31.5.14

FÉ NO GURU (um pequeno conto) - Swami Shivapadananda


Havia um pobre e inocente casal, esposo e esposa. Disseram a eles: “Se vocês tiverem um guru, chegarão a Deus”. Então eles perguntaram: “Mas onde podemos encontrar um guru? Onde podemos conseguir iluminação?” As pessoas disseram: “Procurem”.


E assim fizeram. Ambos procuraram e procuraram. Mas não podiam encontrar um guru. Então alguém disse: “Bem, seus pecados não serão lavados a menos que sejam iniciados”. Mas o pobre homem disse: “Como posso ter um guru?” A pessoa disse: “Amanhã de manhã, a primeira pessoa que você encontrar – tome-a como seu guru”.

Ele era um homem simples, queria um guru. Então na manhã seguinte ambos saíram caminhando pela rua. De repente encontraram um ladrão que corria da polícia. Eles se jogaram aos pés do ladrão e o ladrão gritou: “A polícia está vindo!”

E eles disseram: “Não, nós queremos iniciação de você.” O ladrão suplicou: “Me deixem, a polícia está vindo!” O ladrão estava desesperado para fugir e perguntou-lhes: “O que vocês querem de mim?” O homem respondeu: “Queremos Deus”.

O ladrão disse: “Feche seus olhos e sentem aqui, os dois. Vocês terão Deus.” O casal perguntou: “Nós teremos Deus? Tem certeza?” O ladrão: “Sim, terão Deus.” Então o ladrão voltou a correr, mas a polícia o pegou e colocou na cadeia.
Enquanto isso o casal não se moveu de lá. Diziam: “Devemos sentar e Deus virá”. E passaram por muitos problemas, mas não saíram daquele lugar.

E Vishnu, como sempre, foi forçado pela Mãe Lakshmi. Porque ela é cheia de amor e compaixão. Para sufocar um homem mundano, leve sua riqueza material. Mas para sufocar Deus, mostre compaixão. A Mãe é a personificação da compaixão, assim como outras deidades femininas. Então ela diz a Vishnu: “Vishnu, por favor, aquele homem está sofrendo. Vá e lhe dê seu darshan (graça da presença).”

Então o Senhor Vishnu aparece lá e diz: “Olhe, estou aqui." O pobre homem diz: “Quem é você?” O Senhor replica: “Sou Deus.” O homem diz: “Não venha dizer que você é Deus, quero que meu guru me diga. Do contrário, não vamos sair daqui.”

O Senhor diz: “Olhe, sou...”

“Não”, disse o homem, “se você é o Senhor,então digo que quero que meu guru me diga isso”. E o Senhor não sabia mais o que fazer. Vishnu o deixa e vai num sonho ao rei e diz: “Um certo homem, liberte-o por favor. Ele pode ter roubado alguma coisa, mas ele tem minha graça. Se você não libertá-lo, alguma coisa ruim acontecerá a você.”

O homem é liberto e o Senhor Vishnu o encontra na porta de saída da prisão. Assim que ele vê Vishnu, fica transformado por dentro. O Senhor o leva ao casal e o ladrão os acorda.

“Oh, gurudeva”, eles dizem, “uma pessoa esteve aqui e disse que era Deus”. O guru-ladrão diz: “Este aqui?”

“Sim”, eles dizem. “Sim, sim, ele é Deus”, ele responde. E o casal se prostra ao Senhor. Esta é a fé com a qual um devoto pode até salvar seu guru, se este for um pecador.

 

CUIDADOS COM O PRANAYAMA - Swami Shivapadananda


Algumas pessoas ficam agitadas quando seu sistema esquenta por fazer muito pranayama. Então elas começam a fazer ainda mais pranayama para remover o calor. Elas pensam que é como homeopatia – toda a doença está saindo do corpo. Então elas fazem mais pranayama e ficam ainda mais quentes. E em pouco tempo se queimam.

Elas podem pensar que isto não é importante ou não é perigoso. É muito perigoso. É como mexer com eletricidade sem compreensão correta, você pode levar um tremendo choque. Se você destruir seus nervos, isso pode arruinar toda sua vida. Você pode destruí-los com pranayama, se não tiver cuidado. Meu guru certa vez avisou as pessoas para que não usassem drogas para se divertirem pela mesma razão. É como colocar uma alta voltagem (1.000 volts) através de fios sem capacidade para carregar esta força (110 volts): eles vão ser queimados.

É por isso que muitos sádhakas (espirantes espirituais) danificam ou queimam seu sistema nervoso e sua saúde. Eles pensam: “Oh espiritualidade e sádhana são coisas maravilhosas!”, e ficam mentalmente doentes. Por que? Porque juntamente com suas práticas, você deve observar como o corpo está reagindo a elas. Quando o corpo reage excessivamente, então vá mais devagar. Depois que o corpo e os nervos se fortalecerem, então continue (isto é, deve-se dar descanso de um ou mais dias aos nervos, e só continuar quando recuperarem seu equilíbrio e frescor).

30.5.14

SUGESTÕES PARA A PRÁTICA DE BRAHMACHARYA - Swami Ashokananda


Nem todos podem ou devem praticar Brahmacharya. Estamos, lógico, considerando o caso daqueles que estão aspirando seriamente por espiritualidade. Sem entusiasmo espiritual, Brahmacharya não pode ser praticada. Um anseio pelo Supremo é a condição primária da prática de  Brahmacharya. O segredo é esquecer o corpo. Mas ao mesmo tempo, não se deve pensar continuamente em sexualidade, pois quanto mais fazemos isso menos temos sucesso em nos livrar dela. Esquecer é o caminho do sucesso.

Deixe os pensamentos divinos submergirem você, de modo que não mais pense no corpo ou em seus confortos. Algumas restrições na comida são necessárias, mas não deixe que elas se tornem obsessões.

Não devemos entrar em contato com pessoas ou coisas que lembrem a sexualidade. É urgente que abandonemos a companhia daqueles que se comprazem nela. Não devemos dormir demais ou de menos. A refeição noturna deve ser frugal, e não devemos ir para a cama antes que ela esteja ao menos meio digerida.

Muita roupa quente não deve ser usada, nem deve o corpo ser atormentado sem necessidade. Mas nada valerá se não tivermos uma paixão pelo Supremo em nosso coração. Aos que querem praticar Brahmacharya, nosso melhor conselho é que pratiquem Sâdhanâ regular e esqueçam e corpo e o mundo no pensamento de Deus. Este é o único caminho para o sucesso. 

BRAHMACHÁRYA E OS CHAKRAS - Swami Ashokananda


A mente, ou nossa autoconsciência, tem seu centro de gravidade, num dado momento, em um dos chakras. Sentimos a subida da mente e sua descida (nos chakras). Onde a mente estiver, a energia e o sangue estarão concentrados ali. Quando temos um pensamento elevado, puro, sentimos que a parte superior do corpo (coração e cérebro) são estimulados. Mas quando o pensamento é impuro, é a parte inferior que é estimulada.

Um homem, cuja mente está essencialmente localizada nos chakras inferiores, tem uma experiência da realidade. Um outro que tem sua mente nos chakras mais elevados, tem uma experiência completamente diferente. Para o primeiro, o mundo é infernal (logicamente, ele não o sente como um inferno); ele nada vê de divino no mundo; este lhe é material e sensual. Ele está cheio da ideia do corpo. Ele cuida apenas de seu corpo. Está ansioso por prazer e conforto material. Não se sente atraído por nada mais elevado. Sua existência, em resumo, é uma existência animal, e sua experiência também é animal.

Mas se ele puder, de alguma forma, remover sua mente daquelas regiões inferiores e colocá-la nos chakras superiores, sua visão do mundo imediatamente muda. Não mais ele considera o mundo como material e sórdido. Ele o percebe como cheio de luz e vida divinas. Seus próprios gostos e aversões, seus desejos e aspirações, suas relações com os outros, tudo sofre uma completa mudança.

Se ele puder levar sua mente ao chakra mais algo, haverá apenas a Divindade e nada mais.

Esta correspondência dos chakras com as visões da realidade objetiva é uma consideração essencial na determinação do valor e necessidade de Brahmacharya. Se queremos ascender às visões superiores da realidade – e o progresso espiritual significa apenas isso – devemos elevar nossa mente aos planos subjetivos mais elevados.

Mas como podemos fazer isso se estimulamos os chakras inferiores pelo pensamento e pela ação? Se nos permitimos pensamentos e ações sexuais, nossos chakras inferiores estarão excitados e a mente necessariamente permanecerá ali, e portanto não haverá senão uma visão baixa e sórdida da realidade para nós, não as mais elevadas.

Portanto é absolutamente necessário que não exista estimulação dos círculos inferiores. A abstenção sexual é absolutamente necessária para o progresso espiritual.

Existe ainda outra razão. A prática espiritual causa uma grande tensão nos nervos e cérebro. Uma sistema nervoso e cérebro que são enfraquecidos pela não continência, estão fracos demais para suportar aquela grande tensão. Eles quebrarão em pedaços antes de um alto impulso espiritual; e o resultado será colapso total e doença incurável.

Além disso, a percepção dos planos superiores da realidade requer a atividade de nervos muitos sensitivos. Sem Brahmacharya eles morrem e se tornam inoperantes. As experiências superiores são impossíveis para pessoas que não são Brahmachârins.

Pratiquemos Sâdhanâ e sentiremos por nós mesmos qual o lugar de  Brahmacharya na vida espiritual.



ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE BRAHMACHÁRYA - Swami Ashokananda


A época moderna, com seu idealismo barato e tendência a cobrir o cadáver com flores, tem tentado criar um glamour sobre a vida normal, a vida dos sentidos e da mente superficial. Os aspirantes espirituais, se forem sérios e sinceros, devem acautelar-se de suas armadilhas.

O instinto sexual é muito forte no homem. E a saúde e pureza da sociedade dependem de se regular apropriadamente este instinto. A menos que um homem seja inspirado por ideais espirituais, é extremamente difícil, ou impossível, manter controle sobre o instinto sexual. Aqueles que não têm inclinação espiritual fariam melhor casando-se, para seu próprio bem e para o bem da sociedade.

Sem espiritualidade, a sexualidade precisa se expressar, de um jeito ou de outro. É melhor dar-lhe uma expressão normal através do casamento. Não se pode conceber uma vida mais egoísta e desprezível que aquela da pessoa que não se casa para evitar as responsabilidades domésticas e sociais, e ainda assim satisfaz sua sexualidade. Estas condutas erradas são uma praga para a sociedade e põe em perigo sua pureza.

A menos que você possua idealismo espiritual, deve casar-se. E se possuir idealismo espiritual, renuncie e viva como um monge. Isto é bom para você e para a sociedade.

Com respeito a Brahmacharya (continência sexual), é absolutamente necessária para progredir espiritualmente. Mas ela não é fácil para um pai de família.

O pai de família deve tentar praticar tanta continência quanto possível. Ele deve fazer esforços sinceros, se for sério sobre espiritualidade. Se a vida diária do casal for devotada a algum ideal altruísta ou espiritual, o controle sobre as atrações sexuais será mais fácil.


Será melhor se ambos, marido e esposa, sentirem o mesmo anseio espiritual. Isto vai tirar a mente do corpo, e ao invés de serem um obstáculo um para o outro, marido e mulher podem se ajudar grandemente. Mas de qualquer modo, eles devem ter o hábito de dormir em quartos separados. Esta é uma prática sadia e útil.


ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE PRANAYAMA - Swami Ashokananda


Prânâyâma, se for praticado erradamente, pode arruinar os nervos e o cérebro. Quando regulamos nossa respiração e a fazemos fluir ritmicamente, ou quando a retemos, despertamos pensamentos sutis na mente. Estes pensamentos nem sempre são puros e nobres. Existem muitas tendências más latentes em nós.

Estas tendências más, embora estejam ocultas, existem na mente. Quando elas são forçadas a subir ao nível da consciência, produzem perturbações na mente; e nós, com nosso fraco autocontrole, dificilmente podemos contê-las. Elas seguem quentes pelos nervos e cérebro e os arruínam, e o resultado frequentemente é a degeneração sexual.

Os pensamentos sutis bons igualmente prejudicam o cérebro e os nervos. Pois os nervos e o cérebro há muito estão acostumados às percepções materiais. A intensidade e o poder dos pensamentos sutis se tornam difíceis de suportar. Assim, as consequências de Prânâyâma, em ambos estes aspectos, são desastrosas.

Não é suficiente despertar pensamentos sutis. Não devemos esquecer que, se  Prânâyâma desperta os deuses em nós, ele também desperta os demônios; e ambos, deuses e demônios, quando são subitamente despertados, nos são prejudiciais.

Prânâyâma só pode ser beneficamente praticado quando estamos firmemente estabelecidos em caráter moral, quando eliminamos de nossas mentes desejos e tendências básicas, quando uma alta consciência moral se tornou nosso nível normal, quando as emoções e percepções sutis se tornaram habituais para nós, e quando nossos nervos e cérebro se tornaram acostumados a carregar pensamentos e emoções sutis.

Isto é, uma fatigante caminhada montanha acima deve ser feita antes que Prânâyâma possa se tornar uma prática benéfica para nós. Pranayama nunca deve ser praticado por alguém que não observa Brahmacharya (continência). Ele será demasiado para os nervos e cérebro fracos de uma pessoa não continente. 


24.5.14

A PRÁTICA DA VICHARA - David Frawley


O caminho da Vichara está se tornando popular atualmente no mundo, particularmente no Ocidente. Entretanto, ele é frequentemente mal compreendido e muitas pessoas, mesmo tendo algumas experiências iniciais, deixam de continuar nele e param sua prática ou vão para outro caminho espiritual. Outros confundem alguma experiência limitada com a meta verdadeira e posam como mestres prematuramente.

A Vichara, a muitas pessoas do Ocidente, parece ser um tipo de iluminação instantânea para todos, o que leva muitas pessoas a uma iluminação fantasiosa, ao invés de trabalharem duro sobre si mesmas ou fazerem a prática genuína.

O yoga do conhecimento (jnana yoga) ensinado por Ramana Maharshi é considerado o yoga mais elevado, porque ele leva a pessoa diretamente à realização do Eu. A Vichara é um método simples que pode ser feito a qualquer hora e não depende de ajudas externas.

A Vichara atrai as pessoas de intelecto desenvolvido e que podem entender facilmente a teoria. Como a Vichara não depende de circunstâncias externas, pode-se integrá-la em nossas vidas modernas, uma vez que não temos tempo ou circunstâncias para práticas yóguicas mais complexas.

Apesar disso, não é um caminho tão fácil, particularmente como prática inicial de uma pessoa. Na verdade, ele é considerado o mais difícil de todos os yogas, pois requer do aspirante que ele possua uma grande concentração e pureza de corpo e mente.

Poucas pessoas estão prontas para seguir diretamente à mais elevada verdade, mesmo que possam compreender a idéia ou ter algumas experiências espirituais. Geralmente, não é a pessoa que escolhe o caminho da Vichara; ela é dada à pessoa após grande renúncia, sofrimento ou muita prática anterior de outros yogas.

Antigamente, o jnana yoga era ensinado principalmente a monges renunciantes e celibatários desde o nascimento, que nunca tocaram o dinheiro e viviam em pobreza e ascetismo. Daí que devemos ser muito cuidadosos em pensar que estamos prontos para a Vichara como única prática.

Swami Sivananda, de Rishikesh, ensinou muitas práticas diferentes porque sabia que poucos estavam prontos para o caminho de jnana; ele dava ênfase ao mantra japa, que considerava mais realista para se fazer. Paramahansa Yogananda, autor de Autobiografia de um Yogue, que ensinou os ocidentais na América durante trinta anos, disse que o jnana yoga resultaria em fracasso se a pessoa não fizesse outras práticas yogues, tal como o pranayama ensinado por ele e chamado de kriya yoga. Ele considerava o jnana yoga o caminho do super-homem.

Mantra japa, pranayama, satsanga (companhia de pessoas espirituais), dieta correta (vegetariana), são outros fatores que devem inicialmente ser considerados pelo aspirante.

Para os devotos de Sri Ramana, existem alguns mantras que podem ser repetidos antes da prática da Vichara a fim de desenvolver a concentração: 

1 - OM NAMÔ BHAGAVATÊ SRI RAMANÁYA – pode-se repetir este mantra durante alguns minutos antes de começar a Vichara (recomenda-se 108 vezes); este é o mantra de Sri Ramana; pode trazer a guia e a graça do guru para nossa prática

2 – OM ARUNÁCHALA SHIVÁYA NAMAHÁ (o H soa como se fosse RR) – é o mantra da sagrada colina de Arunáchala; deve ser combinado com a visualização da colina em nossas mentes

O pranayama também é uma importante prática a ser feita antes da vichara. O pranayama nos dá energia e mantém nosso prana subindo na espinha, isto é, não permite que a mente vá para os sentidos ou para os chakras inferiores (relativos ao sexo, sono e comida).

Pode-se usar o nadishodhana (o anuloma viloma, de respiração alternada) em sua forma leve, isto é, com retenção de 3 ou 4 segundos apenas – este pranayama pode ser praticado 4 ou 5 vezes por dia, e só deve ser aumentada a prática se a pessoa não sentir nenhum desconforto ou dor de cabeça.

Pode-se também usar a kriya yoga ensinada por Paramahansa Yogananda, que deve ser aprendida em lições semanais enviadas pela Self-Realization Fellowship, de Los Angeles.

Existe ainda uma prática de combinação de mantra com pranayama (SO-HAM pranayama), que consiste em sentar-se com a espinha ereta, olhos fechados, e observar a respiração, sem forçá-la. Quando o ar entra, mentalmente repetimos SO; quando sai repetimos HAM (o H soa como se fosse RR, como na palavra “amaRRam”). Estes são os sons naturais da inalação e exalação; este mantra é repetido milhares de vezes por nós, inconscientemente, durante o dia, ao respirarmos. Não se deve fazer nenhum esforço para mudar a respiração, ela deve ser natural. Isto pode ser praticado meia hora por dia, ou pelo tempo em que a pessoa se sentir confortável.

A questão do celibato também é importante; o aspirante deve tentar espaçar o mais possível a realização de atos sexuais, porque energia espiritual é, simplesmente, a energia sexual sublimada. Por isso, quanto mais pensamos e fazemos sexo, menos energia espiritual disponível temos para a prática e a concentração mental. E à medida que realizarmos as práticas (pranayama, mantra japa, vichara ou outra prática de concentração mental), estaremos ao mesmo tempo sublimando, transformando, a energia sexual em energia espiritual.