6.1.13

KRISHNAMURTI DISSOLVENDO A ORDEM DA ESTRELA (discursando para teosofistas)



Vamos discutir esta manhã a dissolução da Ordem da Estrela. Muitos ficarão contentes, e outros estarão tristes. Não é uma questão nem de alegria, nem de tristeza, porque é inevitável, como vou explicar.

Afirmo que a Verdade é uma terra sem caminhos, e você não pode chegar a ela por qualquer caminho, por qualquer religião, por qualquer seita. Este é meu ponto de vista, e creio nisto absoluta e incondicionalmente. A Verdade, sendo ilimitada, incondicionada, inalcançável por qualquer caminho que seja, não pode ser organizada; nem deve qualquer organização ser formada para levar ou coagir pessoas por qualquer caminho particular. Se você entender isto, então verá como é impossível organizar uma crença. Uma crença é puramente uma questão individual, e você não pode nem deve organizá-la. Se o fizer, ela morre, se cristaliza; torna-se um credo, uma seita, uma religião, para ser imposta a outros.

Isto é o que todos no mundo inteiro tentam fazer. A Verdade é comprimida e tornada um brinquedo para aqueles que são fracos, para aqueles que estão apenas momentaneamente descontentes. A Verdade não pode ser trazida para baixo, mas sim o indivíduo é que deve fazer o esforço para subir a ela. Você não pode trazer o cume da montanha para o vale.

Assim, esta é a primeira razão, do meu ponto de vista, de por que a Ordem da Estrela deve ser dissolvida. Apesar disso, vocês provavelmente formarão outras Ordens, continuarão a pertencer a outras organizações à procura da Verdade. Eu não quero pertencer a qualquer organização do tipo espiritual; por favor, entendam isto.

Se uma organização é criada para este propósito, ela se torna uma muleta, uma fraqueza, uma dependência, e vai mutilar o indivíduo, e impedi-lo de crescer, de firmar sua individualidade, que repousa em sua descoberta daquela Verdade absoluta, incondicionada. Assim, esta é outra razão por que decidi, sendo o Chefe da Ordem, dissolvê-la.

Isto não é uma grande façanha, porque não quero seguidores. No momento que você segue alguém, você cessa de seguir a Verdade. Não me preocupa saber se vocês atentam para o que digo ou não. Quero fazer algo no mundo e vou fazê-lo com firme concentração. Preocupo-me apenas com uma coisa: libertar o homem. Desejo vê-lo livre de todas as prisões, de todos os medos, e não fundar religiões, novas seitas, nem estabelecer novas teorias e novas filosofias. Então vocês vão me perguntar naturalmente por que viajo pelo mundo, continuamente falando. Vou-lhes dizer por que faço isto; não porque desejo seguidores, nem porque desejo um grupo especial de discípulos especiais. (Como os homens adoram ser diferentes de seus semelhantes, ainda que estas diferenças sejam ridículas, absurdas e triviais! Não quero encorajar este absurdo.) Não tenho discípulos, nem apóstolos, na terra ou no reino da espiritualidade.

Nem é a atração do dinheiro, nem o desejo de viver uma vida confortável, que me atrai. Se eu quisesse levar uma vida confortável, não viria a um acampamento ou viveria num país úmido! Estou falando com franqueza, porque quero esclarecer isto de uma vez por todas. Não quero estas discussões infantis ano após ano.

Um repórter de jornal, que me entrevistou, considerou magnífico o ato de dissolver uma organização na qual existem milhares e milhares de membros. Para ele era uma grande ato porque ele disse: ‘O que você fará depois? Como vai viver? Não terá seguidores, as pessoas não mais o ouvirão.’ Se houver apenas cinco pessoas que ouvirem, que viverem, que tiverem seus rostos voltados para o eterno, será suficiente. De que serve ter milhares que não entendem, que estão completamente envolvidos no preconceito, que não querem o novo, mas sim ajustar o novo a suas vidas estagnadas e estéreis?

Porque sou livre, não condicionado, integral, não a parte, não o relativo, mas a Verdade integral, desejo aqueles que procuram me entender, procuram ser livres, não me seguir, não fazer de mim uma prisão que se tornará uma religião, uma seita. Mas sim serão livres de todo medo – do medo da religião, do medo da salvação, do medo da espiritualidade, do medo do amor, do medo da morte, do medo da própria vida. Assim como um artista pinta um quadro porque acha prazer em pintar, porque é sua autoexpressão, sua glória, seu bem-estar, assim também faço isto e não porque quero algo de alguém. Vocês estão acostumados com a autoridade, ou com a atmosfera da autoridade, que vocês pensam que os levará à espiritualidade. Vocês pensam e esperam que outra pessoa possa, com seus poderes extraordinários – um milagre – levá-los a este reino da eterna liberdade que é a Felicidade. Toda vossa visão da vida está baseada naquela autoridade.

Já faz três anos que vocês me ouvem, sem nenhuma mudança acontecendo, exceto em poucos. Agora, analisem o que estou dizendo, sejam críticos, para que possam entender totalmente.

Durante dezoito anos vocês se prepararam para este evento, para a Vinda do Instrutor do Mundo. Por dezoito anos vocês se organizaram, buscaram alguém que lhes daria uma nova felicidade a vossos corações e mentes, que transformaria toda vossa vida, que lhes daria uma nova compreensão, por alguém que vos erguesse a um novo plano de vida, que lhes daria um novo encorajamento, que vos libertasse – e agora veja o que está acontecendo! Ponderem, raciocinem, e descubram de que modo esta crença os tornou diferentes – não a diferença superficial de usar um distintivo, o que é trivial, absurdo. De que maneira tal crença varreu todas as coisas não essenciais da vida? Esta é a única maneira de julgar: de que modo vocês estão mais livres, maiores, mais perigosos para toda sociedade baseada no falso e no não essencial? De que modo os membros desta organização se tornaram diferentes?

Vocês todos dependem de outra pessoa para vossa espiritualidade, para vossa felicidade de outra pessoa, para vossa iluminação de outra pessoa. Quando digo: olhem dentro de vocês mesmos para a iluminação, para a glória, para a purificação, e para a incorruptibilidade do eu, nenhum de vocês deseja fazê-lo. Pode haver uns poucos, mas muito, muito poucos. Assim, para que ter uma organização?

Ninguém, agindo do exterior, pode vos fazer livres; nem pode a adoração organizada, nem vossa imolação por uma causa pode vos fazer livres; nem pertencer a uma organização, nem vos lançar ao trabalho os tornarão livres. Você usa uma máquina para escrever cartas, mas não a coloca num altar e a adora. Mas é isto o que vocês estão fazendo quando as organizações se tornam vossa principal preocupação. 'Quantos membros há nela?’ Esta é a primeira pergunta que me fazem todos os repórteres de jornais. 'Quantos seguidores você tem? Por este número julgaremos se o que você diz é verdadeiro ou falso.’ Não sei quantos existem. Não estou preocupado com isto. Se houvesse apenas uma homem que tivesse sido libertado, isto seria suficiente.

Vocês têm a idéia de que apenas certas pessoas têm a chave para o Reino da Felicidade. Ninguém a tem. Ninguém tem autoridade para possuir esta chave. Esta chave é seu próprio eu, e apenas no desenvolvimento e purificação e na incorruptibilidade deste eu está o Reino do Eterno.

Vocês estão acostumados a que lhes digam o quanto avançaram, qual é seu status espiritual. Que infantil! Quem senão vocês mesmos pode dizer se são incorruptíveis?

Mas aqueles que realmente desejam entender, que estão procurando encontrar aquilo que é eterno, sem começo ou fim, caminharão juntos com maior intensidade, serão um perigo para tudo que é não essencial, para as irrealidades, para as sombras. E eles se juntarão, se tornarão uma chama, porque entendem. Devemos criar um tal grupo, e este é meu propósito. Por causa daquela amizade verdadeira – a qual vocês parecem não conhecer – haverá real cooperação da parte de cada um. E isto não por causa da autoridade, não por causa da salvação, mas porque vocês realmente compreendem, e daí são capazes de viver no eterno. Isto é algo maior que todo prazer, que todo sacrifício.

Assim, estas são algumas das razões por que, após cuidadosa consideração por dois anos, tomei esta decisão. Não é um impulso momentâneo. Ninguém me persuadiu a isto – não sou persuadido em tais coisas. Por dois anos estive pensando nisto, cuidadosa e pacientemente, e agora decidi dissolver a Ordem, uma vez que sou o Chefe. Vocês podem formar outras organizações e esperar outra pessoa. Com isto não me preocupo, nem com criar novas prisões, novas decorações para estas prisões. Minha única preocupação é libertar completa e incondicionalmente os homens. 



 

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