
Nem
é a atração do dinheiro, nem o desejo de viver uma vida
confortável, que me atrai. Se eu quisesse levar uma vida
confortável, não viria a um acampamento ou viveria num país úmido!
Estou falando com franqueza, porque quero esclarecer isto de uma vez
por todas. Não quero estas discussões infantis ano após ano.
Um
repórter de jornal, que me entrevistou, considerou magnífico o ato
de dissolver uma organização na qual existem milhares e milhares de
membros. Para ele era uma grande ato porque ele disse: ‘O que você
fará depois? Como vai viver? Não terá seguidores, as pessoas não
mais o ouvirão.’ Se houver apenas cinco pessoas que ouvirem, que
viverem, que tiverem seus rostos voltados para o eterno, será
suficiente. De que serve ter milhares que não entendem, que estão
completamente envolvidos no preconceito, que não querem o novo, mas
sim ajustar o novo a suas vidas estagnadas e estéreis?
Porque
sou livre, não condicionado, integral, não a parte, não o
relativo, mas a Verdade integral, desejo aqueles que procuram me
entender, procuram ser livres, não me seguir, não fazer de mim uma
prisão que se tornará uma religião, uma seita. Mas sim serão
livres de todo medo – do medo da religião, do medo da salvação,
do medo da espiritualidade, do medo do amor, do medo da morte, do
medo da própria vida. Assim como um artista pinta um quadro porque
acha prazer em pintar, porque é sua autoexpressão, sua glória, seu
bem-estar, assim também faço isto e não porque quero algo de
alguém. Vocês estão acostumados com a autoridade, ou com a
atmosfera da autoridade, que vocês pensam que os levará à
espiritualidade. Vocês pensam e esperam que outra pessoa possa, com
seus poderes extraordinários – um milagre – levá-los a este
reino da eterna liberdade que é a Felicidade. Toda vossa visão da
vida está baseada naquela autoridade.
Já
faz três anos que vocês me ouvem, sem nenhuma mudança acontecendo,
exceto em poucos. Agora, analisem o que estou dizendo, sejam
críticos, para que possam entender totalmente.
Durante
dezoito anos vocês se prepararam para este evento, para a Vinda do
Instrutor do Mundo. Por dezoito anos vocês se organizaram, buscaram
alguém que lhes daria uma nova felicidade a vossos corações e
mentes, que transformaria toda vossa vida, que lhes daria uma nova
compreensão, por alguém que vos erguesse a um novo plano de vida,
que lhes daria um novo encorajamento, que vos libertasse – e agora
veja o que está acontecendo! Ponderem, raciocinem, e descubram de
que modo esta crença os tornou diferentes – não a diferença
superficial de usar um distintivo, o que é trivial, absurdo. De que
maneira tal crença varreu todas as coisas não essenciais da vida?
Esta é a única maneira de julgar: de que modo vocês estão mais
livres, maiores, mais perigosos para toda sociedade baseada no falso
e no não essencial? De que modo os membros desta organização se
tornaram diferentes?
Vocês
todos dependem de outra pessoa para vossa espiritualidade, para vossa
felicidade de outra pessoa, para vossa iluminação de outra pessoa.
Quando digo: olhem dentro de vocês mesmos para a iluminação, para
a glória, para a purificação, e para a incorruptibilidade do eu,
nenhum de vocês deseja fazê-lo. Pode haver uns poucos, mas muito,
muito poucos. Assim, para que ter uma organização?
Ninguém,
agindo do exterior, pode vos fazer livres; nem pode a adoração
organizada, nem vossa imolação por uma causa pode vos fazer livres;
nem pertencer a uma organização, nem vos lançar ao trabalho os
tornarão livres. Você usa uma máquina para escrever cartas, mas
não a coloca num altar e a adora. Mas é isto o que vocês estão
fazendo quando as organizações se tornam vossa principal
preocupação. 'Quantos membros há nela?’ Esta é a primeira
pergunta que me fazem todos os repórteres de jornais. 'Quantos
seguidores você tem? Por este número julgaremos se o que você diz é
verdadeiro ou falso.’ Não sei quantos existem. Não estou
preocupado com isto. Se houvesse apenas uma homem que tivesse sido
libertado, isto seria suficiente.
Vocês
têm a idéia de que apenas certas pessoas têm a chave para o Reino
da Felicidade. Ninguém a tem. Ninguém tem autoridade para possuir
esta chave. Esta chave é seu próprio eu, e apenas no
desenvolvimento e purificação e na incorruptibilidade deste eu está
o Reino do Eterno.
Vocês
estão acostumados a que lhes digam o quanto avançaram, qual é seu
status espiritual. Que infantil! Quem senão vocês mesmos pode dizer
se são incorruptíveis?
Mas
aqueles que realmente desejam entender, que estão procurando
encontrar aquilo que é eterno, sem começo ou fim, caminharão
juntos com maior intensidade, serão um perigo para tudo que é não
essencial, para as irrealidades, para as sombras. E eles se juntarão,
se tornarão uma chama, porque entendem. Devemos criar um tal grupo,
e este é meu propósito. Por causa daquela amizade verdadeira – a
qual vocês parecem não conhecer – haverá real cooperação da
parte de cada um. E isto não por causa da autoridade, não por causa
da salvação, mas porque vocês realmente compreendem, e daí são
capazes de viver no eterno. Isto é algo maior que todo prazer, que
todo sacrifício.
Assim,
estas são algumas das razões por que, após cuidadosa consideração
por dois anos, tomei esta decisão. Não é um impulso momentâneo.
Ninguém me persuadiu a isto – não sou persuadido em tais coisas.
Por dois anos estive pensando nisto, cuidadosa e pacientemente, e
agora decidi dissolver a Ordem, uma vez que sou o Chefe. Vocês podem
formar outras organizações e esperar outra pessoa. Com isto não me
preocupo, nem com criar novas prisões, novas decorações para estas
prisões. Minha única preocupação é libertar completa e
incondicionalmente os homens.
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