16.12.15

OS FALSOS MESTRES E O EU SUPERIOR – Paul Brunton


Tanto no Ocidente como no Oriente, muita insensatez perniciosa, eivada de charlatanice, envenenada pelo comercialismo e de fútil superstição, está sendo passada por misticismo e ocultismo.
 
Quem se atira ao misticismo e ocultismo sem um preparo anterior para adquirir os rudimentos de qualificações metafísicas e morais, expõe-se a possíveis erros e decepções.
 
Temos muitos exemplos das estranhas formas tomadas pelo misticismo mal interpretado ou cinicamente explorado. Cada uma mais que as outras promete ao homem o que são absolutamente incapazes de lhe fornecer, e às vezes, pior ainda, podem constituir um grave perigo psíquico.
 
O estudante deverá estar em guarda contra os supostos mestres ou pretensos  “novos messias” que, atribuindo-se poderes sobrenaturais, o desviarão do bom caminho. É preferível viajar só que em semelhante companhia.
 
Os impulsos do Eu Superior o levarão mais seguramente a sua meta. As transformações evolucionárias sobrevindas na vida mental e as transformações kármicas da vida exterior diminuíram muito a necessidade, tão grande outrora, de um instrutor humano. Além disso, é uma tarefa gigantesca encontrar um sábio autêntico neste mundo, embora muitos existam que se reputam como tais.
 
O Eu Superior é o verdadeiro instrutor no coração dos aspirantes, seu verdadeiro iniciador. É ele que dispensa a graça implorada pelo ego. Todos os esforços no ioga devem banhar-se numa quente devoção para com a realidade interior, porque sem um amor verdadeiro ninguém pode unir-se a ela.
 
O sucesso final depende, não dos esforços conscientes feitos nesse sentido, mas da reação misteriosa a esses esforços. Os esforços têm seu valor, pois sem eles não haveria reação. Significa que o superconsciente se põe a atuar independente nele num certo estágio, quando o estudante se achará como que tomado pela mão e conduzido ao profundo silêncio que aguarda o limiar do Eu Superior.
 
É além desse limite que obterá a resposta à pergunta – Quem sou eu?

  Paul Brunton

11.12.15

A MEDITAÇÃO NO SOL – Paul Brunton


Esse é um exercício espiritual particularmente útil aos novatos, pois faz descer sobre eles a graça do Eu Superior. É uma humilde invocação, uma saudação respeitosa a esta potência suprema que se manifestou em forma de sistema solar. É o reconhecimento da unidade fundamental do homem com a Natureza, de seu indiscutível parentesco com o cosmo. É uma comunhão com a Natureza, em seu ponto mais glorioso: o Sol.
 
Este exercício pode ser realizado durante o nascer ou o por do Sol. O ocidental ignora o que perde não consagrando alguns minutos cada dia a observar a calma bênção da madrugada ou a maravilhosa paz do ocaso. São as ocasiões de que dispõe para se aproveitar das operações secretas da Natureza, e então certas forças místicas podem ajudá-lo a comungar com Ela.
 
Esses dois períodos são pontos neutros entre atividade e descanso. A Natureza marca aí um tempo de suspensão e dá livre jogo a forças transcendentais. Os instantes favoráveis são: a) pela manhã, 15 minutos antes do nascer do Sol até 15 minutos depois; b) ao anoitecer, também 15 minutos antes do por do Sol até 15 minutos depois.
 
É preciso repetir esse exercício todos os dias durante pelo menos um ano, para tirar todo o proveito possível. Os detalhes são os seguintes: devemos sentar num lugar solitário onde possamos ver o Sol, dentro ou fora de casa, e ficar de face para o leste pela manhã, e de face para o oeste à tarde. Mesmo com nuvens, o exercício pode ser feito do mesmo modo.
 
A pessoa deve estar relaxada, e não cruzar as pernas nem juntar as mãos, uma vez que é necessário que o circuito magnético não esteja fechado, a fim de permanecer receptivo às forças supra-pessoais. A postura do yoga, em que os membros ficam ligados, é usada para ajudar as forças interiores do praticante.

 
Então o estudante começará a fixar seu olhar sobre o Sol levante ou poente, ou sobre o céu colorido. Todos os outros pensamentos devem ser banidos. Os raios de luz devem entrar no corpo pelos olhos, pois esta é a maneira de dar eficácia ao exercício.
 
Os raios absorvidos deste modo possuem o poder latente de curar os males físicos, restituir as forças exauridas, pacificar os corações perturbados, purificar os maus humores sentimentais. O estudante participa, assim, da pausa que existe na Natureza e dentro de si mesmo.
 
Por último, o estudante deve imaginar-se um ser puramente mental, desencarnado, uma consciência sem forma, dissociada do corpo físico, e se esforçar por identificar-se com a vida de todos os seres, plantas, animais e homens.
 
Esse exercício leva o estudante a reconhecer que o Sol, fonte de luz, supremo símbolo visível da Mente Universal, é o centro do coração de Deus neste sistema solar, assim como o coração de seu corpo físico é o centro do Eu Superior em seu minúsculo sistema pessoal.


10.12.15

A AÇÃO DO EU SUPERIOR – Paul Brunton


O karma sombrio do pecado e da dor com que nos vestimos na maioria, é muito pesado para que o levemos a sós. Infelizmente, somos criaturas fracas, de humor cambiante, fáceis de desencorajar. Somos incapazes de apagar nossas dúvidas intelectuais, de sobrepujar nossas tentações morais ou de resolver dificuldades práticas.
 
Temos, pois, necessidade de apoio até o dia em que nos sentirmos bastante fortes para nos levantarmos e conduzirmos nosso fardo. É preciso que alguma coisa maior que nosso eu ordinário intervenha a nosso favor, no complexo jogo da vida.
 
Aqueles dentre nós que começaram a se inquietar na busca do Eu Superior e desejam, ardentemente, alargar sua experiência, têm mais ensejos de melancolia. Muitos dentre nós não são bastante fortes para se disciplinar; a herança kármica pesa-lhes como uma grande pedra nas costas, e lhes abafa o anseio de melhorar o caráter.
 
Por isso, há lugar na vida, ao lado de nossos esforços, para um esforço divino no sentido do favor, da graça. Se a obra de obter a capacidade de penetração espiritual deve ser iniciada pelo homem, ele não poderá sozinho conduzi-la a bom termo. Acontece que um dia, em desespero de causa, lançará um apelo de auxílio ao seu Eu Superior. E esta ajuda se manifestará sob a forma de graça, se a merecer.
 
O que é a graça? É uma descida do Eu Superior na zona da consciência. É a visita de uma potência tão inesperada e imprevisível, quanto feliz e fecunda. É mão invisível que se estende até nós para nos guiar no meio das trevas em que titubeamos. É a voz do Eu Superior falando de repente através do silêncio cósmico que nos rodeia.
 
É uma vontade cósmica e não um piedoso desejo ou pensamento amável, que pode produzir verdadeiros milagres, de acordo com leis desconhecidas. Sua potência é tal que pode conferir a capacidade de penetração até a realidade última, tão facilmente como dar vida ao moribundo.
 
Por existir em cada homem o Eu Superior, a graça existe em estado potencial. Quando nele desperta, dá-lhe imediatamente a consciência de mudança enorme no sentido em que opera; trata-se de mutação mora, física, sentimental ou material. Esta potência é tal que pode frequentemente destruir seu equilíbrio no domínio sentimental ou intelectual.
 
O Eu Superior não está muito longe; ele está no coração. A afirmação de que Deus reside no coração do homem não é somente de caráter poético, mas de caráter científico. E portanto, o nascimento da graça é primeiro sentido no coração, não na cabeça, porque o coração é o mais íntimo habitat no corpo humano.
 
A graça se manifesta de dois modos: primeiramente, por um sentimento que faz considerar a vida exterior como insuficiente por si mesma; em segundo lugar, por um desejo ardente da realidade interior. O nascimento começa por uma chamada da atenção sobre o peito. A força interior age por uma força centrípeta que desvia a atenção do exterior e da ambiência física.
 
Se o paciente obedece a essa solicitação e a concentra cada vez mais, no sentido interior, achará sua recompensa. Começa a sentir que existe nele alguma coisa oculta de que deve, conscientemente, tomar posse. Essa etapa pode se estender por vários anos.
 
Mesmo no coração do pecador mais endurecido subsiste um núcleo que permanece imaculado; a alma não cessa, silenciosamente, de mostrar o caminho do bem e da sabedoria. A graça também se destina àqueles que um mundo hipócrita despreza e que uma sociedade rígida demais rejeita. A seu toque místico, a lembrança dos pecados já passados se apaga, as angústias dos sofrimento do presente se adoçam, os piores rancores se apaziguam e os tormentos causados pela decepção dos desejos se dissolvem no ar. O fraco recupera forças, o aflito é consolado.
 
A graça incita o homem a praticar a virtude, a apreciar a verdadeira beleza. É um buraco na fechadura pelo qual o homem pode lançar um golpe de vista sobre a realidade. É o eu central que o homem tem de descobrir se quiser saber o que é e o que Deus é, verdadeiramente. É também o guia interior de que falam certos místicos.
 
Cada ser finito é inconsciente e imperceptivelmente atraído para o ser infinito que é o Eu Supremo, como a mosca para a luz. Não existe felicidade, paz verdadeira, satisfação duradoura enquanto esta meta não for alcançada.
 
Embora o Eu Superior seja silencioso e imóvel, é sua presença que torna possíveis todas as atividades e movimentos do homem. Em sentido mais amplo, não é somente o Observador oculto, mas é também, por participar da Mente Universal, o senhor interior da pessoa.
 
É ele que observa o karma da encarnação seguinte porque conhece todas as possibilidades kármicas do passado; é o agente secreto que as transpõe no tempo e no espaço para seu progresso último. Em certos momentos da vida pessoal, pode intervir repentina e dramaticamente, fazendo surgir acontecimentos imprevistos ou inspirando irresistivelmente uma certa decisão. E como resultado, o homem se acha guiado ou protegido milagrosamente.
 
Na verdade, o Eu Superior é a consciência mais alta de cada ser humano, é seu verdadeiro anjo da guarda, que do alto vela por ele. Intervém, às vezes, na vida pessoal, em caso de comportamento moral pernicioso para si e para os outros, dando aviso claro e nítido. E se não ouvirmos suas inspirações, o Eu Superior falará outra vez com voz mais firme – a do sofrimento kármico.
 
Temos sempre o direito de esperar do Eu Superior socorro para nossas dificuldades, até mesmo ajuda milagrosa, se estivermos no bom caminho que ele nos indica. Contrariamente, se não tomarmos em consideração, veremos cedo a manhã cinzenta levantar-se em nossos dias, cobrindo a rósea cor dos nossos sonhos.
 
Podemos perguntar: por que o Eu Superior não manifesta mais abertamente seu poder? Por que não intervém com mais clareza na vida da consciência? É porque, sabendo-se imortal e conhecendo a natureza efêmera da pessoa, pode permitir-se esperar com maravilhosa paciência que cresça, amadureça e desapareça a força (do egoísmo) da pessoa.
 
Precisamos mudar de atitude e erguer os olhos com amor para o Eu Superior. Devemos nos prender a ele mais que a qualquer outra coisa. Este poder que dirige a vida universal pode igualmente dirigir nossa vida, se o deixamos que pense, sinta e aja através de nós; devemos dizer: “Que tua vontade seja feita!”
 
Somente a humildade ante este Eu Superior pode abrir as barreiras que trancam o acesso aos “subterrâneos do rei, na pirâmide em que reside”. Todo grito sincero que lançamos, no curso de uma crise, no vazio aparente, é ouvido pelo Eu Superior sempre presente. Não esqueçamos de ser sinceros, isto é, que o anseio corresponda aos atos do homem, tanto quanto seus pensamentos; que seja uma aspiração permanente e não simplesmente um desejo momentâneo.
 
Quem invoca a potência suprema não deve fazê-lo em vão, embora a resposta possa tomar uma forma inesperada que nem sempre é de seu gosto, e vá às vezes além de suas esperanças, agindo sempre em benefício verdadeiro e não somente na aparência. Perde-se, às vezes, muito tempo em reclamar favores imerecidos. A sabedoria prática e a sinceridade moral consistem em acolher no coração esta verdade: arrepende-te e serás remido.
 
Não podemos dizer que é um erro orar para fins materiais, o que é justo às vezes. A oração dirigida a um ser sobrenatural com o fim particular de libertar o pedinte das aflições que mereceu, não pode ter outro resultado senão a consolação psicológica que traz. Essa oração não modificará a penalidade kármica.
 
A oração, porém, que se combina com um esforço de arrependimento para corrigir os defeitos que deram nascimento à aflição e que completa uma tentativa real a reparar o mal eventualmente causado a outrem, pode não ser vã. O arrependimento e a reparação são os fatores capitais para tornar uma oração eficaz. Representam uma força que pode afetar o karma pessoal.

8.12.15

SOBRE AS ENFERMIDADES – Paul Brunton


Qual a sorte dos que são condenados a ser fustigados cedo ou tarde por doenças resultantes de organismos físicos defeituosos que lhes deram origem? Se, apesar de nossos esforços, nosso corpo não pode libertar-se de suas enfermidades, se nossa vida física é paralisada, podemos procurar socorro na fé religiosa, na experiência mística ou na meditação metafísica que alargam nossos horizontes e diminuem nossa concentração sobre nós mesmos.
 
Nossa triste experiência não é inteiramente vã e sem valor. Diz um texto tibetano: “Sabei que o sofrimento, sendo o meio de ensinar ao homem a necessidade da vida interior, é um mestre espiritual.”
 
Aqueles que sofreram profundamente e cujas esperanças morreram, ouvem uma mensagem espiritual mais cedo que os outros, embora estes últimos sejam mais inteligentes ou intelectualizados. Não revisamos nossa escala de valores senão quando os sentidos perderam sua supremacia sobre nós.
 
Todo mal aparente não é um mal real. Quem não conheceu alguém que se afastou de seguir um caminho graças a uma doença? A mesma prova que enfraquece a virtude de um homem fortalece a de outro.
 
Toda experiência tende a educar a inteligência e disciplinar as emoções. Em conseqüência disso, se o sofrimento leva o homem à vida abençoada que o eleva, mesmo que só fosse por essa razão e nesses limites, estaria plenamente justificado.
 
O que aconteceria se o sistema nervoso não nos avisasse, por exemplo, que a mão está exposta ao fogo? Essa mão seria destruída e perdida para sempre. Desse modo o sofrimento físico protege a vida física. O que acontece quando protege a vida moral? Em nosso estágio evolucionário, a dor moral ocupa um lugar mais útil que o prazer.
 
Platão declarou que seria uma infelicidade o homem escapar ao castigo merecido. Esse castigo pode fazer-lhe reconhecer um erro, dar-lhe uma atitude moral mais segura, purificar seu caráter. É igualmente a dor que pode, da melhor maneira, vencer a crueldade, o orgulho, os apetites depravados do homem. Aqui, apenas palavras são impotentes contra esses males.
 
O sofrimento kármico é uma conseqüência de atos anteriores. O tempo educa o homem e desenvolve nele a faculdade de perceber o que é justo. Se a pessoa não encontrar a causa em sua personalidade do momento, deve procurá-la nas personalidades anteriores.
 
Nosso livre arbítrio do passado é a fonte de nossa sorte atual, assim como o livre arbítrio do presente será a fonte de nossa sorte futura. Por isso, não há lugar para o fatalismo, nem tampouco para uma autoconfiança exagerada.
 
Quando uma força kármica tomou um certo impulso, não é mais possível contê-la, embora seu efeito possa ser alterado (isto é, diminuído através de práticas espirituais, como karma yoga ou outras práticas espirituais).
 
No entanto, um pensamento que não alcança um certo grau de força e desenvolvimento não produz conseqüências kármicas. Vê-se, assim, a importância de afogar as ideias más logo no começo.


1.12.15

DIFERENÇAS ENTRE OS MANTRAS SOHAM E HAMSA – A. Verdegraal


Japa é a repetição de um mantra. Ajapa japa é a repetição de um mantra mentalmente, ou apenas observando o som da respiração. Ajapa japa usa mantras levemente diferentes em diferentes tradições. Estes incluem So Ham, So Hum, Hum Sa, Hung Sa, Ham Sa e Hong Sau.

Na Kriya Yoga Tântrica, são usados os mantras So Ham ou So Hum (isto é, So com a inalação e Ham com a exalação), em vez de suas variantes contrárias, que expressam Hum com a inalação e Sa com a exalação. As pessoas que conhecem os ensinamentos de Paramahansa Yogananda podem ter praticado a meditação Hong Sau (pronuncia-se Hóng Só).

So Ham pertence ao reino da Deusa, ao reino da Unidade Cósmica. Este mantra invoca a energia Shakti que reside no chakra Muladhara. Se você praticar o Ajapa Japa usando So Ham com concentração, começará a sentir uma vibração em sua região genital. Nós puxamos esta energia para cima através da concentração.

O que Hong Sau significa? Eu sou Ele. O que So Ham significa? Eu sou Ela. So Ham o leva para o plano astral feminino e emocional. Paramahansa Yogananda ensinou Hong Sau porque ele era um monge celibatário ensinando numa sociedade cristã. Ele também percebeu que a guerra se aproximava e que a América precisaria exercer um agressivo papel de liderança.

Hong Sau mantém a vibração apenas no chakra coronário (Sahasrara). So Ham vai despertar suavemente a energia cósmica que dorme no chakra raiz (Muladhara). Com So Ham Kriya despertamos a energia Shakti e a fazemos circular por todos os chakras, criando equilíbrio.

Esta é a época em que muitos de nós devem abraçar o poder Shakti (energia feminina) com integridade e equilíbrio para ajudarmos as Mudanças da Terra que estão por vir. As mulheres, principalmente, estão incorporando as energias da Deusa. Os homens também devem experimentar o êxtase d’Ela. Juntos poderemos conhecer nosso ser integral e verdadeiramente nos tornarmos os protetores deste planeta.

KRIYA YOGA E OS TRÊS PORTAIS – A. Verdegraal


Existem na espinha três portais que impedem o fluxo ascendente da energia sexual. Estes portais não são de natureza física; mas sim portais psíquicos. Eles estão fechados na maior parte das pessoas. A Kriya Yoga procura abrir estes portais a fim de haver um livre fluxo de energia através de todo o corpo psíquico.

Pode haver eventos ou circunstâncias na vida de uma pessoa, quando estes portais se abrem e a pessoa tem profundas experiências emocionais e espirituais. Entretanto, eles se fecharão novamente. A Kriya Yoga busca abrir estes portais permanentemente. Quando isso acontece, os diferentes aspectos da personalidade relacionados aos diferentes chakras podem ser unificados e equilibrados.

Compreender as dinâmicas destes portais pode fornecer um profundo entendimento de nosso comportamento na interação humana.

O primeiro portal está sobre o segundo chakra, sobre o sacrum. Quando este está fechado, nossa energia sexual trabalha dentro da concha pélvica. Isso é muito típico nos homens, embora as mulheres experimentem esse fechamento em intervalos regulares no período anterior à ovulação.

A maioria dos homens ficam sexualmente despertos bem rapidamente. A energia sexual então necessita de ser liberada. Essa necessidade causa uma mudança de comportamento no homem, o qual pode parecer que se torna mais amoroso e agressivo nesse período.

À medida que sua excitação aumenta, a pressão pode inclusive causar dor física. A razão dessa pressão é porque o primeiro portal está bem fechado. Para a maioria dos homens, este parecer ser o único meio para que a pressão seja liberada através da ejaculação, com ou sem uma parceira.

Outros homens procurarão ocupar-se em atividades físicas para “queimar” essa energia excedente. Outros podem valer-se de métodos tais como “banhos frios” para acalmar os desejos sexuais. Outros podem ocupar-se em atividades mentais para vencer não apenas a pressão sexual, mas também a vergonha e a culpa imposta culturalmente por estarem sentindo esses desejos.

Nenhum desses métodos abrirá esse primeiro portal. Em primeiro lugar, é importante entender que o desejo é um fenômeno natural sem implicações morais, vergonha ou culpa. Em segundo lugar, a energia sexual é a própria força da vida que pode ser usada para construir nossos corpos espirituais superiores. Terceiro, a meta do yoga é usar essa energia sexual bruta, até mesmo cultivá-la, assim como um fazendeiro cultiva o campo, para obter mais alimento para seu crescimento espiritual.

Através da prática da Kriya Yoga, estes portais são abertos pouco a pouco. Os canais de energia controlados por estes portais começam a fluir suavemente. Quando o primeiro portal se abre, a energia sexual tem outro caminho ao qual se dirigir. Ao invés da energia ser ejaculada através do órgão sexual masculino, ela pode subir para ser refinada nos chakras Manipura e Anáhata (do umbigo e coração).

A pressão então é aliviada e a excitação é transformada em sentimentos de expansão do coração, comumente chamados de “amor”. Nas mulheres, em geral, este primeiro portal está mais aberto. Quando elas são despertadas sexualmente, sua energia sexual se move para cima muito rapidamente. Elas sentem aquela expansão em seu coração.

  O órgão sexual feminino é o “segundo coração” de uma mulher, porque sua estimulação rapidamente acende a paixão do coração. E isso acontece porque a energia sexual se move no coração delas com pouca resistência, ou poucos obstáculos. Desse modo, é “fácil” para uma mulher “apaixonar-se”, enquanto o homem pode permanecer distante e frio, buscando apenas alívio temporário da pressão sexual em sua genitália.
 
Sob diferentes circunstâncias, mesmo um homem pode “apaixonar-se”, isto é, mesmo o coração masculino pode abrir-se. Quando isso acontece, ele se torna mais emocionalmente sensível e vulnerável. Infelizmente, isso é apenas temporário, pois o primeiro portal seguramente vai se fechar de novo e os sentimentos de “amor” vão enfraquecer, para serem logo substituídos pela necessidade primária de desejo e gratificação sexual.

Este portal é o grande mecanismo que cria a dicotomia entre homens e mulheres. Esses dois estados, a “excitação” nos homens e a “afetividade” nas mulheres, não são diferentes em sua natureza essencial. Ambos, homens e mulheres, têm um excesso de energia num único chakra. “Apaixonar-se” é um estado emocional que ocorre quando a energia sexual atinge o segundo portal, que está fechado, e volta para o centro do coração. “Excitação” é o estado que ocorre quando a energia sexual não pode passar pelo primeiro portal.

A Kriya Yoga busca um intercâmbio de energia através de todo o sistema psíquico, abrindo todos os chakras e portais. Ambos, homens e mulheres, devem abrir o segundo portal. Este portal está situado sobre o chakra do coração (Anáhata). Quando ele está fechado, a energia que se acumula no chakra do coração causa uma pressão similar àquela da região pélvica. Quando este portal se abre, esta energia pode fluir para cima e ser ainda mais refinada.

O terceiro portal está sobre o chakra da garganta (Vishuddha). Quando um homem “se apaixona”, o primeiro portal se abre levando a uma expansão de seu coração. O segundo portal pode abrir-se levando a uma expansão da voz. Ele pode tornar-se poeta dizendo as coisas certas que a mulher quer ouvir, dizendo palavras que tocarão o coração dela ainda mais profundamente, despertando nela a paixão emocional.

Isto seguramente seria um sinal para a mulher de que ele está se abrindo energeticamente, tornando-se integral. Ainda assim, aqueles portais de fato se fecharão e todo o romance e a poesia se perderão e serão esquecidos. As realidades mundanas da vida têm a tendência de nos fechar frequentemente.

A Kriya Yoga é a chave para abrir estes portais. É necessário dedicação e perseverança na prática. Ainda assim, os benefícios compensam, e muito, as frustrações e agravamentos do desequilíbrio emocional no dia-a-dia.

Abrir os portais não tornará o homem menos homem, ou a mulher menos mulher; pelo contrário, fará com que ambos sejam mais humanos. Este é o estado de equilíbrio. Equilíbrio não significa que eliminaremos as emoções negativas; emoções negativas existem em cada um dos chakras e o yoga as abraça todas como alimento espiritual.

Equilíbrio significa que temos as técnicas para equilibrar nossos estados emocionais à vontade, transformando um estado emocional em outro; por exemplo, refinando e transformando a energia sexual (1º e 2º chakras) em auto-estima (3º chakra), auto-estima em compaixão (4º chakra), compaixão em eloqüência (5º chakra), eloqüência em sabedoria (6º chakra).

27.11.15

EVOLUÇÃO E LUTA – Paul Brunton


Quando, no curso da evolução natural, o ser consciente chega a distinguir-se dos outros (isto é, quando vindo do reino animal ascende ao reino humano e se torna um centro separado, um indivíduo), seu livre arbítrio desperta e apresenta-se a possibilidade de discórdias com os outros. É o ponto de retorno de sua existência.
 
Seu karma, na qualidade de indivíduo, começa a produzir. Cada ser finito deve possuir uma certa liberdade no grande jogo do mundo. O Eu Superior (a Divindade no homem) deixa-nos livres na via do mal, em vez de obrigar-nos a seguir os trilhos da virtude. No primeiro caso, o sofrimento pode produzir o bem permanente e profundo, enquanto no segundo, não teríamos senão uma vida de robô, indigna de ser vivida, em que a bondade seria superficial e efêmera.
 
Um universo cheio de criaturas ativas, emotivas, livres, capazes de lutar e desenvolver-se, e não um universo de entidades autômatas ou subservientes, deve inevitavelmente tornar-se um vasto campo de luta e de competição.
 
No começo de sua evolução, o ego é incapaz de ver além de seus interesses egoísticos e imediatos. Procura cegamente sua felicidade à custa dos outros, introduzindo assim o sofrimento em suas vidas e também, posteriormente, em sua própria vida, em vista do karma.
 
Sua vida é rasgada pelo conflito entre o que é e o que sente que deveria ser. Tal tensão é conseqüência de sua natureza dupla: pessoal e finita de um lado, universal e infinita de outro.
 
A estada do ego no mundo acabará, no curso da evolução, por liberar todas as possibilidades que traz ocultas, em si mesmo. O que é externo o tornará capaz de descobrir o que é interior. E quando o ego chega ao conhecimento de si mesmo, reconhecendo sua unidade original com os outros, a luta tem fim.
 
Enquanto o sofrimento provier das más ações do homem, a evolução cósmica purificará e enobrecerá toda a humanidade através de renascimentos contínuos e da força kármica, embora isso dure milhões de anos.
 
O coração humano age corretamente obedecendo ao instinto que o impele à busca da felicidade. Mas esta não consiste apenas na satisfação exterior. As limitações e as insuficiências da satisfação exterior levam o homem a empreender sucessivamente a procura religiosa, a mística e depois a filosófica.
 
Se é verdade que o mal começa desde o momento em que o homem se dissocia do Eu Superior, o único meio de fazer o mal desaparecer é reconstituir a associação.
 
Em cada uma de suas encarnações, o homem corre atrás da riqueza, deseja o amor, tenta escalar os cumes da reputação, mas na verdade está apenas procurando sem conhecer o Real. Ao alcançar este, adquire uma riqueza que não poderá mais perder, alcança um amor que nunca se esvanecerá.
 
Em certos momentos do amor terrestre, particularmente no começo, este se liberta da carne e toca em algo muito mais alto. Durante alguns raros instantes é uma atividade do Espírito, a procura sagrada de dois seres pesquisando o Eu Superior um no outro, um abraço de Deus sob uma aparência inferior.
 
Mas esta noção do amor é tristemente limitada. O amor não pode parar aí. A própria vida o conduz além. Ele o consegue, primeiro, indo além do engano da carne lastimável e efêmera, e em seguida se transformando em coisa mais nobre e mais rara, que é a compaixão. É no abandono divino a esta qualidade maravilhosa e na sua extensão à humanidade inteira que o amor se realiza afinal.
 
O ego faz uma evolução que toma a forma de tríplice corrente: física, intelectual e espiritual.
 
Na primeira, dirige-se para o exterior e alcança os abismos da ignorância e do mal, perdendo-se durante certo tempo na ilusão da matéria. Os desejos multiplicam-se poderosamente na primeira corrente e perdem intensidade na terceira.
 
Na segunda, a intelectual, a evolução é mais lenta e carregada de lutas. O ego se faz curioso e interrogador. Não mais deseja somente conseguir a vida, mas compreendê-la. O ego atinge assim o ponto de sua longa evolução em que, recorrendo à inteligência, começa a olhar para trás, empreendendo a viagem que o conduzirá ao porto.
 
Na evolução espiritual, o ego se dirige para o interior e atinge finalmente a unidade procurada e volta em plena consciência ao Eu Superior.
 
Começamos a perceber, então, a inteligência infinita que faz de nosso universo o que é, isto é, um cosmo, um sistema organizado. Todo o mal, toda a luta, todo o egoísmo, toda a ignorância tem nascimento no decurso desse movimento do espírito para o exterior.
 
Podemos, pois, estar seguros de que o Espírito Universal impôs limites a esses dois pesadelos: o mal e o sofrimento. O mal é efêmero; acaba por vencer-se; não tem senão um caráter negativo. O mal é não agir em harmonia, não compreender a verdade. O mal é presente, mas não por toda a eternidade; não há dúvida de que ele acaba por transformar-se. Se a dor e o mal desempenham um papel considerável no nosso planeta, outros planetas há em que são desconhecidos.
 
Seres pertencentes a todos os graus de evolução aparecem simultaneamente sobre a terra; e os que se entregam ao mal, mas dele se libertam posteriormente, são substituídos por outros espíritos mais jovens na evolução que estão passando por uma fase que os mais antigos já abandonaram.
 
Entretanto, isso é verdadeiro apenas para um período limitado, porque soará a hora em que os tipos inferiores cessarão de aparecer neste planeta e onde a evolução dos outros se precipitará desde então. A partir desse momento, o mal começará a atenuar-se, e por fim se esvanecerá completamente.


A Busca Espiritual – A. Verdegraal


Num certo momento de nossas vidas, começamos a busca espiritual. A vida mudará à medida que a pessoa evolui espiritualmente. Os desejos da infância que ainda existem em nós desaparecerão. A alimentação mudará. Nossa profissão poderá mudar. Mesmo aqueles com quem partilhamos nossas vidas poderão mudar.

Não há como determinar de antemão quais transformações ocorrerão. Nem existe uma maneira de determinar como serão as transformações. O segredo é aprender a fluir com as mudanças, aceitar as mudanças como parte de um crescimento espiritual.

Aquilo que lhe é tirado, é devolvido num nível superior. O que quer que aconteça, embora pareça doloroso naquele momento, é parte de seu crescimento espiritual. Alguns sentirão prazer com as mudanças, conscientemente tomarão controle e direção da situação.

A prática do pranayama vai acelerar as mudanças da vida rapidamente. Apesar do que possa acontecer, é importante continuar com a prática, mesmo que seja esporádica (uma vez por dia, uma vez a cada dois dias ou uma vez por semana). Pratique sempre que sentir vontade de praticar.

Se possível, estabeleça um período para a prática, e continue a fazê-la, mesmo que o mundo pareça desabar ao seu redor. Acredite que a prática do pranayama é a mais importante ação em sua vida. Todas as outras atividades são secundárias. O crescimento espiritual vai demonstrar a impermanência de suas outras atividades.

Você pode perder o emprego, divorciar-se de sua esposa, ter problemas de saúde. O que quer que aconteça, você é um ser espiritual que está crescendo e florescendo. O pranayama é seu segredo interior, as práticas lhe ensinarão como levar seu veículo através da vida.

Se você experimentar mudanças desconfortáveis, as recompensas aparecerão mais adiante no caminho, substituindo aquilo que você pensou que perdeu. Você pode se tornar mais saudável, obter um emprego melhor, ou encontrar um maravilhoso parceiro(a). Experimentará relacionamentos corretos em todos os aspectos de sua vida.

A busca espiritual

Paramahansa Yogananda apresentou uma interessante equação no livro Autobiografia de Um Yogue. Se a pessoa pratica Kriya Yoga (um tipo de pranayama) oito horas por dia por três anos, ela evolui o equivalente a um milhão de anos. Pense nisso. Um milhão de anos é mais que dez mil vidas em três anos.

Mas quem tem oito horas por dia para sentar-se em meditação? (*Ou força nervosa para suportar a prática intensiva de pranayama?) Felizmente a prática de Kriya é cumulativa. Quando você a faz, nunca mais perde o que ganhou.

Assim, vamos dividir: 8 horas todo dia por três anos; ou 4 horas todo dia por seis anos; ou 2 horas todo dia por doze anos; ou uma hora todo dia por 24 anos; ou meia hora todo dia por 48 anos. Agora isso se torna mais manejável e possível.

Cada um de nós pode evoluir um milhão de anos em apenas uma vida. Mesmo que não pratiquemos Kriya, chegaremos lá após dez mil vidas jogando os mesmos velhos jogos da vida. Depende de nós escolher o quão rápido queremos evoluir.

Cada minuto de Kriya nos faz evoluir dois anos. Tome a responsabilidade de seu crescimento espiritual em suas mãos e dirija sua vida.

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(*) Nota: Paramahansa Yogananda recomendou que o iniciante em Kriya Yoga, para não adoecer devido a uma prática excessiva, realize de 14 a 28 Kriyas por dia apenas. Ou ainda menos, se isso lhe parecer mais adequado. A moderação vale também para qualquer outro tipo de pranayama, tendo em vista que a prática esquenta o sistema nervoso, e é necessário sempre esperar um período de tempo, mais ou menos longo dependendo de cada um, para que os nervos voltem a ficar frescos e fortes novamente.


25.11.15

A ORIGEM DO UNIVERSO – Paul Brunton


Os antigos sábios ensinavam que o universo estava em perpétuo movimento e que este movimento tinha uma forma rotatória. Iam mais longe, declarando que, do mesmo modo como é impossível dizer onde começa ou acaba um círculo, não se pode indicar onde começa o cosmo, nem onde acaba.
 
Eis porque, a fim de representar ao mesmo tempo a construção do mundo, o incessante escoamento das coisas, sem começo nem fim, eles empregavam o símbolo da suástica, que é uma forma de roda. Seus raios em cruz representam o eixo polar atravessado pelo equador, e sua rotação traduz o fato de que a terra é dinâmica, não matéria inerte.
 
A ciência escrutou a matéria sólida e constatou que ela é, praticamente, cava. O vazio da substância material é fantasticamente imenso quando o comparamos às dimensões dos elétrons que se movem perpetuamente no interior. O que vale dizer que o solo que pisamos é quase inteiramente espaço vazio.
 
Ao nosso sentido do tato, ele é entretanto firme, compacto, imóvel e impenetrável. É uma ilusão devida, evidentemente, às limitações extremamente estreitas deste sentido.
 
A nova ciência declara que os átomos não constituem a última palavra, nem a matéria a substância última. Os átomos foram penetrados, descobriu-se que eram ondas. Mas ondas de quê? Certamente não de matéria, mas de energia. Um conjunto de processos dinâmicos substitui o bloco antigo de matéria inerte.
 
A cosmologia do ensino oculto diz que o universo é algo sem começo nem fim. Nunca houve momento em que não existisse, de modo latente ou manifestado. O mundo não resulta de um ato de criação repentina, mas de um processo de manifestação gradual.
 
Sendo o Universo um grande pensamento, e não uma grande coisa, é posto em existência pela Mente Universal, que o tira de si mesma, de sua própria substância mental e não de uma substância estranha como é a matéria, conforme supõem os materialistas, sejam científicos, religiosos ou metafísicos.
 
A crença de que Deus num repente criou o mundo – o que daria aos corpos celestes uma mesma idade – não é, pois, aceitável. Seria mais razoável crer, de acordo com o ensino oculto, que o universo nunca teve começo nem terá fim. É o corpo de Deus, se desejarmos usar este termo do qual tanto se tem abusado; um corpo que se basta a si mesmo e contém todas suas criaturas em evolução perpétua.
 
Nada existe por si mesmo; tudo que existe hoje é conseqüência indireta de numerosas causas que se estendem como cadeia sem fim, através do passado sem começo.
 
O Universo é, pois, tão velho e tão eterno como a própria Mente Universal. É uma idéia, e é apesar disso, sem começo e sem fim. A criação não começa e não acaba em parte alguma. Não existe lugar nem momento em que se possa situar a causa primeira ou o efeito final.
 
Quão caprichosa é a concepção do Universo que pretende marcar uma data à criação! Tal data variará unicamente em função do capricho de seu autor que construirá a teoria da criação que mais lhe agradar.
 
Considerado pelo exterior, o Universo sai do nada e volta ao nada. Mas considerado pelo interior, sempre teve, no plano de fundo, uma realidade eterna e oculta. Essa realidade é o Espírito Universal. O mundo nada mais é que sua manifestação, ele projeto o mundo como sua idéia. O mundo é sua projeção.
 
O Espírito Universal é imanente em todo o Universo. Este brotou de sua meditação construtiva, mas de modo ordenado, sob forma moldada por suas próprias impressões mentais, conservadas na memória, por antigo estado de existência ativa.
 
A incessante procissão de imagens, representando sóis, estrelas, terras, mares, todas as coisas visíveis, emana do Espírito Universal conforme uma lei kármica, misteriosa e imutável, como a água que se escoa de uma fonte ininterrupta.
 
O cosmo é contínuo e seu passado é sem começo. Porém, intervalos de não existência interrompem periodicamente sua história. Esses intervalos, no entanto, são temporários. Não há rupturas reais de existência, mas rupturas aparentes quando esta existência se torna latente.
 
Cada aparecimento sucessivo do Universo, que se manifesta de novo, resulta inevitavelmente daquele que anteriormente se conservou em estado latente.
 
Quando todos os karmas coletivos de todos os centros individuais e planetários se cansam e se esgotam, um ciclo da história do Universo se fecha. O Universo manifestado se retira então e o Espírito Universal repousa. Mas a aurora cósmica tem uma nova imaginação de todas as coisas.
 
Quando os karmas anteriores se põem a germinar e a reproduzir-se, novo ciclo começa, o mundo visível volta à existência, herdando tudo o que se achava no mundo precedente. O Universo atual não é o primeiro que se manifestou e não será o último. Somente nesse sentido o Universo é indestrutível.
 
O Universo sofre uma evolução que se efetua estritamente segundo a lei kármica e não por mero acaso, como pensam os materialistas, nem sob as ordens arbitrárias de um criador pessoal, como crêem os religiosos.
 
Se uma nebulosa cósmica se desenvolve em sistemas solares, estes se dissolvem de novo em nebulosa. O Universo das formas volta sem cessar ao ponto de partida; é sem começo, sem fim. Eis porque ele está sujeito ao nascimento e à morte, à degeneração e à refloração, isto é, a mudar constantemente.
 
É semelhante a uma roda virando eternamente e passando séculos de atividade e de repouso alternativos. Aí está porque os antigos o representavam sob a imagem de uma suástica em movimento.


27.6.15

O Amor é unilateral – Divaldo Franco


Em um seminário que ministrei certa vez, perguntaram-me se o amor sempre vale a pena, mesmo que seja unilateral. O verdadeiro amor é sempre unilateral! Quando é um amor praticado esperando reciprocidade, que se torna condição para este amor se expressar, estamos diante de um sentimento que não representa o amor legítimo, mas significa um depósito no banco na tentativa de que ele possa render juros.

O amor é bom para quem ama, independentemente de uma resposta imediata que este amor produza. Digo resposta imediata, porque indubitavelmente, em algum momento, o nosso ato de amar nos fará receber da vida uma resposta gratificante. E quando será isso? Não importa!

Quando amamos, nos sentimos bem. Mas quando percebemos que a pessoa também nos ama, temos a tendência a nos tornar caprichosos e exigentes. Neste momento o amor perde um pouco o seu sabor, porque está permeado pelo condimento da cobrança. É quando dizemos ao ser amado: “Você não nota quanto eu o amo!” Este é o tipo de cobrança que deprecia o amor.

Ame, simplesmente! E se não for oportuno dizer que ama, não explicite. No entanto, se sentir que há espaço e necessidade para relembrar, declare o seu amor com naturalidade, mas não como quem pede resposta ou cobra um pagamento, à semelhança de um capricho infantil.

A vida nos ama! E como nos comportaremos em relação à vida e ao amor unilateral que ela nos oferece? O nosso procedimento terá que ser do mesmo teor. Desta forma, o que fazer quanto aos medos que nos assaltam de perdermos a pessoa que amamos e de sermos abandonados? Só ficamos privados daquilo que realmente nunca foi nosso! Quando nós temos de fato, não perdemos.

Quando amamos, mesmo que o ser amado se vá, isso não deve interromper o nosso sentimento. Poderemos ficar tristes pela perda da companhia física ou até magoados, como fruto do nosso egoísmo, mas o amor verdadeiro é tão grande e tão nobre que a pessoa que um dia recebeu esse amor jamais se afastará em definitivo de nós. O reencontro poderá não ser na presente encarnação, mas ele se dará um dia, mesmo que seja num futuro longínquo.

Por isso, não nos deixemos tragar pela dor ou pelo desespero! Consideremos que aquele afastamento temporário é um acidente de percurso. Nem tudo em nossa vida será conforme desejamos. Podem acontecer vários fenômenos, incluindo alguns que nos farão sofrer, razão pela qual é necessário ter serenidade ante os imprevistos da vida.

Se a pessoa não pretende ficar conosco, libertemos! Quanto mais nós libertarmos, mais teremos. Eu costumo dizer, em tom de humor: você ama uma pessoa e ela não sente o mesmo por você; essa pessoa, por sua vez, ama alguém que não a ama; este alguém também ama uma pessoa que não corresponde ao seu afeto; mas esta, que não corresponde ao afeto de ninguém, ama aquela outra, que não lhe dá importância; e esta última também ama alguém que não aceita o seu amor.

E o círculo dos amores não correspondidos se processa até que um dia o amor volta, e alguém lhe diz: “Eu amo você!” Você então olha e pensa: “Meu Deus! Não era exatamente isso que eu tinha em mente! Mas na solidão em que estou, eu vou aceitar...” Então você aceita esta pessoa, que não era a ideal, e descobre que esse é o grande amor da sua vida. Um amor realmente plenificador. É uma alma que chegou suavemente, de mansinho, tocou o nosso ombro, segurou a nossa mão e se dispôs a nos amar sem exigências.

Ao contrário disso, aquele amor que chega de forma ciclópica e ardente, deixe passar, porque ele vai embora. Labareda que muito arde é como incêndio em campo de trigo: o fogo queima com intensidade, mas se apaga depressa... O amor é como um bumerangue: jogue-o, sem exigência alguma, que um dia ele retorna a você.

E quando ele voltar, estará em suas mãos. Segure, mas não retenha, porque todo amor retido é amor que se vai perder. Quando nós queremos ser amados, ainda somos crianças psicológicas. Quando nós amamos, atingimos a plenitude. Quando alguém nos persegue, está doente. Quando nós perseguimos, estamos mal. Se nos fazem mal, esse mal não nos alcança, porque o mal só tem vigência naquele que o cultiva.

Seja você quem ama! Quando nós amamos, uma estrela de paz brilha em nosso coração e a felicidade irradia-se como perfume. Quando queremos ser amados, ainda temos caprichos, temos impositivos, temos perturbações.

Notemos que a primeira manifestação de quem ama é dar alguma coisa ao ser amado. É uma forma de dizer: “Eu te amo!”. O amor, diz Joanna de Angelis, é a Alma de Deus, porque Deus é a Alma do amor.


ANANDA, O DISCÍPULO DILETO DE BUDDHA - Divaldo Franco


Nas velhas tradições do pensamento budista há uma bela narração a respeito de um jovem portador de beleza incomparável. Chamava-se Ananda. Discípulo de Buda, ele amava o mestre e entregara-se à sua nobre filosofia em caráter de totalidade.

Ananda era para Buda o que o jovem João representava para Jesus. Sendo um discípulo abnegado, muitas vezes viajava pelo Sul da Índia levando a mensagem do samadhi: a libertação e a vitória sobre a ilusão. Em um dos seus retornos de viagem, sob o sol ardente, percorrendo uma estrada poeirenta para ir ao monastério onde estava o mestre, Ananda viu, à sombra generosa de uma árvore, uma jovem que retirava água de um poço.

Muito cansado e transpirando em abundância, ele acercou-se da fonte e solicitou jovialmente à moça, causando-lhe grande espanto:
Dá-me de beber!

A jovem identificou nele as características de um brâmane: o porte, a roupa específica, a forma de apresentar os cabelos e o sinal colocado no centro da testa. Muito surpresa com aquela situação, ela respondeu:
Como tu me pedes água? Eu sou pária (alguém que não pertencia a nenhuma das quatro castas)! Não sabes que os párias são a sombra da fatalidade e possuem as marcas do abandono da Divindade?

O discípulo sereno redarguiu:
Não me importa se a tua é uma condição social marginalizada. Vejo-te como uma mulher. E as mulheres são anjos que a Divindade coloca na Terra para tornar menos ásperos os caminhos e menos solitárias as jornadas. Dá-me de beber!

A jovem não dispunha de um vasilhame adequado para atender ao pedido:
Mas eu não tenho como dar-te a água!
Dá-me na concha das tuas mãos! — respondeu o jovem brâmane.

A mulher, trêmula e desconcertada, mergulhou as mãos no poço e encheu-as com água, distendendo-as àquele jovem de beleza seráfica, que se dobrou e sorveu suavemente o líquido, deixando que os seus lábios tocassem várias vezes as mãos da jovem. Ele agradeceu sorrindo e completou, com uma voz repassada de ternura:
Nunca me esquecerei de ti! Eu sou Ananda.

Ao dizer isso ele partiu, enquanto a jovem ficou atormentada pelo fogo do desejo. Tomada por essa angústia, ela recorreu à sua mãe, que praticava as artes mágicas, na tradicional conceituação da bruxaria.
Mamãe, eu tenho que me casar com esse homem! Ele foi a primeira luz na noite dos meus desencantos! Tu, que podes dialogar com as sombras, pede-lhes para que me ofereçam de presente, nesta vida amarga, o suave canto daquela voz.

A genitora afirmou, em tom grave:
Como tu podes pensar em tê-lo como marido? Ele é discípulo de Buda. Naturalmente fez votos de abnegação e de castidade, o que inviabiliza completamente qualquer tentativa de convencê-lo a te desposar. Ao mesmo tempo, os anjos do Paraíso o assessoram. E não posso interceder junto aos espíritos para que o desviem da sua trajetória espiritual.
Mamãe, se eu não encontrar novamente esse homem, eu me matarei! Tu és minha mãe! Acalma meu desespero! Intercede junto às sombras para que elas o atormentem e o despertem!

Com a negativa materna, a mulher pária mergulhou em profunda melancolia. Os dias se passaram e ela estava com o corpo abalado, morrendo aos poucos, vitimada por um desejo não vivenciado. Foi então que a mãe resolveu consultar as sombras para satisfazer o pedido pungente de sua filha. Durante o transe profundo ela percebeu que poderia deslocar-se em Espírito na direção de Ananda, acompanhada de seres perversos que a conduziram na tentativa de manipular os pensamentos e as emoções do discípulo de Buda.

Neste ínterim, o jovem havia chegado ao monastério. Buda o recebeu com o seu enigmático sorriso, a sua jovialidade e a sua ternura, abençoando aquele que se lhe transformara em um verdadeiro filho espiritual. Por sua vez, Ananda procurou os seus aposentos, atirou-se no leito, mas não conseguiu dormir. Pela primeira vez ele sentiu que estranhos personagens que haviam sido sepultados nas águas do Rio Ganges retornavam de além da cortina da morte para perturbá-lo.

O discípulo mergulhou na esfera dos sonhos... Sonhou que a jovem pária apresentava-se vestida de princesa, adornada de joias e exalando odor de perfumes raros. Ante o som de uma música mística ela dançava com movimentos sensuais, exibindo uma postura de sedução quase irresistível.

Lentamente, à medida que os movimentos faziam-se mais perturbadores e provocantes, ela se desnudava e se apresentava a seus olhos como a oferta máxima do prazer. Debateu-se, angustiou-se naquele pesadelo, enquanto forças estranhas dominavam-lhe o corpo e provocavam-lhe a emoção.

Buda, que nesse momento entregava-se à meditação, irradiou a sua aura e percebeu que seu discípulo estava sob a ameaça das forças telúricas do invisível, que conseguiam mobilizar no jovem a tentação da carne, utilizando os vigorosos impulsos da animalidade que existem em todos nós.

O mestre deslocou o seu pensamento até o quarto de Ananda e expulsou as forças negativas, fazendo que se diluíssem sob o sopro da ternura e da compaixão. O jovem despertou banhado por suor, tremendo e assustado, detectando as energias protetoras do mestre nos seus aposentos. A partir desse dia, Ananda penetrou ainda mais no labirinto das meditações, que poderiam proporcionar-lhe maior soma de forças para permanecer em paz.

A jovem, que não havia alcançado os seus objetivos através das artes mágicas, recorreu novamente à mãe pedindo-lhe uma solução para o seu drama, já que sua vida perdera o sentido. O seu único sentimento era o de posse, o desejo irrefreável de ter Ananda ao seu lado.

Com sabedoria a mãe ofereceu-lhe uma sugestão:
Vai a Buda e ele te dirá alguma coisa sobre como irás obter a tua felicidade.

A jovem partiu... Quando chegou ao mosteiro em que o príncipe meditava, prosternou-se e demorou-se em atitude de reverência, procurando não interromper a concentração do mestre. No instante em que ele recobrou a lucidez, ela lhe suplicou:
Príncipe Buda, eu amo Ananda! E somente vós possuis o condão de me brindar com a companhia dele, a joia mais rara que existe na Índia!
Tu amas Ananda? — perguntou o mestre.
Amo, senhor! Mais do que a mim mesma!

Buda olhou-a demoradamente e respondeu-lhe com um sorriso:
Se tu desejas ter Ananda, deverás pagar o preço do amor. Terás que ascender até o ponto em que ele se encontra. Porque se tu queres possuí-lo, é necessário conquistá-lo. Ananda é um homem dedicado a preocupações transcendentais. E para atingir o patamar em que ele transita, terás que elevar-te através da meditação.

Ele fez uma pausa para que a proposta fosse bem assimilada e concluiu:
Terás que meditar por duas razões: primeiro, para acalmar o fogo da paixão; depois, para ser realmente a companheira que ele merece.
E por quanto tempo deverei meditar?
Por dez anos.

A jovem ergueu a cabeça e respondeu:
Por amor a Ananda, estou disposta!

O mestre concluiu:
Então vai e medita! Busca a Presença Divina, e eu te darei Ananda.

Decidida a conquistar o amor de Ananda, ela abandonou tudo, despiu-se das marcas de pária e começou a meditar. Após dez anos de meditação, ela procurou o iluminado e lhe disse que já havia encontrado um pouco de paz, mas Ananda não lhe saía da cabeça. Aos seus olhos, a cada dia o brâmane se apresentava mais viril, mais belo e encantador.
Senhor, creio que estou preparada!

Ao ouvir o relato, o mestre a contemplou, penetrou-lhe a alma e aconselhou-a:
É verdade que estás caminhando de maneira muito proveitosa. Mas falta-te um pouco mais. Necessitas aprender a renúncia para que te libertes da ilusão e da ambição. Medita mais e encontrarás a plenitude que te falta!
Por quanto tempo?
Mais cinco anos.

A jovem mergulhou por mais esse período no abismo do insondável... Penetrou ainda mais no Atman (Alma Universal). E quando emergiu, procurou novamente o mestre, curvou-se aos seus pés e relatou:
Agora estou preparada!

Buda mandou chamar Ananda e lhe comunicou que aquela era a mulher que a vida havia preparado para servir-lhe de companheira. A ex-pária levantou-se, olhou o mestre e seu discípulo com tranquilidade e declarou para surpresa de todos:
Eu já não necessito do corpo de Ananda! Ao encontrar a mim mesma e ao perceber a presença da Alma Universal, meus planos se modificaram por completo. Ao haver superado o fogo da ilusão, a paixão tentadora da posse, atingindo o patamar em que o brâmane se encontra, eu já não desejo o homem, a materialização de sua presença física para me preencher, pois eu já o tenho na intimidade do meu coração!

E depois de beijar suavemente a mão de Ananda, a jovem saiu na direção do infinito...

Buda observou atentamente aquela cena e concluiu:

A grande conquista somente é possível por fora quando a alma conquista a si mesma por dentro.