3.1.13

BABAJÍ, O GURU IMORTAL - P. Yogananda


Os penhascos do Himalaia, ao norte, perto de Badrinarayan, ainda são abençoados pela presença viva de Babají, guru de Láhiri Mahásaya. O recluso mestre conserva sua forma física há séculos, talvez milênios. O imortal Bábají é um avatar. Nas Escrituras hindus, avatar significa a descida da Divindade à carne.

- O estado espiritual de Babají está além da compreensão humana - explicou-me Sri Yuktéswar. - A raquítica visão do homem não pode penetrar através de sua estrela transcendental. Procura-se em vão imaginar o alcance de um avatar. É inconcebível.

Um avatar não está sujeito à economia universal; seu corpo puro, visível como imagem de luz, acha-se livre de qualquer dívida para com a Natureza. O olhar casual talvez não veja nada de extraordinário na forma de um avatar, mas este não projeta
sombra nem deixa qualquer pegada no chão. Estas são provas externas, simbólicas, de se haver liberado interiormente da treva e da escravidão à matéria.

Krishna, Rama, Buddha e Patânjali contam-se entre os antigos avatares. Considerável literatura poética em tamil desenvolveu-se acerca de Agastya, um avatar da India meridional. Ele realizou muitos milagres durante os séculos anteriores e posteriores a Cristo e acredita-se que, até hoje, retém sua forma física.

A missão de Babají na India tem sido a de dar assistência aos profetas na execução das tarefas específicas que a vontade divina lhes atribui. Qualifica-se, assim, como aquele que as Escrituras chamam de Mahavatár (Grande Avatar). Ele afirmou ter dado a iniciação iogue a Shânkara, reorganizador da Ordem dos Swâmis, e a Kabir, famoso mestre medieval. Seu principal discípulo no século 19, como sabemos, foi Láhiri Mahásaya, que infundiu vida nova à perdida arte de Kriya Yoga.

Babají, ao contar a história a Láhiri Mahásaya e a Swami Kebalananda, forneceu muitos detalhes fascinantes de seu encontro com o grande monista (Shânkara). Babají vive sempre em comunhão com Cristo; juntos enviam vibrações redentoras e juntos planejaram a técnica espiritual de salvação para esta época (kriya yoga). O trabalho destes dois mestres completamente iluminados - um, com corpo, e o outro, sem - é inspirar as nações a renunciarem às guerras, aos ódios de raça, ao sectarismo religioso e ao materialismo, cujos males atuam como bumerangues.

Babají está a par das tendências modernas e, em especial, da influência e das complexidades da civilização do Ocidente; ele conhece perfeitamente a necessidade de difundir a ioga em ambos os hemisférios para realizar a libertação do homem.

A falta de referências históricas a Babají não nos deve surpreender. O grande guru jamais apareceu ostensivamente em qualquer século; o equívoco brilho da publicidade não tem lugar em seus planos milenares.

Semelhante ao Criador, único mas silencioso Poder, Babají opera em humilde anonimato. Grandes profetas como Cristo e Krishna vêm ao mundo com um objetivo específico e espetacular; e partem, assim que o realizam. Outros avatares, como Babají, incumbem-se de obras relacionadas com o lento progresso evolutivo do homem através dos séculos, em vez de se ligarem a algum fato histórico excepcional. Tais mestres sempre se ocultam ao olhar grosseiro do público e têm o poder de se tornar invisíveis à vontade.

Por estas razões, e porque geralmente instruem seus discípulos para que mantenham silêncio a respeito de si, algumas figuras espirituais do mais alto porte permanecem desconhecidas para o mundo.

Este avatar usa geralmente o idioma hindu, mas conversa facilmente em qualquer língua. Adotou o singelo nome de Babají (Reverendo Pai); outros títulos de respeito que lhe deram os discípulos de Láhiri Mahásaya são Mahámuni Babají Maharáj (Supremo Mestre Extático), Mahá Yogi (O Grande logue) e Trambak Baba ou Shiva Baba (títulos de avatares de Shiva).

- Sempre que pronuncie com veneração o nome de Babají - disse Láhiri Mahásaya - o devoto atrai uma bênção espiritual instantânea.

O imperecível guru não mostra sinais de idade em seu corpo; parece um jovem de vinte e cinco anos, não mais. De epiderme clara, constituição e estatura medianas, o belo e vigoroso corpo de Bábají irradia um brilho perceptível. Seus olhos são pretos, serenos e ternos; seu longo e lustroso cabelo é cor de cobre.

Às vezes, a face de Babají se parece muito à de Láhiri Mahásaya. Tão notável era a semelhança que Láhiri Mahásaya, em sua velhice, poderia ocasionalmente ter passado por pai de Babají, cuja aparência é sempre a da juventude.

Swâmi Kebalananda, meu santo instrutor de sânscrito, passou algum tempo com Babají no Himalaia.

- O incomparável mestre move-se com seu grupo, de um lugar a outro nas montanhas – disse-me Kebalananda. - Seu pequeno séquito conta com dois discípulos americanos sumamente adiantados. Depois de permanecer em certa localidade por algum tempo, Babají diz: “Dera danda uthao”(Levantemos nosso báculo e acampamento). Suas palavras são o sinal para o grupo mover-se instantaneamente a outro lugar. Nem sempre ele emprega este método de viagem astral; às vezes, vai a pé, de cume a cume.

“Babají pode ser visto ou reconhecido somente quando assim o deseja. Sabe-se que ele apareceu sob formas pouco diferentes, a vários devotos - às vezes, com barba e bigode e, às vezes, sem. Seu corpo incorruptível não requer alimento; o mestre, por isso, raramente come. Ao visitar os discípulos, num gesto de cortesia, aceita, ocasionalmente, frutas ou arroz cozido em leite e em manteiga.

“Conheço dois assombrosos incidentes da vida de Bábají - prosseguiu Kebalananda. - Estavam seus discípulos sentados, certa noite, em torno de uma enorme fogueira que ardia para uma cerimônia védica sagrada. O guru, de súbito, agarrou uma acha incandescente e golpeou de leve o ombro de um chela, próximo ao fogo,

“- Senhor, que crueldade! - Láhiri Mahásaya, ali presente, fez esta censura.

“- Você preferia vê-lo arder até ficar em cinzas, segundo o decreto de seu carma passado?

“Com estas palavras, Babají colocou sua mão curadora sobre o ombro desfigurado do chela: -Livrei-o, esta noite, de uma dolorosa morte. A lei cármica cumpriu-se satisfatoriamente com seu leve sofrimento pelo fogo.

“Em outra ocasião, o santo grupo de Babají foi perturbado pela chegada de um estranho. Com admirável habilidade, ele escalara os penhascos até a plataforma quase inacessível, próxima ao acampamento do guru.




“- O senhor deve ser o grande Babají. - O rosto do homem iluminara-se com inexprimível veneração.

- Estou à sua procura, sem desistir, durante meses, entre estes rochedos proibitivos. Suplico-lhe, aceite-me como seu discípulo.

“Como o grande guru não desse resposta, o homem apontou para o abismo revestido de rochas, abaixo da plataforma. - Se recusar, eu me atirarei desta montanha. A vida não terá mais valor para mim, se não puder obter sua direção espiritual em minha busca de Deus.

“- Então, salte - disse Babají, sem emoção. - Não posso aceitá-lo, em seu atual estado de desenvolvimento.

“O homem arremessou-se do penhasco imediatamente. Babají deu instruções aos discípulos surpresos para trazerem o corpo do desconhecido. Quando regressaram com a forma destroçada, o mestre colocou a mão sobre o morto. Milagre! ele abriu os olhos e prostrou-se com humildade ante o guru onipotente.

- Agora você está pronto para o discipulado. - Babají sorriu com efeito para o ressuscitado chela. - Você passou corajosamente a difícil prova. A morte não voltará a tocá-lo; agora você é um dos imortais de nosso rebanho.

A seguir, pronunciou a costumeira ordem de partida; “Dera danda uthao”; o grupo
inteiro sumiu da montanha.”

Só um motivo existe para que Babají conserve sua forma física, de século para século: o desejo de dar à humanidade o exemplo concreto de suas próprias possibilidades. Se ao homem jamais fosse concedido vislumbrar a Divindade revestida de carne, ele permaneceria oprimido pela pesada ilusão (máya) de que não pode transcender sua condição mortal.

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