3.1.13

OS MESTRES DIVINOS LÁHIRI MAHÁSAYA E TRAILANGA SWAMI - P. Yogananda

HISTÓRIA NARRADA POR UM DISCÍPULO DE LAHIRI MAHASAYA (paramguru de Yogananda)

No começo de minha associação com o mestre, tive de enfrentar a oposição de meu empregador. Era um homem saturado de materialismo.
- Não quero fanáticos religiosos entre meu pessoal - costumava dizer com desprezo. - Se, um dia, encontrar o charlatão que é seu guru, dir-lhe-ei umas verdades que ele não esquecerá.
Esta ameaça não foi capaz de interromper meu programa regular; eu passava quase todas as noites junto a meu guru. Certa noite, meu patrão me seguiu e irrompeu bruscamente na sala. Sem dúvida, tinha a intenção de fazer os prometidos comentários. Mas assim que o homem se sentou, Láhiri Mahásaya dirigiu-se ao grupo de aproximadamente doze discípulos:
- Gostariam de ver um filme?
Quando acenamos afirmativamente, ele nos pediu que escurecêssemos a sala.
- Sentem um atrás do outro, em círculo - disse ele - e coloquem as mãos sobre os olhos do homem à sua frente.
Não me surpreendi ao observar que meu patrão também estava seguindo as instruções do mestre, embora a contragosto. Dentro de poucos minutos, Láhiri Mahásaya nos perguntou o que estávamos vendo,
- Senhor - repliquei - vejo uma formosa mulher. Usa um sarí com barra vermelha e permanece de pé junto a uma planta chamada 'orelhas de elefante'.
Todos os outros discípulos fizeram a mesma descrição. O mestre voltou-se para meu chefe:
- Você reconhece essa mulher?
- Sim. - O homem lutava evidentemente com emoções novas para sua natureza. - Tenho sido um tolo, gastando dinheiro com ela, quando possuo uma boa esposa. Envergonho-me dos motivos que me trouxeram aqui. Pode perdoar-me e receber-me como seu discípulo?
- Se levar uma vida moral durante seis meses, eu o aceitarei.
O mestre acrescentou:
- Do contrário, não precisarei dar-lhe a iniciação.
Durante três meses, meu chefe resistiu à tentação; a seguir, reatou sua antiga ligação com a mulher. Dois meses depois, morreu. Deste modo, vim a compreender a velada profecia de meu guru, sobre a improbabilidade de dar a iniciação àquele homem.

Láhiri Mahásaya tinha um amigo famoso, Swâmi Trailanga, a quem se atribuíam mais de trezentos anos de idade. Os dois iogues freqüentemente se sentavam juntos para meditar. A fama de Trailanga tão amplamente se difundiu que poucos indianos negariam autenticidade a qualquer relato de seus espantosos milagres. Se Cristo retornasse à terra e caminhasse pelas ruas de Nova York, exibindo seus poderes divinos, causaria entre o povo o mesmo medo reverente que Trailanga provocava, há décadas atrás, ao passar entre a multidão nas ruas de Benares. Ele foi um dos síddhas (seres que se fizeram perfeitos), os quais deram à India alicerces de cimento contra as erosões do tempo.
Em muitas ocasiões viu-se o swâmi beber, sem efeitos nocivos, os venenos mais mortíferos. Milhares de pessoas, inclusive algumas que ainda vivem, puderam ver Trailanga flutuar no Ganges. Durante dias seguidos, ele costumava sentar-se em cima da água; ou, durante períodos muito longos, escondia-se sob as ondas. Um espetáculo comum no Ghat Manikárnika era o corpo imóvel do swâmi sobre as lajes abrasadoras, inteiramente exposto ao sol impiedoso da índia.

Através destes feitos, Trailanga procurou ensinar a todos que a vida humana não depende de oxigênio nem de certas condições e precauções. Estivesse o corpo do grande mestre acima ou abaixo da água, desafiasse ou não seu corpo os inclementes raios solares, ele provava que vivia da consciência divina: a Morte não o podia tocar.
Este iogue não foi grande apenas espiritualmente; possuía também um físico avantajado. Seu peso ultrapassava as trezentas libras (136 quilos): uma libra para cada ano de sua vida! Como raramente ele comia, o mistério aumentava. Um mestre, contudo, facilmente ignora todas as regras comuns de saúde, quando assim deseja proceder por alguma razão especial, muitas vezes só dele conhecida.

Grandes santos, que despertaram do sonho cósmico de máya e chegaram à realização de que este mundo é uma idéia na Mente Divina, podem fazer o que bem entenderem com o corpo, pois sabem que não passa de uma forma manipulável de energia condensada. Embora, hoje, os cientistas compreendam que a matéria nada mais é que energia congelada, há muito tempo os mestres iluminados passaram vitoriosamente da teoria à prática, no campo do domínio sobre a matéria.


Trailanga permanecia sempre completamente nu. A polícia de Benares, atormentada, passou a considerá-lo uma desconcertante criança-problema. O swâmi, natural como o primitivo Adão no jardim do Éden, era inconsciente de sua nudez. A polícia, ao contrário, tinha plena consciência daquela nudez; e o trancava na prisão, sem cerimônia. Seguia-se um enleio geral; o enorme corpo de Trailanga era logo visto, em toda sua ausência habitual de vestuário, sobre o telhado da cadeia. Sua cela, ainda seguramente trancada, nenhuma chave oferecia ao enigma de sua evasão.

Agentes da lei, desanimados, cumpriam novamente seu dever. Desta vez, colocavam um guarda em frente à cela do swâmi. De novo, a Força curvava-se ante o Direito: logo se podia avistar o grande mestre em seu despreocupado passeio sobre o telhado.
A Deusa da Justiça usa uma venda nos olhos; a polícia burlada decidiu seguir-lhe o exemplo, no caso de Trailanga.

O grande iogue tinha por hábito manter silêncio. A despeito de um rosto gorducho e de um estômago do tamanho de um barril, Trailanga comia apenas ocasionalmente. Após semanas sem se alimentar, ele quebrava o jejum com caldeirões de leite coalhado que os devotos lhe ofereciam.

Um cético decidiu, certa vez, provar que Trailanga era um charlatão. Colocou, em frente ao swâmi, um grande balde com uma mistura de óxido de cálcio, usada para branquear paredes.
- Mestre - disse o materialista, com uma reverência de caçoada - eu lhe trouxe um pouco de leite coalhado. Beba-o, por favor,
Sem hesitar, Trailanga sorveu, até a última gota, os litros de cal ardente. Em poucos minutos, o malfeitor caía ao solo, em agonia.
- Salve-me, swâmi, salve-me! - gritava ele. - Estou em fogo! Perdoe-me pela maldade com que o submeti à prova!
O grande iogue quebrou seu silêncio habitual.
- Você zombava - disse ele - e, ao me oferecer veneno, não tinha consciência de que minha vida é una com a sua. Se não fosse o meu conhecimento de que Deus está em meu estômago, assim como está em cada átomo da criação, a cal me teria matado. Agora que você conhece o significado divino do bumerangue, nunca mais use de trapaça com os outros.

Débil ainda, o pecador curado pelas palavras de Trailanga retirou-se furtivamente.
A reversão da dor não resultou da vontade do mestre e, sim, da operação de uma lei de justiça que sustém até o mais longínquo corpo celeste em rotação no cosmo. Esta lei divina funciona instantaneamente para homens que alcançaram a realização de Deus, como Trailanga; eles aboliram para sempre todas as obstinadas contracorrentes do ego.
A fé nos ajustes automáticos da justiça (geralmente pagos em moeda inesperada, como no caso de Trailanga e de seu pretenso assassino) abranda nossa precipitada indignação contra a injustiça humana. “A vingança é minha; eu retribuirei, diz o Senhor”. Que necessidade há dos míseros recursos do homem? O universo trama a retribuição, pontualmente.

As mentes obtusas não acreditam na possibilidade da justiça divina, do amor, da onisciência, da imortalidade. “Ridículas superstições das Escrituras!” Homens com esta insensibilidade, irreverentes ante o espetáculo cósmico, provocam em suas vidas uma discordante sucessão de acontecimentos que por fim os compelirá a buscar a sabedoria.

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