26.12.17

O ESTRANHO SÁBIO NIM KAROLI BABA – Swami Chidananda


Sri Baba Neem Karoli (1900-1973), o maravilhoso místico da Índia do norte, foi um fenômeno único entre a fraternidade de santos, sábios e faquires do norte da Índia. Não me seria nada estranho se, enquanto estou aqui sentado e escrevo este artigo, Baba estiver sabendo onde estou e que palavras estou escrevendo, embora não esteja mais entre nós fisicamente.

Muitos dos discípulos e devotos de Baba tiveram a experiência pessoal do fato de que ele parecia estar consciente de tudo que faziam e diziam em locais distantes de onde estava. Por isso seus seguidores estão convencidos de que Baba era um ‘Siddha Purusha’ (ser perfeito)  e Trikala Jnani (conhecedor do passado, presente e futuro).

Na última vez que tive a boa sorte de encontrar o reverenciado Baba Neem Karoli foi em outubro de 1973. Eu e meus companheiros chegamos à noite em seu ashrama, o local estava totalmente deserto e silencioso. Baba nos recebeu com um olhar benigno e nos indicou um tapete no chão para sentarmos.

Um de nós, Sri Yogesh Bahuguna, tinha trazido consigo 7 ou 8 laranjas que colocou num pequeno cesto ao lado de Baba como oferenda. Cantamos alguns hinos religiosos e nos sentamos em silêncio durante alguns minutos. Então Baba começou a distribuir as frutas como prasad (alimento consagrado) para nós. Enquanto isso outros colaboradores do ashram e devotos haviam se aproximado de onde estávamos.

Sri Yogesh ficou muito surpreso ao observar que Baba continuou a pegar laranjas do cesto mesmo depois de ter dado as 8 que havia ali, e continuou distribuindo-as a todos os membros de nosso grupo e ao pessoal do ashram. No final acabou distribuindo 18 laranjas ao todo.

Imagem relacionada Baba

Fiquei sabendo da existência de Baba há 23 anos atrás, quando o pai de um amigo veio visitar Sivananda Ashram para conhecer esse grande santo (Sivananda). Como eu era o secretário do ashram nesta época, conduzi-o à presença do santo. Na conversa que tiveram fiquei sabendo que esse senhor era discípulo de Sri Baba Neem Karoli de Nainital.

Quando lhe pedimos que nos dissesse algo sobre seu guru, ele disse, "Agora neste momento Baba sabe onde estou, o que estou fazendo e o que exatamente estou dizendo a vocês. Da próxima vez que o encontrar, ele repetirá minhas palavras e me dirá que estive aqui. Ele sabe tudo."

Várias vezes os devotos íntimos de Baba Neem Karoli o viram simultaneamente em lugares diferentes, ao mesmo tempo. Não apenas viram, mas também conversaram com ele e tomaram um refresco que ele ofereceu.

Algo estranho era sua maneira de ir e vir. De repente ele aparecia caminhando em sua frente sem ser anunciado. Ao partir, despedia-se de todos e saía pela estrada, dizendo às pessoas que não o seguissem. Depois que desaparecia numa curva da estrada, seria impossível encontra-lo, mesmo que a pessoa corresse ou pegasse um veículo motorizado.
Acredita-se que ele fez a adoração de Sri Hanuman e que muitos de seus poderes milagrosos provinham desta adoração (upasana).

Alguns devotos dizem, inclusive, que Baba tinha conquistado o espaço e podia estar em qualquer lugar que desejasse, num piscar de olhos. Ele também tinha a característica de não estar apegado a nada nesta terra. Mas apesar de seu desapego, era muito compassivo com as pessoas que sofriam ou tinham problemas. Ele nunca negava um pedido fervoroso.

Baba era muito austero em sua vida pessoal e andava enrolado num cobertor ao redor de seu corpo. Ele tinha contato interior e conexão com outros mestres espirituais e santos que eram seus contemporâneos. Sua obra não era isolada e individual, mas formava parte de uma obra mais vasta na qual muitos outros santos estavam engajados ativamente.

Apesar de sua natureza reservada, Baba era capaz de grande afeição expressa por meros gestos e pelo olhar. Ele deu coragem a muitos corações que desfaleciam e trouxe consolo a inúmeras almas.

Baba certa vez tomou um trem numa estação e sentou-se num banco da primeira classe. Depois de um tempo o trem iniciou sua viagem. No meio do caminho o cobrador do trem veio pedindo os bilhetes dos passageiros, e viu aquele homem aparentemente rústico ocupando um assento no vagão de primeira classe, e então aproximou-se pedindo seu bilhete.

Baba apenas olhou para ele e não prestou muita atenção a sua solicitação. O cobrador ficou irritado e exigiu ver o bilhete. Baba balançou a cabeça e mostrou suas mãos vazias. O cobrador entendeu a situação e decidiu agir. Após alguns momentos o trem parou numa pequena estação e exigiram que Baba descesse. Ele obedeceu, levantou-se de seu banco e foi para a plataforma da estação, onde logo adiante permaneceu sob a sombra de uma árvore.

Ele parecia absolutamente despreocupado com o que tinha acontecido. Após alguns minutos o sino da estação tocou avisando da partida do trem. O condutor do trem ligou o apito e tentou por o trem em movimento. Nada aconteceu. O trem não se movia e continuava no mesmo lugar.

Então o fiscal desceu e perguntou ao maquinista qual era o problema. Nenhum problema foi encontrado, tudo parecia estar bem. Tudo foi checado várias vezes sem resultado. O tempo passava. O mestre da estação ficou ansioso. Um outro trem estava para chegar naquela estação e na mesma linha.

As mensagens telegráficas começaram a chegar noticiando a vinda do trem seguinte. Passaram 15 minutos, 20 minutos e meia hora. A ansiedade crescia. Então um empregado da estação aproximou-se timidamente do chefe e, apontando para Baba sentado sob a árvore, indicou que toda aquela situação era devida ao desrespeito mostrado ao homem santo. E sugeriu que a única maneira de resolver tudo era aproximar-se dele e suplicar seu perdão, pedindo-lhe que continuasse sua viagem sem qualquer impedimento.

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Baba com alguns devotos ocidentais

Isto foi relatado ao fiscal e ao maquinista. Inicialmente eles se recusaram veementemente a fazer aquilo, mas à medida que o tempo passava, a razão prevaleceu. Aproximaram-se respeitosamente de Baba, o saudaram, pediram-lhe que os perdoasse por sua rudeza, solicitaram que abençoasse o trem e continuasse sua viagem.

Baba olhou para cima em direção a eles por um momento e disse: "Está bem, vão. Eu irei em seguida, irei em seguida". Então levantou-se e entrou no trem. Imediatamente o trem deu um balanço e começou a se movimentar, como se nada tivesse acontecido.

Uma pequena multidão, que tinha se juntado ali naquele meio tempo, aclamou  Baba em alta voz com admiração. A partir daquele momento nenhum cobrador interferiu novamente nas viagens de Baba em qualquer trem em que estivesse.  

Antes de Baba deixar seu corpo, operou a transformação na vida de um buscador americano chamado Richard Alpert (que adotou o nome espiritual de Ram Das). Este americano era um bem conhecido líder do culto americano ao LSD, e também professor da Universidade de Harvard, mas se encontrava num estado de crise moral e espiritual em sua vida.

Imagem relacionada  Baba e Ram Das

Baba misteriosamente o atraiu e lançou seu olhar de graça sobre ele. Aquele primeiro encontro operou um milagre naquela alma inquieta e logo o transformou num professor espiritual bastante conhecido no Ocidente.


25.12.17

KAILASH, A MONTANHA MÍSTICA – Sadhguru


Quando Adiyogi (primeiro yogue, Shiva) viu que cada um dos sete Rishis, seus primeiros discípulos, tinha compreendido um aspecto do conhecimento e que ele não iria encontrar outro ser humano que poderia compreender todos os sete aspectos do yoga, decidiu depositar todo o conhecimento dentro do monte Kailash para que todas as sete dimensões do yoga, todas as sete dimensões do conhecimento da mecânica da vida fossem preservadas num único lugar.

Kailash tornou-se a grande biblioteca mística do planeta – um biblioteca viva, não apenas com informação, mas viva! É por isso que no hinduísmo se diz que Kailash é a morada de Shiva. Isso não significa que ele ainda esteja lá sentado, ou dançando ou se escondendo na neve. Significa que ele depositou seu conhecimento ali.

Quando uma pessoa obtém autorrealização e sua percepção vai além do que é considerado normal, o que ele percebe nem sempre pode ser transmitido às pessoas à sua volta. Apenas uma pequena parte disso pode ser transmitida.

É muito raro que um mestre encontre pessoas a quem ele possa transmitir tudo de si mesmo. A maioria dos mestres se vão sem ser capazes de transmitir o que eles realmente queriam. Mesmo em minha vida, o que consigo transmitir é apenas 2% do que sou. Se puder aumentar ao menos 1% antes de morrer, já será uma grande coisa.

Então onde vou deixar todo esse conhecimento? Não quero que ele se perca. Assim, por milhares de anos, os seres realizados sempre viajaram a Kailash e depositaram ali seu conhecimento na forma de uma certa energia, usando a montanha como base.

Monte Kailash, República Popular da China Informações Turísticas

  Monte Kailash, no Tibet

É por causa disso que o misticismo do sul da Índia sempre diz que Agastya, que é a base desta forma de misticismo que pratico, vive na face sul de Kailash. Os budistas dizem que três de seus principais Buddhas vivem naquela montanha.

Os jainas dizem que Rishabha, o primeiro dos 24 tirthankaras (mestres do jainismo), vive em Kailash. Ele foi a Kailash desejando obter todo o conhecimento existente ali e dá-lo ao mundo. Rishabha planejou uma viagem de três meses, mas a viagem demorou sete anos. Ele devorou continuamente o conhecimento que flui ali. E nunca ficava satisfeito. Queria ter tudo. Fez um esforço fenomenal, mas quando tentou obter tudo, o conhecimento o engoliu. Esta é a única maneira que pode acontecer. Você não pode conter todo o conhecimento, mas este pode facilmente conter você.

Em minha opinião, nenhum ser humano pode compreender todo ele. A única maneira de fazer isso é tornar-se um com ele. Para um buscador espiritual, Kailash é como tocar a fonte última deste planeta. Para aquele que busca o misticismo, aquele é o lugar. Não há outro lugar como Kailash.

22.12.17

O SURGIMENTO DO YOGA – Sadhguru


Há mais de 15.000 mil anos atrás, Adiyogi (primeiro yogue, Shiva) apareceu nas regiões das montanhas dos Himalayas. Ninguém sabia de onde ele vinha nem quais eram suas origens. Ele simplesmente chegou e entrou em intenso êxtase sobre as montanhas.

Quando seu êxtase lhe permitiu algum movimento, ele dançou selvagemente. Depois tornou-se totalmente imóvel. As pessoas viram que ele estava experimentando algo que ninguém tinha visto antes, algo que elas eram incapazes de sondar.

Então juntaram-se ao redor dele esperando para saber o que era aquilo. Mas ninguém tinha coragem de se aproximar porque ele era muito intenso, como uma chama queimante. Então esperaram, esperando que algo acontecesse. Nada aconteceu. Ele nem parecia notar que as pessoas existiam.

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Ele estava ou numa dança intensa ou em absoluta quietude, sem prestar atenção ao que acontecia à sua volta. Então as pessoas vieram, esperaram alguns meses e partiram porque o homem não percebia a presença dos outros.

Apenas sete buscadores mais dedicados permaneceram. Esses sete insistiam em aprender dele, mas Shiva os ignorava. Eles lhe suplicaram, “Por favor, queremos saber o que você sabe.” Shiva os dispensou, “Tolos, da maneira que estão não vão saber nem em um milhão de anos. Precisam se preparar. Uma tremenda preparação é necessária para isso. Isso não é brincadeira.”

Mas eles continuaram ali. Vendo sua perseverança, ele disse, “Darei a vocês um passo preparatório. Façam isso por algum tempo. Depois então veremos.” Então eles começaram a se preparar. Os dias foram passando, as semanas, os meses e os anos. Mesmo assim, ele os ignorava.

Então, um dia, depois de 84 anos de sádhana (práticas espirituais), Shiva olhou para os sete e viu que eles tinham se tornado brilhantes receptáculos do conhecimento. Após 84 anos de intenso sádhana, tinham acumulado em seu sistema tal poder e capacidade que estavam prontos para receber. Ele não os podia ignorar mais.

Observou-os pelos próximos 28 dias, e quando a lua cheia seguinte surgiu, decidiu tornar-se um Guru. Levou os sete discípulos para o lago Kantisarovar e começou uma exposição sistemática do yoga de maneira científica. Começou propondo toda a mecânica da vida aos sete, não intelectualmente como uma filosofia, mas experimentalmente.

Após muitos anos, quando o ensinamento estava completo e tinha produzido sete seres totalmente iluminados, que são conhecidos como os Sete Rishis (Sapta Rishis), Adiyogi enviou cada um deles a diferentes partes do mundo. Um foi para a Ásia Central. Outro foi para a África do Norte e o Oriente Próximo, onde certas escolas existem ainda hoje. Outro foi para a América do Sul, cuja cultura assimilou o ensinamento profundamente. Outro foi para o Extremo Oriente. O ensinamento de Adiyogi nunca é mencionado em nenhum lugar do mundo, mas ele realizou um tipo muito sutil de trabalho.

Um dos sete ficou ali com Adiyogi. Ele apenas se sentou, porque seu caminho espiritual era tal que ele se tornou totalmente imóvel, e sua presença foi sentida além dos Himalayas. Um outro foi para uma região ao sul dos Himalayas e começou o que é conhecido como shaivismo de Kashmiri.

(Nota: shaivismo e shaiva referem-se aos adoradores de Shiva, enquanto que vaishnavismo e vaishnava referem-se aos adoradores de Vishnu e seus avatares, Krishna e Rama)

Um outro dirigiu-se ao sul da península indiana, que foi Agastya Muni. Um dos sete Rishis, Agastya Muni foi muito efetivo no sentido de levar o processo espiritual para a vida prática, não como um ensinamento, filosofia ou prática, mas como a própria vida. Os benefícios do que ele fez os indianos ainda estão colhendo, porque ele produziu centenas de yogues de grande poder. Ele fez com que cada habitação humana na região do sul da Índia fosse alcançada.

Se você olhar cuidadosamente uma família indiana, o modo como sentam, como comem, como fazem muitas coisas, tudo que é feito de acordo com a tradição que é um remanescente da obra de Agastya.

Os Sete Rishis se tornaram a base das sete escolas básicas do yoga. Mesmo hoje essas sete escolas existem. Adiyogi criou a espinha dorsal do conhecimento, não na forma de livros ou ensinamentos, mas como um conhecimento baseado na energia. Se a pessoa sabe como acessá-lo, esse conhecimento está sempre ali.

Um remanescente deste conhecimento ainda pode ser visto em várias formas destorcidas no que se vê como religião ou ensinamento espiritual no planeta, quer seja do Ocidente ou do Oriente.


OS DOIS ASPECTOS DE SHIVA – Sadhguru



Quando dizemos “Shiva,” há dois aspectos fundamentais a que estamos nos referindo. A palavra “Shiva” significa literalmente “aquilo que não é.” Hoje, a ciência moderna nos prova que tudo vem do nada e volta para o nada. A base da existência e a qualidade fundamental do cosmo é o vasto nada.

As galáxias são apenas pequenos pontos – um borrifo. O resto é tudo um vasto espaço vazio, ao qual nos referimos como Shiva. Este é o útero do qual tudo nasce, e este é o esquecimento ao qual tudo é sugado de volta. Tudo vem de Shiva e tudo volta para Shiva.

Portanto Shiva é descrito como um não-ser, e não como um ser. Shiva não é descrito como luz, mas como escuridão (no mundo físico). A humanidade elogia a luz apenas por causa da natureza do aparato visual desta. Mas a única coisa que existe eternamente é a escuridão.

A luz é um acontecimento limitado no sentido de que qualquer fonte de luz, seja uma lâmpada ou o sol, um dia perderá sua capacidade de emitir luz. A luz não é eterna. Ela é sempre uma possibilidade limitada porque começa e termina. A escuridão é uma possibilidade muito maior que a luz, existe sempre. A escuridão é a única coisa que permeia tudo.

Mas se digo “escuridão divina,” as pessoas pensam que sou um adorador de demônios ou algo assim.

Em outro nível, quando dizemos “Shiva,” estamos nos referindo a certo yogue, o  Adiyogi ou o primeiro yogue, e também o Adi Guru, o primeiro Guru, que é a base do que conhecemos como a ciência do yoga hoje. Yoga é a ciência e a tecnologia para conhecer a natureza essencial de como a vida é criada e como ela pode ser levada a suas possibilidades últimas.

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“Shiva” refere-se a ambos os sentidos. Apenas o nada pode conter a totalidade. Algo nunca pode conter o todo. Um vaso não pode conter um oceano. Este planeta pode conter um oceano, mas não pode conter o sistema solar. O sistema solar pode conter estes poucos planetas e o sol, mas não pode conter o resto da galáxia.

Se você segue desse modo progressivamente, no final verá que apenas o nada pode conter o todo. Quando falamos sobre Shiva como “aquilo que não é,” e  Shiva como um yogue, de certa forma são coisas sinônimas, embora sejam dois diferentes aspectos.

Infelizmente, a maior parte das pessoas hoje conheceram Shiva apenas dos desenhos artísticos. Shiva é pintado de rosto bochechudo, de cor azul. Por que um yogue como Shiva ter um rosto bochechudo? Se você mostra-lo magro, tudo bem, mas bochechudo?

Na cultura do yoga, Shiva não é visto como um Deus. Ele foi um ser que andou por essa terra e viveu na região dos Himalayas. Como fonte das tradições yóguicas, sua contribuição na criação da consciência humana é grande demais para ser ignorada. Isto foi anterior às religiões.

Toda maneira possível de abordar e transformar o mecanismo humano foi explorado milhares de anos atrás. A sofisticação da coisa é inacreditável. De modo detalhado, ele deu um significado e uma possibilidade do que você pode fazer com cada ponto do mecanismo humano.

Não se pode mudar uma única coisa de seus ensinamentos mesmo hoje, porque ele disse tudo que poderia ser dito de modo tão inteligente e belo. Tudo que se pode fazer é passar a vida tentando decifrar seus ensinamentos.


Esta transmissão das ciências yóguicas aconteceu nas margens do Kantisarovar, um lago glacial distante poucas milhas de Kedarnath nos Himalayas. Na tradição yóguica, Shiva não é visto como um deus, mas como o Adiyogi, o primeiro yogue.  

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9.12.17

A AUTO-REALIZAÇÃO EM ANIMAIS – Sadhguru


Pergunta: Os animais podem ter auto-realização? Qual a diferença entre homem e animal nesse aspecto?

Sadhguru: O homem não é apenas um animal. Se ele perder a consciência, pode ser muito pior que um animal. Mas se ele se tornar consciente, pode ser mais belo que um deus. O que ele faz de si mesmo é sua escolha.

O homem, num estado animalizado, pode receber a iluminação? Tal homem não precisa de iluminação, mas sim de evolução, porque a iluminação é o pico do que o ser humano pode conseguir, é o ponto mais elevado da humanidade. Quando falo em humanidade, não pense em termos de amor, compaixão... É muito mais que isso. É o ponto mais alto a que um ser humano pode chegar.

Então, se existe uma natureza animal em alguém, a primeira coisa que deve buscar é evolução, antes de buscar iluminação.

Um ser humano pode iluminar um animal? Tem havido raros eventos deste tipo no mundo. Geralmente não é possível. Mas quando um animal possui determinada composição interior, às vezes a iluminação acontece. Como no caso de Ramana Maharshi, que deu iluminação a uma vaca e a um corvo.

Resultado de imagem para ramana maharshi  Ramana Maharshi

No pensamento indiano, uma cobra, um corvo e uma vaca estão próximos de um ser humano no processo evolucionário interno. Por isso não se deve matar uma vaca, um corvo ou uma cobra. Uma cobra está muito próxima de um ser humano no processo evolutivo.

Estes três animais, um pássaro, um réptil e um mamífero, são as três criaturas que têm emoções muito similares às emoções do ser humano. Neste país (Índia) as pessoas têm relações muito profundas com a vaca. Se você tem uma vaca em sua casa, se você está passando por uma grande dor, a vaca derrama lágrimas por você, por algo que você está passando.

Se você se aproxima de uma vaca, você está muito triste, e conversa com ela sobre seus problemas, a vaca derrama lágrimas. Porque em termos de energia, estes animais são muito parecidos com a maneira como o corpo humano vibra.

Se você vai para o campo e tenta tocar um animal, ele vai evita-lo. A cobra é um animal que, se você souber como pegá-la, ela virá a você. Houve uma época em que eu tinha de 20 a 25 cobras em meu quarto. Era necessário apenas não perturbá-las. O sistema delas vibra do mesmo modo que o sistema do corpo humano.

Essa é uma das razões por que a cobra é um símbolo da Kundalini, porque ela é muito similar a tuas próprias energias.

Na cultura do yoga, a cobra tem sido usada de muitas maneiras. Você não verá na Índia um único templo sem a figura de uma cobra, porque é um passo importante no processo evolutivo do ser humano.

A iluminação de um animal tem acontecido, mas é muito raro. O animal, de qualquer modo, deve possuir um certo fundo de experiência e conhecimento, do contrário não pode acontecer. Há apenas poucas exceções em que é possível iluminar um animal.

8.12.17

ONDE CONCENTRAR A MENTE – Swami Sivananda


Concentre-se gentilmente no lótus do coração (Anahata Chakra) ou no espaço entre as duas sobrancelhas (Ajna Chakra). Feche os olhos. A sede da mente é o Ajna Chakra. A mente pode ser facilmente controlada se você se concentrar em Ajna Chakra.

Devotos devem se concentrar no coração. Yogues e jñanis devem se concentrar em Ajna Chakra. Persevere num centro de concentração. Se você se concentrar no coração permaneça nele. Nunca mude.

Sente-se confortavelmente, com a espinha ereta, em seu quarto de meditação e pratique suavemente esse olhar fixo, com os olhos voltados para Ajna Chakra, de meio minuto a meia hora (de acordo com a capacidade de cada um). Não deve haver o menor abuso nesse exercício. Aos poucos aumente a duração do tempo.

Essa prática elimina a inquietação da mente e desenvolve a concentração. O Senhor Krishna ensina essa prática no Gita: “Excluídos os contatos externos e com o olhar fixo entre as sobrancelhas.” Algumas pessoas veem a luz durante a concentração nessa região.

Um devoto deve se concentrar no coração, a sede das emoções e sentimentos. Quem se concentrar no coração recebe grande Ananda (bem-aventurança). Quem quiser adquirir Ananda deve concentrar-se no coração.

Quanto mais sua mente se concentrar interiormente, maior será a força que você adquirirá. Maior concentração significa mais energia. A concentração abre as portas internas do amor ou do reino da eternidade. A concentração é a chave básica para abrir a câmara da consciência.

Concentre-se. Medite. Desenvolva os poderes da meditação e da concentração profundas. Muitos pontos obscuros se esclarecerão. Você receberá as respostas e as soluções do íntimo.

No início você terá que persuadir sua mente com agrados, da mesma maneira que se persuade uma criança. A mente é como uma criança ignorante. Dia a ela: “Ó mente, por que você persegue coisas falsas, sem valor e perecíveis? Você passará por inúmeros sofrimentos. Concentre-se no Atman, a divindade interior. Você obterá felicidade duradoura.”

Tão logo você se sente para a meditação cante OM de três a seis vezes. Isso desviará os pensamentos mundanos da mente e removerá a inquietude. Você tem de estar sempre alegre e tranquilo. Só assim obterá a concentração da mente. A prática de amizade com pessoas afins, compaixão com pessoas subalternas ou infelizes, complacência com pessoas virtuosas ou superiores e indiferença com pessoas pecadoras ou corrompidas resultará em serenidade mental e destruirá o rancor e a antipatia.

Se você achar difícil concentrar sua mente dentro de um quarto, saia e sente-se num espaço aberto, ou na margem de um rio, ou num recanto tranquilo de um jardim. Você terá boa concentração.

Você aperta o botão e a luz se acende num piscar de olhos. Da mesma forma, o yogue se concentra e aperta o botão do Ajna Chakra e a luz divina se esparrama imediatamente.
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Nota: para ajudar a concentração na prática da meditação, pode ser feito inicialmente um pranayama leve, como o pranayama alternado, sem retenção, durante um minuto.

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3.12.17

AS MULHERES E A CONTINÊNCIA SEXUAL - Swami Sivananda

Indulgência no ato sexual é exaustiva ao sistema feminino e esgota a vitalidade, como no homem. A tensão nervosa que isto impõe sobre o sistema é realmente muito grande.

As gônadas femininas, os ovários que correspondem aos testículos no homem, produzem, desenvolvem e amadurecem preciosa força vital igual ao sêmen. Isto é o óvulo. Embora a mulher na verdade não perca o óvulo saindo do corpo, como no caso do sêmen no homem, ainda assim, devido ao ato sexual, ele deixa o ovário e é tomado no processo de concepção do embrião. E é bem sabido que tensão e esgotamento a gravidez traz à mulher. Repetida perda desta força e o esgotamento que a gravidez traz destroem a saúde das senhoras, assim como sua força, beleza, graça, juventude e poder mental. Os olhos perdem o brilho que indica as forças internas.

A intensa excitação sensual do ato despedaça o sistema nervoso e causa debilidade também. Seu sistema sendo mais delicado e afinado, as mulheres são frequentemente mais afetadas que os homens.



As mulheres devem preservar sua preciosa força vital. O óvulo e os hormônios secretados pelos ovários são muito essenciais para o máximo bem-estar físico e mental das mulheres. Através da devoção, podem facilmente destruir a paixão, porque por natureza elas são devocionais.

Misturando-se livremente com os homens, a mulher perde sua dignidade, modéstia, graça feminina e a santidade de sua pessoa e caráter. Uma mulher que se mistura livremente com os homens não pode preservar sua castidade por muito tempo. O que há na vida de uma mulher se sua pureza se perder? Ela é apenas um cadáver vivente se não houver pureza, embora ela possa rolar na riqueza e se mover em altos círculos da sociedade. Suas roupas não devem ser muito apertadas ou reveladoras. Abandonem a maquiagem.

Dizem que conhecimento é poder. Mas eu afirmo que caráter é poder e que caráter é muito superior ao conhecimento.

Quando o estudante alcança a maturidade, certas mudanças acontecem no corpo físico. A voz muda. Novas emoções e sentimentos surgem. Naturalmente o jovem se torna curioso e consulta os garotos de rua. Assim fica mal aconselhado. Arruína sua saúde devido a hábitos vis. Um conhecimento claro da saúde sexual, higiene e Brahmacharya, de como controlar a paixão, deve ser dado a ele.

Conversas suaves com os garotos e garotas são muito necessárias quando entram na puberdade. As matérias relativas ao sexo não devem ser mantidas ocultas. O silêncio apenas excitará a curiosidade do adolescente. Por outro lado, se ele entender estas coisas claramente no devido tempo, seguramente não será desencaminhado por más companhias.

Tem havido mais sofrimento causado pela ignorância dessas matérias que por qualquer outra coisa. Os professores e pais devem observar a conduta dos jovens e imprimir claramente em sua mente a importância vital de brahmacharya. Panfletos sobre Brahmacharya devem ser livremente distribuídos a eles.

Os professores devem explicar aos adolescentes a importância de Brahmacharya e instruí-los nos vários métodos pelos quais eles podem preservar o sêmen, a força-da-alma que está escondida neles.

O CONVÍVIO COM VIVEKANANDA - H. Mitra

Certo dia perguntei a Swami Vivekananda, "Por que os Sannyasins desperdiçam seu tempo desse jeito? Por que dependem da caridade de outros? Por que não realizam algum trabalho útil para a sociedade?"
Swamiji disse, "Agora, olhe aqui. Você está ganhando seu dinheiro com tanta luta, do qual apenas uma pequena porção gasta consigo mesmo, e outra porção gasta com outros que você pensa que lhe pertencem. Mas eles não são gratos pelo que você faz por eles, nem ficam satisfeitos com o que conseguem. O que você guarda, nunca vai desfrutar. Quando morrer, outra pessoa vai gastá-lo, e talvez falará mal de você por não ter acumulado mais. Essa é sua condição. Por outro lado, eu nada faço. Quando sinto fome, faço gestos para que outros saibam que quero comida; e como qualquer coisa que conseguir. Nem luto para ganhar, nem guardo. Agora, diga-me quem de nós dois é mais sábio: você ou eu?"
Fiquei perplexo, pois até aquele momento ninguém ousara falar comigo de modo tão corajoso e franco.
A conversa continuou. Ele me contou de suas muitas aventuras durante suas viagens pela Índia, sem tocar em dinheiro. Percebi o quanto deve ter sido difícil sua jornada, e mesmo assim, ele relatava suas aventuras com um sorriso, como se fosse uma grande diversão!
Às vezes, ficava sem comer. Em alguns lugares, o mandavam embora dizendo "Sannyasins não têm lugar aqui." Algumas vezes era observado por espiões do governo. Muitos outros incidentes ele relatou alegremente, mas que fizeram meu sangue coagular.
Por alguma razão, eu não estava me dando bem com meus superiores no escritório em que trabalhava. Qualquer pequena observação vinda deles era o suficiente para me desequilibrar. Embora eu tivesse um bom emprego, não podia ser feliz nem mesmo por um dia.

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Quando contei a Swamiji sobre minha dificuldade, ele observou, "Por que você trabalha? Não é pelo salário? Você o tem regularmente todo mês, então por que ficar aborrecido? Você é livre para pedir demissão a qualquer momento que quiser e ninguém o impedirá disso. Então por que criar dificuldades pensando que é um escravo? Outra coisa: além de fazer seu trabalho, já fez algo para agradar seus superiores? Nunca fez, e ainda assim fica irado com eles porque não estão satisfeitos com você. Isso é sábio de sua parte? As idéias que você tem dos outros se expressam em sua conduta. E mesmo que não as expressemos em palavras, as pessoas reagem de acordo. Vemos no mundo exterior a mesma imagem que carregamos no coração: ninguém percebe como é verdadeiro o ditado que diz 'O mundo é bom quando eu sou bom'. A partir de hoje, tente se libertar do hábito de achar faltas nos outros, e verá que as atitudes e reações dos outros mudará também."
É desnecessário dizer que, a partir daquele dia, libertei-me do hábito de encontrar faltas nos outros, e um novo capítulo em minha vida se abriu.


Certa vez lhe perguntei, "Swamiji, a crença no mantra é verdadeira?" Ele replicou, "Não vejo razão para que não seja. Você fica satisfeito quando alguém se dirige a você com palavras doces e suaves, e fica irado quando alguém lhe diz palavras duras. Então por que as deidades que presidem diferentes partes da natureza não deveriam ficar satisfeitas com uma doce invocação?"

O OBJETIVO DA VIDA – Swami Sivananda


Não há limite para o poder da mente humana. Quanto mais concentrada a mente estiver, tanto maior o poder a ser colocado em qualquer assunto. Você nasceu para recolher as radiações da mente dispersas pelas coisas materiais, concentrando-a em Deus. Esse é seu dever mais importante. Você se esquece desse dever por causa do apego à família, filhos, dinheiro, poder, posição, renome e fama.

A concentração é contrária aos desejos sensuais, é contrária à agitação e à preocupação. Enquanto os pensamentos de alguém não forem eliminados completamente através da prática persistente, não poderá concentrar sua mente numa verdade por vez. Para a remoção da divagação da mente deve ser exercitada a prática da concentração num tema único.

Coloque uma imagem de seu mestre preferido em sua frente. Sente-se na posição meditativa preferida. Concentre-se gentilmente na imagem com os olhos abertos, até as lágrimas rolarem por seu rosto. Pense em sua aura espiritual, pense em seus atributos divinos tais como o amor, a magnanimidade e a misericórdia.

Concentre a mente no Atman interno. Traga-a sempre de volta quando ela fugir e torne a concentrá-la. Não permita que a mente crie centenas de formas-pensamentos. Não permita que a mente gaste em vão suas energias nos pensamentos infrutíferos, nas vãs preocupações, na imaginação sem valor, no temor e nos presságios infundados.

Faça com que a mente se mantenha concentrada por meia hora numa forma-pensamento, através da prática constante.

Não lute com a mente durante a meditação. Isso é um erro grave. Muitos neófitos o cometem. Essa é a razão pela qual logo se cansam e ficam com dor de cabeça. Sente-se confortavelmente com a espinha ereta, descontraia os músculos, os nervos e o cérebro. Acalme o pensamento objetivo. Feche os olhos. Comece a meditação às 4 da manhã. Não lute com a mente. Mantenha-a tranquila e calma.

Os prazeres mundanos intensificam o desejo de gozar de maiores prazeres. Em consequência, a mente das pessoas mundanas é muito irrequieta. Não há satisfação nem paz mental. A mente nunca se satisfaz, seja qual for o acúmulo de prazer que se possa proporcionar a ela. Assim as pessoas ficam extremamente atormentadas e importunadas por seus próprios pensamentos. Elas estão cansadas de seus pensamentos.

Por causa disso, os rishis acharam que era melhor privar a mente dos prazeres sensuais a fim de remover essas perturbações. Quando a mente se concentra, a pessoa começa a desfrutar da verdadeira paz.

7 dicas para você começar a meditar ainda hoje

Os poderes da mente são como os raios dispersos da luz. Seus raios são desviados para diversas coisas. Você terá que reuni-los, pacientemente, através da renúncia aos desejos e das práticas espirituais. A iluminação começa quando os raios mentais estão concentrados.
Remova o rajas (atividade) e o tamas (inércia) que envolvem o sattva (harmonia) da mente através de pranayama, mantra, vichara ou devoção. Então a mente se torna apta para a concentração. Saiba que você está progredindo no yoga e que o sattva está aumentando quando você estiver sempre animado, quando sua mente for constante e concentrada.

Se você acha difícil concentrar-se no coração ou no terceiro olho (com Shambhavi mudra), você pode se concentrar em qualquer objeto exterior. Pode se concentrar no céu azul, na luz do Sol, no ar que tudo envolve, ou no Sol, na Lua ou nas estrelas.

SHAMBHAVI MUDRA - Meditation with Half-Open Eyes
  Shambhavi mudra deve ser praticado com os olhos fechados

Se tiver dor de cabeça ao concentrar em ajna chakra (terceiro olho) por volver os olhos para cima, concentre-se no coração.

Muitos aspirantes abandonam a prática da concentração por acharem-na difícil. Mas cometem um grave erro. Ao iniciar a prática, é difícil e incômodo. As emoções e os pensamentos são abundantes. Ao praticar durante três anos, a mente será fria, pura e forte. Você obterá uma grande alegria. A soma total dos prazeres do mundo não representará nada comparada à felicidade proveniente da meditação.

De maneira nenhuma desista da prática. Trabalhe, persevere. Tenha paciência e alegria. Ao final terá êxito, nunca se desespere. Não se preocupe se mesmo durante a prática de meditação sua mente divagar. Permita que ela flua. Vagarosamente, traga-a de volta para seu centro de concentração. Pela prática constante, a mente finalmente ficará firme no Atman, o Morador de seu coração, a meta final da vida.
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Nota: Shambhavi mudra é uma técnica de concentração mental muito efetiva, que foi utilizada e recomendada por Swami Sivananda. Aos iniciantes recomenda-se fazer a prática suavemente, sem forçar demais os olhos em direção ao terceiro olho. Enquanto se pratica Shambhavi mudra, pode-se repetir um mantra ou uma frase qualquer que tenha fundo espiritual.

COMO APRENDI O ESSENCIAL DA VIDA - Emil Nykvist


Todo mundo no bloco de apartamentos em que eu morava sabia quem era o “Feio”. Feio era o gato sem dono que vivia por ali. Feio amava três coisas neste mundo: brigar, comer as sobras das latas de lixo e, vamos dizer, namorar.

A combinação destas coisas com uma vida vivida em liberdade teve um efeito em Feio. Para começar, ele tinha apenas um olho e no lugar do outro olho havia um buraco. Também não tinha uma orelha, sua pata esquerda parecia ter sido quebrada no passado, o que o deixou com um andar desajeitado.

O rabo ele o tinha perdido há muito tempo, deixando apenas um pequeno pedaço, que ele constantemente mexia. Feio era cinza escuro, malhado e listrado, exceto nas cicatrizes de feridas que cobriam sua cabeça e pescoço.

Toda vez que alguém encontrava o Feio, a reação era a mesma: “Aquele é o gato Feio!” Todas as crianças eram avisadas para não tocá-lo, os adultos jogavam pedras e água quando ele se aproximava de suas casas, ou o espantavam para longe quando ele não se afastava.

Feio sempre tinha a mesma reação. Se você lhe jogasse água com a mangueira, ele ficava ali, se encharcando até que você parasse e o deixasse em paz. Se você jogasse pedras, ele enrolava o corpo como que perdoando.

Quando ele via crianças, vinha correndo e miando, e esfregava a cabeça em suas mãos, suplicando amor e querendo ser acariciado. Se você o pegasse, começava a lamber seu rosto e ronronar.




Um dia Feio resolveu partilhar seu amor com dois cães da vizinhança. Mas eles não o trataram com gentileza e Feio ficou muito machucado. De meu apartamento podia ouvir seus gritos e gemidos, e então corri para socorrê-lo. Quando cheguei lá, ele estava deitado no chão, e ficou evidente que a triste vida de Feio estava chegando ao fim.

Suas costelas tinham marcas de mordidas. Quando o peguei e tentei leva-lo para casa, podia ouvir seu chiado e respiração ofegante, e podia senti-lo lutando pela vida. Devia estar terrivelmente ferido.

Então senti uma leve lambida em minha orelha: Feio, mesmo sofrendo terrivelmente e à beira da morte, estava tentando me agradar, lambendo meu rosto e ronronando. Puxei-o mais para perto de mim e ele esfregou a cabeça na palma de minha mão.

Mesmo na maior dor, aquele gato feio e marcado pelas batalhas da sobrevivência estava pedindo apenas um pouco de afeto, talvez alguma compaixão. Naquele momento pensei que Feio era a criatura mais bela e amável que já tinha visto. Em nenhum momento ele tentou me morder ou unhar, nem mesmo fugir de mim. Feio apenas me olhava com perfeita confiança para que lhe aliviasse a dor.

Feio morreu em meus braços antes que eu pudesse entrar em casa, mas sentei-me ali e fiquei segurando-o por um longo tempo, pensando como um gato cheio de cicatrizes e deformado podia mudar minha visão sobre o que significa ter pureza de espírito para amar total e verdadeiramente.

Feio me ensinou mais sobre doar-me e ser compassivo que mil livros e palestras poderiam fazê-lo, e por causa disso serei sempre grato. Ele tinha cicatrizes por fora, mas eu as tinha por dentro, e para mim era hora de mudar e aprender a amar verdadeira e profundamente. Dar tudo de mim para aqueles por quem eu era responsável.

Muitas pessoas querem ser mais ricas, ter mais sucesso, ser mais apreciadas e belas, mas para mim sempre vou tentar ser como o gato Feio.