-Há
anos atrás, exatamente neste mesmo quarto, agora ocupado por você,
um maometano, capaz de maravilhas, realizou quatro prodígios diante
de mim!
Sri
Yuktéswar fez esta afirmação durante sua primeira visita a meus
novos alojamentos. Imediatamente após a matrícula na Faculdade de
Serampore, eu alugara um quarto numa pensão vizinha, chamada Panthi.
Era uma antiquada mansão de tijolos, de frente para o Ganges.
-
Mestre, que coincidência! Estas paredes, de pintura recente, estão,
na realidade, impregnadas de velhas recordações? - Com redobrado
interesse, circunvaguei o olhar pelo quarto, mobiliado com
simplicidade.
-
E uma longa história. - Meu guru sorriu às suas reminiscências. -
O nomeado faquir era Afzal Khan. Adquirira seus extraordinários
poderes em virtude de um encontro casual com um iogue hindu.
-
Filho, tenho sede: traga-me um pouco de água”. Um sannyásin
coberto de pó fez, certa vez, este pedido a Afzal, então
adolescente, numa pequena aldeia de Bengala oriental.
-
Mestre, sou maometano. Como pode o senhor, um hindu, aceitar beber de
minhas mãos?
-
Sua sinceridade me agrada, meu filho. Não obedeço às regras de
ostracismo ditadas por sectários sem Deus. Vá, traga-me água,
depressa.
A
respeitosa obediência de Afzal foi recompensada por um olhar
afetuoso do iogue.
-
Você possui bom carma por suas vidas anteriores - comentou ele
solenemente. - Vou lhe ensinar certo método de ioga que lhe dará
domínio sobre um dos reinos invisíveis. Os grandes poderes que
obtiver deverão ser empregados unicamente em fins dignos; jamais por
egoísmo! Percebo - infelizmente! - que você trouxe do passado
algumas sementes de tendências destrutivas. Não permita que
germinem, regando-as com novas ações más. A complexidade de seu
carma anterior é tal que você deve utilizar esta vida para
reconciliar suas conquistas de ioga com os mais altos objetivos
humanitários.
Depois
de instruir o surpreendido jovem numa técnica complicada, o mestre
desapareceu.
Afzal
praticou fielmente os exercícios de ioga durante vinte anos. Seus
feitos miraculosos começaram a atrair a atenção de áreas cada vez
maiores. Parece que ele tinha sempre a companhia de um espírito sem
corpo, chamado Hazrat. Esta entidade invisível era capaz de
satisfazer o mais leve desejo do faquir.
Desprezando
a advertência de seu mestre, Afzal começou a fazer mau uso de seus
poderes. Qualquer objeto que ele pegasse e repusesse no lugar, logo
sumia sem deixar vestígios. Esta desconcertante circunstância fazia
do maometano, geralmente, um convidado indesejável!
Ele
visitava grandes joalherias de Calcutá, de tempos em tempos,
apresentando-se como possível comprador. Qualquer jóia que suas
mãos tocassem, desaparecia logo após sua saída da loja.
Seguiam-no, amiúde, centenas de estudantes, atraídos pela esperança
de aprender seus segredos. O faquir convidava-os, de vez em quando, a
viajar com ele. Na estação ferroviária, dava um jeito de tocar um
bloco de passagens que, a seguir, devolvia ao funcionário, dizendo:
“- Mudei de idéia, não as compro agora.” - Mas ao embarcar no
trem, com sua comitiva, Afzal estava de posse das passagens
necessárias.
Estas
proezas causavam um tumulto indignado; os joalheiros e os vendedores
de passagem, em Bengala, estavam sucumbindo a crises de nervos! Os
policiais que buscavam prender Afzal sentiam-se desamparados; o
faquir removia qualquer indício incriminatório, dizendo
simplesmente: “Hazrat, leva isto daqui”.
-
O faquir não estava superiormente desenvolvido em espiritualidade -
explicou Srí Yuktéswar – Seu domínio de certa técnica de ioga
lhe deu acesso a um plano astral onde qualquer desejo imediatamente
se materializa. Tendo como intermediário um ser astral chamado
Hazrat, o maometano podia extrair da energia etérica os átomos de
qualquer objeto, por um ato de poderosa vontade. Objetos astralmente
produzidos, entretanto, têm estrutura evanescente; não podem ser
retidos por longo tempo. Afzal ainda cobiçava os bens terrenos, cuja
aquisição, se exige trabalho mais duro, tem durabilidade mais
garantida.
-
Afzal não era um homem com realização de Deus - continuou o
Mestre. - Os verdadeiros santos realizam milagres de natureza
benéfica e permanente porque estão sintonizados com o Criador
onipotente. Afzal era um homem comum, dotado do extraordinário poder
de penetrar num reino sutil, onde os mortais não costumam entrar
antes da morte.
-
Agora compreendo, gurují. O mundo pós-morte parece ter alguns
aspectos encantadores.
Alguns
anos mais tarde, um amigo chamado Babú veio à minha casa para mostrar-me, transcrita
num jornal, a confissão pública do maometano. Esta me permitiu
conhecer os fatos que acabei de lhe contar sobre a iniciação de
Afzal, quando adolescente, por um guru da India.
Os
parágrafos finais do documento publicado, segundo a memória de Sri
Yuktéswar, eram, em essência, os seguintes: “Eu, Afzal Khan,
escrevo estas palavras como ato de penitência e aviso aos que buscam
a posse de poderes miraculosos. Durante anos, fiz mau uso das
prodigiosas habilidades a mim concedidas pela graça de Deus e de meu
mestre. Embriaguei-me de egotismo, considerando-me acima das leis
comuns da moral. Chegou, por fim, o dia do ajuste de contas.
Encontrei recentemente um ancião numa estrada, nas imediações de
Calcutá. Ele caminhava penosamente, coxeando, e carregava um objeto
brilhante que parecia ouro. Dirigi-me a ele, a cobiça em meu
coração. - Sou Afzal Khan, o grande faquir. Que tem você aí?
-
Esta esfera de ouro é minha única riqueza material; para um faquir,
não tem o menor interesse. Suplico-lhe, senhor, cure minha perna
manca.
Toquei
a esfera e afastei-me sem resposta. Atrás de mim, seguia o velho,
capengando. De repente, lançou um grito: - Meu ouro sumiu!
Ante
o meu desinteresse, ele falou, de súbito, com uma voz estentórea
que partia esquisitamente de seu corpo frágil:
- Você não me
reconhece?
Estaquei, emudecido, consternado ao descobrir, com
atraso, que este velho insignificante e aleijado não era outro senão
o grande santo que, há muito, muito tempo atrás, me iniciara em
ioga. Ele endireitou-se; seu corpo instantaneamente se tornou
vigoroso e jovem.
-
Então! - O olhar de meu guru era ígneo. - Vejo com meus próprios
olhos que você usa seus poderes, não para ajudar a humanidade
sofredora, mas para assaltá-la como um ladrão vulgar! Retiro seus
poderes ocultos; Hazrat doravante está livre. Você não será mais
um terror em Bengala!
“Chamei
Hazrat com acentos angustiados; pela primeira vez, ele não apareceu
ao meu olhar interno. Mas, de chofre, um véu escuro se levantou:
distingui claramente a blasfêmia de minha vida.
“-
Mestre, agradeço-lhe por ter vindo desfazer minha prolongada ilusão,
- Eu soluçava a seus pés. - Prometo abandonar minhas ambições
mundanas. Farei um retiro nas montanhas para, solitário, meditar em
Deus, na esperança de obter o perdão por meu passado de maldades.
Meu
guru me encarou com silenciosa compaixão. - Aprecio sua sinceridade
- disse ele, finalmente. - Em virtude de seus primeiros anos de
estrita obediência, e por este arrependimento atual, conceder-lhe-ei
um benefício. Seus demais poderes estão perdidos, mas sempre que
necessitar alimento e roupa, poderá com êxito chamar Hazrat para
que os forneça. De todo coração devote-se ao entendimento de Deus
na solitude das montanhas.
“Meu
mestre então desapareceu; fiquei sozinho com minhas lágrimas e
reflexões. Adeus, mundo! Vou buscar o perdão do Bem-Amado Cósmico”.

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