No
começo de minha associação com o mestre, tive de enfrentar a
oposição de meu empregador. Era um homem saturado de materialismo.
-
Não quero fanáticos religiosos entre meu pessoal - costumava dizer
com desprezo. - Se, um dia, encontrar o charlatão que é seu guru,
dir-lhe-ei umas verdades que ele não esquecerá.
Esta
ameaça não foi capaz de interromper meu programa regular; eu
passava quase todas as noites junto a meu guru. Certa noite, meu
patrão me seguiu e irrompeu bruscamente na sala. Sem dúvida, tinha
a intenção de fazer os prometidos comentários. Mas assim que o
homem se sentou, Láhiri Mahásaya dirigiu-se ao grupo de
aproximadamente doze discípulos:
-
Gostariam de ver um filme?
Quando
acenamos afirmativamente, ele nos pediu que escurecêssemos a sala.
-
Sentem um atrás do outro, em círculo - disse ele - e coloquem as
mãos sobre os olhos do homem à sua frente.
Não
me surpreendi ao observar que meu patrão também estava seguindo as
instruções do mestre, embora a contragosto. Dentro de poucos
minutos, Láhiri Mahásaya nos perguntou o que estávamos vendo,
-
Senhor - repliquei - vejo uma formosa mulher. Usa um sarí com barra
vermelha e permanece de pé junto a uma planta chamada 'orelhas de
elefante'.
Todos os outros discípulos fizeram a mesma descrição. O mestre
voltou-se para meu chefe:
-
Você reconhece essa mulher?
-
Sim. - O homem lutava evidentemente com emoções novas para sua
natureza. - Tenho sido um tolo, gastando dinheiro com ela, quando
possuo uma boa esposa. Envergonho-me dos motivos que me trouxeram
aqui. Pode perdoar-me e receber-me como seu discípulo?
-
Se levar uma vida moral durante seis meses, eu o aceitarei.
O
mestre acrescentou:
-
Do contrário, não precisarei dar-lhe a iniciação.
Durante
três meses, meu chefe resistiu à tentação; a seguir, reatou sua
antiga ligação com a mulher. Dois meses depois, morreu. Deste modo,
vim a compreender a velada profecia de meu guru, sobre a
improbabilidade de dar a iniciação àquele homem.
Láhiri
Mahásaya tinha um amigo famoso, Swâmi Trailanga, a quem se
atribuíam mais de trezentos anos de idade. Os dois iogues
freqüentemente se sentavam juntos para meditar. A fama de Trailanga
tão amplamente se difundiu que poucos indianos negariam
autenticidade a qualquer relato de seus espantosos milagres. Se
Cristo retornasse à terra e caminhasse pelas ruas de Nova York,
exibindo seus poderes divinos,
causaria entre o povo o mesmo medo reverente que Trailanga provocava,
há décadas atrás, ao passar entre a multidão nas ruas de Benares.
Ele foi um dos síddhas (seres que se fizeram perfeitos), os quais
deram à India alicerces de cimento contra as erosões do tempo.
Em
muitas ocasiões viu-se o swâmi beber, sem efeitos nocivos, os
venenos mais mortíferos. Milhares de pessoas, inclusive algumas que
ainda vivem, puderam ver Trailanga flutuar no Ganges. Durante dias
seguidos, ele costumava sentar-se em cima da água; ou, durante
períodos muito longos, escondia-se sob as ondas. Um espetáculo
comum no Ghat Manikárnika era o corpo imóvel do swâmi sobre as
lajes abrasadoras, inteiramente exposto ao sol impiedoso da índia.
Através
destes feitos, Trailanga procurou ensinar a todos que a vida humana
não depende de oxigênio nem de certas condições e precauções.
Estivesse o corpo do grande mestre acima ou abaixo da água,
desafiasse ou não seu corpo os inclementes raios solares, ele
provava que vivia da consciência divina: a Morte não o podia tocar.
Este
iogue não foi grande apenas espiritualmente; possuía também um
físico avantajado. Seu peso ultrapassava as trezentas libras (136
quilos): uma libra para cada ano de sua vida! Como raramente ele
comia, o mistério aumentava. Um mestre, contudo, facilmente ignora
todas as regras comuns de saúde, quando assim deseja proceder por
alguma razão especial, muitas vezes só dele conhecida.
Grandes
santos, que despertaram do sonho cósmico de máya e chegaram à
realização de que este mundo é uma idéia na Mente Divina, podem
fazer o que bem entenderem com o corpo, pois sabem que não passa de
uma forma manipulável de energia condensada. Embora, hoje, os
cientistas compreendam que a matéria
nada mais é que energia congelada, há muito tempo os mestres
iluminados passaram vitoriosamente da teoria à prática, no campo do
domínio sobre a matéria.
Trailanga
permanecia sempre completamente nu. A polícia de Benares,
atormentada, passou a considerá-lo uma desconcertante
criança-problema. O swâmi, natural como o primitivo Adão no jardim
do Éden, era inconsciente de sua nudez. A polícia, ao contrário,
tinha plena consciência daquela nudez; e o trancava na prisão, sem
cerimônia. Seguia-se um enleio geral; o enorme corpo de Trailanga
era logo visto, em
toda sua ausência habitual de vestuário, sobre o telhado da cadeia.
Sua cela, ainda seguramente trancada, nenhuma chave oferecia ao
enigma de sua evasão.
Agentes
da lei, desanimados, cumpriam novamente seu dever. Desta vez,
colocavam um guarda em frente à cela do swâmi. De novo, a Força
curvava-se ante o Direito: logo se podia avistar o grande mestre em
seu despreocupado passeio sobre o telhado.
A
Deusa da Justiça usa uma venda nos olhos; a polícia burlada decidiu
seguir-lhe o exemplo, no caso de Trailanga.
O
grande iogue tinha por hábito manter silêncio. A despeito de um
rosto gorducho e de um estômago do tamanho de um barril, Trailanga
comia apenas ocasionalmente. Após semanas sem se alimentar, ele
quebrava o jejum com caldeirões de leite coalhado que os devotos lhe
ofereciam.
Um cético decidiu, certa vez, provar que Trailanga era um charlatão.
Colocou, em frente ao swâmi, um grande balde com uma mistura de
óxido de cálcio, usada para branquear paredes.
-
Mestre - disse o materialista, com uma reverência de caçoada - eu
lhe trouxe um pouco de leite coalhado. Beba-o, por favor,
Sem
hesitar, Trailanga sorveu, até a última gota, os litros de cal
ardente. Em poucos minutos, o malfeitor caía ao solo, em agonia.
-
Salve-me, swâmi, salve-me! - gritava ele. - Estou em fogo! Perdoe-me
pela maldade com que o submeti à prova!
O
grande iogue quebrou seu silêncio habitual.
-
Você zombava - disse ele - e, ao me oferecer veneno, não tinha
consciência de que minha vida é una com a sua. Se não fosse o meu
conhecimento de que Deus está em meu estômago, assim como está em
cada átomo da criação, a cal me teria matado. Agora que você
conhece o significado divino do bumerangue, nunca mais use de trapaça
com os outros.
Débil
ainda, o pecador curado pelas palavras de Trailanga retirou-se
furtivamente.
A
reversão da dor não resultou da vontade do mestre e, sim, da
operação de uma lei de justiça que sustém até o mais longínquo
corpo celeste em rotação no cosmo. Esta lei divina funciona
instantaneamente para homens que alcançaram a realização de Deus,
como Trailanga; eles aboliram para sempre todas as obstinadas
contracorrentes do ego.
A
fé nos ajustes automáticos da justiça (geralmente pagos em moeda
inesperada, como no caso de Trailanga e de seu pretenso assassino)
abranda nossa precipitada indignação contra a injustiça humana. “A
vingança é minha; eu retribuirei, diz o Senhor”. Que necessidade
há dos míseros recursos do homem? O universo trama a retribuição,
pontualmente.
As
mentes obtusas não acreditam na possibilidade da justiça divina, do
amor, da onisciência, da imortalidade. “Ridículas superstições
das Escrituras!” Homens com esta insensibilidade, irreverentes ante
o espetáculo cósmico, provocam em suas vidas uma discordante
sucessão de acontecimentos que por fim os compelirá a buscar a
sabedoria.

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