24.5.14

A PRÁTICA DA VICHARA - David Frawley


O caminho da Vichara está se tornando popular atualmente no mundo, particularmente no Ocidente. Entretanto, ele é frequentemente mal compreendido e muitas pessoas, mesmo tendo algumas experiências iniciais, deixam de continuar nele e param sua prática ou vão para outro caminho espiritual. Outros confundem alguma experiência limitada com a meta verdadeira e posam como mestres prematuramente.

A Vichara, a muitas pessoas do Ocidente, parece ser um tipo de iluminação instantânea para todos, o que leva muitas pessoas a uma iluminação fantasiosa, ao invés de trabalharem duro sobre si mesmas ou fazerem a prática genuína.

O yoga do conhecimento (jnana yoga) ensinado por Ramana Maharshi é considerado o yoga mais elevado, porque ele leva a pessoa diretamente à realização do Eu. A Vichara é um método simples que pode ser feito a qualquer hora e não depende de ajudas externas.

A Vichara atrai as pessoas de intelecto desenvolvido e que podem entender facilmente a teoria. Como a Vichara não depende de circunstâncias externas, pode-se integrá-la em nossas vidas modernas, uma vez que não temos tempo ou circunstâncias para práticas yóguicas mais complexas.

Apesar disso, não é um caminho tão fácil, particularmente como prática inicial de uma pessoa. Na verdade, ele é considerado o mais difícil de todos os yogas, pois requer do aspirante que ele possua uma grande concentração e pureza de corpo e mente.

Poucas pessoas estão prontas para seguir diretamente à mais elevada verdade, mesmo que possam compreender a idéia ou ter algumas experiências espirituais. Geralmente, não é a pessoa que escolhe o caminho da Vichara; ela é dada à pessoa após grande renúncia, sofrimento ou muita prática anterior de outros yogas.

Antigamente, o jnana yoga era ensinado principalmente a monges renunciantes e celibatários desde o nascimento, que nunca tocaram o dinheiro e viviam em pobreza e ascetismo. Daí que devemos ser muito cuidadosos em pensar que estamos prontos para a Vichara como única prática.

Swami Sivananda, de Rishikesh, ensinou muitas práticas diferentes porque sabia que poucos estavam prontos para o caminho de jnana; ele dava ênfase ao mantra japa, que considerava mais realista para se fazer. Paramahansa Yogananda, autor de Autobiografia de um Yogue, que ensinou os ocidentais na América durante trinta anos, disse que o jnana yoga resultaria em fracasso se a pessoa não fizesse outras práticas yogues, tal como o pranayama ensinado por ele e chamado de kriya yoga. Ele considerava o jnana yoga o caminho do super-homem.

Mantra japa, pranayama, satsanga (companhia de pessoas espirituais), dieta correta (vegetariana), são outros fatores que devem inicialmente ser considerados pelo aspirante.

Para os devotos de Sri Ramana, existem alguns mantras que podem ser repetidos antes da prática da Vichara a fim de desenvolver a concentração: 

1 - OM NAMÔ BHAGAVATÊ SRI RAMANÁYA – pode-se repetir este mantra durante alguns minutos antes de começar a Vichara (recomenda-se 108 vezes); este é o mantra de Sri Ramana; pode trazer a guia e a graça do guru para nossa prática

2 – OM ARUNÁCHALA SHIVÁYA NAMAHÁ (o H soa como se fosse RR) – é o mantra da sagrada colina de Arunáchala; deve ser combinado com a visualização da colina em nossas mentes

O pranayama também é uma importante prática a ser feita antes da vichara. O pranayama nos dá energia e mantém nosso prana subindo na espinha, isto é, não permite que a mente vá para os sentidos ou para os chakras inferiores (relativos ao sexo, sono e comida).

Pode-se usar o nadishodhana (o anuloma viloma, de respiração alternada) em sua forma leve, isto é, com retenção de 3 ou 4 segundos apenas – este pranayama pode ser praticado 4 ou 5 vezes por dia, e só deve ser aumentada a prática se a pessoa não sentir nenhum desconforto ou dor de cabeça.

Pode-se também usar a kriya yoga ensinada por Paramahansa Yogananda, que deve ser aprendida em lições semanais enviadas pela Self-Realization Fellowship, de Los Angeles.

Existe ainda uma prática de combinação de mantra com pranayama (SO-HAM pranayama), que consiste em sentar-se com a espinha ereta, olhos fechados, e observar a respiração, sem forçá-la. Quando o ar entra, mentalmente repetimos SO; quando sai repetimos HAM (o H soa como se fosse RR, como na palavra “amaRRam”). Estes são os sons naturais da inalação e exalação; este mantra é repetido milhares de vezes por nós, inconscientemente, durante o dia, ao respirarmos. Não se deve fazer nenhum esforço para mudar a respiração, ela deve ser natural. Isto pode ser praticado meia hora por dia, ou pelo tempo em que a pessoa se sentir confortável.

A questão do celibato também é importante; o aspirante deve tentar espaçar o mais possível a realização de atos sexuais, porque energia espiritual é, simplesmente, a energia sexual sublimada. Por isso, quanto mais pensamos e fazemos sexo, menos energia espiritual disponível temos para a prática e a concentração mental. E à medida que realizarmos as práticas (pranayama, mantra japa, vichara ou outra prática de concentração mental), estaremos ao mesmo tempo sublimando, transformando, a energia sexual em energia espiritual.


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