- Este é um relato que Paul Brunton fez de sua passagem pelo Cairo na década de 1930:
- “Caí de joelhos atrás de uma coluna da mesquita e deixei as asas de meu coração alçarem voo em reverente devoção ao Poder Supremo, que os homens em volta de mim chamaram Allah. Não sei quanto tempo assim fiquei antes que alguém começasse a ler, salmodiando em voz apenas audível uma antiga página do Corão. Enquanto prosseguia o agradável murmúrio árabe, levantei a cabeça e observei os que, obedecendo às ordens do Profeta, reuniam-se ao cair da tarde para recordar a Fonte Divina à qual devemos a vida.Ao meu lado estava ajoelhado um velho, com uma túnica branca listrada de azul. Enquanto sussurrava as orações, inclinava sua testa até tocar a alfombra vermelha, e voltava a endireitar-se, repetindo constantemente o mesmo movimento. Mais adiante, um outro velho invocava a misericórdia de Allah, acompanhada de súplicas com os habituais movimentos de vaivém. Parecia extremamente pobre e trajava uma túnica quase em farrapos. O rosto coberto de rugas aparentava cansaço pela luta que a vida e Allah lhe haviam imposto. No entanto, neste venerável recinto dedicado à tranquila devoção, sua mente concentrada na prece fizera alguma ruga desaparecer de seu rosto, envolvendo-o lentamente em serenidade apaziguadora. Era um homem que tinha coragem de entregar sua vida nas mãos todo-poderosas de Allah e, evidentemente, não se arrependia. Aceitava tudo que vinha de bom ou de ruim, com a venerável exclamação: Inshallah! (se Allah quiser).Voltei minha face para outro lado e avistei um piedoso muçulmano que parecia ser um vendedor vindo de sua tenda. Colocou-se na atitude prescrita, voltando seu rosto para o leste, as pernas ligeiramente afastadas e os braços para o alto tocando as orelhas, e levantou em voz sonora uma saudação: Allah é o Máximo! Ficou ajoelhado uns instantes e depois se levantou e saiu da mesquita. Descarregou sua alma em amor a Allah; agora podia voltar em paz aos negócios.
- Havia outros homens que, abismados nas suas preces, estavam tão absortos que pareciam não tomar conhecimento de nada que se passava em volta deles. “Olhos e pensamentos devem estar fixos em Allah” – disse o Profeta, e seu preceito era obedecido ao pé da letra. Allah era o único objetivo daqueles que ali se encontravam, e a Ele se entregavam, com um fervor inegável, jamais esquecido pelo estrangeiro que os olhava com simpatia.
- Os pobres rendiam homenagem a Allah junto aos ricos; os eruditos não desprezavam a companhia dos analfabetos. O profundo respeito, a total absorção, não podiam senão impressionar o espectador. Assim era a democracia que o Profeta Maomé estabelecera dentro daquelas velhas paredes vermelhas, brancas e douradas.
- As mesquitas do Cairo encerram a emocionante beleza que me afetava cada vez que penetrava no interior de uma delas. Quem pode contemplar as centenas de colunas de mármore branco das arcadas, as nobres cúpulas revestidas de ouro, sem sentir admiração nem reservas? Quem pode fixar os arabescos geométricos que adornam as fachadas, como rendas de pedras, sem experimentar verdadeiro prazer? Todos os objetos dali estampavam o cunho dessa arte, com que os árabes enriqueceram o mundo. Em volta das paredes, as sancas repletas de reluzentes letras árabes, cópia fiel das sentenças do Corão, constituíam um elemento decorativo digno de ser apreciado.

- Após desfrutar da paz daquele recinto abençoado, saí às ruas. O calor da tarde vibrava no ar, o sol seguia sua marcha gloriosa na abóboda azul. No sagrado recinto da mesquita reinava paz centenária; fora dela estava a agitação, o bulício mercantil. Assim eram os dois aspectos da vida; ambos se beneficiavam da proteção e benevolência de Allah. Cruzando a praça, observei um cocheiro parar sua carruagem de aluguel e saltar a grade de ferro baixa de um pequeno jardim municipal, e estando do outro lado da cerca, prosternar-se frente a Meca e orar durante seis ou sete minutos, esquecendo o mundo e seus afazeres. Não olhava para os lados, sumido em suas preces visivelmente preso por seus sentimentos de devoção. Aquela cena comoveu-me profundamente, tanto pelo seu efeito artístico como pela lealdade espiritual que revelava.
- Uma outra noite, cerca de 22 horas, andando às margens do Nilo, percebi um jovem limpador de ruas, encostado a um poste de luz, com a vassoura na mão descansando do seu fatigante labor. A noite estava resplandecente, e sob o céu azul-violeta o jovem cantava alto e alegremente alguma coisa que lia num pequeno livro gasto pelo uso. Cantava com tanto fervor e estava tão extasiado nas palavras, que nem percebeu minha chegada. Seus olhos brilhavam e reluziam em sua devoção a Allah. Tomei a liberdade de dar uma espiada no livro: era um exemplar do Corão. O rapaz estava com roupa suja, porque sujo era seu trabalho e muito mal retribuído, mas seu rosto refletia felicidade. Não era necessário saudá-lo. Estava com a habitual “a paz seja contigo” - porque ele já tinha encontrado.
- Na terceira noite, fui jantar num restaurante afastado no coração da cidade velha. O garçom que me atendeu, apenas tinha colocado os pratos na mesa, logo se retirou a um canto e apanhou algo que estava apoiado na parede. Tratava-o com tanta ternura como se fosse seu melhor tesouro; nada mais era que uma esteira desbotada, que ele desenrolou e estendeu em direção a Meca. Feito isto, prosternou-se na dura superfície e durante dez minutos recitou suas preces em voz baixa. Havia outros fregueses esperando o garçom, mas o velho dono do restaurante aprovou a conduta de seu empregado com um gesto de cabeça.
- Lembro-me de uma viagem que fiz ao Porto de Suez. Ao chegar à estação de trem, vi um operário humildemente trajado afastar-se do grupo de trabalhadores e prosternar-se, salmodiando um trecho do Corão. Seu trabalho lhe dava o que comer, mas não era tão importante a ponto de fazê-lo esquecer seus deveres para com Allah (o muçulmano tem o dever de orar cinco vezes ao dia voltado em direção a Meca). Observei seu rosto; era o rosto de um homem que vive iluminado pela luz da consciência e que conquistou certa paz interior.
- Não posso senão admirar o fervor dessa religião, e respeitar a sabedoria do Profeta pela habilidade com que ensinou seus seguidores a conciliar a devoção com as ocupações da vida. E comparei o valor prático do Islã com o exclusivismo das crenças orientais, que tendem a separar a vida temporal da vida espiritual, levantando uma barreira quase intransponível.
- Se nós, ocidentais, fôssemos realmente crentes, devíamos imitar esses exemplos dos seguidores dessa grande religião, o Islamismo. Podemos levar nossa fé tão longe? Duvido.
- A força da religião islâmica não deve ser medida pelo número de seus adeptos, mas sim pela ardente devoção à qual cada um deles se entrega. Nós, os ocidentais, damos frequentemente à palavra 'muçulmano' o sentido de 'fanático', o que é completamente errôneo. Aqui há um povo que se aferra aos princípios de sua religião com um fervor que nós já perdemos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário