3.1.13

P. YOGANANDA - Um maometano autor de prodígios


-Há anos atrás, exatamente neste mesmo quarto, agora ocupado por você, um maometano, capaz de maravilhas, realizou quatro prodígios diante de mim!

Sri Yuktéswar fez esta afirmação durante sua primeira visita a meus novos alojamentos. Imediatamente após a matrícula na Faculdade de Serampore, eu alugara um quarto numa pensão vizinha, chamada Panthi. Era uma antiquada mansão de tijolos, de frente para o Ganges.

- Mestre, que coincidência! Estas paredes, de pintura recente, estão, na realidade, impregnadas de velhas recordações? - Com redobrado interesse, circunvaguei o olhar pelo quarto, mobiliado com simplicidade.

- E uma longa história. - Meu guru sorriu às suas reminiscências. - O nomeado faquir era Afzal Khan. Adquirira seus extraordinários poderes em virtude de um encontro casual com um iogue hindu.

- Filho, tenho sede: traga-me um pouco de água”. Um sannyásin coberto de pó fez, certa vez, este pedido a Afzal, então adolescente, numa pequena aldeia de Bengala oriental.

- Mestre, sou maometano. Como pode o senhor, um hindu, aceitar beber de minhas mãos?

- Sua sinceridade me agrada, meu filho. Não obedeço às regras de ostracismo ditadas por sectários sem Deus. Vá, traga-me água, depressa.

A respeitosa obediência de Afzal foi recompensada por um olhar afetuoso do iogue.

- Você possui bom carma por suas vidas anteriores - comentou ele solenemente. - Vou lhe ensinar certo método de ioga que lhe dará domínio sobre um dos reinos invisíveis. Os grandes poderes que obtiver deverão ser empregados unicamente em fins dignos; jamais por egoísmo! Percebo - infelizmente! - que você trouxe do passado algumas sementes de tendências destrutivas. Não permita que germinem, regando-as com novas ações más. A complexidade de seu carma anterior é tal que você deve utilizar esta vida para reconciliar suas conquistas de ioga com os mais altos objetivos humanitários.


Depois de instruir o surpreendido jovem numa técnica complicada, o mestre desapareceu.
Afzal praticou fielmente os exercícios de ioga durante vinte anos. Seus feitos miraculosos começaram a atrair a atenção de áreas cada vez maiores. Parece que ele tinha sempre a companhia de um espírito sem corpo, chamado Hazrat. Esta entidade invisível era capaz de satisfazer o mais leve desejo do faquir.

Desprezando a advertência de seu mestre, Afzal começou a fazer mau uso de seus poderes. Qualquer objeto que ele pegasse e repusesse no lugar, logo sumia sem deixar vestígios. Esta desconcertante circunstância fazia do maometano, geralmente, um convidado indesejável!

Ele visitava grandes joalherias de Calcutá, de tempos em tempos, apresentando-se como possível comprador. Qualquer jóia que suas mãos tocassem, desaparecia logo após sua saída da loja. Seguiam-no, amiúde, centenas de estudantes, atraídos pela esperança de aprender seus segredos. O faquir convidava-os, de vez em quando, a viajar com ele. Na estação ferroviária, dava um jeito de tocar um bloco de passagens que, a seguir, devolvia ao funcionário, dizendo: “- Mudei de idéia, não as compro agora.” - Mas ao embarcar no trem, com sua comitiva, Afzal estava de posse das passagens necessárias.

Estas proezas causavam um tumulto indignado; os joalheiros e os vendedores de passagem, em Bengala, estavam sucumbindo a crises de nervos! Os policiais que buscavam prender Afzal sentiam-se desamparados; o faquir removia qualquer indício incriminatório, dizendo simplesmente: “Hazrat, leva isto daqui”.

- O faquir não estava superiormente desenvolvido em espiritualidade - explicou Srí Yuktéswar – Seu domínio de certa técnica de ioga lhe deu acesso a um plano astral onde qualquer desejo imediatamente se materializa. Tendo como intermediário um ser astral chamado Hazrat, o maometano podia extrair da energia etérica os átomos de qualquer objeto, por um ato de poderosa vontade. Objetos astralmente produzidos, entretanto, têm estrutura evanescente; não podem ser retidos por longo tempo. Afzal ainda cobiçava os bens terrenos, cuja aquisição, se exige trabalho mais duro, tem durabilidade mais garantida.

- Afzal não era um homem com realização de Deus - continuou o Mestre. - Os verdadeiros santos realizam milagres de natureza benéfica e permanente porque estão sintonizados com o Criador onipotente. Afzal era um homem comum, dotado do extraordinário poder de penetrar num reino sutil, onde os mortais não costumam entrar antes da morte.

- Agora compreendo, gurují. O mundo pós-morte parece ter alguns aspectos encantadores.

Alguns anos mais tarde, um amigo chamado Babú veio à minha casa para mostrar-me, transcrita num jornal, a confissão pública do maometano. Esta me permitiu conhecer os fatos que acabei de lhe contar sobre a iniciação de Afzal, quando adolescente, por um guru da India.

Os parágrafos finais do documento publicado, segundo a memória de Sri Yuktéswar, eram, em essência, os seguintes: “Eu, Afzal Khan, escrevo estas palavras como ato de penitência e aviso aos que buscam a posse de poderes miraculosos. Durante anos, fiz mau uso das prodigiosas habilidades a mim concedidas pela graça de Deus e de meu mestre. Embriaguei-me de egotismo, considerando-me acima das leis comuns da moral. Chegou, por fim, o dia do ajuste de contas. Encontrei recentemente um ancião numa estrada, nas imediações de Calcutá. Ele caminhava penosamente, coxeando, e carregava um objeto brilhante que parecia ouro. Dirigi-me a ele, a cobiça em meu coração. - Sou Afzal Khan, o grande faquir. Que tem você aí?

- Esta esfera de ouro é minha única riqueza material; para um faquir, não tem o menor interesse. Suplico-lhe, senhor, cure minha perna manca.

Toquei a esfera e afastei-me sem resposta. Atrás de mim, seguia o velho, capengando. De repente, lançou um grito: - Meu ouro sumiu!

Ante o meu desinteresse, ele falou, de súbito, com uma voz estentórea que partia esquisitamente de seu corpo frágil:
- Você não me reconhece? 
 
Estaquei, emudecido, consternado ao descobrir, com atraso, que este velho insignificante e aleijado não era outro senão o grande santo que, há muito, muito tempo atrás, me iniciara em ioga. Ele endireitou-se; seu corpo instantaneamente se tornou vigoroso e jovem.

- Então! - O olhar de meu guru era ígneo. - Vejo com meus próprios olhos que você usa seus poderes, não para ajudar a humanidade sofredora, mas para assaltá-la como um ladrão vulgar! Retiro seus poderes ocultos; Hazrat doravante está livre. Você não será mais um terror em Bengala!

“Chamei Hazrat com acentos angustiados; pela primeira vez, ele não apareceu ao meu olhar interno. Mas, de chofre, um véu escuro se levantou: distingui claramente a blasfêmia de minha vida.

“- Mestre, agradeço-lhe por ter vindo desfazer minha prolongada ilusão, - Eu soluçava a seus pés. - Prometo abandonar minhas ambições mundanas. Farei um retiro nas montanhas para, solitário, meditar em Deus, na esperança de obter o perdão por meu passado de maldades.

Meu guru me encarou com silenciosa compaixão. - Aprecio sua sinceridade - disse ele, finalmente. - Em virtude de seus primeiros anos de estrita obediência, e por este arrependimento atual, conceder-lhe-ei um benefício. Seus demais poderes estão perdidos, mas sempre que necessitar alimento e roupa, poderá com êxito chamar Hazrat para que os forneça. De todo coração devote-se ao entendimento de Deus na solitude das montanhas.

“Meu mestre então desapareceu; fiquei sozinho com minhas lágrimas e reflexões. Adeus, mundo! Vou buscar o perdão do Bem-Amado Cósmico”.


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