Os
penhascos do Himalaia, ao norte, perto de Badrinarayan, ainda são
abençoados pela presença viva de Babají, guru de Láhiri Mahásaya.
O recluso mestre conserva sua forma física há séculos, talvez
milênios. O imortal Bábají é um avatar. Nas Escrituras hindus,
avatar significa a descida da Divindade à carne.
-
O estado espiritual de Babají está além da compreensão humana -
explicou-me Sri Yuktéswar. - A raquítica visão do homem não pode
penetrar através de sua estrela transcendental. Procura-se em vão
imaginar o alcance de um avatar. É inconcebível.
Um avatar não está sujeito à economia universal; seu corpo puro,
visível como imagem de luz, acha-se livre de qualquer dívida para
com a Natureza. O olhar casual talvez não veja nada de
extraordinário na forma de um avatar, mas este não projeta
sombra
nem deixa qualquer pegada no chão. Estas são provas externas,
simbólicas, de se haver liberado interiormente da treva e da
escravidão à matéria.
Krishna,
Rama, Buddha e Patânjali contam-se entre os antigos avatares.
Considerável literatura poética em tamil desenvolveu-se acerca de
Agastya, um avatar da India meridional. Ele realizou muitos milagres
durante os séculos anteriores e posteriores a Cristo e acredita-se
que, até hoje, retém sua forma física.
A
missão de Babají na India tem sido a de dar assistência aos
profetas na execução das tarefas específicas que a vontade divina
lhes atribui. Qualifica-se, assim, como aquele que as Escrituras
chamam de Mahavatár (Grande Avatar). Ele afirmou ter dado a
iniciação iogue a Shânkara, reorganizador da Ordem dos Swâmis, e
a Kabir, famoso mestre medieval. Seu principal discípulo no século
19, como sabemos, foi Láhiri Mahásaya, que infundiu vida nova à
perdida arte de Kriya Yoga.
Babají,
ao contar a história a Láhiri Mahásaya e a Swami Kebalananda,
forneceu muitos detalhes fascinantes de seu encontro com o grande
monista (Shânkara). Babají vive sempre em comunhão com Cristo; juntos enviam
vibrações redentoras e juntos planejaram a técnica espiritual de
salvação para esta época (kriya yoga). O trabalho destes dois
mestres completamente iluminados - um, com corpo, e o outro, sem - é
inspirar as nações a renunciarem às guerras, aos ódios de raça,
ao sectarismo religioso e ao materialismo, cujos males atuam como
bumerangues.
Babají
está a par das tendências modernas e, em especial, da influência e
das complexidades da civilização do Ocidente; ele conhece
perfeitamente a necessidade de difundir a ioga em ambos os
hemisférios para realizar a libertação do homem.
A
falta de referências históricas a Babají não nos deve
surpreender. O grande guru jamais apareceu ostensivamente em qualquer
século; o equívoco brilho da publicidade não tem lugar em seus
planos milenares.
Semelhante
ao Criador, único mas silencioso Poder, Babají opera em humilde
anonimato. Grandes profetas como Cristo e Krishna vêm ao mundo com
um objetivo específico e espetacular; e partem, assim que o
realizam. Outros avatares, como Babají, incumbem-se de obras
relacionadas com o lento progresso evolutivo do homem através dos
séculos, em vez de se ligarem a algum fato histórico excepcional.
Tais mestres sempre se ocultam ao olhar grosseiro do público e têm
o poder de se tornar invisíveis à
vontade.
Por
estas razões, e porque geralmente instruem seus discípulos para que
mantenham silêncio a respeito de si, algumas figuras espirituais do
mais alto porte permanecem desconhecidas para o mundo.
Este
avatar usa geralmente o idioma hindu, mas conversa facilmente em
qualquer língua. Adotou o singelo nome de Babají (Reverendo Pai);
outros títulos de respeito que lhe deram os discípulos de Láhiri
Mahásaya são Mahámuni Babají Maharáj (Supremo Mestre Extático),
Mahá Yogi (O Grande logue) e Trambak Baba ou Shiva Baba (títulos de
avatares de Shiva).
-
Sempre que pronuncie com veneração o nome de Babají - disse Láhiri
Mahásaya - o devoto atrai uma bênção espiritual instantânea.
O
imperecível guru não mostra sinais de idade em seu corpo; parece um
jovem de vinte e cinco anos, não mais. De epiderme clara,
constituição e estatura medianas, o belo e vigoroso corpo de Bábají
irradia um brilho perceptível. Seus olhos são pretos, serenos e
ternos; seu longo e lustroso cabelo é cor de cobre.
Às
vezes, a face de Babají se parece muito à de Láhiri Mahásaya.
Tão notável era a semelhança que Láhiri Mahásaya, em sua
velhice, poderia ocasionalmente ter passado por pai de Babají, cuja
aparência é sempre a da juventude.
Swâmi
Kebalananda, meu santo instrutor de sânscrito, passou algum tempo
com Babají no Himalaia.
-
O incomparável mestre move-se com seu grupo, de um lugar a outro nas
montanhas – disse-me Kebalananda. - Seu pequeno séquito conta com
dois discípulos americanos sumamente adiantados. Depois de
permanecer em certa localidade por algum tempo, Babají diz: “Dera
danda uthao”(Levantemos nosso báculo e acampamento). Suas
palavras são o sinal para o grupo mover-se instantaneamente a outro
lugar. Nem sempre ele emprega este método de viagem astral; às
vezes, vai a pé, de cume a cume.
“Babají
pode ser visto ou reconhecido somente quando assim o deseja. Sabe-se
que ele apareceu sob formas pouco diferentes, a vários devotos - às
vezes, com barba e bigode e, às vezes, sem. Seu corpo incorruptível
não requer alimento; o mestre, por isso, raramente come. Ao visitar
os discípulos, num gesto de cortesia, aceita, ocasionalmente, frutas
ou arroz cozido em leite e em manteiga.
“Conheço
dois assombrosos incidentes da vida de Bábají - prosseguiu
Kebalananda. - Estavam seus discípulos sentados, certa noite, em
torno de uma enorme fogueira que ardia para uma cerimônia védica
sagrada. O guru, de súbito, agarrou uma acha incandescente e golpeou
de leve o ombro de um chela, próximo ao fogo,
“-
Senhor, que crueldade! - Láhiri Mahásaya, ali presente, fez esta
censura.
“-
Você preferia vê-lo arder até ficar em cinzas, segundo o decreto
de seu carma passado?
“Com
estas palavras, Babají colocou sua mão curadora sobre o ombro
desfigurado do chela: -Livrei-o, esta noite, de uma dolorosa morte. A
lei cármica cumpriu-se satisfatoriamente com seu leve sofrimento
pelo fogo.
“Em
outra ocasião, o santo grupo de Babají foi perturbado pela chegada
de um estranho. Com admirável habilidade, ele escalara os penhascos
até a plataforma quase inacessível, próxima ao acampamento do
guru.
“-
O senhor deve ser o grande Babají. - O rosto do homem iluminara-se
com inexprimível veneração.
-
Estou à sua procura, sem desistir, durante meses, entre estes
rochedos proibitivos. Suplico-lhe, aceite-me como seu discípulo.
“Como
o grande guru não desse resposta, o homem apontou para o abismo
revestido de rochas, abaixo da plataforma. - Se recusar, eu me
atirarei desta montanha. A vida não terá mais valor para mim, se
não puder obter sua direção espiritual em minha busca de Deus.
“-
Então, salte - disse Babají, sem emoção. - Não posso aceitá-lo,
em seu atual estado de desenvolvimento.
“O
homem arremessou-se do penhasco imediatamente. Babají deu instruções
aos discípulos surpresos para trazerem o corpo do desconhecido.
Quando regressaram com a forma destroçada, o mestre colocou a mão
sobre o morto. Milagre! ele abriu os olhos e prostrou-se com
humildade ante o guru onipotente.
-
Agora você está pronto para o discipulado. - Babají sorriu com
efeito para o ressuscitado chela. - Você passou corajosamente a
difícil prova. A morte não voltará a tocá-lo; agora você é um
dos imortais de nosso rebanho.
A seguir, pronunciou a costumeira ordem de partida; “Dera danda
uthao”; o grupo
inteiro
sumiu da montanha.”
Só
um motivo existe para que Babají conserve sua forma física, de
século para século: o desejo de dar à humanidade o exemplo
concreto de suas próprias possibilidades. Se ao homem jamais fosse
concedido vislumbrar a Divindade revestida de carne, ele permaneceria
oprimido pela pesada ilusão (máya) de que não pode transcender sua
condição mortal.
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